A visão da morte em poemas de Mario Quintana e Manuel Bandeira: uma proposta de ensino

Priscila Custódio de Brito Silva

Graduanda em Letras – Língua Portuguesa (UFCG)

José Hélder Pinheiro Alves

UFCG

Ainda que deixar de existir seja algo tão natural quanto existir, a morte é um tabu na sociedade ocidental contemporânea, de modo que, todos os dias, tem-se o desejo e a curiosidade, através da ciência, de encontrar a fórmula para a imortalidade, uma vez que já se descobriu maneiras de aumentar a expectativa de vida e tardar o envelhecimento - por que não da infinitude da vida? Dessa forma, ainda que todos nós estejamos programados para nascer, crescer e morrer, comumente vê-se a morte como um evento inesperado e injusto.

Isso acontece pela não familiaridade que se tem com a morte, pelo fato de se excluir discussões sobre a temática em todas as instâncias. Assim, ao deparar-se com o óbito, não se percebe como uma vida que chegou naturalmente ao fim, de uma existência que simplesmente expirou, mas com tristeza e sofrimento pelo fim da vivência. Dessa forma, a ideia vinculada à morte é resultado milenar da educação familiar e do ambiente sociocultural em que vivemos, não havendo, de fato, possibilidades de conversa e formação de opinião quanto à temática.

Contudo, Mário Quintana, que, além de poeta, foi tradutor e jornalista, ao publicar o livro A rua dos cataventos (1940), possibilitou a reflexão de uma visão singular da morte, enxergando-a como amiga no soneto “Minha morte nasceu”. 40 anos mais tarde, ao publicar Esconderijos do tempo (1980), o autor traz o poema “Surpresas”, em que proporciona uma recriação da figura da morte, comentando sobre seus cabelos, mãos e olhos, e afastando a imagem medieval da morte como um esqueleto, de túnica preta com uma foice na mão.

Comparativamente, veremos dois poemas do poeta Manuel Bandeira: “A morte absoluta”, publicado no seu primeiro livro, Cinza das horas (1917), que retrata sobre o temor do esquecimento, de morrer sem deixar rastros e um dia não ser mais lembrado nem mesmo pelo que primeiro é nosso, o nome; e “Desencanto”, encontrado também no mesmo livro, que vai tratar, através de uma metapoética, sobre os dissabores de quem escreve, onde estes são comparados, ao final do poema, com a morte, demonstrando um reconhecimento de todos esses desencantos também no momento do falecimento.

Desta forma, a partir da leitura comparativa desses dois poetas acerca das duas visões da morte: pessimista e otimista, esse trabalho pretende demonstrar uma possível proposta de ensino e discussão da temática em sala de aula, dando possibilidade de reflexão e conhecimento aos alunos acerca do que, desde que nascem, a partir da família e sociedade, compreendem equivocadamente: a morte.

Fundamentação

Para embasamento teórico deste trabalho, utilizaremos o livro História da Morte no Ocidente (2012), de Philippe Ariès, que consiste numa revisão temporária acerca da morte, num recorte da Idade Média aos dias atuais, considerando aspectos quanto à lidação e à figura do personagem morte.

“As atitudes diante da morte”, consiste a primeira parte do livro, no recorte Medieval. Segundo Ariès, havia uma cerimônia tradicional de despedida que se baseava em três atos: o lamento da vida, o perdão dos companheiros e a prece a Deus. Quanto ao primeiro ato, diz o autor “O primeiro ato é o lamento da vida, uma evocação, triste, mas muito discreta, dos seres e das coisas amadas, um súmula reduzida a algumas imagens”, no segundo ato “vem o perdão dos companheiros, dos assistentes, que rodeiam o leito do moribundo” (Ariès, 2012, p. 37), e o terceiro ato consiste na prece a Deus, esta dividida em duas partes: a culpa e súmula do futuro.

Ao comparar com os rituais dos dias atuais, percebe-se que há semelhança com o momento da partida. O lamento continua enraizado ao idealizar a morte, junto da vontade de perdoar e ser perdoado pelas pessoas à sua volta, havendo também, neste momento, os discursos de despedida e agradecimento. O momento das preces a Deus, por tratar-se o Brasil de um país em sua maioria cristã, ainda existe, tendo-se a preocupação em solicitar à Igreja a unção dos enfermos; contudo, muitas pessoas, por não aceitarem o destino ou desacreditarem de Deus, não passam por este ato.

