Educação e Saúde: situação vacinal dos estudantes do Ensino Fundamental da Escola Municipal Gessé Inácio do Nascimento, Teixeira de Freitas/BA

Mônica Alves Fernandes

Graduanda em Artes Visuais (Uniasselvi), bacharela interdisciplinar em Artes (UFSB), graduada em Letras - Inglês (UNEB), pós-graduada em Saúde Coletiva (UFSB), em Literatura em Língua Inglesa (Faculdade de Educação São Luis) e em Docência do Ensino Superior (Unopar)

Márcia Maria dos Santos de Moraes

Graduada em Medicina (UFBA), residência médica em Pediatria (UFBA), mestra e doutora em Medicina - Pediatria (USP), especialista em Auditoria dos Sistemas de Saúde, Gestão em Saúde, Gestão Regionalizada do SUS na Bahia, Medicina do Trabalho, atua na área de Saúde da Criança e da Mulher, professora adjunta (UFSB)

Atualmente, um dos maiores desafios da educação é desenvolver um ambiente propício para as práticas de ensino-aprendizagem, tornando a saúde um aspecto de extrema importância para sua consolidação. A escola consiste em um local essencial para o desenvolvimento de crianças e adolescentes considerando que passam, por muitas vezes, a maior parte do seu dia dentro desse ambiente. Dessa forma, o educador da rede de ensino tem, além das suas responsabilidades básicas, a preocupação com a saúde de seus estudantes. Essa inquietação dos professores é adequada, pois influencia diretamente no sucesso das suas próprias práticas e, principalmente, no aprendizado dos educandos.

Escola e Saúde

A princípio, a falta de plano governamental baseado na promoção de saúde advindo de instituições não ligadas à atenção básica foi colocada em pauta, já que a escola foi indicada como local de promoção de saúde. No final da década de 1980, segundo Carvalho (2015), a saúde nas escolas era baseada no ensino de comportamento dos hábitos. As crianças deviam se desenvolver saudavelmente na base da disciplina, controle e observação das suas respectivas ações buscando então algo que chegasse mais próximo ao que se considerava a “saúde perfeita”. Conforme esse mesmo autor, as políticas e programas que traziam como objetivo a assistência e a abordagem de saúde na escola ganharam espaço juntamente com a busca pela universalização dos sistemas de ensino.

Nas últimas décadas, os programas governamentais do Brasil voltados para o desenvolvimento da saúde proporcionaram uma efetiva melhoria na área e, assim, surtindo efeitos na educação em todo o país. O Governo Federal, o Ministério da Saúde e a Secretaria de Educação, em 2007, desenvolveram um projeto denominado Programa Saúde na Escola (PSE), o qual teve como base a publicação da Política Nacional de Promoção de Saúde (PNPS). O PSE foi instituído por Decreto Presidencial nº 6.286, de 5 de dezembro de 2007, compondo um projeto intersetorial do MS. Seu objetivo geral é promover qualidade de vida e reduzir a vulnerabilidade e os riscos à saúde relacionados a seus determinantes e condicionantes – modos de viver, condições de trabalho, habitação, ambiente, educação, lazer, cultura, acesso a bens e serviços essenciais (Brasil, 2009).

Nesse sentido, é possível perceber a necessidade de integração e articulação entre as secretarias de Educação e Saúde com o propósito de melhorar a qualidade de vida e, consequentemente, de aprendizagem dos alunos de todo o território nacional. Para tal, é necessário compreender que o processo envolvido na promoção de saúde vai além das portas de hospitais e da Estratégia Saúde da Família (ESF), chegando então à saúde coletiva; Paim e Almeida Filho conceituam:

onde se produzem saberes e conhecimentos acerca do objeto da saúde e onde operam distintas disciplinas que o contemplam sob vários ângulos; e como âmbito de práticas, onde se realizam ações em diferentes organizações e instituições por diversos agentes (especializados ou não) dentro e fora do espaço convencionalmente reconhecido como "setor saúde" (Paim; Almeida Filho, 1998, p. 308).

Assim, para entender a dimensão da necessidade da saúde dentro das escolas é necessário entender que a mesma se encaixa dentro dessas instituições fora do espaço que habitualmente é reconhecido como “setor da saúde”. A saúde também é/deve ser promovida dentro das escolas, acarretando diversos benefícios para o aprendizado dos estudantes como também influenciando diretamente sua família.

