Linguagem coloquial e culta na língua portuguesa: onde e quando o "pobrema" não é problema

Rodrigo Carvalho da Cruz

Mestrando em Ciências da Educação (Iscecap)

No atual cenário de estudos linguísticos, a Língua Portuguesa tem sido expressivamente um campo de notória investigação, devido à sua natureza diversificada e amplamente difundida, articulada e diversificada, tanto no Brasil quanto no mundo. Segundo a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), fundada em 1996, os países que falam oficialmente a Língua Portuguesa são: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste, além de regiões interdependentes como: Macau (China), Goa e Damão (Índia), e Malaca (Malásia).

Diante de grande esforço e empenho em unificar as regiões do mundo onde a Língua Portuguesa é falada, houve propostas de acordos ortográficos que visavam aproximar as culturas mediante seu idioma comum. Assim, as mudanças geradas devido a tais propostas surtiram efeito (e continuam surtindo) na forma com que as pessoas se comunicam e, mais especificamente, como aulas vêm sendo ministradas, em que as formas com que a língua sofre alterações – aspectos linguísticos (semântica e sintática) e não linguísticos (geográficos, sociais, culturais) – inevitavelmente refletem na forma de expressar-se e de transmitir e compartilhar informações. 

Não são raras as ocasiões em que a prática de diálogos, seja ela oral, escrita e/ou gestual, apresenta equívocos de concordância morfológica, caracterizando-se pela informalidade linguística. Esses são momentos em que o que realmente importa é a transmissão da mensagem e sua compreensão fidedigna, de forma direta e coerente, em que as adequações gramaticais apenas exercem momentaneamente a forma de detalhe ostensivo do contexto de conversação.

Notoriamente, a conversação culta não é inviável, muito menos exclusiva; no entanto, diante da agilidade da expressão e transmissão de pensamentos, através da fala e/ou gestos (Libras, por exemplo), acaba-se muitas vezes ignorando, quando não desconhecendo, regras e determinações gramaticais que adequassem a comunicação à eloquência comunicativa.

Periodicamente, estudiosos e docentes, dentre outros engajados com o processo de ensino-aprendizagem da Língua Portuguesa, contribuem com seus conhecimentos em prol de novas discussões e perspectivas quanto à prática da conversação e de sua forma de ensino acadêmico, levando em consideração sua heterogeneidade, diversidade e pluralidade. No entanto, ainda há aqueles que contemplam e buscam preservar o tradicionalismo de uma língua padrão, em relutação às variantes linguísticas que, naturalmente, surgem com a evolução de uma sociedade e seus mais variados meios de comunicação.

Ao estabelecer resistência entre normas gramaticais, em contrapartida às evidências de expressão comunicativa, logo se culminam situações de hostilidade comunicativa, como preconceitos linguísticos e, consequentemente, a exclusão de indivíduos em momento de comunicação, rotulando suas expressões como rústicas, inferiores, ignorantes e comumente tachadas como erradas. Diante da possibilidade dessa ocorrência, a escola, sendo formadora de cidadãos críticos, deve apresentar todas as possibilidades de expressão, bem como sua história, análise e adequações, além de trabalhar a apreciação de regionalismos, gírias e expressões populares como marca de uma sociedade e não apenas contemplar a envergadura de uma norma padrão, mais excludente do que unificadora, discutir amplamente o uso da língua, a culta ou a coloquial, de maneira a promover o respeito aos contextos de formação social e suas mais diversas localizações espaciais.

Destarte, o estudo aqui proposto busca apresentar, de maneira panorâmica, os principais contrastes comunicativos da língua portuguesa e as proporções que eles expressam à sociedade como forma de reflexo do que fora apreendido em período de formação básica e enraizado na cultura linguística brasileira, como forma de expressão “certa” ou “errada” em momentos e situações de comunicação.

O estudo lançou mão de uma pesquisa qualitativa voltada à revisão bibliográfica de produções desenvolvidas à área do estudo em foco.

A primeira seção, Referencial teórico, traz a apresentação das principais contribuições teóricas de estudiosos das principais áreas linguísticas e gramaticais em análise da língua portuguesa e as principais impressões e marcas da expressividade linguística da língua vernácula brasileira. Em seguida, temos a explanação acerca da abordagem metodológica utilizada no estudo, bem como as suas especificidades. Posteriormente, o estudo apresenta uma discussão geral acerca do que fora apresentado e, por fim, uma conclusão das principais inferências.

