O samba na Educação Física Escolar: na batucada dos nossos tantãs

Pedro Xavier Russo Bonetto

Professor da rede municipal de São Paulo, professor da Faculdade Flamingo, doutorando em Educação (FE-USP), membro do Grupo de Pesquisa em Educação Física Escolar (Gepef)

Samba, a gente não perde o prazer de cantar
E fazem de tudo pra silenciar
A batucada dos nossos tantãs
No seu ecoar, o samba se refez
Seu canto se faz reluzir
Podemos sorrir outra vez

A batucada dos nossos tantãs, de Adilson Gavião, Robson Guimarães, Jalcireno Oliveira

O relato de prática em questão descreve as atividades pedagógicas da Educação Física escolar que aconteceram no segundo semestre do ano de 2019, em uma escola municipal de São Paulo.

Apontamos como fundamentação curricular a Educação Física cultural proposta por Neira e Nunes (2006; 2009). Na sua concepção pós-crítica, as práticas corporais (esporte, dança, brincadeira, luta, ginástica e outras não categorizadas) e todos os discursos que circulam sobre estas compõem o que chamamos de cultural corporal. De acordo com Silva (2011), a teorização pós-crítica não é a superação das teorias críticas; ao contrário, as perspectivas se combinam para ajudar a compreender as relações de poder e controle que compõem os artefatos culturais. Nessa perspectiva, as teorias pós-críticas no âmbito da Educação abordam com ênfase as preocupações com a diferença, as relações saber-poder, o multiculturalismo, as diferentes culturas. Por isso, o currículo escolar é compreendido como uma questão de subjetividade, identidade e diferença.

O que se defende é que diversos temas relativos à cultura corporal subordinada sejam incluídos na agenda dos debates escolares, por terem sido ao longo dos séculos desdenhados e tergiversados. Também se defende que a cultura corporal dominante seja analisada sob outros ângulos, isto é, tomando por base as crenças epistemológicas não dominantes (Neira; Nunes, 2009, p. 251).

A fundamentação do trabalho também se deu a partir da concepção de Educação Física vinculada à Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2018).

A Educação Física é o componente curricular que tematiza as práticas corporais em suas diversas formas de codificação e significação social, entendidas como manifestações das possibilidades expressivas dos sujeitos, produzidas por diversos grupos sociais no decorrer da história. Nessa concepção, o movimento humano está sempre inserido no âmbito da cultura e não se limita a um deslocamento espaço-temporal de um segmento corporal ou de um corpo todo (BNCC, 2018, p. 213, grifo nosso).

Da mesma forma, no âmbito do município de São Paulo, com o Currículo da Cidade (2017). Apesar de ser anterior, em 2017 já estava alinhado à BNCC. Isso se deve à divulgação das versões anteriores do documento federal e por ter sido elaborado pela mesma assessora, a professora Suraya Darido.

O acesso às manifestações da cultura corporal pressupõe que, por meio de vivências, estudos, pesquisas e debates, os estudantes acessem as diversas produções culturais e seus usos sociais vinculados aos jogos e brincadeiras, aos esportes, às danças, às ginásticas, às lutas e a demais práticas corporais do patrimônio material e imaterial da humanidade, bem como àquelas presentes e trazidas pelo próprio grupo e por outros grupos sociais e por outros povos, seja no tempo espaço ancestral e/ou contemporâneo (São Paulo, 2017, p. 124, grifo nosso).

Ao passo que as aulas iam acontecendo, as atividades eram descritas e compartilhadas nas reuniões do Grupo de Pesquisa em Educação Física Escolar (GPEF), onde os professores e professoras integrantes do grupo iam criticando e sugerindo atividades conjuntamente. Portanto, o presente relato se constituiu em uma escrita coletiva.

Escrita-currículo

Por escrita-currículo compreendemos uma forma artesanal, própria e única de produzir um currículo. Trata-se de uma didática de caráter aberto, não linear, tampouco baseado em sequências didáticas. Refere-se à produção de experiências curriculares menos rígidas, inspiradas na participação ativa e crítica de professores e alunos que assumem a condição de “escritores” da experiência curricular (Bonetto; Neira, 2016).