Mesmo atendendo essa configuração de definição de saúde, muitas localidades não recebem o devido acompanhamento da equipe da Estratégia Saúde da Família. Isso pode ocorrer considerando diversos fatores, como a carência de unidades básicas de saúde (UBS), a falta de informação dos usuários ou até acompanhamentos insatisfatórios. Nesse sentido, surge a importância da implantação de ações nas escolas com o objetivo de amenizar ou acabar essas falhas. Considerando essas colocações, o instrutivo do PSE afirma que:

as práticas em educação e saúde devem considerar os diversos contextos com o objetivo de realizar construções compartilhadas de saberes sustentados pelas histórias individuais e coletivas, com papéis sociais distintos – professores, educandos, merendeiras, porteiros, pais, mães, avós, entre outros sujeitos –, produzindo aprendizagens significativas e ratificando uma ética inclusiva. Desse modo, dimensionando a participação ativa de diversos interlocutores/sujeitos em práticas cotidianas, é possível vislumbrar uma escola que forma cidadãos críticos e informados com habilidades para agir em defesa da vida e de sua qualidade e que devem ser compreendidos pelas Equipes de Saúde da Família (ESF) em suas estratégias de cuidado (Brasil, 2011, p. 7).

Para contemplar as ações do PSE se fazem necessários alguns passos. A inclusão de uma escola no PSE é definida pelos secretários municipais e estaduais de Saúde e Educação dos municípios, que devem considerar as metas de atendimento e as suas respectivas prioridades para acolher escolas com o maior índice de vulnerabilidade. Segundo a própria caderneta de instrução do PSE (Brasil, 2011) as unidades de Educação podem ser escolhidas considerando o seu Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), a cobertura das equipes de saúde para a ESF e a participação no Programa Mais Educação.

Segundo Carvalho (2015), o PSE se propõe a ser um novo desenho da política de educação em saúde, como parte de uma formação ampla para a cidadania, promovendo a articulação de saberes e a participação de alunos, pais, comunidade escolar e sociedade em geral ao tratar a saúde e educação de forma integral.

As ações previstas pelo Programa Saúde na Escola (Brasil, 2011) são as mais diversas, e suas respectivas aplicações variam de acordo com as necessidades locais. Os três pilares desse programa são: avaliação das condições de saúde, promoção da saúde e prevenção das doenças e agravos; e capacitação permanente dos profissionais de Saúde e Educação. Quando a escola adere ao programa, ele deve ser incluído nas políticas da escola, considerando um espaço para sua aplicação durante o ano letivo, assim como capacitação de todos os profissionais envolvidos. Dessa forma, para potencializar essa inclusão os agentes de saúde destinados à intervenção devem também participar na construção desse projeto dentro da escola.

Logo, para a instalação do programa se faz necessário o conhecimento dos seus respectivos alvos juntamente com a unidade escolar. Os objetivos do PSE são (Brasil, 2009, p. 12):

  • Promover a saúde e a cultura de paz, reforçando a prevenção de agravos à saúde;
  • Articular as ações da rede pública de saúde com as ações da rede pública de Educação Básica, de forma a ampliar o alcance e o impacto de suas ações relativas aos estudantes e suas famílias, otimizando a utilização dos espaços, equipamentos e recursos disponíveis;
  • Contribuir para a constituição de condições para a formação integral de educandos;
  • Contribuir para a construção de sistema de atenção social, com foco na promoção da cidadania e nos direitos humanos;
  • Fortalecer o enfrentamento das vulnerabilidades, no campo da saúde, que possam comprometer o pleno desenvolvimento escolar;
  • Promover a comunicação entre escolas e unidades de saúde, assegurando a troca de informações sobre as condições de saúde dos estudantes;
  • Fortalecer a participação comunitária nas políticas de Educação Básica e saúde, nos três níveis de governo.

Considerando esses objetivos, o PSE apresenta propostas de ações para serem implantadas dentro das escolas como estratégia de melhoria da saúde dos estudantes e refletindo nas suas produções. Ações específicas, do ponto de vista epidemiológico, também são listadas no caderno do PSE (Brasil, 2011):

  • Avaliação antropométrica;
  • Atualização do calendário vacinal;
  • Detecção precoce de hipertensão arterial sistêmica (HAS);
  • Detecção precoce de agravos de saúde negligenciados (prevalentes na região: hanseníase, tuberculose, malária etc.);
  • Avaliação oftalmológica;
  • Avaliação auditiva;
  • Avaliação nutricional;
  • Avaliação da saúde bucal;
  • Avaliação psicossocial.

