Música: um gênero facilitador para o ensino de Língua Portuguesa

Cleize Araújo Sandes

Departamento de Letras e Artes (UESC)

Thaís Oliveira Andrade

Programa de Pós-Graduação em Estudos Africanos, Povos Indígenas e Cultura Negra (UNEB)

O presente artigo surgiu da necessidade de buscar formas diferentes para realizar o trabalho em sala de aula. O trivial já não comove os jovens da atualidade e partir da sua realidade para induzi-los a adquirir novos conhecimentos é o primeiro passo para a efetivação do ensino. Por isso, o gênero música pode ser um facilitador nas aulas de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental II.

Partir das músicas mais ouvidas pelos alunos deve proporcionar reflexões acerca das mensagens e rimas e provocar mudanças nos hábitos dos jovens. Aulas expositivas, rodas de conversas e trocas de experiências podem servir de pano de fundo para a efetivação desse trabalho de mostrar as características do gênero e de levá-los à reflexão a respeito de algumas letras.

A música é, de todas as artes, a mais dinâmica e comunicativa. É uma arte sublime, bela, expressiva, seja nas suas manifestações populares, seja nas suas formas folclóricas, líricas ou clássicas. É a única linguagem universal que os homens possuem e entendem e ela melhora e consagra em intercâmbios artísticos, individuais ou coletivos, cada vez mais íntimos e frequentes (Barros, 1973, p. 1).

Este trabalho vem, por meio da vivência, mostrar que é possível apresentar conteúdos de forma interativa e levar o aluno a entender o que é gênero textual identificando suas características e funcionalidade. Com aulas dinâmicas, busca-se discutir previamente sobre valores e entender o que isso tem em comum com a música, refletindo sobre as letras do estilo que eles mais ouvem. A partir desse exercício, são produzidas letras construtivas que promovam a autoestima e o respeito; bem como a abordagem do tema da oralidade, nas apresentações finais. Além disso, a atividade em si propicia momentos de deleite e é estimulada a vivência de outras variedades musicais.

Historicamente, a música sempre fez parte da cultura de um povo, e tem o poder de despertar diferentes sentimentos, sendo uma ferramenta prazerosa e dinâmica no processo de desenvolvimento cognitivo. Além disso, como afirma Cury, a música também pode ter um papel importante se usada como som ambiente na sala de aula. Há, portanto, diferentes formas de fazer uso da música no processo de ensino.

Neste artigo, foram abordados ainda métodos simples de uso dessa ferramenta com alunos surdos; sendo de fundamental importância o papel do professor ao orquestrar o ritmo e a variação da aula: partindo de ideias claras, objetivos e metas bem definidas, a aprendizagem será consequência de um projeto comprometido e coeso.

A importância da música: história da música na humanidade

Segundo cientistas, a origem da música é paralela ao surgimento da humanidade, pois sempre existiu como produção cultural. Desta forma, desde que o ser humano começou a se organizar em tribos em tempos remotos, a música ocupou um papel importante no cotidiano das pessoas, servindo também para amenizar o sofrimento da época. Há relatos de que a música na humanidade tenha surgido há 50.000 anos, com as manifestações ocorridas no continente africano, tenha espalhado pelo mundo envolvendo todas as raças do planeta. No período pré-histórico, o ser humano já se manifestava em forma de música, produzindo a cultura do seu tempo, por meio inclusive da produção de sons em utensílios. 

A influência que a música exerce sobre nós remete-nos evidentemente a seu poder sobre o corpo, ela coloca o corpo em movimento, faz com que ele vibre de forma não comparável às outras artes; e é o fato de estar em nosso corpo que dá tanta acuidade às emoções musicais; por seu enraizamento psicológico, a própria música atinge uma espécie de existência corporal (Snyders, 1993, p. 85).

A produção da música influencia diretamente nas organizações socioculturais à qual pertence na história e possui uma capacidade estética de produzir sentimentos, atitudes e valores culturais de um povo ou nação.