Nessa concepção, a escrita-currículo aqui descrita começa na observação do que as crianças pequenas faziam durante o recreio do Fundamental II. Em conversa sobre o tema que iriamos escolher para as aulas, algumas crianças disseram que queriam fazer dança, especialmente funk, pois viam que os/as alunos/as mais velhos costumavam usar caixinha de som, dançavam funk e gravavam vídeos para a internet. Achamos relevante, por nunca terem estudado isso na escola e porque provavelmente, pela quantidade de músicas e artistas que citaram, deve ser um ritmo e uma dança bastante presentes na vida delas.

Pois bem, com caixa de som e celular conectado à internet, as crianças foram solicitando ao professor que ele colocasse algumas músicas. Alguns meninos pediram músicas de terror e músicas de games. Algumas meninas pediram músicas da novela infantil Carrossel, de desenhos animados; boa parte deles e delas pediram para ouvir funk.

Buscando mapear o conhecimento das crianças sobre a dança e os ritmos, o professor elaborou uma atividade em que reproduzia samba, sertanejo, rock, forró, rap, MPB e outros ritmos, e as crianças tinham que dançar e comentar a música. Foi bastante interessante observar que as crianças não identificavam bem os ritmos e misturavam as formas de dançar; de forma geral, recusavam tudo que era diferente de funk.

Começamos com o samba, especialmente por conta da sugestão de duas crianças da turma, que dançam na Pérola Negra – a escola de samba do bairro. Elas indicaram um samba-enredo do carnaval anterior e as demais crianças dançaram imitando as colegas. Elas dançaram mudando as pontas dos pés rapidamente, mexendo a mão e a cintura. Ainda nessa aula, algumas crianças pediram as músicas de uma novela, os sambas Tá escrito (Grupo Revelação) e Cheia de Manias (Raça Negra). Esse foi um momento de êxtase, pois a maioria das crianças conhecia as músicas e dançou com muita empolgação.

Figura 1: Crianças dançando samba

Na aula seguinte, quando o professor foi buscá-las na sala de aula, algumas crianças perguntaram se podiam buscar os instrumentos de samba que a escola tinha para usá-los na aula. Usamos um tantã, dois pandeiros, um surdo pequeno, um tamborim e uma caixa. Conforme iam tocando, o professor colocou vídeos de tutoriais ensinando a tocar alguns instrumentos. As crianças iam assistindo na quadra mesmo, pelo celular, mas a atividade não deu nada certo. As crianças ficavam pouco tempo vendo, pois os toques eram difíceis e não atraiam muito o interesse. Diferentemente disso, gostavam quando tocava uma música e eles e elas tentavam acompanhar.

As crianças não tinham afinação, não estavam no mesmo ritmo das músicas, mas o professor percebeu que isso não era muito importante para elas. Voltamos a ouvir basicamente as músicas do Grupo Revelação e do Raça Negra. Às vezes, duas alunas pediam as músicas do G. R. E. S. Pérola Negra, mas não empolgavam os colegas. Assim, compreendendo que o professor já desenvolvia suas aulas no formato de projetos, com várias aulas sobre o mesmo tema, as crianças já esperavam e ansiavam pelas aulas de samba. Não tivemos mais como passar para outro ritmo sem adensar no samba.

Nas próximas aulas, sabendo que elas coincidiam com o intervalo do Fundamental II e que o espaço da aula é muito próximo do recreio, o professor convidou alunos e alunas maiores para que participassem da aula dos pequenos, ensinando-os a sambar. No início participaram uns quatro ou cinco alunos e alunas do 9º e do 8º anos. Os meninos que dançavam funk no intervalo também participaram e conseguiram dançar samba muito bem. Três alunas do 9º ano ensinaram alguns passos para as demais crianças, foram muito amáveis e demonstraram muita felicidade quando sambaram. As crianças pequenas ficaram encantadas com a participação delas.