Dentre essas ações consta a atualização e controle do calendário vacinalvoltada para as crianças e adolescentes que frequentam as unidades escolares. O PSE disponibiliza também um caderno temático, o Caderno Temático de Verificação da Situação Vacinal, com conteúdo específico acerca da vacinação e seus respectivos cuidados e potenciais riscos. Nele também encontramos as vacinas que devem ser tomadas em determinada faixa etária, salientando também que todos os profissionais devem dominar o conteúdo presente no interior das cadernetas de saúde da criança (Brasil, 2015).

Marcondes (2005) destaca que a imunização contra doenças transmissíveis é um importante componente da promoção de saúde cuja eficácia está clara e amplamente documentada e não há justificativa para não se recomendar enfaticamente a aplicação de todas as vacinas disponíveis, ressalvadas as contraindicações específicas.

Segundo o Caderno Temático de Verificação da Situação Vacinal (Brasil, 2015), o Brasil é um dos poucos países que ofertam gratuitamente vacinas para a população, sendo elas divulgadas em campanhas do Ministério da Saúde. As intervenções feitas desde então resultaram na erradicação de diversas doenças, como a paralisia infantil.

Outro grande ganho que é apresentado no Caderno Temático é a facilidade de acesso a essas vacinas. Atualmente, considerando o modo de organização das UBS, podemos encontrar com facilidade vacinas e profissionais especializados dando todo o suporte necessário para o usuário. Podemos observar também que, apesar dessa facilidade de acesso dentro de todo o território nacional, ainda existem muitas crianças e adolescentes que não foram devidamente vacinados. Essa problemática conta com a parceria da escola, tanto para a resolução dos casos de vacinas atrasadas quanto para a divulgação de novas campanhas.

Para desenvolver uma ação no âmbito da saúde coletiva sobre a situação vacinal dos estudantes na Escola Municipal Gesse Inácio do Nascimento foi necessário propor alguns questionamentos: os estudantes tinham algum conhecimento de como consultar seu/sua cartão/caderneta de vacinação? Como estava a situação vacinal desses alunos? Existia possibilidade de atualização dessas cadernetas de vacinação em parceria com a UBS de referência da escola? Esses questionamentos motivaram os objetivos deste estudo.

Objetivo geral

Verificar a situação vacinal dos estudantes do sétimo ano do Ensino Fundamental da Escola Municipal Gesse Inácio do Nascimento - turno matutino.

Objetivos específicos

  • Orientar os estudantes a observar sua caderneta de vacinação;
  • Despertar os estudantes para a importância da vacinação;
  • Encaminhar o resultado da ação à UBS de referência da escola para planejamento de atualização das vacinas.

Justificativa

O presente projeto se justificou pela inquietação e preocupação das autoras sobre a necessidade de intervenção da saúde dentro das escolas de Teixeira de Freitas. Essa preocupação surgiu em diversas situações vivenciadas em sala de aula que, geralmente, são ocasionadas por circunstâncias que vão além das dependências da escola e que levam à necessidade de receber intervenção de profissionais da Saúde.

Observando essa carência, foi primordial a busca por documentos do Ministério da Saúde (MS) que apresentem possibilidades de trazer essa problemática para o campo da Educação e, com base nesses conhecimentos, realizar alguma intervenção em salas de aula. Nesse sentido, o acesso ao Programa Saúde na Escola serviu de base inspiratória para a elaboração deste estudo.

Uma vez concretizada a necessidade de intervir na saúde dos educandos, o PSE estimulou essa intervenção e a seleção da verificação da situação vacinal como principal ação a ser realizada na escola, local de trabalho da primeira autora, considerando a importância da vacinação como componente fundamental para a saúde da criança, principalmente em ambientes coletivos.

Metodologia

Trata-se de um relato de experiência de uma pesquisa-intervenção realizada junto aos estudantes da Escola Municipal Gesse Inácio do Nascimento, localizada na cidade de Teixeira de Freitas/BA, abrangendo os alunos das turmas 7ºA/B, 8ºA/B e 9º A/B do turno matutino, das turmas de Inglês e Artes, em que a primeira autora leciona.

