Análise da inserção de metodologias ativas de ensino-aprendizagem nos anos iniciais do Ensino Fundamental

Cleide Martins

Pós-graduanda em Docência (IFMG - Câmpus Arcos), graduada em Pedagogia (UCB), professora de Educação Infantil na Prefeitura Municipal de Itaúna/MG

Tainá Micaele Parreiras Fernandes

Pós-graduanda em Docência (IFMG - Câmpus Arcos) e em Neuroaprendizagem (Unicesumar), graduada em Pedagogia (UIT), professora de Educação Infantil na Prefeitura Municipal de Itaúna/MG

Joice Laís Pereira

Mestre em Engenharia de Energia pela Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI). Professora Assistente na PUC Minas. Tainá Micaele Parreiras Fernandes Pós-graduanda em Docência (IFMG - Câmpus Arcos) e em Neuroaprendizagem (Unicesumar), graduada em Pedagogia (UIT), professora de Educação Infantil na Prefeitura Municipal de Itaúna Joice Laís Pereira Mestre em Engenharia de Energia (Unifei), professora Assistente na PUC-Minas

Um dos aspectos mais importantes do processo de aprendizagem, em debate no front acadêmico na atualidade, refere-se à obsolescência do modelo tradicional de ensino frente à realidade atual (Esteves et al., 2018).

A educação tradicional vem perdendo cada vez mais espaço, visto que seus processos ainda são mecânicos, engessados, centralizados no professor e com mínima ou nenhuma conexão com o ambiente externo à sala de aula.

Neste modelo de ensino-aprendizagem, os estudantes são avaliados de forma uniforme, sem ter suas aptidões levadas em consideração e produzindo resultados previsíveis e padronizados, e estudantes apáticos, desestimulados e, muitas vezes, com problemas de aprendizagem. Afinal, como bem colocou Albert Einstein, “se você julgar um peixe por sua capacidade de subir em uma árvore, ele vai viver toda a vida acreditando que é estúpido”.

O papel das instituições de ensino não é mais o mesmo do século XIX. Hoje, a sociedade experiencia uma verdadeira revolução com a popularização da internet e dos smartphones. Milhares de informações estão disponíveis a apenas um clique de distância. Nesse novo cenário, o desafio reside, então, na busca de alternativas para se libertar da padronização e tornar o ensino mais individualizado sem perder a excelência.

Por isso, faz-se cada vez mais necessário o uso de técnicas e métodos interativos, envolventes e dinâmicos em sala de aula, que ultrapassem a mera transmissão e memorização do conhecimento e que possam tirar o aprendiz da condição de mero espectador para protagonista de sua própria aprendizagem.

Neste contexto, tem-se discutido e buscado novas metodologias de aprendizado que têm gerado impactos positivos, tanto para os alunos quanto para os professores. Uma destas novas abordagens que tem ganhado notoriedade no meio acadêmico são as metodologias ativas de ensino-aprendizagem. Segundo Sá (2019), metodologias ativas são processos de aprendizagem em que os alunos participam ativamente da construção do conhecimento. As metodologias ativas propõem uma mudança paradigmática em que o aluno passa, então, a ser o protagonista e transformador do processo de ensino, enquanto o educador assume o papel de orientador, abrindo espaço para a interação e participação ativa dos estudantes (Viegas, 2019).

O professor é fundamental neste processo. Ele é responsável por conduzir os estudantes nas salas de aula, atuando como facilitador, estimulando a interação entre os mesmos, instigando-os na aprendizagem e dando suporte nas suas dificuldades, motivando-o a pesquisar, refletir e tomar decisões sobre o que fazer para atingir seus objetivos (Berbel, 2011).