Em outra aula, o professor, buscando contextualizar historicamente o samba, mostrou aos alunos e às alunas a música Pelo telefone, do sambista Ernesto dos Santos (Donga). Comentou um pouco a versão de que seria o primeiro samba gravado e que era do Rio de Janeiro. Os poucos que ouviram acharam a música muito ruim, disseram que o áudio era ruim e quase que não dava para entender. Ainda nessa aula, o professor mostrou outra versão da música, dessa vez gravada pelo sambista Martinho da Vila. Com o som mais “limpo” e sem ruídos, os alunos e alunas foram atraídos um pouco mais, alguns até tentaram cantar e dançar.

Pensando sempre nas sugestões, o professor levou a turma para a salinha de TV da escola. Lá o professor ligou o notebook na televisão e começou a conversar com os estudantes. Pensou que, apesar de as crianças gostarem muito da música da novela, provavelmente não conheciam os músicos nem tinham visto o grupo cantando. Assim, o professor selecionou o clipe da música em que os integrantes do Grupo Revelação estivessem presentes e tocando seus instrumentos. Ficaram muito animados, gostaram das imagens. Assistimos ao clipe da música em um show, vimos os músicos e os instrumentos; as crianças cantaram. O professor registrou a fala das crianças sobre o vídeo. Elas também puderam ver como algumas pessoas dançam samba; quando passaram algumas mulheres dançando, as alunas comemoraram, pediram para voltar o vídeo. Comentavam:

“Ficam em cima de quadrados.”
“Parece um show bonito.”
“Que eles (músicos) são bonitos.”
“Olha que lindas, a roupa delas é linda.”
“Parece a minha mãe, minha mãe é bem perua, ela ama usar top.”

Reprisamos várias vezes essa parte do clipe para que as crianças observassem bem os gestos. Outra coisa que comentamos foi que o cantor do vídeo, o sambista Xande de Pilares, não está mais no Grupo Revelação. Quando os estudantes souberam, ficaram tristes, perguntaram por que ele saiu, se ele brigou com os colegas, mas o professor não soube responder no momento. Sobre o “quadrado” em que eles ficam, o professor buscou outro vídeo no mesmo momento para que os/as estudantes compreendessem que aquele era apenas o palco de um show específico.

O outro vídeo era um clipe do show do Revelação e outros músicos no famoso bloco de samba Cacique de Ramos. Nele, pudemos observar que os grupos de samba geralmente ficam em roda e/ou ao redor de uma mesa. Os alunos e alunas disseram:

“Tem mais gente, é mais bagunçado.”
“Eles bebem cerveja, professor? Eca!”
“Tem dois tocando pandeiro.”
“As mulheres são mais feias.”
“Vocês reparam alguma coisa nos cantores?”

Eles disseram várias coisas, mas não tinham reparado que todos eram homens. A partir daí, um dos meninos identificou que só tinha homem. Uma menina disse que as mulheres só dançavam, enquanto os homens tocavam os instrumentos e bebiam cerveja.

Pensando em descontruir essa ideia, mostrei para os estudantes um vídeo do grupo Entre Elas. Os/as estudantes gostaram muito, dançaram, falaram que era muito bonito.

“Elas tocam bem!”
“Tocam melhor que homem!”
“Tem dois homens tocando ali, elas deviam tirar e fazer uma banda só de meninas!”
“Elas são lindas!”

A impressão que as crianças tiveram foi muito positiva. Pensando nessas questões de borrar a identidade sambista, o professor perguntou às crianças se havia crianças que tocavam samba ou que gostavam de samba. Os alunos prontamente disseram que sim, mas não conheciam nenhum amigo que tocava em grupo ou escola de samba. Vimos então o vídeo de um menino chamado Renan (Renanzinho Batuqueiro) tocando vários instrumentos. As crianças curtiram muito, ficaram admirados com o menino tocando samba, bateram palmas para acompanhar a música e novamente viram os instrumentos.

Depois, outro elemento que precisávamos ver era a bateria de escola de samba. Quando falamos sobre isso, alguns alunos bem confusos perguntaram qual escola, se era a deles; enquanto isso, duas meninas da turma explicaram o que eram escolas de samba, não era escola normal. Mostramos dois vídeos, um da escola de samba Mangueira e outro da Pérola Negra. Assistimos e outra vez na salinha os alunos e alunas foram à loucura; o som estava bem alto, eles e elas dançaram bastante, fazendo vários gestos: sambaram na ponta do pé; dançaram fingindo que tocavam algum instrumento; rodaram rápido de mãos dadas; ficaram trombando uns nos outros; dançaram fazendo passos que observaram nos vídeos.

