Linguagens, códigos e suas tecnologias: a abordagem da Língua Portuguesa no Enem

Renato Carvalho da Cruz

Mestrando em Ciências da Educação (Iscecap)

O Ensino Médio brasileiro tem sofrido grandes transformações estruturais e normativas com o intuito de oferecer ao alunado contemporâneo, teoricamente, novas perspectivas que possibilitem a ascensão a conhecimentos, concebidas de maneira coerente, plausível e eficaz. Busca-se, dentre outros aspectos, alavancar índices de aprendizagem que historicamente têm sido marcados pelo mau desempenho nessa modalidade de ensino, constatado pelos resultados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

Com grande prestígio em todas as edições do Enem, a disciplina de Língua Portuguesa tem sido alvo de inúmeras críticas – reflexo dos baixos índices obtidos pelo desempenho dos alunos nas avaliações do exame; tal conjectura educacional pressionou a ação de políticas públicas para a reestruturação do sistema do Ensino Médio, com grande destaque à oferta de sua integralidade.

“Enem: um ensaio para a vida” foi o slogan do exame até a edição de 2014; a partir de 2015, o Enem inaugurou uma nova fase, ampliando suas finalidades e buscando aperfeiçoar seus pressupostos normativos, como a oferta do exame por meio digital, conforme expresso pelo item 1.10.1 do Edital normativo da Edição de 2015: “1.10.1 - O Inep poderá convidar participantes inscritos na condição do item 1.10 para aplicação do Enem Digital”.

O exame ainda contempla, prioritariamente, as provas de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias e de Matemática e suas Tecnologias. O presente estudo contempla a análise investigativa da abordagem de Língua Portuguesa e seus contrastes formativos.

Por se tratar de um exame que, de certa forma, promove uma espécie de triagem acadêmica, apenas serão selecionados alunos para cursos de níveis superiores que atingirem notas de corte mínimas. Tal conceito é o objeto de estudo de inúmeros pesquisadores, haja vista que o Enem não leva em consideração as condições de garantia de aprendizagem, nem mesmo as insuficiências estruturais de instituições escolares espalhadas pelo Brasil afora.

Para tanto, faz-se necessário identificar elementos caraterísticos presentes nas provas de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias que possibilitem maior orientação aos estudantes e que lhe confiram a perspectiva concreta de estudos que indique a coerência do que fora exposto em sala de aula.

Assim, este estudo se divide em Aporte teórico, o qual abrange as principais concepções teóricas dos estudiosos elencados para o estudo; Metodologia, com a apresentação dos meios metodológicos adotados para o estudo; Resultados e discussão, além da Conclusão, com as principais inferências.

Aspectos históricos e contextuais do Enem

O estudo contempla a investigação acerca da abordagem da Língua Portuguesa em provas do Enem. Assim, nosso aporte teórico apresenta as principais concepções de autores e estudiosos da área, bem como o contraste entre suas concepções.

O Enem é um exame que busca analisar, de maneira geral, o desempenho de alunos recém-concluintes do Ensino Médio. Criado em 1998, pela Portaria MEC nº 438, de 28 de maio, o exame apresenta trajetória de sucesso e ocorrência de escândalos que comprometeram a credibilidade das avaliações realizadas.

Incontestavelmente, o Enem se encontra entre as maiores provas do país, com magnitude e proporções consideradas exemplo para outros países.

A partir da edição de 2009, o Enem conta com números de participações que ultrapassam a escala dos quatro milhões, conforme é possível evidenciar na Tabela 1.

Tabela 1: Número de inscritos no Enem desde 2009

Edição

Número de inscritos

2009

4.100.000

2010

4.600.000

2011

5.366.780

2012

5.791.332

2013

7.173.910

2014

8.722.290

2015

7.792.025

2016

8.627.371

2017

6.731.300

2018

5.513.712

2019

5.095.308

Fonte: Enem Virtual (2019).

Nota-se, claramente, a relevância que o exame vem tomando para a comunidade acadêmica, haja vista seu potencial provedor de ingresso ao Ensino Superior e para “possibilitar a constituição de parâmetros para a autoavaliação do participante, visando à continuidade de sua formação e à sua inserção no mercado de trabalho” (Brasil, 2019, p. 60). Atualmente, mais de 500 universidades espalhadas pelo país admitem candidatos usando as notas de corte do Enem, e empresas também fazem uso do score em seus processos seletivos.