Para execução das ações propostas, o projeto foi apresentado à diretoria e à coordenação da escola a fim de obter autorização para aplicação da proposta dentro da sala de aula.

Primeiramente, se fez necessária a conscientização da importância das vacinas na vida dos indivíduos por meio de uma palestra. Em seguida, os estudantes foram orientados a conversar com os pais/responsáveis, que receberam informações sobre o projeto e a solicitação de envio das cadernetas no dia da aula estipulada para a ação.

A ação ocorreu no dia regular de aulas para cada uma das seis turmas, e a atividade foi pontuada como atividade complementar. No primeiro momento, em cada turma, foi realizada uma roda de conversa sobre as principais doenças imunopreveníveis por vacinas, sobre a importância de cumprir o calendário de vacinação e as doses preconizadas.

Antes da leitura da caderneta, cada estudante escreveu seu nome e idade numa folha de caderno e, à medida que procediam à leitura, eles identificavam o nome de vacina e quantas doses foram tomadas e quantas faltariam tomar, conforme orienta a própria caderneta, anotando na folha. Durante esse procedimento, a professora percorria as carteiras e acompanhava as anotações. Os estudantes que não apresentaram as cadernetas participaram da parte teórica da aula e ajudaram os colegas na identificação das vacinas.

Os dados dos participantes foram agrupados por serie, sexo e faixa etária, descrevendo a situação vacinal como: vacinas atrasadas e vacinas a vencer. O resultado da pesquisa foi encaminhado à UBS de referência da escola para planejamento de atualização das vacinas.Foram utilizadas planilhas criadas no Microsoft Excelpara tabulação dos dados e os resultados foram apresentados em percentuais.

Resultados

Um total de 233 estudantes que compõem as seis turmas participaram da pesquisa, seja de forma direta, com a verificação da sua própria caderneta, ou de forma indireta, na roda de conversas e compartilhando a busca das informações na caderneta do/a colega.

No dia estipulado para a ação, os estudantes seguiram a orientação de levar para a sala de aula suas respectivas cadernetas de vacinação para a conferência de sua situação vacinal.

No decorrer do processo informativo, foram surgindo dúvidas acerca dos tipos de vacina disponíveis e da disposição dos dados registrados em cada caderneta, o que foi prontamente explicado pela professora pesquisadora em sala de aula. Durante a coleta de dados foi possível inferir que aquele era o primeiro contato dos estudantes com as suas respectivas cadernetas de vacinação.

Nesse estudo, foi possível observar também a diversidade de cadernetas de vacinação encontradas numa mesma turma, apesar da similaridade da faixa etária. Havia cinco diferentes tipos de cadernetas de vacinação, com os nomes das vacinas dispostos em posições distintas, apesar de ser compostas pelas mesmas vacinas. Esse fato causou desconforto na turma, pois muitos ficaram confusos quanto à ordem dos nomes das vacinas, exigindo maior atenção da professora nas orientações.

Notou-se ainda que as novas cadernetas de vacinação se configuram em pequenos livros, diferentemente do cartão da criança, e que dispõem de informações diversas sobre a criança/adolescente, assim como outros dados sobre os cuidados necessários para a saúde deles. Ao término da coleta dos dados, os estudantes entregavam as informações registradas por eles na folha de caderno para a análise de dados posteriormente.

No início, foi feita uma consolidação das características dos estudantes por turma em relação a: estudantes matriculados que frequentavam as aulas, estudantes que participaram da ação e estudantes que levaram a caderneta para verificação da situação vacinal. A Tabela 1 apresenta os resultados das características gerais dos estudantes. Do total de estudantes que frequentaram as aulas, foi observado que 97% participaram da ação e, destes, 39,2% apresentaram a caderneta. As turmas A/B das três séries foram fundidas. Quando se individualizaram as turmas, observou-se que, nas turmas do 7º ano, mais de 50% apresentaram a caderneta, enquanto nas turmas do 8º e 9º anos foram 26,9% e 40,0%, respectivamente, os alunos cuja caderneta foi avaliada.

Tabela 1: Características gerais dos estudantes participantes da pesquisa, segundo situação de frequência e apresentação da caderneta vacinal

Os dados expostos pela Tabela 2 foram agrupados por ano escolar e foram analisadas as seguintes variáveis: sexo, faixa etária e a situação vacinal. Podemos observar que, em relação ao sexo dos estudantes que apresentaram a caderneta, houve predomínio do sexo feminino, com exceção do 7º ano, em que o sexo masculino correspondeu a 52% do total de participantes.

