A escrita mecânica e padrão do Enem: um panorama com base no atual ensino de redação no Ensino Médio

Lucas Pereira Pessin

Licenciando em Letras (UFRJ)

Não é surpresa para ninguém que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) se tornou, nos últimos anos, a prova mais importante dos vestibulandos cujo sonho é ingressar na universidade pública; não somente para os concluintes do Ensino Médio, o Enem todo ano ganha grandes repercussões no nível nacional, seja por seus números impressionantes, seja pelas polêmicas atreladas à prova. Tais polêmicas, relacionadas à formatação e à padronização do exame, acompanham a realização do certame desde sua mudança definitiva em 2010; dentre elas, a maior polêmica se encontra na redação.

O Enem existe desde 1998, inicialmente como uma prova que visava testar os conhecimentos de alunos do Ensino Médio, sem a pretensão de ingresso à universidade, até porque as universidades públicas tinham vestibulares próprios. No entanto, em 2010 a prova passou por uma drástica mudança: em dois dias de prova, os estudantes passaram a realizar 180 questões (90 questões por dia), sendo um dia destinado também à produção de texto.

São 45 questões para cada área do conhecimento teoricamente vista no Ensino Médio, de acordo com o conteúdo programático do segmento: Matemática, Linguagens, Ciências Humanas e Ciências da Natureza. Devido à sua formatação, e pela distribuição de notas, a redação foi categorizada como uma seção externa a essa categoria de questões e pontuações, passando a se tornar o item mais valorizado do exame.

Com isso, para as instituições de ensino superior que aderiram à prova como vestibular efetivo, a redação ganhou ainda mais força, devido ao fato de que é a única seção da prova que demonstra um claro raciocínio, no sentido de visualizar toda uma corrente de pensamento, coesão, coerência e lógica do participante, que procura demonstrar na redação os conteúdos práticos e reflexivos aprendidos durante a trajetória no ensino básico.

Consequentemente, a estética do Ensino Médio também foi alterada; esse novo formato prepara o aluno para as provas do Enem e outros exames seletivos, porém ofuscam a pluralidade e o sentido de identidade dos jovens, fazendo-os criar estratégias para mecanizar os conteúdos aprendidos para serem usados na prova; logo, perde-se um teor criativo essencial para o crescimento racional dos jovens. Com a mecanização, a produção textual é a maior prova disso.

A redação possui contagem clara; atribui-se uma nota de 0 a 1.000, de acordo com a pontuação obtida nas cinco competências avaliadas (cada uma valendo, no máximo, 200 pontos). Essa parte da avaliação é tão importante que todo ano algumas das redações que obtêm nota máxima são publicadas pelo jornal O Globo como exemplos a serem seguidos. A partir disso, este trabalho se direciona à mecanização da escrita no Ensino Médio detectada na produção de texto de vestibulandos nota 1.000 na redação e com entrevistas feitas por cursistas do segmento. Desse modo, busca-se sustentar a padronização da produção textual – consequentemente, da escrita, que se tornou categórica no atual Ensino Médio brasileiro.

O portal de notícias das Organizações Globo (G1.com) publicou, em 19 de março de 2019, algumas redações que alcançaram nota máxima na edição do Enem 2018. O tema solicitado foi “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet"; os trabalhos dos 55 alunos que obtiveram o melhor resultado, têm uma só estrutura do texto, ou seja, não há variação quanto à formatação do texto e a seleção argumental feita pelo candidato, sem contar vocabulário e informações genéricas.

O Enem delimita um máximo de 30 linhas para a realização da redação, além de um mínimo de sete linhas para a redação ter uma atribuição de nota diferente de zero (excluindo outros fatores que implicam a anulação da prova do candidato). Todas as redações publicadas pelo G1 são de 30 linhas e com os mesmos argumentos: traços de industrialização, contextualização por meio de séries, livros e questões histórias logo no início do texto, além de quatro parágrafos bem divididos por conectivos estabelecidos e uma escrita padrão, como pode ser visto na matéria indicada antes:

O mundo conheceu novos equipamentos ao longo do processo de industrialização, com destaque para os descobrimentos da Terceira Revolução Industrial, que possibilitou a expansão dos meios de comunicação e controle de dados em inúmeros países.

