Do literário ao teatral: Morte e vida severina em cena

Marcela Caroline Albuquerque Horta

Professora de Língua Portuguesa na Escola Municipal Ignácio de Andrade Melo, da rede municipal de Belo Horizonte

Cristina de Lima Cardoso

Professora de Artes na Escola Municipal Ignácio de Andrade Melo, da rede municipal de Belo Horizonte

Este projeto foi desenvolvido na Escola Municipal Ignácio de Andrade Melo (Emiam), da rede municipal de Belo Horizonte, na Regional Pampulha, bairro São José com alunos do 9º ano do Ensino Fundamental em 2018. Inicialmente, o projeto era uma proposta de leitura e interpretação da obra Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto, indicada para as provas do Colégio Técnico da UFMG (Coltec/UFMG), naquele ano.  O projeto ganhou força com o entusiasmo dos alunos, motivados para os colégios técnicos. Esse entusiasmo só foi possível a partir do momento em que eles sentiram que poderiam pertencer àquele colégio, que aquela não era uma realidade fora de alcance. Esse sentimento de desejo, essa nova perspectiva ocorreu graças a uma visita ao Coltec durante uma semana de visitação e apreciação dos projetos e trabalhos que eram realizados ali por seus estudantes. Assim, o projeto cresceu e culminou em pequenas apresentações teatrais organizadas e encenadas por eles. O projeto teve duração de três meses, sendo realizadas atividades literárias e artísticas com o apoio dos professores, coordenadores, auxiliares de inclusão e direção.

Considera-se o projeto como uma boa prática no contexto da Educação Básica, uma vez que vai ao encontro de uma das competências gerais indicada na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), em que se preza por valorizar e fruir as “diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural”. Além disso, o projeto permitiu aos alunos conhecer o escritor João Cabral de Melo Neto; conhecer e entender a obra Morte e vida severina; compreender as mazelas de uma população sofrida por causa da seca e envolvida nas diversas causas sociais; desenvolver habilidades relacionadas à prática da oralidade; desenvolver as habilidades manuais, artísticas, de expressividade, de postura e seu desenvolvimento corporal.

Referencial teórico

Compreende-se a sala de aula como um “espaço-tempo de criação teatral, onde a imaginação, o corpo e a ação dos alunos estejam integrados na construção de novos saberes e competências expressivas” (Ferreira, 2012, p. 11). Assim, parte do processo de humanização é o ato de “ver-se em ação, criticando e apreciando os próprios gestos e atitudes” (Santana, 2009, p. 30). O “ver-se em ação” é colocar o aluno como protagonista do seu processo de aprendizado, em que terá de analisar criticamente suas escolhas e atitudes. Como protagonista, o aluno tende a ser um “agente ativo e participativo do processo da sua aprendizagem e o professor como agente na mediação entre o aluno e a busca por novos conhecimentos” (Daher, 2017, p. 5). Nesse sentido, a escola deve propor práticas em que o aluno passa a ser protagonista do seu aprendizado e inserido em situações reais, incluído as de uso da língua.

É neste ponto que nos apropriamos do conceito de retextualização, que

envolve a produção de um novo texto a partir de um ou mais textos-base, o que significa que o sujeito trabalha sobre as estratégias linguísticas, textuais e discursivas identificadas no texto-base para, então, projetá-las, tendo em vista uma nova situação de interação, portanto, um novo enquadre e um novo quadro de referência. A atividade de retextualização envolve, dessa perspectiva, tanto realizações entre gêneros e textos (...) quanto as relações entre discursos (Matencio, 2003, p. 3-4, apud Ribeiro, 2016, p. 20).

Assim, propõe-se uma atividade de encenação teatral baseada no conceito de retextualização, em que um gênero é reinventado e passa por releitura, transformando-se em um novo gênero discursivo; no caso em questão, passa-se da modalidade escrita para a oral, do imaginário para a encenação; espera-se atender também aos pressupostos da prática da oralidade apresentados nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN).