A aplicabilidade do Enem sofreu mudanças desde sua proposta inicial. Outrora, o exame era realizado em dois dias consecutivos; atualmente, é aplicado em dois domingos consecutivos, possuindo, 180 questões objetivas e uma proposta de redação dissertativa.

Delineamentos legais e normativos do estudo

A proposta cerne do Enem visa constatar o desempenho das habilidades e competências adquiridas na Educação Básica, especialmente, no Ensino Médio. Além do mais, o exame contempla uma interpretação dos conteúdos que são praticados insuficientemente no ensino regular, o que põe em cheque se a abordagem lançada é realmente justa e coerente.

Para que pudéssemos desenvolver um estudo coerente com os pressupostos legais e normativos, lançamos mão de documentos norteadores como:

  • Portaria nº 438, de 28 de maio de 1998, que institui o Exame Nacional do Ensino Médio - Enem;
  • Resolução CNE/CP nº 2, de 22 de dezembro de 2017, que institui e orienta a implantação da Base Nacional Comum Curricular;
  • Edital nº 14, de 21 de março de 2019, do Exame Nacional do Ensino Médio - Enem 2019;
  • Matriz de Referência do Enem.

Partindo desses itens, o estudo será conduzido conforme adequação da temática aos estudos desenvolvidos com foco na abordagem da Língua Portuguesa pelos conteúdos propostos nas provas de Linguagens, Código e suas Tecnologias.

Os documentos normativos servirão como base à construção de uma análise coerente acerca das orientações e resoluções propostas para o Ensino Médio, bem como os documentos oficiais elaborados pelo MEC, os quais contemplam a proposta cerne do estudo em discutir a área da linguagem e sua interpretação formativa e avaliativa.

Atualmente, a prática do ensino da Língua Portuguesa expressa a reformulação de conceitos que outrora eram contrários ao que hoje se entende por politicamente correto. Até os anos 1970, a finalidade principal do ensino da Língua Portuguesa enfatizava a literatura, isto é, contemplavam-se as habilidades letradas mais refinadas e prendadas.

Posteriormente, cobranças por mudanças normativas e estruturais no referido ensino, principalmente de natureza linguística, começaram a ocorrer, como, por exemplo, a admissão de variedades linguísticas próprias do idioma, os diferentes contextos sociais, geográficos, políticos, históricos e sociais em espaços locais, regionais e nacionais que influenciavam a manifestação da comunicação culminaram na reorganização dos gêneros literários, abrindo espaço ao avanço de um ensino mais abrangente, no entanto ainda excludente. A partir da década de 1980, novas abordagens foram propostas para o ensino da Língua Portuguesa, agregando valores e conceitos comuns, compreendendo uma totalidade expansiva, levando em consideração a amplitude da língua e sua expressividade, reorganizada em habilidades que visam a qualidade do ensino e não a imposição dele sobre os processos de aprendizagem.

Linguagem como reflexo do comportamento social

Naturalmente, a comunicação humana se desenvolve a partir da reciprocidade entre os indivíduos de uma sociedade. Toda notícia, novidade, informação, descoberta etc. é suficiente para causar estímulo à conversação e é desse estímulo que a linguagem evolui, através de inúmeras habilidades cognitivas.

Para Silva e Sousa (2017, p. 265),

Não se pode negar a relação existente entre língua e sociedade e para analisá-la fez-se um percurso que se inicia com a análise entre língua e contexto sociocultural, passando pela relação entre a língua e a posição social do falante e finalizando com a análise entre mudança linguística e movimento de classe. No primeiro momento, argumenta-se que a língua ganha significação a partir de seu contexto de produção e que o falante não fala por si só, sua fala não é fundamentada em sua individualidade, mas em uma coletividade social, sendo que sua fala é representante de um grupo social, por isso, quando há variações linguísticas, o valor social é transplantado para a forma linguística; isso quer dizer que quando há duas formas linguísticas a que é produzida por um grupo social de maior status geralmente tem maior valor social.

As avaliações do Enem na área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias fazem uso dessa abordagem (Figura 7). A proposta cerne é acionar as principais habilidades de memória de conhecimentos em contrapartida ao envolvimento de situações-problema relativas ao cotidiano social.

A perspectiva avaliativa alçada pelas avaliações do Enem segue um padrão de exigência mediano e regular, isto é, cobra-se o que teoricamente devia ter sido ensinado na modalidade básica do Ensino Médio.