No século XX, a música foi marcada por uma série de novas tendências e ritmos nos quais as técnicas musicais se tornam cada vez mais incertas, pois o seu rótulo ainda está em andamento. Essa popularidade do rádio pelo mundo e as novas mídias tecnológicas reproduzem um ganho de popularidade, trazendo novas experiências e liberdade que desafiam antigos preceitos musicais. No Brasil, a música se manifestou a partir da fusão de elementos europeus trazidos pelos colonizadores portugueses, africanos e indígenas. Os jesuítas foram influenciadores que se utilizavam da música para fins de catequese no Brasil. Já no século XX, a música foi integrada aos currículos escolares brasileiros e, com a Lei nº 11.769/08, foi considerada componente obrigatório do currículo da Educação Básica nas escolas brasileiras.

A música é muito forte na cultura brasileira, e está presente hoje na vida diária da população, tendo ritmos alegres e tocando sentimentalmente as pessoas. De fato, o Brasil é um país influenciador nos ritmos pelos quais é representado: por meio de várias crenças regionais, sua cultura rica torna seu repertório diferente em cada região.

A relação entre música e aprendizagem

A música tem uma maior e menor intensidade e está inserida na vida do ser humano, despertando emoções de acordo com cada indivíduo e em um mundo prazeroso que pode facilitar a aprendizagem. O uso da música como um recurso pedagógico desenvolve nos alunos raciocínio e criatividade que facilitam a aprendizagem, ensinando-os a ouvir e despertando a sua reflexividade.

A música passa uma mensagem e releva a forma da vida mais nobre, a qual, a humanidade almeja, ela demonstra emoção, não ocorrendo apenas no inconsciente, mas toma conta das pessoas, envolvendo-as trazendo lucidez à consciência (Faria, 2001, p. 4).

Independentemente do estilo musical, a música tem o poder de tocar emocionalmente o indivíduo. Todas as pessoas apreciam melodias e buscam a identificação sentimental. As letras traduzem o que se acredita ou explanam o que se sente. E é exatamente essa sensibilização que pode tornar a aprendizagem mais expressiva.

Na linguagem universal, a música é capaz de mexer com nossas emoções, estimulando o cérebro no desenvolvimento das linguagens orais e escritas, tendo uma capacidade de concentração que beneficia o aprendizado nas diferentes áreas do cérebro. Para Barros (1973), a música é uma arte mais dinâmica, na qual o homem se comunica em uma única linguagem universal.

A persuasão e a eficiência da música no ensino não se questionam, mas além de tal técnica de ensino nunca ter sido formalizada, a não ser com relação a alunos com algum tipo de deficiência, não devemos nunca esquecer que a música, nem por sonho, restringe-se apenas a isso. Trata-se de uma arte extremamente rica e dispõe de farto e vasto repertório acessível em qualquer lugar do nosso planeta (Ferreira, 2013, p. 26).

A música também é eficaz no ensino e na aprendizagem de idiomas, pois a música é uma arte que interessa a todos; promovendo um vínculo sócio afetivo. O aluno tem nesse recurso a possibilidade de memorizar letras e melodias que lhe fazem bem e, assim, fixar estruturas linguísticas para a comunicação numa língua diferente da qual está habituado, ou seja, a sua língua materna.

A música e a linguagem

O ensino da música nos leva a refletir sobre a linguagem e a considerar alguns aspectos característicos. Segundo a perspectiva vygotskyana, a música configura-se em uma criação humana capaz de desenvolver a consciência, levando à compreensão e consequentemente à ação.

A música, por si mesma e de forma imediata, está mais isolada do nosso comportamento cotidiano, não nos leva diretamente a nada, mas cria tão somente uma necessidade imensa e vaga de agir, abre caminho e dá livre acesso a forças que mais profundamente subjazem em nós, age como terremoto, desnudando novas camadas (Vygotsky, 1998, p. 320).