Figura 2: Alunos e alunas assistindo ao desfile da escola de samba do nosso bairro (Pérola Negra)

Avaliando o que falavam sobre o samba no início da experiência pedagógica e esse momento, já no meio do semestre, o professor observou que as crianças já tinham aprendido bastante sobre o ritmo e a dança. Já conseguiam dançar de outras formas e reconheciam melhor a batida e o ritmo do samba.

Aproveitando as tematizações sobre escolas de samba, bateria, samba-enredo, o professor apresentou para eles e elas o livro Tequinho, o menino do samba.

Figura 3: Professor contando a história para as crianças

O professor fez a leitura no pátio e, enquanto ia lendo o livro, mostrava as ilustrações para a turma. No livro, Tequinho é um menino negro cuja bisavó é a presidenta de uma escola de samba. Com ilustrações que as crianças adoraram, o livro explica os ritmistas, os passistas, a velha guarda, mestre-sala e porta bandeira; mostra também a ala das baianas, a relação do samba com as comunidades, cita os morros do Rio de Janeiro, o Sambódromo da Marquês de Sapucaí e a feijoada. Os alunos e alunas disseram coisas como:

“O Tequinho é feio! O cabelo dele é enrolado.”
“As mais bonitas são a loira e a cabelo rosa.”
“Minha família gosta de samba.”
“Minha família gosta de feijoada.”
“A mãe do Tequinho parece a minha mãe, professor!”
“A vó do Tequinho parece homem, ela usa óculos e cabelo curto.”

Na aula seguinte fomos novamente à sala de TV, vimos outro desfile de escola de samba completo. Dessa vez vimos outras alas e elementos da escola de samba que ainda não tínhamos estudado e que apareciam no livro do Tequinho: a comissão de frente, o mestre-sala e a porta-bandeira, os carros alegóricos, a bateria, mulheres na bateria.

Os estudantes gostaram bastante, tentaram imitá-los na sala de TV, dançavam em dupla, girando, fazendo gestos para uma arquibancada imaginária. A rainha de bateria foi o grande destaque. Dentre os elementos da escola de samba, a rainha da bateria, a porta-bandeira e o mestre-sala foram os que mais chamaram a atenção de alunos e alunas.

Figura 4: Alunos sambando imitando o mestre-sala

Nas aulas seguintes, o professor enviou aos responsáveis das crianças um bilhete na agenda, perguntando se eles conheciam/gostavam de samba, se sabiam tocar algum instrumento ou cantar samba e se estavam disponíveis para ir à escola. Alunos e alunas trouxeram as atividades que o professor enviou na agenda. A tarefa consistia em pedir para a família conversar sobre o samba, se conheciam, se tinham proximidade, se sabiam tocar algum instrumento, se gostavam de algum/a cantor/a, grupo, escola de samba etc. Os responsáveis pelos alunos e alunas também podiam indicar uma música que gostavam e assim ouvir juntos.

As crianças trouxeram várias histórias, muito animadas, contaram histórias das suas famílias com o samba. As músicas foram as mais diversas, disseram que os responsáveis gostavam bastante de samba e que eles não lembravam ou não sabiam que aquelas músicas eram samba. Citaram os/as artistas: Ferrugem, Zeca Pagodinho, Martinho da Vila, Jorge Aragão, Beth Carvalho, Fundo de Quintal e Dudu Nobre. Nas palavras dos alunos e alunas:

“Meu pai gosta de samba, mas não pode vir aqui porque ele trabalha.”
“Meus pais se conheceram dançando samba, sabia, professor?”
“Antes de eu ter nascido, minha mãe disse que já desfilou, aqui e no Rio de Janeiro. Ela nunca tinha me contado, professor.”
“Meu pai colocou o clipe dos sambistas e cantou pra mim.”
“Meu pai conhece um monte de sambista do emprego dele.”
“Minha mãe sabe sambar muito bem, professor, ela dança com meu pai.”