Se desde o seu primeiro contato com o ambiente escolar, o estudante for estimulado a desenvolver uma postura ativa, o seu processo de aprendizagem será muito mais estimulante, prazeroso e eficiente ao longo de toda a sua formação acadêmica. Quando crianças, eles são como esponjas e estão recebendo e absorvendo várias informações externas (Montessori, 2003). Nessa fase, a criatividade e curiosidade são traços fortes em suas personalidades, e o modelo de ensino tradicional acaba não conseguindo atender às suas expectativas. E para muitas crianças, a escola acaba se tornando um lugar chato e pouco estimulante, e essa sensação os acompanhará nas etapas seguintes como adolescentes, jovens e até mesmo adultos. A escola vira uma obrigação. Essa situação reflete, também, na postura do professor, que, também, fica desestimulado para dar aulas porque não sabe como ou o que fazer para despertar o interesse nos seus estudantes.

Assim, a utilização dessas metodologias durante todo o processo de formação do estudante, desde o seu primeiro ano na escola, pode trazer-lhe grandes benefícios. Elas colaboram para a formação de um novo estudante, que é mais participativo, que tem autonomia no seu processo de ensino e é colaborador em todos os sentidos (Machado et al., 2017).

No entanto, as metodologias ativas vêm sendo adotadas principalmente no ensino superior, não sendo práticas comuns na educação básica. Desta maneira, essa pesquisa buscou avaliar a inserção de tais metodologias em escolas públicas e particulares no ensino básico com o intuito de identificar se as mesmas são difundidas nesses ambientes, se há discrepância dos resultados entre os dois ambientes e, caso não sejam difundidas, tentar identificar o porquê de isso ocorrer.

As metodologias ativas de ensino

A utilização de metodologias ativas no processo de ensino-aprendizagem  pressupõe uma prática pedagógica mais dinâmica, participativa, colaborativa, divertida, instigante e autônoma para o estudante, possibilitando-o uma aprendizagem significativa para a vida além da sala de aula.

As metodologias ativas surgiram na década de 1980 como alternativa à aprendizagem passiva, onde as aulas se resumiam a apresentação oral dos conteúdos, por parte do professor, e essa era sua única estratégia didática (Mota; Werner, 2018). Contudo, 40 anos depois do seu surgimento, ainda não são lugar comum no ambiente acadêmico.

Elas se baseiam em antigos conceitos como o aprender através da vivência, seguindo a lógica de que o conhecimento é construído através da transformação da experiência (Dewey, 1938). Sendo um dos objetivos da sua utilização no processo de ensino-aprendizagem incentivar os estudantes a aprenderem de forma autônoma e participativa, a partir de situações reais.

Tais metodologias atraem a atenção de professores preocupados em despertar e manter o interesse e a criatividade de seus alunos. Esses professores buscam alternativas complementares interativas e motivadoras aos métodos de ensino tradicionais. Enquanto isso, para os profissionais de educação mais céticos, essas metodologias são uma novidade passageira de poucos entusiastas da educação, em vez de uma verdadeira revolução nas estratégias de ensino (Konopka et al., 2015). O sucesso na utilização de uma metodologia de aprendizagem ativa não depende apenas da metodologia em si; ele depende também da relação dialética em constante evolução entre a metodologia e os alunos, mediada pelo educador (Kane, 2007).

Existem diferentes tipos de metodologias ativas (Figura 1), das quais o educador pode fazer uso para atender à realidade da sua turma, adequando-as aos contextos da disciplina por ele lecionada. Essas múltiplas técnicas podem, inclusive, ser utilizadas de maneira conjunta.

APRENDIZAGEM ENTRE PARES E TIMES

Objetivos:

*Promover ajuda mútua;

*Formação do pensamento crítico.

Características:

*Formação de equipes

*Compartilhamento de ideias

*Discussões embasadas

*Consideração de opiniões diferentes.

Principais autores:

Mazur (2015)

SALA DE AULA INVERTIDA

Objetivos:

*Desenvolver o interesse do aluno pelo conteúdo a ser aprendido;

*Desenvolver a autonomia sobre o próprio aprendizado;

*Tornar os alunos protagonistas de seu aprendizado.