Variantes linguísticas ou dialéticas

As variantes linguísticas e dialéticas de um idioma originam-se das contínuas relações comunicativas atreladas a fatores externos e quantitativos de uma população. Segundo dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), o Brasil possui uma população de mais de 210 milhões de indivíduos, distribuídos em um território de proporções continentais, possuindo influência, ainda ativa, de povos indígenas e ramificações estrangeiras de origem africana, europeia e norte-americana, sem falar das contribuições históricas (uso e desuso de termos e a criação de novas expressões), o que influencia a evolução de termos e expressões linguísticas passadas e atuais.

Calvet (2004, p. 110) apresenta o impacto desses fatores citados acerca das expressões comunicativas, especialmente da língua portuguesa.

A linguagem sofre mudanças constantemente através do tempo, podemos citar por exemplo a palavra “Você”; antigamente era Vossa Mercê, que se transformou sucessivamente em Vossemecê, Vosmecê, Vancê e, com o passar do tempo, foi sendo modificada, por populações, culturas, povos diferenciados, entre várias outras palavras que ao longo do tempo vai sofrendo variações.

Diante desses aspectos, torna-se comum deparar-se com linguajares diversificados de uma região a outra ou até mesmo de cidades próximas às outras. Essa expansão e essa expressividade linguística contribuem significativamente para a complexidade do idioma, bem como a de seus dialetos.

Tendo a escola como centro de referência para o ensino da língua vernácula, muitas vezes tal ensino contempla soberanamente a linguagem culta, com vista às regas e normas gramaticais padrão, eximindo-se das diferenças linguísticas e rotulando-as como termos e expressões inferiores.

Tem-se, então, a dicotomia entre norma culta e expressividade linguística acerca do universo linguístico dos indivíduos, em que o falar/escrever “certo” sobrepõe-se às variantes linguísticas, transmitindo a dualidade sintática que, muitas vezes, torna a compreensão e o domínio das habilidades linguísticas uma tarefa árdua e displicente.

Níveis de linguagem e influências ambientais

Geográficas (regionalismo)

Muitos aspectos comunicativos de um idioma são atribuídos às características externas e espaciais da região onde o idioma é falado. Em muitos casos, a língua recebe tanta influência que acaba confundindo outros falantes em regiões diferentes de um mesmo país.

Nessa perspectiva, Santos (2018) afirma:

O espaço físico onde interagimos é um campo de atividade social de grande magnitude, principalmente quando se refere à atuação linguística que, por natureza, se concretiza no terreno geográfico onde suas qualidades geológicas e produtivas influenciam significativamente em nossa maneira de se comunicar, de se comportar, de agir, de viver (Santos, 2018, p. 5).

A expressividade do espaço geográfico sobre a forma com que nos comunicamos é naturalmente receptiva; em regiões de floresta densa, por exemplo, a linguagem local/regional será repleta de terminologias que farão menção às especificidades da natureza local, como planaltos, serras, colinas, reservas, canais aquáticos, clima, dentre outros.

Na medida em que as diferentes comunidades encontram-se, a linguagem fica cada vez mais enriquecida, sendo o uso coletivo de determinadas expressões a mãe do surgimento de neologismos, ou seja a ‘implementação’ de determinados termos de um idioma, como criação ou reestruturação de seus significados.

Sociológicas (classe social)

Conforme as relações sociais desenvolvem grande fluxo de informações, torna-se inevitável eximir no momento da fala termos que se referem aos avanços científicos, culturais, sociais de uma nação. Tem-se, então, a criação de novas palavras e expressões que condizem com a necessidade de nomear novos bens de consumo e entretenimento, como o advento do estrangeirismo, ao atribuir valores linguísticos de produtos e bens de serviço por intermédio da língua do país de origem, como é o caso de internet, pendrive, hot-dog, videogame, shampoo, dentre outros exemplos da miscigenação cultural.

Santos (2018, p. 6) ainda expõe:

Toda sociedade é heterogênea, ou seja, ela é portadora de diferentes tipos de cenários onde as ações humanas podem se manifestar: cenários culturais, religiosos, artísticos, profissionais, de lazer, comerciais etc., e entre esses cenários há um elemento divisor de águas que difere entre si e estabelece limites de comportamentos que acabam restringindo, de certa forma, o desenvolvimento da outra, são as classes sociais dos indivíduos. O modo de comunicação das diferentes classes sociais se estabelece perante o modo de vida dos falantes e das formas de expressões características das mesmas. Tem-se, superficialmente, disseminado a ideia de que, dependendo da classe social, pode-se estabelecer um determinado linguajar para cada uma delas; todavia, essa ideia acaba entrando em contradição ao inferir-se que mesmo inseridos em uma classe social específica um ou mais indivíduos podem possuir e exercer maior ou menor domínio linguístico em qualquer classe social.