É fato que a tecnologia revolucionou a vida em sociedade nas mais variadas esferas, a exemplo da saúde, dos transportes e das relações sociais (Thaís Saeger, 28 anos).

Black Mirror” é uma série americana que retrata a influência da tecnologia no cotidiano de uma sociedade futura. Em um de seus episódios, é apresentado um dispositivo que atua como uma babá eletrônica mais desenvolvida, capaz de selecionar as imagens e sons que os indivíduos poderiam vivenciar.

A série britânica “Black Mirror” é caracterizada por satirizar a forma como a tecnologia pode afetar a humanidade. Dentre outros temas, o seriado aborda a influência dos algoritmos na opinião e no comportamento das personagens.

Segundo as ideias do sociólogo Habermas, os meios de comunicação são fundamentais para a razão comunicativa. Visto isso, é possível mencionar que a internet é essencial para o desenvolvimento da sociedade.

No livro 1984, de George Orwell, é retratado um futuro distópico em que um Estado totalitário controla e manipula toda forma de registro histórico e contemporâneo, a fim de moldar a opinião pública a favor dos governantes.

George Orwell, em sua célebre obra 1984, descreve uma distopia na qual os meios de comunicação são controlados e manipulados para garantir a alienação da população frente a um governo totalitário.

Estas são as primeiras sentenças, introdutórias, de sete redações com nota máxima que submeteram os textos ao jornal. Os termos grifados indicam justamente tal mecanização: mais de um candidato realizou contextualizações idênticas, com a mesma sentença, basicamente – como podemos perceber pelo uso da série Black Mirror e a obra literária 1984.

Além disso, encontram-se termos sinônimos que, dentro do mesmo contexto, funcionam pata designar o mesmo direcionamento do texto; dá-se, portanto, uma manifestação de informações genéricas que servem para ser aplicadas a todos os temas possíveis ao Enem, sabendo que há preferência por assuntos sociais e culturais.

A partir disso, o ensino da disciplina de produção de texto no segmento em questão fica restrito ao gênero dissertativo-argumentativo, nos moldes do vestibular. Claramente é um gênero extremamente importante para a formação do aluno que está concluindo o ensino básico; no entanto, o projeto de ensino vigente no segmento não demonstra ser eficiente, pois danifica a capacidade de escrita e textualidade do aluno. Afrânio Barbosa, professor e pesquisador da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), define:

Trabalhar com o ensino de Língua Portuguesa é muito mais do que relacionar o que é certo e o que é errado: é compreender seu funcionamento hoje e no passado, em um processo dinâmico de capacitação dos alunos para a produção de textos orais e escritos os mais variados. Falamos do aprimoramento de uma habilidade a servi-los tanto na eficiente concatenação dos tópicos para uma atividade em sala de aula quanto para uma reunião de negócios em seus futuros empregos; tanto para redação em um vestibular que venham a prestar quanto para a elaboração de relatórios técnicos em suas profissões vindouras. Falamos do aprimoramento que, pouco a pouco, conduz o alunado à formação do seu próprio estilo de escrever cartas, diários, páginas eletrônicas (Barbosa, 2014, p. 31).

As palavras de Barbosa idealizam uma prática de ensino que não existe na disciplina de Língua Portuguesa e suas vertentes: a produção de texto, considerada atualmente a disciplina mais importante, perde a essência, e seu resultado é um conteúdo mecânico baseado uma estrutura textual comum e gravada pelos alunos. Nesse caso, é comum o uso de palavras não usuais na escrita em português (ao menos em uma escala vocabular que o Ensino Médio não comporta), como “outrossim”, “urge”, “mitigar” e “destarte”.