Com essa atividade, penso que os alunos e alunas tiveram maior noção da aproximação de suas famílias com o ritmo e a dança. As músicas que mais tocaram foram Bagaço da laranja, do Zeca Pagodinho, Devagar, devagarinho, do Martinho da Vila, Vou festejar, da Beth Carvalho, e A batucada dos nossos tantãs, do grupo Fundo de Quintal.

Na aula seguinte, o professor começou lendo uma matéria para as crianças sobre a participação das mulheres no samba. Falou com suas palavras sobre as baianas, os terreiros que ajudavam e davam proteção aos sambistas, que eram impedidos de tocar nas ruas sob acusação de vadiagem. No início, eles e elas ouviram atentamente, gostaram da história, acharam as mulheres muito corajosas e viram que elas foram muito importantes na história do samba. Depois ficaram agitados e quiseram dançar. Apesar das tentativas, ainda não tínhamos conseguido receber nenhum familiar ou responsável para ir à escola falar sobre samba conosco. Eis que um colega indicou um amigo músico que podia fazer uma atividade com as crianças. Na semana seguinte, Zuluh Nascimento foi à escola; desde quando chegou chamou muito a atenção das crianças.

“Nossa, professor, ele é o Tequinho?”
“Ele toca instrumentos igual ao Tequinho!”
“O cabelo dele é bonito igual ao do Tequinho!”

Elas e eles estavam muito felizes em receber o músico, que levou vários instrumentos profissionais, que as crianças até então só tinham visto de brinquedo ou pela televisão. A atividade com o Zuluh começou com ele falando sobre o samba, mostrando o ritmo, as palmas e como tocava os instrumentos.

Distribuímos os instrumentos para as crianças, aguardamos que elas tocassem um pouco, deixamos que baixasse sua curiosidade e depois o Zuluh começou a falar como conheceu o samba, onde tocava, como era uma roda de samba; falou também sobre o toque de alguns instrumentos e o ritmo com palmas.

Figura 5: O músico e sambista Zuluh Nascimento falando sobre o samba e os instrumentos

Conseguimos nesse dia dançar, vivenciar o ritmo, tocar instrumento e ouvir as experiências de um sambista profissional. Foi muito importante para o professor ouvir algumas crianças, atribuindo valores positivos ao samba, identificando-o como uma prática corporal admirável.

“Nossa, professor ele toca muito bem!”
“Vou falar para o meu pai que eu conheci um artista!”
“É uma delícia dançar samba com ele tocando!”
“Professor, ele pode vir aqui mais vezes?”

Seguindo com a experiência pedagógica, um colega indicou uma professora de outra escola em que ele trabalha que também tem a vida relacionada com o samba e que poderia nos visitar. Já na última semana de aula, a professora Jamila Prata Aguiar compareceu à escola e levou seus instrumentos.

Tratando de ancorar os discursos históricos e culturais em torno do samba, a professora Jamila começou tocando berimbau, contando histórias da mitologia africana sobre a origem do céu e da terra. As crianças ficaram encantadas com o berimbau; a professora Jamila apresentou o atabaque, o caxixi, o pandeiro, o tamborim e o agogô. Como não tinha instrumentos para todos e todas, alguns revezavam ou tocavam juntos quando podiam; em determinado momento começamos a tocar juntos a música que a professora ensinou.

No fim do semestre é possível dizer que a experiência curricular que começou devagar, com pouco interesse de alunos e alunas e quase sem aprofundamento, deslanchou. As discussões e atividades que aconteciam do meio até o fim do projeto contavam com a participação empolgada de muitas crianças, que participaram intensamente de diferentes formas: dançando, cantando, tocando instrumentos, assistindo a vídeos ou comentando os conteúdos.