Tabela 2: Características dos estudantes segundo sexo, faixa etária e situação vacinal

A maioria dos estudantes participantes se encontrava dentro da faixa etária esperada para o ano escolar em curso, sendo 63% na faixa de 11 a 12 anos para o 7º ano, 66,7% e 76,7% na faixa de 13 a 14 anos para o 8º e 9º anos, respectivamente.

Dentre as cadernetas analisadas, foi observado que em todas as turmas as vacinas não estavam atualizadas, chegando a apenas 26,3% nas turmas do 7º ano, turmas essas com maior número de cadernetas apresentadas e maior receptividade em participação no estudo. O percentual de estudantes com vacinação atrasada foi acima de 50% em todas as turmas.

O estudo também verificou quais vacinas estavam como não atualizadas na caderneta de vacinação. As vacinas contra sarampo, caxumba e rubéola (SCR) e vírus do papiloma humano (HPV) foram as que apresentaram maior número de ausência de registros nas cadernetas, de forma isolada para cada uma ou não havia registro de vacinação para as duas. A Tabela 3 detalha os quantitativos por vacina.

Tabela 3: Distribuição da ausência de registros das vacinas SCR1 e HPV2 e/ou atualização, segundo ano escolar

Observa-se que a vacina contra HPV foi a que apresentou menor número de registros isolados ou somados aos registros de ausência da vacina SCR.

Discussão

Os dados da Tabela 1 mostram que um percentual importante de estudantes não apresentou a caderneta. As justificativas foram: perda da caderneta, esquecimento da atividade proposta e demonstração de falta de interesse no trabalho sugerido. Porém a não apresentação da caderneta no dia da aula para analise não interferiu na aplicação da proposta, considerando que a ação foi realizada e muitos estudantes acompanharam as explicações observando e ajudando os colegas na coleta dos dados.

É importante registrar que, quando o projeto foi explicado para os estudantes, alguns alegaram que não iriam levar a caderneta para a escola, pois tinham “medo de vacina” e não queriam tomar vacinas, caso fossem identificadas doses incompletas em seus cartões. Os estudantes receberam orientações e esclarecimentos sobre o formato do projeto, mas, de alguma forma, é provável que a apreensão quanto a uma possível vacinação na escola tenha contribuído para a veiculação desse “medo” entre os colegas, prejudicando a apresentação da caderneta por toda a turma.

Em relação ao medo, é esperado e considerado normal em determinadas fases do desenvolvimento, como forma de proteção adotada pelas pessoas que se veem em risco; há situações em que o medo interfere nas decisões e atividades diárias do adolescente (Schoen; Vitalli, 2012).

Contudo, foi importante observar a ligação tênue entre educação e saúde. As duas áreas são fundamentais na construção do indivíduo em sociedade, que, consequentemente, não podem ser dissociadas. As formas de prevenção e promoção de saúde devem ser implantadas dentro das unidades escolares, influenciando a participação não somente dos estudantes e do corpo escolar em si, mas também o envolvimento dos familiares.

Silveira e colaboradores (2007) criaram um programa para computador (software) destinado a controlar a atualização das vacinas de crianças de até seis anos de idade matriculadas em uma EMEI da cidade de São Paulo. Por ocasião da implantação do programa no local de estudo, 286 alunos foram cadastrados no sistema de controle de vacinações; 236 (82,5%) estavam com seu quadro de vacinação incompleto. Para os autores, apesar de as causas do abandono da imunização serem múltiplas, a intervenção, tanto na saúde como no ensino, deve ser única: alertar e estimular os responsáveis pelos menores a retomar a atualização das vacinas.

Um ponto fundamental a ser considerado neste estudo foi a relevância da análise dos registros das cadernetas de vacinação. O conhecimento adquirido pelos estudantes pode ser transmitido para seus colegas e familiares, considerando que grande parte da população não está atenta às vacinas disponíveis e idades preconizadas.

Essas observações foram reforçadas pelos próprios alunos, que comentaram que a vacina contra HPV foi tomada tanto por estudantes do sexo feminino quanto do masculino, que, em primeiro momento, seria vacina exclusiva para adolescentes do sexo feminino. O exercício da observação dos registros nas suas cadernetas também trouxe mais autonomia ao adolescente para compartilhar com seus responsáveis a promoção da sua saúde.