É, então, a música, a expressão dos sentimentos, das ideias que emergirão na consciência de cada um, possibilitando a organização dos nossos pensamentos e a interação; sendo assim, uma arte social e reflexiva.

Para Simões (2006, p. 110), a análise de letras de músicas é um trabalho muito produtivo nas aulas de Língua Portuguesa:

Salientamos que as letras de música têm-se mostrado como material de alta produtividade nas classes de língua portuguesa. Como as considerações sobre a fala e a escrita incluem a dificuldade de operar com os fenômenos fônicos da língua (por conta de uma tradição de ensino que os tornou totalmente antipáticos), temos podido explorar a produção musical nacional (sobretudo a MPB) com vistas a descrever e documentar a riqueza de nossa língua seja numa perspectiva histórica (diacrônica) ou sincrônica.

A música é um gênero textual que se diferencia dos outros, usados exclusivamente para explicações de fatos da língua e que se articulam fora do contexto real, ou seja, soam artificiais. Nesse gênero textual, temos uma vantagem, que é a possibilidade da condução de sentimentos e interpretações para uma aprendizagem significativa, além da união entre a literatura e a música, ocasionando uma discussão das diferentes culturas e usos linguísticos.

Segundo Bernárdez, (1982), o texto é uma unidade linguística que se comunica de uma forma verbal com um caráter social, e está caracterizado numa evolução das palavras com coerência profunda e superficial. A música, por sua vez, é um texto que interage com um número imensurável de pessoas, utilizando características próprias e atingindo sua função social de produzir sentimentos, e não a de representar uma realidade; sendo assim, também uma variação linguística da fala.

No entanto, embora muitos usem a expressão linguagem musical, podemos afirmar que a música deve ser definida como linguagem simbólica ao lado de todas as outras linguagens artísticas, pois seu aspecto comunicacional advém de linguagem conceitual, ou seja, ela se constitui como signo, já que não possui todas as características estruturais como código, gramáticas, vocabulário, enfim: as partes constantes da linguagem. Sendo assim, o aspecto emotivo é mais forte que o aspecto comunicacional.

A linguagem nos relaciona com o mundo e com os outros seres humanos. Mas como se dá esta relação?… A linguagem simbólica oferece sínteses imediatas, enquanto a linguagem conceitual procede por desconstrução analítica… a linguagem simbólica nos leva para dentro dela, arrasta-nos para o seu interior pela força de seu sentido, de suas evocações, de sua beleza, de seu apelo emotivo e afetivo; a linguagem conceitual busca convencer-nos e persuadir-nos por meio de argumentos, raciocínios e provas… a linguagem simbólica nos dá a conhecer o mundo criando outro… a linguagem conceitual busca dizer o nosso mundo, decifrando seu sentido, ultrapassando suas aparências e seus acidentes… a linguagem cria, interpreta e decifra significações, podendo fazê-lo miticamente ou logicamente, simbolicamente ou conceitualmente. (Chauí, 2002, p. 148-151).

Por ser caracterizada como linguagem simbólica, a música traz consigo aspectos metafóricos, buscando dar sentido poético às suas criações e, por isso, não carrega a obrigatoriedade da informação. É, pois, um sistema de signos arbitrários que necessita da interpretação e aceitação do ouvinte; mesmo assim, quase sempre está carregada de sentido e de significado em seus versos.

A música como ferramenta de aprendizagem: aprendizado significativo

É comum que os adolescentes passem por mudanças hormonais que impactam diretamente o comportamento escolar. Por esse motivo, existem os grupos formados por interesse em comum, como afirma Tiba (2006, p. 148): “Adolescentes não funcionam nem como crianças nem como adultos. Eles funcionam melhor em grupos, com competições e desafios. Eles adoram a escola. O que lhes atrapalha a vida são as aulas”.