Características:

*Acesso prévio aos conteúdos

*Tempo da aula dedicado a sanar dúvidas e o desenvolvimento de projetos

Principais autores:

Bergmann e Sams (2016)

METODOLOGIA IMERSIVA

Objetivos:

*Despertar o interesse do grupo;

*Aprimorar a resolução de situações-problema;

*Aplicar o conhecimento aprendido.

Características:

*Viver a experiência proposta

*Experienciar uma situação real

*Se possível, uso de tecnologias como realidade virtual, simuladores e outros softwares.

Principais autores:

Pessoa (2013)

Tori (2019)

ENSINO HÍBRIDO

Objetivos:

*Desenvolver a capacidade de coordenar as tarefas;

*Ensinar a pesquisar, filtrar as informações que são relevantes e verificar a confiabilidade das mesmas;

*Desenvolver a autonomia sobre o próprio aprendizado.

Características:

*Combinação de ensino online com ensino presencial

*Controle parcial do estudante sobre o tempo, lugar, modo e/ou ritmo do estudo.

Principais autores:

Bacich, Neto, Trevisani (2015)

APRENDIZAGEM BASEADA EM PROJETOS

Objetivos:

*Desenvolver a autonomia sobre o próprio aprendizado;

*Estimular o trabalho em equipe;

*Desenvolver a liderança;

*Desenvolver a capacidade de solucionar problemas.

Características:

*Sugestão de projeto concreto com a ajuda dos alunos

*Execução de tarefas e desafios

*Encontrar soluções para problemas reais não tão fáceis de resolver.

Principais autores:

Bender (2015)

Camargo (2018)

METODOLOGIA HANDS ON

Objetivos:

*Aprimorar a capacidade de planejar;

*Desenvolver a criatividade;

*Aprimorar a resolução de situações-problema;

*Formação do pensamento crítico;

*Desenvolver a autonomia sobre o próprio aprendizado;

*Despertar o senso empreendedor.

Características:

*Criação de produto, protótipo ou artefato

*Solução de algo palpável e possível de *ser aplicado no cotidiano.

*Utilização de laboratórios ou oficinas

Principais autores:

Cavalcanti (2018)

Filatro (2018)

ESTUDO DE CASO

Objetivos:

*Oportunizar os alunos a explorarem seus conhecimentos em situações relevantes;

*Despertar habilidades relativas à resolução de problemas;

*Impulsionar a tomada de decisão;

*Aprimorar a capacidade de argumentação;

*Estimular o trabalho em equipe.

Características:

*Aprendizagem baseada em situações de contexto real

*Participação ativa dos alunos na resolução das questões apresentadas

*Colaboração de todos os estudantes

Principais autores:

Camargo (2018)

APRENDIZAGEM BASEADA EM PROBLEMAS

Objetivos:

*Construir conhecimento através de soluções colaborativas de desafios propostos pelo professor;

*Desenvolver um perfil investigativo;

*Formação do pensamento crítico.

Características:

*Sugestão de problemas ou desafio dentro de um contexto específico

*Exploração de todas as soluções possíveis

*O professor atua apenas como mediador, provocando os alunos, que devem encontrar a resposta sozinhos

*Utilização de todos os recursos disponíveis, inclusive tecnológicos.

Principais autores:

Borochovicius e Tortella (2014)

Ribeiro (2008)

GAMIFICAÇÃO

Objetivos:

*Trazer a experiência dos jogos para o ensino;

*Estimulação a pensar de diferentes formas;

*Despertar o interesse do grupo;

*Ampliar a participação dos alunos nas atividades;

*Desenvolver a criatividade e autonomia dos jovens;

*Promover o diálogo em sala de aula;

*Estimular o trabalho em equipe;

*Aprimorar a resolução de situações-problema.

Características:

*Uso de jogos prontos ou inventados

*Competição saudável

*Objetivos propostos pelo professor

*Missões ou desafios

Principais autores:

Busarello (2016)

Fadel et. al (2014)

Figura 1: Tipos de metodologias ativas de ensino-aprendizagem apresentadas aos professores durante a pesquisa

Metodologia            

Este trabalho consistiu em uma pesquisa de campo com uma abordagem de investigação qualitativa-descritiva realizada com 36 professores de escolas públicas e particulares que lecionam nos anos iniciais do ensino fundamental — 1° a 5° ano, de escolas públicas e privadas.