Os PCN abordam a prática da oralidade justamente para que ela ganhe mais espaço nas ações escolares. Por exigir um “planejamento prévio da fala em função da intencionalidade do locutor, das características do receptor, das exigências da situação e dos objetivos estabelecidos”, a oralidade tende a ficar esquecida (Brasil, 1998, p. 58). Esse planejamento deve ocorrer principalmente ao se propor a transição do texto escrito para o oral, pois passa a ser essencial na atividade de encenação teatral, em que o contexto de produção e recepção podem determinar as escolhas dos sujeitos/alunos/atores. Caso contrário, o potencial do texto, assim como o dos agentes envolvidos, não é plenamente explorado.

A BNCC (Brasil, 2017, p. 209), ao abordar as competências e habilidades associadas à disciplina de Artes, no item Teatro, afirma a necessidade de “explorar diferentes elementos envolvidos na composição dos acontecimentos cênicos (figurinos, adereços, cenário, iluminação e sonoplastia) e reconhecer seus vocabulários”. Assim, o aluno deve ser capaz de perceber o seu papel em cada “acontecimento cênico”, percebendo as diferentes relações entre esses acontecimentos e os instantes em que devem ser acionados no momento do ato cênico. Além disso, a BNCC traz a necessidade de pensar o processo de criação teatral, experimentando a “gestualidade e as construções corporais e vocais de maneira imaginativa na improvisação teatral e no jogo cênico”. O professor deverá, portanto, introduzir e trabalhar questões relacionadas à expressividade corporal, à expressão facial e ao posicionamento de/no palco.

Figura 1: Objetos para cenário

Objetivos da experiência, metodologia, desenvolvimento

O projeto teve como objetivos principais: realizar a leitura e interpretação da obra Morte e vida severina, conhecer o autor João Cabral de Melo Neto e preparar os estudantes para a prova interdisciplinar do Coltec/UFMG. Como objetivos secundários realizou-se o estudo das práticas ligadas ao teatro, tais como posicionamento em palco, figurino, cenário, postura corporal e vocal. Estudaram-se também adaptações e releituras da obra de João Cabral para a animação e técnicas de elaboração de cenário e figurino teatral.

Metodologicamente, optou-se por iniciar com o estudo da vida e obra de João Cabral de Melo Neto e a leitura coletiva e discussão da obra Morte e vida Severina com os estudantes. Em seguida, realizou-se a exibição da animação em 3D, adaptada da obra pelo cartunista Miguel Falcão. Na terceira etapa, foram organizadas as turmas em grupos de trabalho, para escolha das cenas a serem apresentadas, confecção de cenário, figurino e convite para a peça, além dos ensaios. Por fim, houve a apresentação de pequenos atos nas duas turmas participantes, com a presença de um representantes dos setores da escola, oficialmente convidados para prestigiar as peças.

Vale ressaltar que todo o material utilizado durante a peça foi confeccionado pelos alunos em sala de aula, sendo utilizados os horários das aulas das disciplinas de Língua Portuguesa, Artes, Ciências, História e Geografia, uma vez que era inviável a presença dos alunos no contraturno para a realização dessas atividades. O figurino ficou também na responsabilidade dos alunos, que poderiam utilizar vestimentas trazidas de casa para compor os personagens.

Destaca-se ainda que a atividade contou com a presença de um aluno de inclusão com dificuldades de locomoção, o qual participou ativamente das atividades de confecção de cenários, elaboração do roteiro da cena escolhida, e, lógico, da encenação, como personagem da história de João Cabral de Melo Neto. Este último ponto foi, inicialmente, uma exigência das professoras, pois a turma precisava promover a inclusão do aluno na atividade. Para surpresa e contentamento, a receptividade dos colegas foi excelente, percebeu-se o olhar “diferenciado”, no bom sentido da palavra, e a preocupação em adaptar o trecho encenado para que esse aluno pudesse realmente ser um ator em cena.