Assim, a maneira de se trabalhar em sala de aula deve ser interessante e partir algumas vezes, do interesse da turma. Ao processo de ensino e aprendizagem não basta apenas que o professor se baseie nos conteúdos programáticos; esses conteúdos precisam estar vinculados com a realidade dos jovens, metodologias e estratégias de abordagem dos temas que despertem a curiosidade e sejam desafiadores. Um exemplo prático, como abordado anteriormente, seria o trabalho com diferentes gêneros: a escrita de um diário, blog, ou de músicas e piadas são atividades diferenciadas que conseguem prender a atenção do aluno.

Não basta a seleção e organização lógica dos conteúdos para transmiti-los. Antes, os próprios conteúdos devem incluir elementos da vivência prática dos alunos para torná-los mais significativos, mais vivos, mais vitais, de modo que eles possam assimilá-los ativa e conscientemente. Ao mesmo tempo, o domínio de conhecimentos e habilidades visa, especificamente, o desenvolvimento das capacidades cognoscitivas dos alunos, isto é, das funções intelectuais entre as quais se destaca o pensamento independente e criativo (Libâneo, 1994, p. 128).

Percebe-se então, a necessidade de preparar uma aula que deve ser pensada em todos os seus momentos; idealizada para os alunos e não para a facilidade do professor. Essa aula pode desenrolar-se em atividades de leitura coletiva, seminários, apresentações, pesquisas que possibilitem a interação do grupo com o tema proposto e que despertem a imaginação, o processo criativo dos alunos, criando uma ponte entre o novo conhecimento e o que já se tem.

Aprendizagem e gêneros textuais

Considerando o aprendizado como ação significativa e fundamental, a utilização de gêneros textuais se apresenta como um aliado para o ensino não apenas da língua portuguesa como de todas as disciplinas, tornando-se assim um recurso transversal. Ao fazer alusão ao gênero textual como realidade social, Bronckart (1999, p. 103) afirma que “a apropriação dos gêneros é um mecanismo fundamental de socialização, de inserção prática nas atividades comunicativas humanas”. Assim, considerando a Educação como uma prática política e crítica, os gêneros textuais são uma ferramenta de comunicação muito eficaz que servem para dar corpo à língua e “transformam-se em instrumentos de ação social” (Bronckart, 1999, p. 103).

A música, portanto, traz determinadas características que podem ser enfatizadas nas aulas de língua portuguesa, como rimas, estrutura e, principalmente, o assunto. São construções textuais intencionais; e é essa intencionalidade que buscaremos discutir durante as aulas, percebendo qual discurso ideológico há no estilo musical de maior consumo de jovens na atualidade; além de buscar entender o motivo dessa superexposição na mídia e o que se pretende com essa enxurrada de letras e temas. Percebendo a necessidade de provocar a reflexão nos jovens, vale frisar que

é preciso desenvolver o hábito de desconfiar das aparências, desconfiar da normalidade das coisas, porque os fatos, os acontecimentos, a vida do dia-a-dia estão carregados de significados sociais que não são ‘normais’, estão implicados interesses sociais diversos e muitas vezes antagônicos dos grupos e classes sociais (Libâneo, 1994, p. 74).

A música, por sua vez, pode ser utilizada até mesmo para tranquilizar o ambiente, pois, segundo Augusto Cury (2003, p. 122),

os efeitos da música ambiente em sala de aula são espetaculares. Relaxam os mestres e animam os alunos. Os jovens amam músicas agitadas porque seus pensamentos e emoções são agitados. Mas depois de ouvir, durante seis meses, músicas tranquilas, a emoção deles é treinada e estabilizada.

Assim, acreditamos que é importante reconhecer as orientações teóricas que auxiliam o entendimento do trabalho com gêneros textuais, possibilitando também a investigação das entrelinhas de cada produção, além do seu contexto cultural, sua intencionalidade e características; e de que forma podemos utilizar outros estilos no intuito de enriquecer nosso conhecimento musical.