Todavia, Ariès (2012) afirma que o medo da morte só surgira no fim do século XVIII e começo do século XIX, mas diferente do medo enraizado nos dias de hoje. O conceito de morto naquele momento da história não estava associado a um coração que parou de bater, mas a “um estado de insensibilidade que se assemelhava tanto à morte quanto à vida”. Logo, vida e morte eram igualmente aparentes e confundíveis, o que despertava medo nas pessoas, temendo por serem enterradas vivas.

Quanto à morte nos dias atuais, Ariès (2012) escreve que “é mórbida, faz-se de conta que não existe; existem apenas pessoas que desapareceram e das quais não se fala mais” e diz ainda que “é surpreendente que as ciências do homem, tão loquazes quando se tratava da família, do trabalho, da política, dos lazeres, da religião, da sexualidade, tenham sido tão discretas sobre a morte” (ARIÈS, 2012, p. 212). Assim, o autor atesta os levantamentos realizados na introdução deste estudo, que aponta o ocultamento da morte da sociedade, da educação e, até mesmo, das pesquisas.

Análise

Nesta seção, após refletirmos sobre a figura da morte reverberada na sociedade ocidental contemporânea e a receptividade pessimista que se tem dela, buscando encontrar justificativas que desvendem esse medo, partiremos para a análise individual dos poemas selecionados para esse estudo, em que consistirá o objetivo central desse trabalho: repensar a relevância que a morte dispõe, uma vez que é pela certeza dela que nos empenhamos a viver e conquistar as metas enquanto há vida, além de enxergá-la como o estágio final de uma vida vivida em plenitude.

O primeiro momento desta apreciação consistirá na leitura dos dois poemas esperançados de Mário Quintana: “Minha morte nasceu”, publicado no livro A rua dos cataventos (1940), e “Surpresas”, veiculado no livro Esconderijos do tempo (1980).

Minha morte nasceu

Minha morte nasceu quando eu nasci.
Despertou, balbuciou, cresceu comigo...
E dançamos de roda ao luar amigo
Na pequenina rua em que vivi.

Já não tem mais aquele jeito antigo
De rir e que, ai de mim, também perdi!
Mas inda agora a estou sentindo aqui,
Grave e boa, a escutar o que lhe digo:

Tu que és a minha doce prometida,
Nem sei quando serão as nossas bodas,
Se hoje mesmo... ou no fim de longa vida...

E as horas lá se vão, loucas ou tristes...
Mas é tão bom, em meio às horas todas,
Pensar em ti... saber que tu existes!

(A rua dos cataventos, 1940)

O poema é um soneto, estrutura clássica poética; contudo, a temática é modernista, uma vez que o autor rompe com a expectativa pessimista e dramática vinculada à figura da morte e a descreve como uma amiga, que compartilha junto a si todos os momentos da vida, dado que, de fato, nossa morte nasce assim que nascemos.

Vomero (2002), redatora da Revista Abril, em uma matéria que contempla os comportamentos referidos à morte, afirma, numa ideia compromissada com Mário Quintana, que “todos começamos a morrer exatamente no dia em que nascemos”. De fato, é necessário conviver com a ideia que cada dia vivido é inevitavelmente um dia mais próximo da morte e que, desde o dia que nascemos, ao tempo que estamos nos desenvolvendo, estamos também morrendo.

No terceiro verso, Quintana descreve uma cena muito singela, tal como é a brincadeira de roda, associada à ingenuidade das crianças. Com essa passagem, percebe-se que o autor enxerga a morte como uma amiga que o acompanha durante toda a vida. No quarto verso, é descrito o espaço desse divertimento: “a pequenina rua em que vivi”, reafirmando a imagem simples propagada por crianças brincando em uma rua.

Na segunda estrofe, o autor evoca um presente, demonstrando que a primeira estrofe revelava um passado, uma lembrança. Quintana afirma que a morte “já não tem mais aquele jeito antigo/de rir”, evidenciando que já se passaram muitos anos desde essa memória infantil recuperada na estrofe anterior. Contudo, apesar de as épocas terem mudado, o mesmo menciona que continua sentindo-a junto dele, “grave e boa”, escutando suas reflexões.