Todavia, esse ensino oscila por ser distribuído sob a baixa análise pragmática, fator esse que ocasiona o surgimento de irregularidades, como problemáticas relacionadas às condições mínimas de execução da prática docente, como má infraestrutura, salários defasados, excesso de carga horária, falta de profissionais, absenteísmo, violência, vandalismo e degradação do patrimônio público escolar, dentre outros fatores que refletem a insuficiência técnica da prática da aquisição do conhecimento.

De maneira geral, as avaliações do Enem são propostas de maneira desproporcional. No entanto, sua cobrança parte de concepções voltadas à análise de fatos e não como consequência, sendo a língua consequência dos acontecimentos históricos, culturais, religiosos, artísticos, esportivos e atuais de uma língua.

Labov (2008, p. 21) expõe:

Não se pode entender o desenvolvimento de uma mudança linguística sem levar em conta a vida social da comunidade em que ela ocorre. Ou, dizendo de outro modo, as pressões sociais estão operando continuamente sobre a língua, não de algum ponto remoto no passado, mas como uma força social imanente agindo no presente vivo.

O desenvolvimento linguístico da sociedade contemporânea está sujeito a inúmeras influências internas e externas, que partem do centro social, bem como ao surgimento de dialetos específicos, de localidades e regiões de diferentes partes do país e até mesmo por influência estrangeira.

As mudanças linguísticas não ocorrem à toa; elas surgem como resposta às novas necessidades de comunicação. Palavras surgem diariamente; estudos analisaram o surgimento da “milionésima palavra da língua inglesa” por intermédio de equipamentos tecnológicos interligados à rede de computadores correlacionando os caracteres que neles são usados. Obviamente essa contagem é superficial, pois até o presente momento não há como mensurar o leque de palavras e expressões que determinadas línguas desenvolvem. No entanto, para fins de contagem, estudos evidenciam que a cada 98 minutos uma palavra nova surge no idioma inglês, o que serve como exemplo da constante variedade de palavras que o ser humano produz para tentar exprimir seus pensamentos e emoções produzidos pelos estímulos do convívio com os demais indivíduos, contextos, situações e fenômenos.

Ainda em Silva e Sousa (2017, p. 264):

Toda mudança social se propaga também na língua da comunidade, há uma inter-relação entre uma e outra, sendo que tanto uma como a outra vivem continuamente em processo de transformação, que não são autônomos, mas interdependentes. Se a língua muda, não pode ser por si só. Se ela surge por necessidade social, também é necessário que ela se transforme em decorrência dela.

Os estudos gramaticais tentam concretizar o sistema linguístico em prol do estabelecimento da confortabilidade e enrijecimento da língua. Diante dessa perspectiva, torna-se clara a intenção de muitos gramáticos de estabelecer a ordem concreta de idiomas; não que isso seja algo negativo, mas a imposição é o principal risco que a linguagem sofre por enfrentar delimitações, exclusões, preconceitos e constrangimento por parte daqueles que não conseguiram ou não conseguem dominar o código escrito, bem como as habilidades de escrita e leitura.

Competências e habilidades da Língua Portuguesa no Enem

As avaliações do Enem são compostas por questões objetivas – 180 indagações de cinco áreas do conhecimento: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias; Matemática e suas Tecnologias; Ciências da Natureza e suas Tecnologias; e Ciências Humanas e suas Tecnologias – destas, 45 são destinadas à área da Linguagem, além da parte subjetiva – uma redação dissertativa, a qual segue os pressupostos de uma base normativa (matriz de competências). Nesse sentido, a proposta de redação volta-se às habilidades do candidato em estabelecer o máximo de coerência e coesão textual que corresponda às expectativas propostas.

Desde sua proposta inicial, as avaliações do Enem estruturam-se em habilidades e competências atreladas às questões apresentadas de maneira interdisciplinar, contextualizadas e referenciadas às práticas educativas do Ensino Médio.

Especificamente tratando das avaliações do Enem, a área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias é composta por nove competências, associadas a trinta habilidades:

Quadro 1: Matriz de referência de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias do Enem

Competência de área 1 - Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para sua vida

H1 - Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.

H2 - Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.

H3 - Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.

H4 - Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.

Competência de área 2 - Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras culturas e grupos sociais

H5 – Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.

H6 - Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.

H7 – Relacionar um texto em LEM às estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.

H8 - Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.