Tais palavras, presentes em excesso nas redações publicadas, são uma ilustração do que está sendo tratado; as palavras exemplificadas não fazem parte de uma categoria recorrente, tampouco produtivas no vocabulário do português. Desse modo, palavras como as apresentadas, frequentemente usadas pelos candidatos, provam a mecanização da escrita, ou seja, o aluno utiliza certa palavra para demonstrar algum domínio de uma escrita rebuscada em contextos específicos, geralmente conectivos que iniciam parágrafos ou frases.

Desse modo, prova-se que o Ensino Médio, em produção de texto, atualmente retira a capacidade de escrita do aluno e sua identidade textual, essencial para o desenvolvimento criativo e lógico. O molde da redação é pré-programado, isto é, há uma estrutura pronta e de acordo com as contextualizações possíveis à luz dos temas sugeridos pelo próprio Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), do MEC, órgão responsável pela elaboração do Enem. Portanto, basta adequar o molde do texto ao tema solicitado, sem alterar sua estrutura.

Trata-se de um modelo de texto de 30 linhas, divididos em quatro parágrafos proporcionais (um de introdução, dois de desenvolvimento e um de conclusão) sobre um tema que, de acordo com o edital do concurso, é de projeção social, cultural, política e/ou ambiental. Por mais que estejam separadamente citadas, as temáticas são complementares; a partir disso, professores de redação, juntamente com cursos preparatórios e colégios de ensino técnico e regular, desenvolvem mecanismos para que o texto tenha um direcionamento cultural e/ou histórico superficial, argumentos complementares e repetitivos. Por fim, que haja uma conclusão que abarque a contextualização seguida por uma proposta de intervenção, característica da prova.

O projeto de mecanização, em diversas escolas, ocorre desde o fim do Ensino Fundamental II, para que ao final dos três anos de Ensino Médio o aluno esteja “habituado” com a estética de texto necessária para ser aprovado no vestibular. Com base nisso, foram entrevistados dois alunos de Ensino Médio: uma aluna da 1ª série e um aluno da 3ª série. O objetivo da entrevista é obter relatos de experiência desses alunos com o ensino de redação na escola.

As propostas educacionais em redação, de acordo com a estudante da 1ª série do Ensino Médio de uma escola privada na Ilha do Governador, zona norte do Rio de Janeiro, giram em torno do Enem. A aluna afirmou que desde cedo ela e seus colegas são familiarizados com o modelo do vestibular, usando somente esse método.

A declaração dela diz respeito à sua experiência pessoal, de que o Enem é o principal parâmetro do conteúdo dado, imponto demarcações de “certo” e “errado” em uma redação padrão. Progressivamente, a professora da aluna cita o vestibular e a importância de estarem adaptados à metodologia do exame, direcionando o conteúdo dado para o vestibular via Enem. A aluna declara que a turma tem dificuldades de lidar com essa nova estética, baseada em textos sobre atualidades e desses textos tirar os argumentos e produzir ideias sintetizadas que enriqueçam as 30 linhas.

À medida que o aluno avança de série e fica mais próximo do vestibular, tal direcionamento da redação é intensificado. Um aluno que cursa a 3ª série do Ensino Médio em um colégio público em Nilópolis (na Baixada Fluminense), que cursou os dois anos iniciais do segmento em escola privada, respondeu às perguntas feitas à aluna da 1ª série, trazendo um comparativo entre escola pública e privada nesse aspecto.

Na escola particular, desde cedo eles preparam o aluno para o Enem, com recomendações de filmes, livros e filósofos, com o intuito de encaixá-los na proposta de redação do Enem, prezando sempre pelos temas mais abrangentes, de modo contextualizado. A cobrança de redação é intensa e requer muito esforço por parte do aluno; nesse caso, o único conteúdo visto é o modelo dissertativo-argumentativo do Enem desde o início do Ensino Médio. Os alunos são estimulados a procurar redações nota 1.000 para seguir o exemplo; no caso, a escola onde ele estudou fazia cursos extras de redação, a fim de analisar redações padrão para o exame, além de incentivar a mecanização da escrita, de modo que se pareça com as escritas modelo.