O autor recupera, na terceira estrofe, a ideia de “prometida”, associada à concepção cristã de ter sido preparada uma pessoa para cada homem (ser humano) do mundo. Ideia reafirmada quando Quintana utiliza o termo “bodas” no verso seguinte, que consiste em um momento grandioso de celebração de uma união, como as bodas de ouro, ao completar-se 50 anos de uma relação. Dessa forma, o autor associa o momento exato da sua morte ao momento de encontro, de união, entre a sua prometida, a morte, e si.

A quarta estrofe do soneto traz o ápice do poema, em que o autor demonstra tamanho afeto pela morte a ponto de sentir felicidade por sua existência. Permitindo uma profunda reflexão acerca da vida, uma vez que, se não houvesse a existência da morte, se não houvesse uma certeza que a vida que possuímos um dia cessará, não teríamos pressa ou ânimo para buscar coisas que nos fazem felizes na vida, de modo que teríamos a infinitude para realizar o que almejamos. Dessa forma, o que nos leva a viver a vida bem, buscando conquistar a felicidade, seja ela onde esteja e o que seja para cada indivíduo, é a certeza de uma morte.

Surpresas

Sabes? Os cabelos da morte são entrelaçados de flores,
Não de flores mortas como essas inertes sempre-vivas,
Mas inquietas e misteriosas como os não desfolhados malmequeres.
Ou bravias como as pequenas rosas-silvestres.

As mãos da morte, as suas mãos não têm anéis,
Sua virgem nudez não comporta o peso de uma joia,
Os seus olhos não são, não são uns covis de treva,
Mas cheios de luz como os olhos do primeiro amor.

Porque a morte não faz esquecer, mas faz tudo lembrar,
Porque a morte não é, não é um sono eterno:
Tu vais adormecer como num berço, pouco a pouco,
E acordarás de súbito num vasto leito de noivado!

(Esconderijos do tempo, 1980)

O poema é composto por versos livres, ou seja, que não seguem uma métrica regular, característica firmada no modernismo, uma vez que permitiu que os autores tivessem liberdade na escrita. Contudo, segundo Mário de Andrade (1974) em Aspectos da Literatura Brasileira, é necessário que os poemas, apesar da autonomia métrica, preocupem-se com ritmo, pois a poética não consiste em “ajuntar frases fantasiosamente enfileiras pra fazer verso-livre”. (Andrade, 1974, p. 27).

Dessa forma, observa-se que, apesar dos versos-livres, o poema de Quintana tem uma sonoridade desejada pelo autor: como uma conversa. Ao iniciar com “sabes”, há uma ocultação do pronome pessoal “tu”, que revela a invocação de um interlocutor. Desse modo, Mário Quintana, mesmo compreendendo que decerto teriam leitores apreciando a poesia, ele desejou evocar estes no primeiro verso do texto, caracterizando uma aspiração de conversa.

A intenção de “Surpresas” é descontruir a ideia medieval da morte como uma caveira, de olhos fundos, vestida com uma túnica preta e segurando uma foice. Talvez esta seja a motivação do título, uma vez que se desperta surpresa ao deparar-se com a figura da morte do modo descrito por Quintana.

Na primeira estrofe, o poeta escreve sobre os cabelos da morte, indicando que há neles flores, mas não flores mortas, como as sempre-vivas, mas flores vivas, inquietas e misteriosas, como os malmequeres. As sempre-vivas são às várias espécies de plantas que, depois de colhidas e secas, conseguem resistir consideravelmente ao tempo sem se estragar ou perder sua cor. Desse modo, o autor não deseja comparar a morte, ao criar uma nova figura dela, a um ser vivo morto. Comparando-a, assim, aos malmequeres, que também são conhecidas como margaridas e detêm beleza e apreço das pessoas.

O segundo elemento a ser modificado são as mãos da morte, em que o autor utiliza o adjetivo “virgem”, caracterizando uma grande pureza e bondade. E o terceiro elemento, os olhos, é descrito como “cheios de luz como os olhos do primeiro amor”, carregando uma semântica intensamente romântica e evocando todas as possíveis intertextualidades que esse olhar mencionado dispõe. Além disso, o primeiro amor carrega uma densidade de pureza e singularidade, comparando-o aos demais amores. Sendo assim, o autor deseja demonstrar a doçura desse olhar na morte.