Viegas e colaboradores (2019) analisaram a situação vacinal de adolescentes do 9º ano do Ensino Fundamental de escolas públicas de Divinópolis/MG e o conhecimento dos adolescentes sobre doenças transmissíveis e as doenças imunopreveníveis. A maioria dos adolescentes era do sexo feminino e considerou importante a vacinação, mas 45,1% apresentaram baixa cobertura vacinal. Um fator que pode estar associado à baixa cobertura vacinal entre os adolescentes, neste estudo, seria a falta de conhecimento referente às vacinas e sobre as doenças que são transmissíveis e imunopreveníveis, uma vez que grande parte deles se mostrou leiga quanto ao calendário de vacinação.

Neste estudo, é preciso também chamar a atenção para o fato de que, apesar de mais de 50% dos estudantes não terem apresentado as cadernetas, as vacinas não atualizadas, SCR e HPV, refletem as distâncias entre escola e unidade de saúde de referência, considerando casos recentes de sarampo no Brasil e as dificuldades de implantação da vacina contra HPV em adolescentes.

O estudo de Rodrigues e colaboradores (2011) mostra que é possível uma ampliação da cobertura vacinal em escolares de diferentes faixas etárias, por meio de parcerias entre escola, unidade de saúde e conselho tutelar local. Eles obtiveram aumento da cobertura vacinal total da escola de 39,6% para 71,6%. Contudo, chamam a atenção para o fato de que a adesão ao projeto se deu em maior predominância no Ensino Fundamental, em que há participação efetiva dos pais na vida das crianças, atingindo uma cobertura de 74,4%, que antes era de 41,4%. Já no Ensino Médio, em que a faixa etária abrange a adolescência, a adesão não foi satisfatória, chegando a 59,9%, sendo antes de 32,1%.

Os autores ressaltaram que o fato de o conselho tutelar estar participando da ação contribuiu com o resultado, considerando que durante todo o processo vários pais procuraram a unidade para regularizar a situação vacinal do filho e questionaram a intervenção do conselho tutelar (Rodrigues et al., 2011).

Nesse sentido, conclui-se que foi notória a necessidade da integração entre a educação e a saúde para realização de ações de saúde na escola; que a participação dos familiares é fundamental para o sucesso dessas atividades; e que a análise das cadernetas e a conscientização dos estudantes quanto à importância da vacinação na promoção da saúde favoreceu uma maior autonomia aos estudantes para o autocuidado.

Muitos estudos mostram que ações de saúde para adolescentes necessitam articular parcerias com outros setores para que haja uma abordagem a partir de vários olhares e competências a fim de obter maior efetividade nas ações de atenção integral à saúde desse grupo etário.

Considerações finais

As limitações de tempo para apresentação de um projeto de intervenção não permitiram a descrição neste trabalho da segunda parte do projeto, que seria a aplicação das vacinas no ambiente escolar após autorização dos pais/responsáveis.

A ideia de intervenção final, então, foi solicitar à UBS de referência da escola que, diante do estudo apresentado, identifique os estudantes de todas as turmas da escola com necessidade de atualização vacinal.

A realização da segunda parte desse projeto contribuirá para o cumprimento das especificações do Art. 1º do decreto presidencial sobre a prevenção e promoção da saúde no âmbito do PSE, evitando possíveis casos de doenças que podem ser facilmente impedidas com a atualização vacinal, assim como conscientizar alunos e familiares da importância da vacinação.

Essa intervenção poderá também contribuir para evitar o aparecimento de doenças imunopreveníveis na comunidade escolar, evitando absenteísmo à sala de aula.

Referências

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Publicado em 08 de dezembro de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

FERNANDES, Mônica Alves; MORAES, Márcia Maria dos Santos de. Educação e Saúde: situação vacinal dos estudantes do Ensino Fundamental da Escola Municipal Gessé Inácio do Nascimento, Teixeira de Freitas/BA. Educação Pública, v. 20, nº 47, 8 de dezembro de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/47/educacao-e-saude-situacao-vacinal-dos-estudantes-do-ensino-fundamental-da-escola-municipal-gesse-inacio-do-nascimento-teixeira-de-freitasba