Conforme visto, a inserção dos indivíduos em diferentes classes sociais não pode inferir que os indivíduos sejam aptos a exercer a comunicação rotulada como certa ou errada, sendo o posicionamento crítico dos falantes independente de seu espaço social; trata-se das adequações e conformidades da língua estabelecidas não para excluir, mas para atribuir coesão e coerência em momento que necessitam de maior ou menor dedicação de atenção.

Contextuais (tipo de assunto e de ouvinte)

As ocasiões e lugares em que exercemos a linguagem requerem atenção quanto ao linguajar empregado. Quando nos reportamos a terceiros ou nos dirigimos a estabelecimentos que possuem determinado grau de credibilidade e respeito e segurança, como estabelecimentos jurídicos, financeiros e de segurança, dentre outros, a linguagem empregada deverá ser a mais coerente e clara o possível, eis a impressão de que a linguagem culta restrinja-se a esses locais e que em momento de informalidade ela não possa ser aplicada, pois o individuo que assim o fizer será alvo de zombaria, pois popularmente não é necessário fazer uso de termos rebuscados em uma conversação momentânea.

O debate acerca adequações comunicativas é alvo de inúmeros impasses, haja vista que a comunicação falada e escrita nem sempre estabelece consenso capaz de satisfazer ambas as áreas.

Eis a intervenção da escola como agente intermediário dessas discussões. Os próprios alunos devem ser os agentes formadores dessas discussões frente às contribuições dos grandes estudiosos, e não ser indivíduos passivos acerca do que fora estabelecido como certo ou adequado.

Cagliari (2007, p. 37) expõe:

A escola comumente leva o aluno a pensar que a linguagem correta é a linguagem escrita, que a linguagem escrita é por natureza lógica, clara, explícita, ao passo que a linguagem falada é por natureza mais confusa, incompleta, sem lógica etc.; nada mais falso. A fala tem aspectos contextuais e pragmáticos que a escrita não revela, e a escrita tem aspectos que a linguagem oral não usa.

Conforme visto, a escola muitas vezes peca em promover um ensino passivo, em que o aluno é interpretado como um agente da instituição em que apenas deve prestar atenção e assimilar os conceitos ali expostos, sem poder ter vez ou voz ativa em seu próprio processo de aprendizagem comunicativa.

Níveis de linguagem

Registro formal – nível culto

A linguagem culta, tida ideologicamente como “certa”, é conceituada por Faraco (2008) como “o conjunto de fenômenos linguísticos que ocorrem habitualmente no uso dos falantes letrados em situações mais monitoradas de fala e escrita”, isto é, conforme uma sociedade atribui determinados valores à linguagem, esta será utilizada como divisora de águas, em que quem conseguir dominar ou, ao mínimo, conhecer suas regras terá o nível de indivíduo letrado e capacitado para discernir entre certo e errado da língua. De certa forma, o senso comum estabelece, em suas mais variadas situações sociais, quais as funções práticas do idioma.

Registro comum – nível familiar ou coloquial

É no seio familiar que os indivíduos realizam seus primeiros contatos sensitivos e produzem suas primeiras expressões de linguagem. Tendo em vista o grande tempo que passam compartilhando informações entre si, muitas são as formas e expressões desenvolvidas sobre a linguagem.

Conforme expresso em Vasconcelos (2012, p. 22), a linguagem familiar é

utilizada pelas pessoas que, apesar de conhecerem a língua, fazem uso de um nível menos formal, mais cotidiano. O vocabulário é comum e a obediência às normas gramaticais é relativa, admitindo-se algumas construções típicas da linguagem oral e até mesmo o uso consciente de gírias.

A linguagem familiar varia conforme a composição dos grupos familiares. No entanto, ela não pode ser subestimada, haja vista sua função primordial de apresentar ao indivíduo os primeiros estímulos comunicativos, bem como a dedicação por uma formação comunicativa compreensível e sadia.

Registro informal – nível popular

A linguagem popular surge diante das múltiplas relações comunicativas entre os indivíduos de diferentes espaços e núcleos sociais. Essa comunicação compõe o senso comum, tende a ser coloquial e, muitas vezes, impulsiona o surgimento de termos comuns que descrevem situações pertinentes às relações estabelecidas, como gírias, jargões e figuras de linguagem, dentre outras manifestações e expressões linguísticas.