Na quarta estrofe, Quintana rompe com a ideia de esquecimento trazido pelo evento da morte, mas afirma que ela “faz tudo lembrar”. No segundo verso, o autor inicia seu pensamento, para-o com a vírgula, e depois o retoma, demonstrando, mais uma vez, a intenção de conversa.

Ele deseja, ainda, contrariar a noção de sono eterno, afirmando que o adormecimento se dará pouco a pouco, aludindo à ideia de que se morre um pouco todos os dias, mas que se acordará, não numa vida eterna, perspectiva cristã, mas num leito de noivado, compactuando com “as bodas” descritas em “Minha morte nasceu”.

Neste momento, no segundo período da análise, serão contempladas as leituras dos dois poemas pessimistas de Manuel Bandeira: “A morte absoluta” e “Desencanto”, publicados em Cinza das Horas (1917).

A morte absoluta

Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
a exangue máscara de cera,
cercada de flores,
que apodrecerão – felizes! – num dia,
banhada de lágrimas
nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante…
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
a lembrança de uma sombra
em nenhum coração, em nenhum pensamento,
em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
que um dia ao lerem o teu nome num papel
perguntem: “Quem foi?…”

Morrer mais completamente ainda,
– sem deixar sequer esse nome.

O poema consiste em versos livres e estrofes irregulares, que possuem uma leitura de caráter denso e melancólico. O primeiro verso, composto apenas pelo verbo “morrer”, revela o peso que a palavra tem para esse poema, de modo que, apenas ela, já é apta a evocar no leitor as sensações desejadas pelo poeta.

No segundo verso, “morrer de corpo e de alma”, Bandeira demonstra a incredulidade que exista uma eternidade, uma vez que, tradicionalmente, acredita-se que morre a matéria, mas a alma vive numa infinitude feliz. “Completamente”, no terceiro verso da primeira estrofe, reforça a ideia de que tudo morre, não somente a carne, exterminando inteiramente o ser humano que habitou o corpo falecido.

É descrita, na segunda estrofe, a preparação do corpo para a visitação antes do sepultamento. Ao dizer, “morrer sem deixar o triste despojo da carne”, o autor revela que mesmo após a morte, não se deixam os escombros da carne “em paz”, mas os embalsamamos para conservação temporária e o cercamos de flores, para ser visitado e chorado por pessoas que, mais por espanto com a morte do que por saudade, vislumbrarão.

Na expressão “espanto da morte”, confirma-se integralmente a noção pessimista e comumente da morte nesse poema, enxergada como fonte de pavor e repulsa, imagem essa prevista e tradicional para a sociedade ocidental contemporânea, como mencionado anteriormente nesta pesquisa.

Na terceira estrofe, o autor faz uma pergunta retórica, questionando a ideia de céu e posteriormente qual céu que satisfaria a utopia de céu que se deseja. Dessa forma, mais uma vez, é demonstrada a incredulidade que o eu-lírico tem sobre a vida eterna, posto a fé de que seja um lugar feliz e bom, para descanso eterno da alma.

Na estrofe seguinte, o autor evoca o desalento de ser materialmente apagado, sem deixar ao menos uma sombra, e ser esquecido dos pensamentos e corações de todos. Nesse momento, Bandeira revela a preocupação do esquecimento, de não desejar ser posposto pelas pessoas que hoje lhe demonstram afeto.

Nas duas últimas estrofes, o autor prossegue com a reflexão do esquecimento, discorrendo o ápice do apagamento de um ser humano, quando o nome, primeira posse adquirida, mesmo antes de nascer, é esquecido e dissociado da figura do ser que morreu.

Passemos, agora, à apreciação do último poema:

Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento… de desencanto…
Fecha o meu livro, se por agora
Não tem motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente…
Tristeza esparsa… remorso vão…
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

– Eu faço versos como quem morre.

Este quarto e último poema a ser analisado não reflete diretamente sobre a morte, mas, ao ser mencionada no último verso, possibilita uma comparação e reconhecimento de todos os dissabores, antes associados ao processo de escrita, à morte. 

O poema é composto de quatro estrofes, contendo apenas um verso na última, com versos regulares de nove sílabas poéticas, rimadas interpoladamente. Trata-se de um metapoema que reflete sobre desencantos de um eu-lírico escritor de versos tristes e desalentados. Bandeira lista, no 5° e 6° versos, coisas comparadas ao verso do eu-lírico, que podem, por ventura do último verso, ser comparadas à morte: sangue, volúpia ardente, tristeza, remorso.