Competência de área 3 - Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da identidade

H9 - Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.

H10 - Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.

H11 - Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para diferentes indivíduos.

Competência de área 4 - Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e da própria identidade

H12 - Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.

H13 - Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.

H14 - Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.

Competência de área 5 - Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção

H15 - Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.

H16 - Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.

H17 - Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.

Competência de área 6 - Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação

H18 - Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.

H19 - Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.

H20 - Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional.

Competência de área 7 - Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas

H21 - Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.

H22 - Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.

H23 - Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público-alvo pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.

H24 - Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção e chantagem, entre outras.

Competência de área 8 - Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade

H25 - Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.

H26 - Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.

H27 - Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.

Competência de área 9 - Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte, às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar

H28 - Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.

H29 – Identificar, pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.

H30 - Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem.

Fonte: MEC (2019).

Certamente, este estudo não consegue abranger as especificidades de cada competência e de suas respectivas habilidades. No entanto, trata-se da apresentação das principais características avaliativas da área de Linguagens empregadas nas avaliações do Enem, bem como o contraste delas com as abordagens pedagógicas desenvolvidas na Educação Básica especificamente relacionadas ao Ensino Médio.

Língua Portuguesa e a abordagem interdisciplinar no Enem

Contrariando, a princípio, a concepção geral de que as avaliações do Enem contemplam todos os aspectos da Língua Portuguesa, tal avaliação promove, extraordinariamente, conceitos interdisciplinares, isto é, a atual proposta de avaliação dos aspectos linguísticos se apresenta de maneira articulada com outras áreas do conhecimento, todavia contemplando a Língua Portuguesa como área cerne.

Silva (et al., 2019) representa claramente a concepção de interdisciplinaridade identificada como abordagem avaliativa no Enem:

A interdisciplinaridade almeja superar o conceito de disciplinas “fragmentadas”, [...] através dos componentes curriculares da Educação Básica. Porém tal corrente disciplinar apresenta determinado nível de hierarquização de determinada disciplina sobre as ações das demais [...]. Nessa perspectiva o ensino é concebido de forma articulada entre o rol das disciplinas, porém com vistas à dissolução de problemáticas próprias de cada uma delas (Silva et. al., 2019, p. 3).

Conforme identificado, as avaliações de Língua Portuguesa no Enem contemplam o envolvimento de diferentes áreas do conhecimento, com grande ênfase no signo linguístico, buscando promover uma avaliação integradora sobre aspectos linguísticos e habilidades de interpretação imagética, verbal, não verbal, simbólica e engajadora.

Bonato et al. (2012, p. 1) registram:

A interdisciplinaridade pode integrar-se em outras áreas específicas, com o propósito de promover uma interação entre aluno, professor e cotidiano, pois nos dias de hoje podemos considerar as ciências naturais como umas das mais diversas em função de seus vários campos de trabalho. Atualmente exige-se que o nível de atualização prevaleça em qualquer carga que vai exercer na área de ciências naturais.

Em conformidade com essa perspectiva, a interdisciplinaridade é capaz de promover engajamento entre distintas áreas do conhecimento, mas prezando uma delas como norteadora.

Com o intuito de envolver distintas linguagens, em prol da interpretação e resolução adequada do enunciado, o Enem lança mão, não como normalmente, claro, mas comumente, de recursos imagéticos e trocadilhos. Um exemplo dessa natureza está na composição da questão a seguir, extraída do Enem 2014:

Figura 1: Questão 106, Enem 2014

Fonte: Enem 2014 – Caderno 5 (Amarelo).

Essa questão envolve tanto elementos linguísticos (escrita) quanto artísticos (imagem). A interdisciplinaridade se faz presente ao envolver tais elementos contextualizados com aspectos históricos, pois a questão apresenta uma comparação metafórica entre um típico congestionamento em período de feriadão e um “quadro dramático” – o trocadilho ocorre na alusão à pintura dramática Guernica, do artista plástico Pablo Picasso, pintada em 1937 – essa sobreposição de elementos busca uma interpretação tendo por base os conhecimentos básicos acionados a partir do histórico de assimilado pelo leitor, contido na dimensão signática dele sobre os elementos e fatos sociais que o rodeiam. Desse modo, a resposta ao respectivo questionamento indica a alternativa “E”, a qual apresenta uma resolução voltada ao campo da sintática, ao remeter à polissemia em relação à expressão “quadro dramático”.