Vasconcelos (2012, p. 23) sugere que a linguagem informal é

utilizada pelas pessoas de baixa escolaridade ou mesmo analfabetas, mais frequentemente na forma oral e raramente na escrita. O vocabulário é restrito, com larga penetração da gíria, onomatopeias e formas deturpadas (pobrema). Não há preocupação com as regras gramaticais de flexão, concordância etc.

Diante do excerto, observa-se que a mutação de termos originais é fruto da má formação acadêmica e não uma mera opção de comunicação. A alteração expressa pelo termo “pobrema” faz menção à forma com que o indivíduo conseguiu assimilar a expressividade linguística diante dos múltiplos empecilhos de sua formação acadêmica.

Assim, o preconceito linguístico se manifesta diante da desconsideração de toda a trajetória de vida de um indivíduo que não expressa adequadamente os termos propostos de maneira padrão no idioma, isto é, ele é alvo de críticas por não ter tido a oportunidade de aprimorar suas habilidades comunicativas em tempo e espaço adequados.

Para Bagno (2007), o preconceito linguístico se forma diante da dicotomia entre indivíduos com acesso aos meios escolares e os que estão à margem deles:

Como a educação ainda é privilégio de muito pouca gente em nosso país, uma quantidade gigantesca de brasileiros permanece à margem do domínio de uma norma culta. Assim, da mesma forma como existem milhões de brasileiros sem terra, sem escola, sem teto, sem trabalho, sem saúde, também existem milhões de brasileiros sem língua. Afinal, se formos acreditar no mito da língua única, existem milhões de pessoas neste país que não têm acesso a essa língua, que é a norma literária, culta, empregada pelos escritores e jornalistas, pelas instituições oficiais, pelos órgãos do poder — são os sem-língua (Bagno, 2007, p. 16).

Atribui-se à linguagem o dom da sabedoria, em que aquele que não a detém é alvo de críticas pejorativas independentemente de suas condições sociais para tal aquisição. Essa situação se justifica pela necessidade de ascensão social de um país em pleno desenvolvimento e em busca de melhorias sociais, em que aquele que não se comunica bem não está se esforçando para que a nação avance diante de todo um contexto mundial.

Nível culto

Linguagem padrão oficial

Incontestavelmente, todo idioma organiza-se em meio a uma estrutura própria para que a comunicação possa manifestar-se claramente entre seus indivíduos falantes. Tal organização intitula-se gramática normativa. Inserida em tal conjetura regulamentária, a norma-padrão se refere à norma culta da língua, sendo esta de direito, pelo menos em teoria, de todos os falantes de uma sociedade organizada.

A prática da comunicação por meio da norma culta da língua portuguesa, por parte de todos os cidadãos brasileiros, ainda é uma utopia, pois a expressividade do status de “forma de prestígio” está impregnada de dificuldades formativas, acadêmicas e preconceitos, dentre outras; acaba que a norma culta se apresenta como uma linguagem estética, em que a comunicação rebuscada estagna-se e se limita àqueles que a praticam sem a perspectiva de evolução, haja vista a constante agressividade que ocorre nos diversos meios comunicativos, eximindo-a de uma tentativa natural de mudança, até porque quem a exerce inconscientemente não busca alterar o que não sente ser necessário.

Nível popular

Registro informal

A linguagem informal ocorre diante da familiaridade entre os interlocutores em momentos e ocasiões comunicativas. Para Corado (s/d, p. 1),

linguagem informal é aquela em que se usa o padrão informal da língua, ou seja, é aquela usada em situações que não requerem tanto rigor, como nas conversas com amigos ou com a família. É bom ressaltar que não existe um padrão certo e um errado. O certo é você adaptar sua fala de acordo com a situação.

Conforme o exposto, a linguagem não pode ser um elemento utilizado para definir ou denegrir a inteligência ou caráter dos indivíduos. Ela deve ser utilizada de forma a estabelecer compreensão comunicativa com vista à coerência dos fatos e situações expressadas, em que, na ocorrência de equívocos ou de falta de compreensão dessa base comunicativa, os indivíduos não recorram à subestimação da natureza humana, para que se evitem situações de menosprezo e constrangimento.

Vícios de linguagem

Presente em todos os idiomas, os vícios de linguagem são expressões comunicativas que comumente contrariam a norma culta de uma língua. Os vícios de linguagem estão presentes em ciclos de conversas rotineiras e usuais, em que os indivíduos recorrem aos mesmos termos inadequados para expressar intenções, intervenções, desejos, dentre outros.