No 10° e 11° versos, o autor menciona a ideia de “a vida corre”, associada à noção convencional de que a vida passa muito rapidamente, deixando, assim, um azedo sabor na boca, demonstrando, com essa metáfora, a angústia do envelhecimento, de ir perdendo os dias e a vida. Revela, ainda, a visão pessimista de cada dia vivido - é um dia a menos de vida e não um dia a mais da vivência e da experiência.

O último verso, sendo o único posto separadamente dos demais e marcado por um travessão, revela a voz de outra pessoa além do eu-lírico, possibilitando a interpretação de ser uma afirmação do próprio Manuel Bandeira, embora compreendendo que esta informação trata-se de uma superinterpretação. Todavia, ainda assim, percebe-se a singular relevância que esse verso tem para o poema. Ao utilizar o advérbio de maneira “como”, o autor emprega a figura de linguagem de comparação, igualando assim todos os adjetivos e substantivos pessimistas do poema ao evento da morte.

Analogia

Neste segmento, partiremos para a comparação dos poemas, considerando as visões distintas da morte descritas. Vale ressaltar que a intenção deste trabalho não é depreciar a poética do grande Manuel Bandeira, mas apenas comprar as concepções de morte, a partir dos poemas selecionados, objetivando a reflexão de que a morte não deve ser temida, mas enxergada como um fim de ciclo necessário e bom.

Inicialmente, comparando os poemas de Quintana entre si, percebe-se que há uma intenção de recriação da figura da morte, sendo descrita em “Minha morte nasceu” como uma amiga de berço e em “Surpresas” como um ser colorido e afável. Já nos poemas de Manuel Bandeira, comparando-os também entre si, verifica-se o desejo de representar a morte com melancolia e repulsa, como o fim indesejado de uma vida. Em “a morte absoluta”, compreendem-se duas importantes temáticas: a negação de vida eterna após a morte e o temor de ser esquecido; já em “desencanto”, são listados substantivos e adjetivos hostis à poética do eu-lírico, sendo, ao final, através da figura de linguagem comparativa, associados à morte.

Ao comparar “Minha morte nasceu” com a “A morte absoluta”, mais precisamente o último verso do poema de Quintana, observa-se a disparidade de apreço pela morte, onde, no último verso do soneto, é descrita uma felicidade pela existência da morte, enquanto em “a morte absoluta”, uma exacerbada angústia pelo advento dela.

Se observar, ainda, em “A morte absoluta”, Bandeira descreve o receio do esquecimento ao escrever “Morrer tão completamente/que um dia ao lerem o teu nome num papel/perguntem: “Quem foi esse?...””, enquanto em “Surpresas”, Quintana afirma justamente o oposto: “Porque a morte não faz esquecer, mas faz tudo lembrar”.

Ainda comparando “A morte absoluta” com a “Surpresa”, nota-se, em ambos, a presença do elemento flor, que está diretamente associado ao evento da morte. Contudo, em Quintana, há a descrição de flores coloridas e vivas que enfeitam os cabelos da morte, dando-as, assim, um status positivo. Enquanto por Bandeira, as flores são descritas com negativismo: “flores que apodrecerão”.

Cabe verificar, ainda, a noção de morte “completamente” descrita em “A morte absoluta”, de modo que Manuel Bandeira afirma que nada existirá após o óbito, haverá a morte “de corpo e de alma”. Quintana, porém, ao escrever “E acordarás de súbito num vaso leito de noivado!”, demonstra crer que haverá um segundo momento após a morte, mesmo não sendo possível distinguir se se trata de uma vida eterna.

Dessa forma, mais do que por trechos contrastantes, tematicamente, os poemas concedem sensações e reflexões diretamente opostas. Ao ler os exemplares de Mário Quintana, sente-se uma conformidade, uma esperança e até alegria por existir algo que controle e impulsione a vivência todos os dias, pela certeza de consumação desta vida um dia. Porém, ao ler os poemas selecionados de Manuel Bandeira, sinestesicamente, sente-se medo, sente-se repulsa, sente-se angústia e desejo de que a morte nunca chegue.