Trabalhando música com deficientes auditivos

Quando se fala em educação, fica subentendido que a oferta é para todos; no entanto, alguns indivíduos ainda se veem excluídos indiretamente desse processo. A expressão indiretamente se dá pela presença do aluno que se encontra fisicamente em sala, mas que não participa igualmente das atividades realizadas. Esse aluno geralmente é aquele com algum tipo de deficiência, que por vezes está presente, mas quase sempre sua participação ou aprendizado fica muito aquém do restante da turma.

O processo da inclusão precisa ser fortemente trabalhado nas escolas, não apenas pelos professores em seus cursos de formação, mas também por toda a comunidade escolar: do porteiro ao diretor da escola precisa haver comprometimento com a aprendizagem e com o convívio social dos alunos com deficiência. Desde a sensibilização como a interação precisam ser garantidas a esses alunos, pois como cita Mantoan (2003), “inclusão é o privilégio de viver com as diferenças”. Portanto, incluir, mais do que estar presente, é fazer parte, é tratar como igual, sem distinção ou privilégios. 

A meta da inclusão é desde o inicio, não deixar ninguém fora do sistema escolar, que deverão adaptar-se as particularidades de todos os alunos [...] à medida que as práticas educacionais excludentes do passado vão dando espaço e oportunidades à unificação das modalidades de educação regular e especialmente em um sistema único de ensino caminha – se em direção a uma reforma educacional mais ampla em que todos os aluno começam a ter suas necessidades educacionais satisfeitos dentro da educação regular (Mantoan, 1997, p. 16).

Considerando a atividade realizada na escola, a qual aborda o gênero textual música, cabe aqui considerar a existência de um aluno com deficiência auditiva, que participaria de todo o processo. Assim, de que forma seria possível incluí-lo nas atividades, ou seria mais cômodo nesse momento disponibilizar outro tipo de tarefa para ele? Por considerar a educação aos educandos com necessidades educacionais especiais um direito assegurado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a LDB de 1996, do Capítulo V da Educação Especial, que traz no Art. 59 importante diretriz para a Educação Especial, deve-se garantir seu aprendizado através de métodos eficazes para acompanhamento do currículo escolar.

Art. 59. Os sistemas de ensino assegurarão aos educandos com necessidades especiais:

I - currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específica, para atender às suas necessidades;

II - terminalidade específica para aqueles que não puderem atingir o nível exigido para a conclusão do ensino fundamental, em virtude de suas deficiências, e aceleração para concluir em menor tempo o programa escolar para os superdotados;

 III - professores com especialização adequada em nível médio ou superior, para o atendimento especializado, bem como professores do ensino regular capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns;

 IV - educação especial para o trabalho, visando a sua efetiva integração na vida em sociedade, inclusive, condições adequadas para os que não revelarem capacidade de inserção no trabalho competitivo, mediante articulação superior com os órgãos oficiais afins, bem como para aqueles que apresentam uma habilidade superior nas áreas artísticas, intelectual ou psicomotora;

V - acesso igualitário aos benefícios dos programas sociais suplementares disponíveis para o respectivo nível do ensino regular.

É de conhecimento de todos que a Língua Brasileira de Sinais (Libras) é a língua materna do deficiente auditivo e o que diferencia das demais línguas é a percepção viso espacial ou gesto espacial, ou seja, para que ela seja compreendida é preciso a habilidade com as mãos e a percepção visual formando um conjunto que resulta na compreensão da frase. Também é importante ressaltar que a libras é composta por níveis linguísticos próprios mais trabalhados em sala de aula, que são: morfologia, que trata da estruturação e classificação das palavras/sinais; fonologia, que aborda as configurações do sinal, e a sintaxe, que se refere às regras necessárias para a construção de sintagmas e sentenças.

Partindo, então, desse princípio, é necessário adequações nas atividades para o aluno surdo. Trabalhar música com um não ouvinte é um desafio que pode ser superado a partir do trabalho direcionado do professor. Assim como o ouvinte, o surdo consegue sentir a música através da vibração, mas isso acontece mais fortemente por serem mais sensíveis.

