História da leitura

Lívia Carvalho Teixeira Lins

Mestre em Linguística, (UFPB), graduada em Comunicação Social e Letras, professora de Língua Portuguesa e Língua Inglesa na rede estadual de ensino da Paraíba

Analisando a escrita como “testemunha imortal”, Steven Roger Fischer conduz a um passeio sobre os mais remotos relatos da história da escrita e da leitura, seu processo de evolução desde os mais antigos acervos em argila ou papiro até os dias de hoje. Apesar da dificuldade para precisar um ponto de partida que aponte seu real surgimento, o texto mostra os caminhos percorridos pela escrita e pela leitura, a contribuição das antigas civilizações da Mesopotâmia e do Egito, como também da religião na sua história, tornando-se essencial para pensarmos sobre leitura e leitor hoje.

A escrita é apresentada por Fischer (2006, p. 9) como a “testemunha imortal”, pois transformou a palavra humana em pedra, distinguindo a escrita e a leitura como sendo, respectivamente, habilidade e aptidão. “A escrita prioriza o som, uma vez que a palavra falada deve ser transformada ou desmembrada em sinais representativos”. Questionando o que é a leitura, o autor afirma que essa é não uma resposta simples, “pois o ato de ler é variável, não absoluto” (Fischer, 2006), Para que se torne efetiva, depende de alguns fatores, como a interpretação e a capacidade de retirar sentidos dos símbolos que ali estão colocados.

A decodificação está presente desde a sociedade ancestral e se apresentou de forma mnemônica e imagética ao homem de Neanderthal e aos Homo sapiens sapiens que liam as pinturas rupestres e as fissuras que eram feitas nos ossos, os incas que liam os nós de quipo, os polinésios que decodificavam informações de registros em cordas. Fischer (2006, p. 14) conceitua a escrita como “a sequência de símbolos padronizados (caracteres, sinais ou componentes de sinais) com a finalidade de reproduzir geralmente a fala e o pensamento humano”.

Existem relatos das mais diversas formas de decodificação desde a Antiguidade clássica; no entanto, a escrita completa tardou a fixar-se. Os pictogramas (representações de objetos e conceitos traduzidos em uma forma gráfica simplificada) converteram-se em representações padronizadas; em seguida, os escribas sumérios passaram a sistematizar sons e símbolos, indicando o nascimento de um sistema de escrita. Surgiu a leitura, convencionada e intencional: a compreensão de um sinal pelo seu valor sonoro. A escrita não está mais restrita à indicação de um objeto por meio de uma palavra, mas a um seguimento lógico de sons.

As sociedades antigas faziam uso da escrita para condensar informações, auxiliar na contabilidade, armazenar materiais e preservar nomes, datas e lugares, enquanto a leitura estava direcionada à execução de tarefas. Os textos da Mesopotâmia, em sua maioria, foram escritos em forma de cunha na argila amolecida (Fischer, 2006, p. 16), conhecida como “literatura de argila”; dificilmente se encontravam os sinais em cunha escritos com tinta em papiro, como era comum no Egito.

Uma pequena parcela da população tinha aptidão à leitura; os escritos estavam em tabuletas de argila, objeto grande e pesado. “De 1850 a 1550 a.C., a cidade-Estado babilônia de Sippar, com cerca de dez mil habitantes, abrigava apenas 185 chamados ‘escribas’ (ou seja, escritores oficiais em tabuletas); entre eles, dez eram mulheres”. A leitura não estava associada a algo prazeroso, interessante ou solitário, mas acima de tudo ao trabalho. Os escritos contidos nessas tabuletas eram considerados incontestáveis, e se houvesse dúvida sobre eles caberia punição a quem duvidasse.

O acádio era utilizado como idioma literário, e a língua falada era o babilônio e o assírio. “Toda a tradição babilônica é transmitida nesses dois idiomas: sumério e acádio” (Fischer, 2006, p. 18).

Os livros eram constituídos por inúmeras tabuletas, organizadas em malas de couro ou caixa de madeira. Os escribas que tinham a missão de ler esses livros eram figuras de extrema responsabilidade na sociedade da época.

A deusa dos escribas, Nisaba, tinha como símbolo o estilete pontiagudo, pois era o ato de registrar que personificava a função primordial do escriba, não o ato de ler-declamar (Fischer, 2006, p. 19).

Os escribas, além de serem figuras importantes, eram fundamentalmente tabeliães do seu tempo, taquígrafos, burocratas, secretários etc. Além de todas essas funções, eram leitores ativos de senhores iletrados. Para se tornar um escriba profissional, o jovem deveria estudar dos seis aos dezoito anos, durante vinte e quatro dias de cada trinta, da manhã ao fim da tarde. Nesses estudos, aprendia a ler e a escrever, Matemática, História, religião e contratos. Aqueles que prestassem falso testemunho eram condenados à morte (Fischer, 2006).

A escrita sumério-acádia se tornou conhecida pela abundância e disseminação de gêneros orais. A literatura acádia se destacou em preces e conjurações. Havia ainda a escrita que detinha poderes mágicos e que só poderia ser lida por seres sobrenaturais.

As contribuições do Egito à história da leitura são de extremo valor. A maioria de seus textos antigos foram escritos em forma métrica. Durante o Médio Império, surgiu a literatura da sabedoria, hinos e o aprofundamento na Medicina, Matemática, magia e Astronomia. No período do novo Império, foram introduzidos na literatura egípcia poemas, histórias folclóricas e textos religiosos, entre outros. No entanto, predominavam os textos didáticos, e as cartas sempre tiveram importância notável em todos os níveis da sociedade (Fischer, 2006).

Para a sociedade da época, a leitura dos hieróglifos egípcios desfrutava poderes mágicos; era como se o próprio espírito fosse transmitido. Dentro desse contexto cultural, existia a leitura imortal, a que ficava fixada nas paredes dos templos; a leitura sobrenatural, que estava nos sarcófagos; e o livro dos mortos.

A era da escrita cuneiforme chegou ao fim com o surgimento da escrita aramaica, com os fenícios, entre os séculos X a VII a.C., feita à tinta em couro ou papiro.

A religião contribuiu significativamente para a história da leitura e para o processo de alfabetização. A escrita foi utilizada como um meio efetivo de preservar e transmitir a sabedoria sagrada.

A escrita e a leitura são reconhecidas pela sociedade como forma de comunicação e conhecimento; sua história avança para além-texto. Dessa forma, não conseguirmos precisar a ordem cronológica dos seus registros iniciais de forma sistemática, no entanto, o texto de Fischer apresenta importantes dados históricos para pensar no surgimento e na difusão da escrita e da leitura.

Referência

FISCHER, Steven Roger. A testemunha imortal. In: FISCHER, Steven Roger.  História da leitura. Trad. Cláudia Freire. São Paulo: Ed. Unesp, 2006. p. 09-40.

Publicado em 04 de fevereiro de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

LINS, Lívia Carvalho Teixeira. História da Leitura. Educação Pública, v. 20, nº 5, 4 de fevereiro de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/5/historia-da-leitura