Proposta de ensino

Portanto, após toda reflexão acerca da morte, possibilitada por este trabalho, iremos retomar a afirmação presente na seção de Introdução: um dos motivos que justificam o medo da morte é a ausência de conhecimento dela. Isso acontece pela ocultação dessa temática em todas as instâncias, seja a escola, seja a família, sejam os hospitais, etc. Há um desejo de apagamento do advento da morte; contudo, para que lidemos melhor com esse momento, é fundamental compreendermos a importância que essa figura tem para a vida e a vivência, e que, assim como nascemos e crescemos, o descanso faz parte do ciclo e é necessário.

Sendo assim, as aulas de Português e, mais especificamente, as aulas de literatura devem propor situações para reflexão, conhecimento e deleite. Apesar de avanços, as aulas de Literatura na educação básica pública ainda são muito engessadas, resumindo-se apenas no estudo das escolas literárias. Contudo, apesar de essenciais, os alunos necessitam de situações que oportunizem a formação de opinião, que só é possível através da leitura e reflexão.

Logo, compreendendo que a quantidade de aulas de literatura, comparadas às de gramática, são reduzidas, a proposta de ensino sugerida neste trabalho é pensada para duas aulas de 45 minutos.

Plano de aula

Temática: A morte é necessária e faz parte do ciclo da vida

Duração: 2 aulas de 45 minutos

Série: 2° ano do Ensino Médio

Objetivos:

  1. Discutir a visão singular da morte descrita em Quintana
  2. Refletir sobre a necessidade da existência da morte para impulsionar a vida
  3. Comentar brevemente a temática modernista nos poemas

Conteúdo programático:

  1. “Minha morte nasceu” (Mário Quintana)
  2. “Surpresas” (Mário Quintana)

Metodologia:

  1. Leitura oral repetidas vezes de capa poema
  2. Socialização de percepções acerca da temática dos poemas
  3. Comparação com a visão tradicional da morte;

Avaliação:

  1. Participação na leitura dos poemas
  2. Participação na discussão dos poemas

Referências:

Disponível em: https://super.abril.com.br/comportamento/morte/. Acesso em 27 de agosto de 2019.

QUINTANA, Mario. Poesias. 5ª ed. Porto Alegre. Rio de Janeiro: Globo, 1983.

QUINTANA, Mário. Esconderijos do tempo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.

Conclusão

Compreende-se que a morte, como descrita por Mário Quintana, é necessária para impulsionamento da vida e que a visão arraigada da morte que se tem é resultado de uma figura medieval e disseminada por séculos através da sociedade, da educação e da família que omitem discussões acerca da temática, mesmo compreendendo que o advento desta é inevitável.

Desta forma, percebe-se que, para que haja uma melhor aceitação da existência morte, é necessário conhecê-la, uma vez que a incompreensão e o desconhecimento de algo nos leva a temer. Logo, a educação, através da escola, reconhecendo a ausência de espaços que abordem essa temática, deve considerá-la e incluí-la nas pautas relevantes a serem discutidas, possibilitando um amadurecimento e criticidade quanto à temática, não mais omitindo-a.

Referências

ARIÈS, Philippe. História da morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

BANDEIRA, Manuel. Cinza das Horas. 3ª ed. São Paulo: Global, 2013.

GOLDSTEIN, Norma. Versos, sons, ritmos. 2ª ed. São Paulo: Ática, 1985.

QUINTANA, Mario. Poesias. 5ª ed. Porto Alegre. Globo, 1983.

QUINTANA, Mário. Esconderijos do tempo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.

QUINTANA, Mário. Rua dos Cataventos. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Rua_dos_Cataventos. Acesso em: 25 ago. 2019.

VOMERO, Maria Fernanda. Morte. Superinteressante, 31 de janeiro de 2002. Disponível em: https://super.abril.com.br/comportamento/morte/. Acesso em: 25 ago. 2019.

Publicado em 15 de dezembro de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

SILVA, Priscila Custódio de Brito; ALVES, José Hélder Pinheiro. A visão da morte em poemas de Mario Quintana e Manuel bandeira: uma proposta de ensino. Revista Educação Pública, v. 20, nº 48, 15 de dezembro de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/48/a-visao-da-morte-em-poemas-de-mario-quintana-e-manuel-bandeira-uma-proposta-de-ensino

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