Geralmente, para os ouvintes, o som (que é uma onda, que vibra o ar) vibra os ossos e membranas dos ouvidos e essa vibração é decodificada pelo cérebro como sons. Quando você é surdo, você recebe essas mesmas vibrações, mas geralmente, existe algum problema nessa comunicação com o cérebro e o surdo acaba não reconhecendo as vibrações como sons (Pezarini, 2015?).

Dessa forma, apesar de a música não estar incluída na cultura surda, por ser espacial e visual, o trabalho com o gênero textual música deve acontecer com alguns cuidados: sempre com o auxílio de um intérprete de Libras e com o material adequado, para que o aluno surdo possa participar ativamente das aulas. Para isso, o intérprete de Libras precisa participar do planejamento com o professor e auxiliá-lo na criação de materiais diversificados como cartões ilustrados, letras das músicas impressas, bem como o conhecimento prévio destas, para que se tenha tempo suficiente de preparar a tradução simultânea da letra da música, fazendo uso também das expressões faciais que a libras exige. Portanto, as atividades voltadas para o deficiente auditivo podem incluir música, mas a questão da interpretação, produção textual, debates, mesa redonda devem seguir a rotina diária com materiais adequados, para que o aluno participe ativamente e possa consolidar sua aprendizagem fazendo uso, como todos os outros alunos, do gênero textual música.

Vivenciando a prática

Aqui está descrita a prática que levou à elaboração deste trabalho, apresentando a natureza do estágio, o processo de observação, a escolha do tema e as aulas desenvolvidas, bem como os seus resultados. O processo de estágio é o momento de se colocar em prática todo aprendizado do curso; esse momento confere ao aluno a vivência com a realidade escolar e o aprendizado prático; dessa forma, é possível acessá-lo também para conhecimento de uma dada realidade e, com isso, poder agir sobre esta, buscando transformá-la e trazendo ações positivas para o contexto educacional.

O estágio complementa a atividade de ensino e tem o poder de unir a teoria e a prática, realidade indispensável quando se trata de contexto escolar; vinculando assim, pensamento e ação. A prática do estágio possibilita o desenvolvimento de tarefas nesse contexto, aliada à vivência do professor regente, resultam no momento em que a experiência e as novas práticas caminham juntas.

A instituição escolar escolhida foi o Colégio Estadual Estado do Ceará, localizado na área urbana do município de Ilhéus/BA, com quadro formado por 16 professores de diferentes áreas, todos graduados e a maioria com pós-graduação. O colégio atende ao Fundamental II nos três turnos, além de abrigar o polo de uma universidade federal, à noite.

As fontes utilizadas para esse estágio foram pesquisa, observação, confecção de uma sequência didática, aplicação em sala e a avaliação de todo o processo. Para a confecção desta sequência, foram realizadas pesquisas bibliográficas, análise da realidade da turma do 6° ano A do turno matutino e troca de informações com a professora regente.

Metodologia

O estágio iniciou-se a partir da oferta da disciplina Estágio Supervisionado e foi realizado na turma de 6° ano do Ensino Fundamental. O primeiro contato ocorreu com a apresentação à escola e encaminhamento de toda documentação necessária para realização do estágio, sendo possível perceber nesse momento que vários grupos de alunos se concentravam no pátio da escola com caixinhas de som, ouvindo, em volume bastante alto, músicas de estilo funk. O mais interessante é que todos os grupos ouviam e dançavam coreografias desse estilo musical. Neste momento, surgiu a ideia de se aplicar uma pesquisa para confirmar a primeira impressão sobre a preferência quase que unânime acerca do estilo musical funk.

Após aplicação da pesquisa quantitativa sobre a preferência musical naquela instituição, foi confirmada que o funk era a preferência de mais de 80% dos alunos. Então, iniciou-se a observação da turma e, juntamente com a professora regente, foi elaborada uma sequência didática intitulada Música: ou seria funk?