Nessa mesma perspectiva, provas conseguintes foram elaboradas sob a ótica dos signos linguísticos; é possível identificar tal ocorrência na prova de Linguagens do Enem 2018:

Figura 2: Questão 21, Enem 2018

Fonte: Enem 2018 – Caderno 3 (Branco).

Essa questão também requer do leitor uma interpretação coerente com a imagética, que, neste caso, faz menção à fachada de um estabelecimento comercial, o qual informa sua especialidade (supermercado) em diferentes idiomas; logo, a intenção proposta não era que o leitor soubesse de todos esses idiomas para poder acertar a questão, mas sim compreender diferentes contextos e associá-los à abordagem linguística evidenciada. A resolução dessa questão infere a alternativa “B”, haja vista a readaptação informativa do tipo de estabelecimento em diferentes línguas em uma região de encontros de culturas diferentes.

No Enem 2015, o formulador das questões de Linguagens também se utilizou do recurso imagético para propor uma questão de lógica visual em contrapartida à associação de elementos gramaticais, conforme se verifica a seguir.

Figura 3: Questão 101, Enem 2015

Fonte: Enem 2015 – Caderno 5 (Amarelo).

Diante do enunciado, torna-se praticamente inviável a resolução do questionamento sem fazer uso do recurso visual. A interpretação da questão envolve a interferência de desenhos que remetem à velocidade com que o cliente adquiriu os serviços promovidos pelo produto anunciado (poeira agitada); isso torna a questão complexa, mas, ao mesmo tempo, indica ações verbais em tempos específicos, pois no enunciado “vai ser bom...” o interlocutor aciona o serviço (indicação futura, logo tempo futuro); em “... não foi?” pressupõe-se que o cliente já foi atendido, tão rapidamente que a ação de entrega do serviço acaba sendo omitida, expressando elevada agilidade (ação no pretérito), indicando, assim, a alternativa “C” como a adequada.

Em outro enunciado do Enem 2014, surgiu a seguinte interjeição:

Figura 4: Questão 99, Enem 2014

Fonte: Enem 2014 – Caderno 5 (Amarelo).

Diante do questionamento, o leitor foi levado a interpretar, sarcasticamente, um noticiário internacional, o qual menciona a chegada de uma máquina em solo extraterrestre. A questão explora o conhecimento de mundo do leitor ao evidenciar e atrelar, comicamente, novos comportamentos sociais como o hábito de “tirar selfies” nos mais distintos lugares e ocasiões. Nesse sentido, a opção indicada como correta é a “C”.

Esse tipo de abordagem segue os mesmos padrões, ou seja, nada que não seja comumente óbvio, mas que, ao mesmo tempo, seja logicamente compreensível.

Ainda referindo-se à edição de 2015 do Enem, temos o seguinte enunciado:

Figura 5: Questão 98, Enem 2015

Fonte: Enem 2015 – Caderno 5 (Amarelo).

A interpretação visual se apresenta cada vez mais comum nas abordagens avaliativas de Linguagens do Enem; esse recurso ultrapassa os tradicionais ensinamentos propostos em salas de aula do Ensino Médio de todo o país, haja vista que grande parte dos planos de aula contempla elementos gramaticais de natureza culta ou pela inserção de elementos de ordem literária, salvo aqueles que prezam por uma abordagem para além do quadro/livro/caderno. Nesse sentido, a resolução da questão infere à alternativa “E”.

A questão fez uso da crítica diante da expressão reivindicadora do indivíduo do cartaz. Isso remete à interpretação de uma situação de repressão, a qual o enunciado expressa como relevante atenção aos demais “segmentos específicos da sociedade” (professores, mulheres, trabalhadores etc.), mas para os profissionais da imprensa sugerem-se muitas tentativas de censura, combatida no dia 1º de junho, Dia da Imprensa.

Um dos enunciados da prova de Linguagens do Enem 2016 era:

Figura 6: Questão 97, Enem 2016

Fonte: Enem 2016 – Caderno 5 (Amarelo).

Como estratégia para promover a coerência do enunciado em relação às alternativas propostas, a questão lançou mão de uma proposta de conscientização sobre consumo de água com a apresentação de cartaz informativo. A questão fez uso de uma campanha publicitária circulada em 2012. Mais uma vez, a proposta da questão não buscava a compreensão dos meios e ferramentas publicitárias ou estatísticas acerca de utilização e consumo adequado dos recursos hídricos no país, mas exigiu do leitor um nível de criticidade padrão para que quatro das alternativas não obstaculizassem a interpretação adequada, referente à alternativa “A”.