Essas expressões são naturais e nem sempre são mensuráveis aos preceitos gramaticais, ocorrendo aleatoriamente e em momentos especiais, em que os interlocutores buscam contemplar o que falam com palavras que superem seus significados originais como forma de demonstrar elevados níveis de compreensão ou de engrandecimento do que falam.

Regionalismos

Ao tratar as formas com que a língua portuguesa se manifesta em solo brasileiro, faz-se necessário levar em consideração a magnitude geodemográfica da nação e a miscigenação ocorrida ao longo dos séculos, em eventos abruptos e naturais que marcaram a história.

A difusão de todas as variações linguísticas de um idioma acerca de um mesmo aspecto comunicativo culmina nos regionalismos, em que os indivíduos atribuem diferentes formas de expressar a elementos existentes comumente acessíveis a todos. O regionalismo pertence ao nacionalismo, mesmo que se apresentem comumente como elementos distintos. Para Werlen (2000, p. 7),

o nacionalismo e o regionalismo são duas dessas formas extraordinariamente importantes. Ambos são expressões de uma combinação específica de “sociedade” e “espaço”. Ao mesmo tempo, ambos são parte dos mais problemáticos fenômenos do presente.

De fato, o regionalismo é parte constituinte de um idioma, suas peculiaridades evidenciam a diversidade da comunicação de um mesmo idioma; não deve ser ignorado ou sobreposto a conceitos comunicativos do próprio idioma; deve, sim, compartilhado pela unidade linguística.

Metodologia

A metodologia adotada para a realização desse estudo fundamenta-se nos pressupostos teóricos de pesquisa qualitativa, com ênfase na revisão bibliográfica, referente a produções especificamente voltadas à temática investigada.

Moresi (2003, p. 64) descreve a natureza da pesquisa qualitativa:

Esta técnica de pesquisa também deve ser usada quando se quer determinar o perfil de um grupo de pessoas, baseando-se em características que elas têm em comum (como demográficas, por exemplo). Através de técnicas estatísticas avançadas inferenciais, ela pode criar modelos capazes de predizer se uma pessoa terá uma determinada opinião ou agirá de determinada forma, com base em características observáveis.

Para Bento (2012, p. 1),

a revisão da literatura é uma parte vital do processo de investigação. Aquela envolve localizar, analisar, sintetizar e interpretar a investigação prévia (revistas cientificas, livros, actas de congressos, resumos, etc.) relacionada com a sua área de estudo; é, então, uma análise bibliográfica pormenorizada, referente aos trabalhos já publicados sobre o tema. A revisão da literatura é indispensável não somente para definir bem o problema, mas também para obter uma ideia precisa sobre o estado actual dos conhecimentos sobre um dado tema, as suas lacunas e a contribuição da investigação para o desenvolvimento do conhecimento.

Assim, a pesquisa engloba uma investigação concentrada nas peculiaridades e manifestações da língua portuguesa na atualidade, versando sobre a importância de analisar os contextos formativos de outrora com os contemporâneos.

Resultados e discussão

A partir da análise embasada nos estudos aqui levantados, evidencia-se que a manifestação da língua portuguesa ainda enfrenta grande relutância no que se refere à sua disseminação em território brasileiro, onde quem se expressa de maneira “errada” é considerado indivíduo desprovido de inteligência e de capacidade comunicativa, quando não intelectual.

Essa interpretação se dá diante do estabelecimento das funções linguísticas em contrapartida às concepções gramaticais; por um lado, um estudo evidencia as falhas do processo de escolarização dos indivíduos e o outro expõe a inexorável necessidade de se expressar de maneira “certa” sobrepondo todos os demais aspectos.

Essa conjetura identifica um grande agravante nos processos formativos da língua portuguesa, isto é, o cumprimento do papel formador da escola, bem como as orientações dos professores de língua portuguesa ao alunado brasileiro, em que questionamentos como “como lidar com expressões comunicativas diferentes?” ou “Por que há pessoas que falam ‘pobrema’ ao invés de problema?”, dentre outras, ainda são alvo de críticas, pois se torna mais fácil criticar negativa e pejorativamente a forma como os indivíduos se expressam na língua do que investigar os obstáculos que os impediram de desenvolver as habilidades de comunicação na forma padrão.