  • 1ª etapa: de posse da escolha do gênero que seria trabalhado e com a sequência em mãos, foi iniciado um bate papo para perceber o conhecimento prévio dos alunos sobre gêneros textuais. A partir das pontuações da turma, foi apresentado o conceito e alguns exemplos de gêneros textuais associando suas respectivas funções e utilidades práticas.
  • 2ª etapa: após recapitular o que são gêneros textuais, foi iniciada uma roda de conversa com os alunos para perceber quais são as ideias que eles possuem sobre valores e respeito. Colhidas essas informações, foram entregues para reflexão alguns trechos de músicas de funk previamente selecionadas e, em pequenos grupos, os alunos discutiram sobre o que entenderam daquele texto e se havia duplo sentido nas letras. Nesse momento, foi possível colher informações sobre como eles se sentem em relação ao tratamento destinado às mulheres nesse estilo musical. Por conseguinte, foram levantados vários tipos de questionamentos e foi solicitado para a próxima aula, que trouxessem letras de músicas que ouvem e que tenham essa linguagem. Durante esse bate papo, foram levantados os seguintes questionamentos:
    • O que estão ouvindo e por quê?
    • Essa(s) música(s) somente diverte(m) ou faz(em) refletir sobre um tema?
    • Conhecem o(s) intérprete(s)? E os compositores? O que sabem sobre eles?
    • O que significa música para vocês?
    • A música brasileira tem história? Por quê? Quem conhece um pouco dessa história e pode falar sobre ela?
    • A que contextualização histórica/social a música ouvida nos remete?
    • As músicas violentas podem gerar quais consequências?
    • De que maneira é possível não se permitir influenciar por essas músicas e suas mensagens subjetivas?
    • Como desenvolver o gosto, aguçar o ouvido para a música como arte e ciência?
    • Como se percebe a diferença de estilo musical?
    • As músicas devem somente divertir, ou também fazer as pessoas refletirem sobre fatos da sociedade?
  • 3ª etapa: com a pesquisa em mãos, iniciou-se uma mesa redonda com o material trazido por eles e foi possível discutir brevemente algumas letras. Logo após, foi realizado um debate, dividindo-se a turma em dois grupos: o de defesa e o de acusação. Todo questionamento foi mediado, levando à reflexão dos fatos.
  • 4ª etapa: foram apresentadas letras impressas das músicas e, então, foi feito um estudo da língua, ao pedir que eles observassem as rimas e a estrutura desse gênero textual, bem como suas especificidades. Trabalhou-se os assuntos gramaticais verbo e concordância verbal a partir dessas letras, atendendo a um pedido da professora regente, a fim de cumprir o conteúdo.
  • 5ª etapa: foi feita uma lista de exercício para conhecimento e fixação dos mesmos.
  • 6ª etapa: foram retomadas as explicações das características do gênero textual trabalhado, relembrando que as sequências que envolvem música permitem uma visão mais crítica, pois, são construções textuais intencionais, por meio das quais uma mensagem é transmitida. Mais uma vez, os alunos foram levados a perceber o que está por traz de induções em algumas letras. Essa ação foi feita ao som de música ambiente, na sala.
  • 7ª etapa: após toda a reflexão, foi o momento de realizar a produção textual em grupos pequenos, por meio da qual cada grupo criou sua própria música de funk com letras construtivas e de valor moral, induzindo a autoestima e valorização do ser humano. Sempre com música ambiente, em sala.
  • 8ª etapa: foi realizada a análise e a correção das produções, enfatizando as concordâncias verbais e a língua escrita de forma correta; considerando, no entanto, as especificidades de fala de cada grupo.
  • 9ª etapa: deu-se a apresentação das equipes para as turmas de 6º ano do colégio, em que cada letra de canção produzida foi posta em destaque, para que todos pudessem acompanha-la e entender a mudança de consciência gerada pela atividade.
  • 10ª etapa: ao final, com música ambiente em sala, aconteceu a reflexão sobre os pontos positivos das apresentações e de que forma poderiam ser melhoradas, considerando o que eles perceberam. Foram avaliados o comportamento dos colegas perante a plateia, a forma como se deu a apresentação e seu impacto.
  • 11ª etapa: foram apresentados para a turma outros estilos musicais, outras bandas e cantores da atualidade.