A edição 2017 do Enem trouxe uma abordagem direcionada às ações sociais contemporâneas; do leitor foi exigido maior grau de atenção e concentração, além da sua capacidade de relacionar os fatos propostos ao seu contexto prático, conforme é possível observar no enunciado a seguir:

Figura 7: Questão 17, Enem 2017

Fonte: Enem 2017 – Caderno 3 (Amarelo).

O enunciado exigiu que o leitor interpretasse a questão de acordo com fatos sociais da atualidade (à época). Assim, presumiu-se que o leitor que fosse um indivíduo antenado com as transformações de ações e comportamentos sociais teria maiores chances de acertar a questão. Todavia, vale destacar que o enunciado referiu-se aos indivíduos (novos consumidores sociais) de maneira parcial, haja vista que grande parte da sociedade brasileira não atende a esse perfil, sendo a inferência o principal recurso para a resolução dessa questão, a qual indicou a alternativa “A” como resposta adequada.

Metodologia

A metodologia traçada para a realização deste estudo fundamenta-se nos pressupostos teóricos de pesquisa qualitativa, com base na revisão bibliográfica, tendo como objeto de estudo avaliações de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias de quatro edições recentes do Enem (2015, 2016, 2017 e 2018).

Para Oliveira et al. (2017, p. 2),

A pesquisa qualitativa aborda diversos campos do saber entre eles a Antropologia, Sociologia, Economia, Psicologia, Administração, Biologia, Ciências Sociais e Educação, entre outros. É conhecida também como “estudo de campo”, “observação participante”, “entrevista qualitativa”, “abordagem de estudo de caso”, “pesquisa participante” entre outras; não se pretende ser exaustivo na busca das denominações da pesquisa qualitativa. Tampouco definir aquele tipo de pesquisa que melhor representaria o enfoque qualitativo.

Nesse sentido, o estudo aqui desenvolvido enfatiza a investigação na área da Educação, sendo esta abordagem específica e focada na prática de aspectos teóricos por meio de realização de avaliações anualmente periódicas.

Para Trentini e Paim (1999, apud Kebian et al., 2010, p. 53),

a revisão bibliográfica ou revisão de literatura é definida como uma fonte de informação para as pesquisas bibliográficas. Essas pesquisas incluem estudos que “propõem a construção de teorias e marcos conceituais pelo método dedutivo, estudos conduzidos para traçar uma imagem do saber produzido ou os vazios em determinados fenômenos”.

Assim, o estudo fundamentou-se com o intuito de desenvolver uma investigação metodológica coerente com a proposta de análise de avaliações do Enem.

Resultados e discussão

Diante do contraste de aspectos teóricos e pragmáticos aqui levantados, nota-se significativo distanciamento entre o que é cobrado nas avaliações de Língua Portuguesa, na área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias no Enem, daquilo que, de fato, é ensinado por grande parte das instituições brasileiras de ensino.

Nitidamente, a abordagem interdisciplinar é bastante expressiva e corresponde a significativa parte das questões de interpretação. A imagética também se apresenta concomitantemente relacionada às construções dos enunciados, bem como sua recorrência para a resolução dos mesmos.

A investigação apresentada preocupou-se em revelar dois pontos básicos: a maneira como as questões de Língua Portuguesa são apresentadas no Enem e o contraste entre os aspectos teóricos que são cobrados em prática da realização e tal exame.

Para tanto, a análise contínua de quatro edições recentes do exame propuseram o estabelecimento de uma língua de raciocínio padrão, a qual faz ponte com a corrente interdisciplinar como uma das propostas centrais da área de Linguagens.

Até o presente momento faz-se fundamental destacar que o desempenho negativo de muitos candidatos ao Enem deflagra-se diante de empecilhos que, infelizmente, ainda compõem a formação acadêmica de muitos jovens país afora; tais adversidades apresentadas são capazes de inferiorizar o desempenho dos candidatos e não devem ser subestimadas. Não há como avaliar sem preparar, sem praticar, sem desenvolver habilidades e sem oferecer condições mínimas para que o processo de ensino-aprendizagem evidencie efeito positivo na escala nacional, principalmente ao que se refere aos dados do Inep.