No dia marcado para a apresentação dos pequenos atos, os alunos organizaram as salas de aula, uma vez que a escola não dispõe de um teatro e a quadra poliesportiva estaria em uso para outra atividade; decoraram o ambiente com os objetos confeccionados; e realizaram a produção de maquiagens e trocas de roupa para a apresentação final.

Considerações finais

Como resultado do projeto, foi possível perceber um alto grau de envolvimento de alunos, professores, coordenadores, direção, auxiliares de inclusão e demais funcionários para que os alunos tivessem todo o suporte material para a concretização das apresentações. Presenciaram-se momentos em que os alunos recitavam trechos do livro em situações cotidianas da escola, demonstrando compreensão dos aspectos literários da obra. Foi possível proporcionar a inclusão de alunos com perfis diferenciados em uma atividade coletiva, proporcionando o trabalho em equipe, o espírito participativo e de responsabilidade.

Ao final do projeto, poucos alunos realizaram a inscrição para a prova do Coltec/UFMG; muitos não o fizeram por questões financeiras e/ou por falta de apoio da família. Contudo, pode-se afirmar que o ganho para os alunos participantes foi positivo. São alunos de escola pública, na periferia, em uma região com altos índices de violência, com histórias de vida que dilaceram a alma de qualquer adulto sensível aos problemas sociais, e mesmo assim empenhados em trabalhar em equipe, batalhando a cada dia para que a apresentação teatral fosse realizada, motivados, dedicados, que tiveram contato com um clássico da literatura e puderam vivenciar na pele as emoções advindas do texto; esse foi o verdadeiro resultado conquistado ao final do trabalho de que tivemos o orgulho de poder participar.

O projeto “Emiam em cena: Morte e vida severina” terminou com um saldo positivo das atividades realizadas, pois, além da função didática, cumpriu o dever social de proporcionar a inclusão, a participação coletiva, a dedicação e a responsabilidade aos alunos participantes, envolvidos na motivação para o ingresso nos colégios técnicos. Além disso, despertou o interesse dos demais alunos da escola pela realização de uma atividade teatral baseada na leitura de uma obra literária, sendo, portanto, um motivador para futuros projetos dessa natureza na “Emiam em cena”.

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf. Acesso em: 29 out. 2019.

______. Parâmetros curriculares nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua portuguesa. Brasília: MEC/SEF, 1998.

______. Parâmetros curriculares nacionais: Artes. Brasília: MEC/SEF, 1997.

DAHER, Alessandra Ferreira Beker. Aluno e professor: protagonistas do processo de aprendizagem. Disponível em: http://www.campogrande.ms.gov.br/semed/wp-content/uploads/sites/5/2017/03/817alunoeprofessor.pdf. Acesso em: 29 out. 2019.

FERREIRA, Taís. Teatro e dança nos anos iniciais. Porto Alegre: Mediação, 2012.

MELO NETO, João Cabral de. Morte e vida severina. Disponível em: http://bibliotecadigital.puc-campinas.edu.br/services/e-books/Joao%20Cabral%20de%20Melo%20Neto.pdf. Acesso em: set. 2018.

RIBEIRO, Ana Elisa. Textos multimodais: leitura e produção. São Paulo: Parábola, 2016.

SANTANA, Arão N. Paranaguá. Metodologias contemporâneas do ensino de teatro: em foco a sala de aula. In: FLORENTINO, Adilson; TELLES, Narciso (Orgs.). Cartografias do ensino do teatro. Uberlândia: Ed. UFU, 2009.

Publicado em 12 de janeiro de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

HORTA, Marcela Caroline Albuquerque; CARDOSO, Cristina de Lima. Do literário ao teatral: Morte e vida severina em cena. Educação Pública, v. 21, nº 1, 12 de janeiro de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/1/do-literario-ao-teatral-imorte-e-vida-severinai-em-cena