Por outro lado, esse aluno afirma que o ensino público é uma realidade muito distinta daquela apresentada. Neste último, não há ensino de produção textual, muito menos estímulos para a prova do Enem. Há conteúdo dado, mas de uma forma que não é preparada para o vestibular e para a aplicação desses conceitos futuramente; reafirma-se uma grande crise no ensino público do Rio de Janeiro. O aluno reafirma a discrepância entre as realidades apresentadas, alegando gostar e se sentir preparado com a bagagem dada pelo colégio particular onde estudou a 1ª e a 2ª séries.

Franchi (2006, p. 11) define que o objetivo fundamental da escola é levar os jovens a produzir textos e compreendê-los de modo criativo e crítico. Entretanto, como bem visto, o atual ensino de produção de texto está longe dessa idealização de Franchi e Barbosa. A redação tornou-se uma disciplina curricular extremamente valorizada, porém é a matéria que permite o maior índice de mecanização, padronização e restrição dentre todas.

Portanto, no ensino de produção de textual visa muito mais tornar-se mecânica e padrão do que criativa e crítica, como deveria ser. Com esse panorama, prova-se que a metodologia de redação não está preocupada com a formação do aluno, mas em como o objetivo de passar no vestibular será realizado, nem que seja padronizando a escrita dos alunos.

Dinah Callou (2014, p. 14-15), professora e pesquisadora de Língua Portuguesa, defende que a formação do profissional de Língua Portuguesa deve ser radicalmente modificada para que haja melhoria no ensino, com uma bagagem mais crítica do que mecânica, logicamente tendo uma colaboração externa, como o Enem. Por fim, com base nas redações nota 1.000 e nas entrevistas concedidas pelos estudantes, prova-se que o ensino de redação não cumpre seu objetivo e retrata a educação básica: um local onde a produção e a mecanização do saber são mais importantes do que o próprio conhecimento e suas aplicações.

Referências

AMORIM, Paula Renata. Leitura e escrita na pré-escola: superação da mecanização por meio de situações reais de leitura e escrita. Nuances, São Paulo, v. V, p. 104-110, jul. 1999.

BARBOSA, Afrânio Gonçalves. Saberes gramaticais na escola. In: VIEIRA, Silvia Rodrigues; BRANDÃO, Silvia Figueiredo (Orgs.). Ensino de gramática: descrição e uso. 2ª ed. São Paulo: Contexto, 2014. p. 31-54.

CALLOU, Dinah. Gramática, variação e normas. In: VIEIRA, Silvia Rodrigues; BRANDÃO, Silvia Figueiredo (Orgs.). Ensino de gramática: descrição e uso. 2ª ed. São Paulo: Contexto, 2014. p. 13-29.

CUNHA, Celso. A questão da norma culta brasileira. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1985.

ENEM 2018: leia redações nota mil. Educação G1. Disponível em: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2019/03/19/enem-2018-leia-redacoes-nota-mil.ghtml. Acesso em: 23 jun. 2019.

FRANCHI, Carlos. Mas o que é mesmo gramática? São Paulo: Parábola, 2006.

POSSENTI, Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas: Mercado das Letras, 2004.

RODRIGUES, Violeta Virginia (Org.). Gramaticalização, combinação de cláusulas, conectores. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2013.

Publicado em 04 de fevereiro de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

PESSIN, Lucas Pereira. A escrita mecânica e padrão do Enem: um panorama com base no atual ensino de redação no Ensino Médio. Educação Pública, v. 20, nº 5, 4 de fevereiro de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/5/a-escrita-mecanica-e-padrao-do-enem-um-panorama-com-base-no-atual-ensino-de-redacao-nas-escolas