Figura 6: A professora Jamila Aguiar fala sobre orixás, instrumentos e os povos africanos

Considerações finais

É possível afirmar que algumas crianças conheceram mais sobre os elementos do desfile das escolas de samba, conheceram os instrumentos, puderam tocá-los e ouvi-los. Falaram sobre os personagens da escola de samba, o papel que cada um tinha no desfile e as questões históricas que envolviam essa prática corporal. Ao conhecerem os significados vinculados aos gestos, músicas, instrumentos e suas relações com as identidades locais (escola de samba do bairro e os sambistas na escola ou na família), bem como as relações entre o samba e a história dos povos afro-brasileiros (livro do Tequinho, matéria com a história das baianas), as crianças foram capazes de experenciar o samba, reconhecendo também as modificações dessa prática corporal ao longo do tempo.

A partir do que tratamos por ancoragem social dos conhecimentos, as significações sobre o samba foram atreladas a múltiplas identidades, relacionadas a questões de raça/etnia (aula com a professora Jamila), classe social, gênero (grupo de samba Entre Elas), religião (história da criação do céu e da terra pelos orixás) e crianças no samba (vídeo do Renanzinho Batuqueiro), entre outras relações que muitas vezes são negligenciadas ou tratadas de maneira superficial nos currículos escolares.

O acesso aos eventuais percursos histórico-sociais da manifestação tematizada tem mais sentido quando se entrecruza com sua presença na comunidade e na vida das pessoas. Com isso, prepara-se o terreno para que as os silenciados possam manifestar-se e serem ouvidos. Seus saberes, posições e sugestões merecem a mesma atenção que aqueles acostumados à evocação no ambiente escolar. No sentido foucaultiano, trata-se de transformar os saberes sujeitados em saberes das pessoas (Neira, 2018, p. 94).

Aqui, também consideramos ter contemplado alguns objetivos específicos indicados na BNCC, como “interpretar e recriar os valores, os sentidos e os significados atribuídos às diferentes práticas corporais, bem como aos sujeitos que delas participam” e “reconhecer as práticas corporais como elementos constitutivos da identidade cultural dos povos e grupo” (Brasil, 2018, p. 223).

Por fim, é preciso reconhecer a dificuldade de tematizar uma prática corporal de que o professor tinha pouco conhecimento prévio e que não esteve presente na sua formação. Aqui, podem não ficar explícitas todas as dúvidas e dificuldades que o professor enfrentou na produção desta escrita-currículo, todavia é preciso dizer que a falta de intimidade não se constituiu em fator impeditivo para a tematização.

Nessa perspectiva, o que os une é o compromisso com a democratização das relações vivenciadas com as práticas corporais e os conhecimentos que as circundam, a valorização das diferenças e a problematização do modo como são produzidas no meio social (Neira, 2018, p. 16).

A participação dos professores sambistas Zuluh Nascimento e Jamila Aguiar potencializaram a experiência pedagógica aqui relatada. A todas as pessoas envolvidas, o mais sincero agradecimento. As imagens são de responsabilidade do autor.

Referências

BONETTO, P. X. R.; NEIRA, M. G. A escrita-currículo da perspectiva cultural da Educação Física: por que os professores fazem o que fazem?. Revista Educação, Santa Maria, v. 44, p. 1-23, 2019.

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018.

NEIRA, M. G. Educação Física cultural: inspiração e prática pedagógica. Jundiaí: Paco, 2018.

______; NUNES, M. L. F. Pedagogia da cultura corporal: crítica e alternativas. São Paulo: Phorte, 2006.

______; ______. Educação Física, currículo e cultura. São Paulo: Phorte, 2009.

RODRIGUES, Neusa; OLIVEIRA, Alex. Tequinho, o menino do samba. Il. Mello Menezes. Rio de Janeiro: Rovelle, 2009.

SÃO PAULO. Secretaria Municipal de Educação. Coordenadoria Pedagógica. Currículo da Cidade: Ensino Fundamental - Educação Física. São Paulo: SME/Coped, 2017.

SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.

Publicado em 12 de janeiro de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

BONETTO, Pedro Xavier Russo. O samba na Educação Física Escolar: na batucada dos nossos tantãs. Educação Pública, v. 21, nº 1, 12 de janeiro de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/1/o-samba-na-educacao-fisica-escolar-na-batucada-dos-nossos-tantas