O ensino da disciplina de Língua Portuguesa, muitas vezes, limita-se à expressão gramatical, haja vista essa ser a zona de conforto de muitos autores gramáticos, em que nada mais acatador do que proferir um ensino regrado e normativo, excluindo-se as variantes que o idioma possui, especialmente em se tratando do Brasil e sua grandiosidade comunicativa.

Um dos grandes mitos do ensino da língua portuguesa no Brasil é conceber e admitir que o ensino da norma culta deva estar focado na língua portuguesa de Portugal, eximindo a evolução da natureza vernácula do idioma em território brasileiro e dissipando a rejeição pela influência de dialetos estrangeiros que foram forçados a se enraizar no Brasil e que hoje exercem significativa contribuição ao idioma. Por exemplo, há nomes de cidades de origem tupi-guarani, nomes de comidas típicas de origem africana, dentre outros registros vivos da disseminação linguística e cultural de outros lugares do mundo.

Faz-se necessário intervir em tal ensino em prol da melhor apreciação dos fatos que culminam e compõem hoje a língua portuguesa utilizada no Brasil, demonstrando que a norma culta da língua não deve ser imposta, mas, sim, apresentada concomitantemente às demais variedades linguísticas.

Conforme discutido, a norma culta não deve ser ensinada com o intuito de aniquilar as variações linguísticas, mas sim de maneira a unificar uma ordem comunicativa comum a todos os indivíduos que necessitarão dominá-la diante da necessidade de adequação comunicativa que a vida apresentará.

Conclusão

Levando em conta tudo que foi apresentado e discutido aqui, é possível inferir que a abordagem linguística ensinada com foco gramatical e normativo em escolas do Brasil tende a oportunizar lacunas formativas que acabam se tornando futuras incompreensões acerca do modo com que se expressa o idioma, tornando latentes os termos “certo” e “errado”, “esperto” e “burro”, dentre outros de natureza pejorativa, o que acaba dificultando, mais ainda, tal aprendizado e apresentando, equivocadamente, o idioma português como se fosse uma nova língua, além de marginalizar e subestimar o linguajar próprio de uma variedade linguística em vez de ao menos apresentá-la como elemento de estudo em sala de aula, ou seja, estigmatizando o expressar “errado” como tabu.

Nesse sentido, faz-se necessário aprimorar as habilidades de estudos com foco na expressividade linguística e gramatical da língua portuguesa, definir o real papel de tal ensino, sua aplicabilidade, necessidade, valores e extensões, variedades e assumir, sobretudo, a legitimidade da língua portuguesa brasileira sem que isso fira a hegemonia da língua pelo mundo, haja vista a intenção primordial de buscar equilíbrio e avanço das práticas comunicativas e não mais confundir os indivíduos com novos acordos ortográficos quando parte da população sequer conseguiu assimilar os anteriores.

Diante da expressividade que a língua portuguesa apresenta em solo brasileiro, o ensino dela, como disciplina formativa do ensino básico, deve oportunizar orientações que ressaltem que a norma padrão é uma das modalidades de grande relevância de aprendizagem, mas que não é a única, pois outras formas de expressão são válidas, compreensíveis e plausíveis; e dentre todas a norma padrão exigirá maior engajamento por requerer do indivíduo condutas comunicativas coerentes com a do interlocutor, independentemente de onde residir no Brasil.

Outros aspectos também podem influenciar a forma como os indivíduos se comunicam. Têm-se, assim, agravantes que intervêm no papel do ensino-aprendizagem de uma língua a partir de, por exemplo, condições econômicas dos indivíduos, status sociais, funções sociais, religiosas e culturais, dentre outras que acabam exercendo significante predominância sobre o que “pode ou não ser dito”, mesmo que isso não faça menção a termos ofensivos, mas, simplesmente por não agradar determinados grupos sociais. Essa restrição configura o domínio da hegemonia dos líderes de uma sociedade, os quais exercem influência sobre os processos comunicativos, bem como os meios tecnológicos da informação comunicação, impregnados de ideologias que indicam a camuflagem do interesse de grupos sobre o que admitem ser um sistema ideal de linguagem.

Referências

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WERLEN, Benno. Regionalismo e sociedade política. Universidade Friedrich-Schiller, Jena (Alemanha), 2013.

Publicado em 11 de fevereiro de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

CRUZ, Rodrigo Carvalho da. Linguagem coloquial e culta na língua portuguesa: onde e quando o "pobrema" não é problema. Educação Pública, v. 20, nº 6, 11 de fevereiro de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/6/linguagem-coloquial-e-culta-da-lingua-portuguesa-onde-e-quando-o-rpobremar-nao-e-problema