Constatou-se também que a manifestação da linguagem não pode ser restringida ou mensurada, haja vista sua constante evolução. Ao impor parâmetros e normas gramaticais e fazer delas um critério avaliativo, pode-se gerar presunções equivocadas. Nessa perspectiva, as avaliações do Enem corroboram para uma proposta clara e direcionada à interpretação de habilidades cognitivas e não à estagnação da língua, como a análise de questões exclusivamente gramaticais.

Por meio de uma análise mais abrangente, percebe-se que a aplicação do teste em pauta acaba atropelando muitos aspectos de natureza formativa, ou seja, aplicam-se avaliações sem o mínimo trato, sem sequer propor questionamentos acerca das aptidões dos candidatos para executá-las; é uma simples avaliação que pode gerar dados incongruentes ao término de suas etapas.

Superando esses aspectos adversos do exame, a proposta do Enem é bastante orientada e organizada. É uma das oportunidades que o jovem brasileiro tem de ingressar no Ensino Superior e, posteriormente, no mercado de trabalho. Trata-se aqui de uma discussão voltada aos níveis de avaliação, e esses são compatíveis com o que, de fato, é praticado nas escolas brasileiras, mas, conforme já apresentamos, ainda há muito a superar acerca da disponibilidade de ambientes capazes de oferecer as mínimas condições para que ocorra um ensino-aprendizado coerente com o que o Enem promove.

Conclusão

Ao revisar a proposta de avaliação do Enem, foi possível inferir que muito ainda precisa ser adaptado. Não se trata, aqui, de adaptar o exame às condições esdruxulas em que se encontra a maior parte das instituições de ensino brasileiras, mas sim da adaptação dos sistemas de ensino ao referido exame e estes às reais práticas assertivas promovidas no defasado Ensino Médio brasileiro.

As concepções finais, aqui, não finalizam; muito menos encerram a discussão acerca da abordagem avaliativa da área de Linguagens no Enem. São concepções que precisam ser ampliadas e expandidas para que desenvolvam novos estudos que possam ser apresentados de maneira a contribuir significativamente para a formulação de novas propostas de avaliações, a nível local, regional ou nacional.

Evidencia-se, claramente, pelos aspectos históricos, que o Enem aprimorou suas abordagens, apresentou novas possibilidades e tenta aproximar-se dos contextos de seus candidatos. Tais esforços poderão resultar em futuras práticas que aproximem, cada vez mais, de uma relação engajadora entre ensino e aprendizagem.

Para tanto, não é saudável identificar problemáticas e fingir que não existem; faz-se necessário mobilizar-se e reivindicar melhorias no sistema de ensino; não é viável cobrar sem oportunizar, evidenciar o insucesso e apresentar analogias não é a porta de saída de situações adversas à ascensão da educação; é preciso agir em prol da resolução de incompletudes, mas que a ação positiva não seja retraída ou oprimida pela vontade daqueles que não querem fazer acontecer.

Há uma longa jornada a ser percorrida, mas é preciso agir como for possível, acionar políticas públicas, investir em propostas coerentes e concretas em prol de mudanças significativas e não superficiais. Nesse trajeto, encontram-se vidas que dependem de condições mínimas para poder exercer a cidadania e não perder o foco de crescer socialmente; um desempenho insatisfatório em exames seletivos pode ser a porta de entrada para uma vida de crimes, lamentavelmente justificada pela falta de oportunidades justas entre os indivíduos. Com condições justas de ensino e aprendizagem, todos teriam as mesmas possibilidades de sucesso e as portas continuariam abertas para aqueles que ainda não conseguiram.

Por fim, buscamos fazer a diferença, mesmo que mínima, em propostas governamentais que reforcem o conceito de avaliação em escalas nacionais para que sejam propostas de forma igualitária e não opressiva; buscamos objetividade, clareza e coerência com as abordagens avaliativas promovidas para que se possa alcançar bons resultados e que eles sirvam primeiramente para a formulação de um indivíduo satisfeito com sua capacidade e não apenas para constar em resultados de desempenho em meio à multidão.

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Publicado em 11 de fevereiro de 2020

Como citar este artigo (ABNT)

CRUZ, Renato Carvalho da. Linguagens, códigos e suas tecnologias: a abordagem da Língua Portuguesa no Enem. Educação Pública, v. 20, nº 6, 11 de fevereiro de 2020. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/6/linguagens-codigos-e-suas-tecnologias-a-abordagem-da-lingua-portuguesa-nos-exames-nacionais-do-ensino-medio-enem