Os dados da pesquisa foram coletados através de questionários com 14 perguntas que versavam sobre o perfil dos docentes participantes do estudo e sobre as metodologias e estratégias de ensino utilizadas por eles em sala de aula.

Dos docentes que responderam ao questionário, verificou-se o tempo de docência. Destes, 36% lecionam entre 1 e 5 anos, 19% já atuam entre 6 e 10 anos, 25% entre 11 e 20 anos e 20% já atuam há mais de 20 anos.

Resultados

Inicialmente, buscou-se identificar quantos destes professores sabem o que são as metodologias ativas. A Figura 2 demonstra que na escola pública a relação de professores que afirmaram conhecer tais metodologias é de 70% para 30% dos que afirmaram não conhecer. Já na escola privada, essa relação é de 80% para 20%.

(a) 

(b)

Figura 2: Percentual dos professores que conhecem as metodologias ativas: (a) escola pública; (b) escola privada

Percebe-se que há professores, tanto na escola pública quanto na privada, que afirmam desconhecer o que são as metodologias ativas de aprendizagem. Investigou-se, a seguir, se esses professores utilizam tais metodologias em suas aulas. Destes, 70% dos docentes da escola pública afirmaram utilizar alguma Metodologia Ativa e, dentre os das escolas privadas, esse número chegou a 92%.

Os demais professores, que responderam não utilizar tais metodologias em suas aulas, foram questionados sobre o porquê dessa decisão. A Figura 3 mostra que 17% dos professores não utilizam por não as conhecer; 17% por ser trabalhoso; 16% afirmaram não utilizar por não ver resultados com sua aplicação; 34% disseram não saber como aplicá-las e 16% responderam ser outro o motivo.

Figura 3: Motivos da não utilização das metodologias ativas

Uma das justificativas apontadas pelos professores que marcaram a opção “Outro” foi que o grande número de alunos dentro da sala de aula, o que inviabiliza o processo. Essa é uma questão comumente retratada por vários professores, principalmente de escolas públicas onde, normalmente, não há um número máximo de alunos estipulado por sala de aula. Já as escolas particulares, em sua maioria, limitam a quantidade de alunos por sala, o que permite uma maior atenção e dedicação do professor. É importante salientar que excesso de alunos em sala não gera qualidade, pelo contrário, gera um aprendizado ineficiente (Ozório, 2003).

Em seguida, partiu-se para a análise dos docentes que conhecem as metodologias e as utilizam. Buscou-se, então, identificar quais metodologias entre i) Sala de aula invertida, ii) Ensino híbrido, iii) Aprendizagem baseada em projetos, iv) Aprendizagem baseada em problemas, v) studo de caso, vi) Aprendizagem entre pares ou times, vii) Gamificação, viii) Metodologia Hands On e ix) Metodologia Imersiva eram conhecidas por eles. Neste item, o professor tinha a opção de assinalar todas as metodologias por ele conhecidas. A Figura 4 mostra que a metodologia da Aprendizagem baseada em projetos apareceu em 72% das respostas, a Aprendizagem baseada em problemas e a Aprendizagem entre pares ou times obtiveram um índice de 52% sendo as três opções mais conhecidas entre os professores. As metodologias Imersiva, Hands on e Ensino híbrido, por sua vez, foram mencionadas em menos de 20% das respostas. Esse fato pode ser explicado pelo nome das metodologias. As metodologias mais conhecidas possuem nomes intuitivos e autoexplicativos. As ditas menos conhecidas, por sua vez, apresentam nomes que não são tão sugestivos e, no caso da Metodologia Hands on, um nome em outro idioma.

Figura 4: Percentual sobre o conhecimento das Mmtodologias ativas

Estes resultados demonstram, também, que a maioria dos professores, tanto das escolas públicas quanto privadas, conhecem apenas um ou dois tipos de metodologia.