A avaliação aconteceu de forma processual a partir do interesse do aluno, participação nas atividades, apropriação do conteúdo verbo, inferências, iniciativas e postura durante a apresentação final.

Resultados alcançados

Durante todo o processo de aplicação da sequência didática, foi possível perceber que os alunos conseguiram entender o conceito de gêneros textuais, sua aplicabilidade, bem como identificá-los no seu convívio, ficando mais íntimos, é claro, do gênero música, atinando para suas características e, agora, com uma visão mais crítica no que diz respeito a letras e sua intenção velada. A desenvoltura da turma, interação e espontaneidade configuraram-se como uma feliz surpresa, resultando em produções textuais criativas e diversificadas, além da preocupação com as rimas e sons.

Outros aspectos positivos foram a leveza com que foram trabalhados os conteúdos de verbos e concordância verbal, por meio das produções musicais dos alunos; e a postura de cada um em defender seu ponto de vista.

Dessa forma, o estágio trouxe aprendizados significativos que serviram para ratificar a crença na educação. Assim, a Língua Portuguesa não precisa ser uma disciplina maçante e entediante, pois, com alguns ajustes, planejamento prévio, clareza nos objetivos e metas, o ensino da língua materna pode ser prazeroso e empolgante. Mais uma vez, fica exemplificado o uso de diferentes gêneros textuais como facilitadores, inclusive como uma ferramenta para atingir a transversalidade no ensino.

Considerações finais

O presente artigo traz uma síntese de subsídios que embasam o uso do gênero textual música para atividades com turmas do Fundamental II. As ações executadas em sala levaram à constatação de que é possível obter resultados significativos a partir de práticas voltadas para o interesse da turma. Após pesquisa prévia, ficou evidente qual é estilo musical que mais chamava atenção dos jovens e, com isso, foi possível traçar uma sequência didática, oficina, atividades e interação com a turma. A música é algo real e social, está presente na vida de todo ser humano e se fez de viés para que fossem trabalhadas atividades significativas. A reflexão sobre assuntos contemporâneos como a visão da mulher e a igualdade entre homens e mulheres, o questionamento sobre o que certo e errado, os valores sociais e a opressão da classe popular, a realidade artística da periferia e o que se pode existir por trás do que a mídia oferece foram algumas das questões levantadas pelos alunos. Mesas redondas, rodas de conversas e debates também permearam de forma significa nossas atividades. O entendimento do que são gêneros textuais e de suas características, além da continuação do trabalho da professora regente com tempos verbais trouxe um resultado significativo ao final dos trabalhos.

O uso de atividades que proporcionem prazer e despertem a consciência crítica dos jovens aparece como uma alternativa para um aprendizado eficaz e sólido. O envolvimento do professor para que isso ocorra de fato é primordial, principalmente por que permite a oportunidade de usar outros materiais que não sejam apenas os livros didáticos, isso traz também uma liberdade e aproximação com a realidade dos alunos. O uso da música em sala de aula não deve se restringir apenas na reflexão, mas no deleite, apreciação e tantas outras possibilidades; tudo vai depender da criatividade e do envolvimento do professor. A Língua Portuguesa nos traz um leque infinito de oportunidades de desenvolvimento, e para cada desafio, existe uma estratégia diferente. Os gêneros textuais podem facilitar esse processo, e a música já provou que é capaz de ensinar muito com tantas variações existentes, basta começar.

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Publicado em 12 de janeiro de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

SANDES, Cleize Araújo; ANDRADE, Thaís Oliveira. Música: um gênero facilitador para o ensino de Língua Portuguesa. Revista Educação Pública. v. 21, nº 1, 12 de janeiro de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/1/musica-um-genero-facilitador-para-o-ensino-de-lingua-portuguesa