Estimulando funções executivas em atividades de revisão de conteúdos

Rafael Rossi de Sousa

Pedagogo, professor dos anos iniciais do Ensino Fundamental (SME/RJ), mediador pedagógico a distância do curso de Pedagogia (UNIRIO/Cederj/ UAB)

As atividades propostas pelo professor possuem forte repercussão no processo de desenvolvimento do educando, por meio dos estímulos que culminam na reorganização do sistema nervoso em desenvolvimento (Guerra; Pereira; Lopes, 2004).

Aprendizagem, para Rotta (2016), caracteriza-se por modificações do sistema nervoso central quando o indivíduo é submetido a estímulos e/ou experiências de vida. O desenvolvimento da aprendizagem, para tanto, é relacionado a aquisições de competências fundamentais da vida acadêmica, como linguagem e matemática, que demandam processos cognitivos específicos de tais, como atenção, memória de trabalho e funções executivas (Cardoso; Fonseca; Martins; Pureza, 2016).

As funções executivas desempenham papel fundamental e crítico no desenvolvimento humano, pois refletem nos aspectos afetivos, sociais e intelectuais, ou seja, nas mais diversas situações e ocasiões.

As atividades de revisão de conteúdos e/ou habilidades são responsáveis por ressignificações e acessos contínuos/pontuais a estruturas pré-constituídos, oportunizando movimentação e formação de novas estruturas mentais, pois contam com experiências vividas posteriores à aprendizagem inicial e contribuem para construções de novas conexões mentais e progressões de aprendizagens. O presente artigo constitui-se um relato de experiência quanto a aplicação de duas atividades de revisão de conteúdos em uma turma de 5º ano em escola pública do Rio de Janeiro, tendo como referencial teórico os estudos de Guerra, Pereira & Lopes (2004); Fonseca e Pureza et al. (2016) e Rotta (2016).

Metodologia

Definiram-se dois temas curriculares na área de Língua Portuguesa do currículo do 5º ano do Ensino Fundamental numa escola pública do Rio de Janeiro, para constituírem atividades coletivas na perspectiva de revisão, uma vez que já foram explorados anteriormente. As atividades de revisão consistiram em dinâmicas coletivas com objetivos bem definidos, assim como sua instrução. Os objetivos gerais consistiam no acolhimento dos estudantes pós-recesso escolar, reorganização e readequação com o espaço e rotina escolar, contextualização lúdica com objetos de aprendizagem e aplicação dos saberes pré-constituídos na área de linguagem.

Atividade: Memória dos Dígrafos

A dinâmica Memória dos Dígrafos apresentara-se como num jogo da memória constituído por um dado que continha os dígrafos-alvo (CH, RR, SS, NH, LH, GU) e um cartaz com palavras que possuíam a ocorrência dos dígrafos representados no dado. O principal objetivo da atividade era estimular as funções de linguagem e memória, que, segundo Cardoso, Fonseca, Martins e Pureza (2016, p. 48), constitui como importante fator do processo de ensino e aprendizagem, pois ela consiste na “aquisição e conservação das informações aprendidas”. Na dinâmica em questão, a memória expressa-se tanto em memória de longo prazo, devido ao acesso ao léxico mental envolvendo a leitura das palavras, tanto em memória de curto prazo/de trabalho, devido às associações necessárias a serem realizadas para jogar.

Para jogar, cada criança, em sua vez, jogava o dado, verbalizava o dígrafo exposto e escolhia uma das janelas do cartaz e a revelava. Caso o dígrafo completasse e formasse uma palavra real, o aluno a completava com pincel atômico e pontuava, caso não, voltava a ocultar a palavra.

Figura 1: Cartaz com palavras encobertas e dado dos dígrafos

Figura 2: Aluno em arremesso do dado enquanto os outros aguardam sua vez para jogar

Figura 3: Aluno registrando o dígrafo à palavra após associação

Atividade: Dinâmica da Sílaba Tônica  

A atividade Dinâmica da Sílaba Tônica consistia em um sorteio de fichas de palavras, todas acentuadas, que os alunos deveriam classificar pela tonicidade e fixar no cartaz correspondente (oxítona, paroxítona e proparoxítona). A atividade consistia em sortear, verbalizar a palavra, soletrá-la, classificá-la quanto ao número de sílabas e por fim dispô-la no cartaz correspondente à tonicidade. A turma tinha a função de acompanhar se o colega fixaria no local correto ou não. Caso não estivesse no cartaz correspondente, qualquer aluno da classe poderia se apresentar a contestar a decisão e justificar o posicionamento. A atividade proporcionou a revisão de habilidades como classificação, soletração e sílaba, além de expressão oral, funções de planejamento; possibilitou tomadas de decisão baseadas nos conhecimentos adquiridos por meio da classificação das palavras.

Figura 4: Cartazes dispostos para classificação das fichas com palavras

Figura 5: Aluno após sortear a ficha realizando leitura em voz alta e soletração da palavra

Figura 6: Aluna em processo de tomada de decisão para classificar a palavra sorteada

Figura 7: Aluna fixando ficha no cartaz correspondente após tomada de decisão

Considerações

O trabalho pedagógico sistematizado e estruturado faz-se de muita necessidade e importância à medida que se compreende as dimensões dos impactos da aprendizagem escolar e seus desdobramentos no desenvolvimento. Atividades que consideram em sua formatação a contemplação de aspectos neurobiológicos do desenvolvimento configuram-se válidas e fundamentais para o desenvolvimento de habilidades de forma integral que, aliadas a abordagens lúdicas, aumentam o nível de engajamento e participação dos alunos.

Referências

GUERRA, Leonor Pereira; PEREIRA, Alexandre Hatem; LOPES, Mariana Zaramela. Inserção da neurobiologia na educação. NEUROEDUCA, 2004. Disponível em:  https://ledum.ufc.br/arquivos/didatica/2/Insercao_Neurobiologia_Educacao.pdf. Acesso em: 26 set. 2020.

FONSECA, Rochele Paz; PUREZA, Janice da Rosa. Programa de Capacitação de Educadores sobre Neuropsicologia da Aprendizagem com ênfase em funções executivas e atenção – Cena. São Paulo: Booktoy, 2016.

ROTTA, Newra Tellechea. Plasticidade cerebral e aprendizagem. In: ROTTA, N. T.; OHLWEILER, L.; RIESGO, R. S. Transtornos da aprendizagem – abordagem neurobiológica e multidisciplinar. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.

Publicado em 23 de março de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

SOUSA, Rafael Rossi de. Estimulando funções executivas em atividades de revisão de conteúdos. Revista Educação Pública, v. 21, nº 10, 23 de março de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/10/estimulando-funcoes-executivas-em-atividades-de-revisao-de-conteudos