Buscou-se saber então, quais dessas metodologias citadas anteriormente, os docentes já colocaram em prática em suas aulas. Neste item, o professor tinha a opção de assinalar todas as metodologias por ele utilizadas. A Figura 5(a) demonstra que nas escolas públicas as metodologias ativas mais utilizadas são: Aprendizagem Baseada em Projetos com um total de 61%, Aprendizagem Baseada em Problemas com 47% e Estudo de Caso com 23% das respostas obtidas. Nenhum professor da escola pública afirmou utilizar as metodologias de Ensino Híbrido e Imersiva. Já a Figura 5(b) mostra que nas escolas privadas as metodologias ativas mais utilizadas são Aprendizagem entre pares ou times com 66%, Aprendizagem Baseada em Problemas com 60% e a Aprendizagem Baseada em Projetos também com 60% das respostas. Nota-se que nas escolas privadas todas as metodologias são utilizadas.

(a)

(b)

Figura 5: Percentual das metodologias ativas utilizadas em sala de aula: (a) escola pública; (b) escola privada

Observa-se, então, que nas escolas privadas há uma maior diversidade de metodologias que são utilizadas por seus professores, enquanto na escola pública há maior preferência por algumas metodologias que já são mais difundidas. De acordo com Vieira Junior (2018), os professores acabam ensinando como aprenderam, ou ensinam conforme seus estilos de aprendizagem, aliando a isso sua experiência e a sua maturação profissional. Como algumas práticas são relativamente novas no âmbito escolar, os docentes desconhecem sua aplicação e os benefícios que estas trazem para os estudantes.

Buscou-se então, compreender as razões destas metodologias serem as mais utilizadas. Dentre os docentes que escolheram a Aprendizagem Baseada em Problemas e a Aprendizagem Baseada em Projetos, eles afirmam que essas metodologias fazem com que os alunos busquem pelo conhecimento, promovem maior colaboração e participação, desenvolvem o perfil investigativo, admitem a utilização de recursos variados, permitem a interdisciplinaridade e conseguem uma melhor execução devido à quantidade de alunos em sala de aula. Já os professores que optaram pela Aprendizagem entre Pares e Times, as justificativas foram a melhora do trabalho em equipe e uma aprendizagem mais significativa devido à interação entre os alunos.

Procurou-se identificar também se os professores que utilizam estas metodologias percebem resultados positivos nos estudantes. Destes professores 93% notam resultados positivos e apenas 7% afirmaram não perceberem efeitos positivos advindos da utilização das mesmas. Em seguida, os professores que notaram benefícios puderam sinalizar quais as habilidades desenvolvidas e/ou aperfeiçoadas em seus alunos foram perceptíveis durante a utilização das metodologias ativas em suas aulas. Neste item, o professor tinha a opção de assinalar todos os resultados observados por ele. A Figura 6 mostra que o aumento do interesse, a participação dos estudantes na aula e o exercício da criatividade foram os benefícios mais percebidos pelos professores sendo mencionados em 63% das respostas, 55% das respostas sinalizaram a ocorrência de um aprendizado mais significativo, 52% das respostas sinalizaram a observância de um melhor desempenho nos trabalhos em equipe e maior colaboração nas tarefas, 50% das respostas indicaram o desenvolvimento de senso de responsabilidade e o desenvolvimento da autonomia dos estudantes na condução dos estudos, 47% das respostas indicaram o desenvolvimento de senso crítico, 44% das respostas indicaram a melhoria na solução de problemas, 38% das respostas sinalizaram um melhor desempenho nas atividades avaliativas, 36% das respostas indicaram que houve reações positivas à contrariedade, empatia e 33% das respostas indicaram que  foi observado  o desenvolvimento de liderança nos estudantes.

Figura 6: Percentual dos resultados positivos observados durante a aplicação das metodologias ativas

É perceptível através desses resultados o que as metodologias ativas podem alcançar excelentes resultados se bem aplicadas pelos professores. Os defensores das metodologias ativas alegam uma série de benefícios para o desenvolvimento de cada aluno como pessoa, profissional e cidadão. Garofalo (2018) afirma que o principal benefício reside na transformação na forma de conceber o aprendizado, pois, ao utilizar estas metodologias, o professor permite que o aluno possa pensar de maneira diferente e aprender conectando ideias e informações.

A fim de conhecer quais habilidades os professores esperam desenvolver em seus alunos a partir de suas aulas, questionou-se a partir de conceitos pré-definidos, ao final do ano escolar. Nesta questão, os professores participantes tiveram a opção de escolher mais de uma resposta. Os dados obtidos foram os seguintes: autonomia, essa habilidade aparece em 69% das respostas obtidas. Desenvolvimento cognitivo obteve 63%, senso crítico, 61%, e participação também teve 61% das respostas obtidas. Responsabilidade aparece com 58% das marcações. As habilidades de concentração, criatividade e solução de problemas apareceram com 55% das respostas cada uma. Gosto por aprender atingiu 52% no total das respostas. A confiança apresentou 50% das respostas. A habilidade de colaboração aparece com 50%, assim como o desenvolvimento socioemocional. 47% das respostas obtidas optaram pelo desenvolvimento do perfil investigativo. Empatia obteve 41% das respostas, e a proatividade, 38%. A habilidade de senso empreendedor aparece apenas com 19% dos resultados.

A partir dos dados relatados acima, percebe-se que a maior parte dos professores entende a importância de todas essas habilidades serem desenvolvidas pelos seus alunos ao longo da vida escolar. Eles, claramente, almejam que as crianças que passarem por suas aulas se desenvolvam, não somente em relação ao conteúdo apresentado, mas que desenvolvam e aprimorem também habilidades que lhes serão importantes pelo resto de suas vidas.

Considerando isso, investigou-se o que estes professores fazem para que seus estudantes se mantenham motivados e quais estratégias utilizam para melhorar a aprendizagem deles. Neste item, o professor tinha a opção de citar todas as estratégias por ele utilizadas. A Figura 7 apresenta as estratégias mais citadas pelos docentes participantes, e observa-se que o uso de Atividades Lúdicas é a estratégia com maior porcentagem com 19% das respostas, seguida pelo uso de jogos com e do reforço positivo ambos com 16% do percentual de respostas. A música como estratégia para melhoria do aprendizado e “ouvir o aluno” foram citadas em 13% das respostas. Mudar o ambiente físico da sala, como fazer formatos diferentes com as carteiras dos alunos, trazer objetos novos, entre outros, foi mencionado em 11% das respostas, assim como o uso de materiais concretos durante as aulas que obteve o mesmo percentual de respostas, e por último, com apenas 8%, o uso da tecnologia em sala de aula.

Figura 7: Percentual das estratégias mais utilizadas para melhoria da aprendizagem pelos professores participantes

A partir disso, podemos ver que os professores ainda não veem as metodologias ativas como parte de suas aulas, uma vez que, quando perguntados, as mesmas nem citadas foram. Grande parte das técnicas utilizadas por eles são apenas recursos didáticos que sempre foram utilizados para tornar as aulas mais atrativas, e não especificamente estratégias ou metodologias.

Investigou-se, também, se as escolas em que esses docentes atuam os incentivam a buscar outras metodologias para serem trabalhadas em sala de aula. A Figura 8 mostra que na escola pública o incentivo aos professores para buscarem novas metodologias é de 95% para 5% que afirmaram não se sentirem incentivados. Já na escola privada, essa relação é de 87% para 13%.

(a)

(b)

Figura 8: Percentual dos professores que recebem incentivos para buscar novas metodologias: (a) escola pública; (b) escola privada

As respostas obtidas neste item contrastam com as respostas obtidas no item que procurou investigar quantos docentes utilizam alguma metodologia ativa. Neste item, 70% dos professores da escola pública utilizam as metodologias ativas, enquanto 92% dos professores da escola particular afirmaram utilizar tal metodologia. No entanto, os professores da escola pública se sentem mais incentivados a utilizarem novas metodologias.

É perceptível, com os resultados apresentados na Figura 8, que as escolas têm, de alguma maneira, incentivado seus professores a buscarem novas metodologias para o ensino, e isso gera outra questão a ser investigada. Tais escolas já ofereceram aos seus professores capacitação sobre as metodologias ativas de ensino-aprendizagem?

Na escola pública, 28% dos professores afirmaram já terem participado de alguma capacitação sobre tais metodologias, enquanto 72% disseram não terem recebido nenhuma capacitação deste tipo. Na escola privada, apenas 13% dos docentes declararam a participação em alguma capacitação, enquanto 87% afirmaram não terem recebido qualquer tipo de capacitação sobre as metodologias ativas.

Embora as escolas incentivem, percebe-se que poucos dos professores participaram de capacitações, ou ainda que as escolas não oferecem tais capacitações, tendo que o próprio professor precisa buscá-las em outros espaços na maioria das vezes com recursos próprios.

Por último, perguntou-se aos professores se eles gostariam então de conhecer mais sobre as metodologias apresentadas, e todos os professores entrevistados, tanto das escolas públicas como das privadas, afirmaram que gostariam de aprender mais sobre tais metodologias, como aplicá-las e sobre os seus benefícios.

Conclusão

A partir desta pesquisa, pôde-se constatar a inserção, mesmo que ainda de maneira tímida, das metodologias ativas de ensino-aprendizagem nos anos iniciais, nas escolas públicas e particulares.

No entanto, estes resultados analisados em conjuntos demonstraram que há uma insuficiência de treinamentos e capacitações específicas a este respeito nas escolas, e esse fato, pode ser comprovado pela predominância da utilização de algumas metodologias mais conhecidas e intuitivas como a Metodologia baseada em projetos e Metodologia baseada em problemas. Não se pode utilizar aquilo que não se conhece. Assim, os professores ficam, por muitas vezes, presos às práticas mais tradicionais, reaplicando o modo de ensino que vivenciaram e conhecem. E que, apesar disso, os professores buscam recursos externos para trazerem essas metodologias para as suas aulas. E todos eles, mesmo com diferentes tempos de docência, demonstraram interesse na aprendizagem e utilização das metodologias ativas de ensino-aprendizagem.

É necessário destacar que a utilização destas metodologias precisa passar por uma mudança de paradigmas dos professores, de aprender a desaprender. Sendo assim, para que se ocorra uma mudança efetiva no ensino, é imprescindível que o professor receba treinamentos e formação adequada neste sentido, visto que os mesmos também receberam uma formação tradicional e possuem anos de experiência nesse sistema tradicional, que de certa maneira, funcionou satisfatoriamente por algum tempo.

Deve-se, então, criar um ambiente propício que possibilite profícuas reflexões acerca das diferenças do ambiente externo em que estão inseridos esses estudantes que são constantemente estimuladas por informações e novas tecnologias. E, nesse contexto, trabalhar em prol da construção de um ambiente acadêmico que estimule essas crianças e adolescentes e os prepare para um mundo cada vez mais dinâmico e mutável.

Reconhecem-se, aqui, os limites da pesquisa quanto à própria amostragem. Indica-se a necessidade de novas investigações sobre o assunto, sobre a divulgação de tais metodologias ativas nos cursos de formação de professores, ou ainda sobre a percepção dos alunos quanto à vivência dessas metodologias em sala de aula, a fim de entender o que ainda dificulta a inserção por completo das metodologias ativas de ensino-aprendizagem.

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Publicado em 01 de dezembro de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

MARTINS, Cleide; FERNANDES, Tainá Micaele Parreiras; PEREIRA, Joice Laís. Análise da inserção de metodologias ativas de ensino-aprendizagem nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Educação Pública, v. 20, nº 46, 1 de dezembro de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/46/analise-da-insercao-de-metodologias-ativas-de-ensino-aprendizagem-nos-anos-iniciais-do-ensino-fundamental