Sacola de Degustação: arte, educação e saúde com alimentação saudável

Ailza de Freitas Oliveira

Doutora em Educação (UFPB), docente de Artes Cênicas (PMJP)

Bianca Freitas Régis

Graduanda e licencianda em Enfermagem (UFPB), membro da ONG Maré Produções Artísticas e Educacionais

Fernando A. Abath L. C. Cananéa

Doutor em Educação (UFPB), docente no Mestrado Profissional (Profartes/UFPB)

Íris Freitas Régis

Graduanda em Fonoaudiologia (UFPB), membro da ONG Maré Produções Artísticas e Educacionais

A Arte na Educação e na Saúde

Compreendemos a arte como algo essencial para a existência humanizada. Parte integrante de nós se compõe de nossa esfera artística, sobretudo a que nos referencia aos encantos da sensibilidade, criatividade e emoção. A música, o canto, a dança, a interpretação, a escultura, a pintura, a fotografia e a poesia, entre outras áreas artísticas, são ferramentas que nos formam e moldam a nossa essência como seres humanos humanizados, capazes de produzir esteticamente, de criar ampliando a sensibilidade, de ampliar a capacidade criativa e de estimular a emoção de forma positiva.

Como ferramenta metodológica, a arte atua nas mais diversas áreas da aprendizagem humana, e aqui nos referimos à arte nos campos da Educação e da Saúde, como disciplina e veículo locomotor de novos e significativos saberes, entre eles, os que se referem à alimentação saudável.

De forma transdisciplinar, pontuando nosso percurso entre a Educação e a Saúde, buscaremos observar que “dessa maneira, o educador já não é o que apenas educa, mas o que, enquanto educa, é educado, em diálogo com o educando que, ao ser educado, também educa” (Freire, 2011, p. 95-96), possibilitando assim que ambos se percebam e tornem-se sujeitos do processo de crescimento coletivo; por isso, enquanto refletimos sobre o fazer artístico e pedagógico e os desdobramentos metodológicos nas áreas da Educação e da Saúde, compreendemos que todos aprendem juntos, estudantes, autores e leitores, estudantes que participaram da ação prática, autores que por ora refletem sobre tal prática e possíveis leitores que se permitam debruçar sobre esse percurso de escrita reflexiva.

Nutrição e Saúde

A saúde depende da junção de diversos condicionantes em equilíbrio na vida de um ser humano. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS, 1948), a saúde pode ser definida como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades”. Ou seja, um indivíduo, para estar completamente saudável, necessita estar definitivamente completo em diversas categorias da vida, não apenas referindo-se à ausência de condições patológicas, mas levando em consideração os aspectos sociais, biológicos e psicológicos, entre outros fatores que podem interferir diretamente em sua condição de saúde.

Diante disso, é valido ressaltar a Lei n° 8.080, de 19 de setembro de 1990 (Brasil, 1990), que enfatiza a presença de determinantes e condicionantes da saúde; esses fatores estão diretamente relacionados ao processo saúde/doença, tendo em vista que a ausência ou presença deles em nível coletivo ou individual influencia na qualidade de vida dos indivíduos. Dentre esses fatores estão: segurança, moradia, educação, alimentação, renda, trabalho, transporte, lazer, meio ambiente e saneamento básico (Brasil,1990).

Como visto, a alimentação é um dos determinantes e condicionantes da saúde; sendo assim, é essencial para o bom funcionamento do corpo, e é por meio dela que conseguimos nutrientes suficientes para suprir as necessidades do organismo. Diante disso, fica explícita a necessidade da promoção da saúde relacionada a uma alimentação saudável que proporcione melhor qualidade de vida à população.

Segundo Martins (2011, p. 145),

Entre as necessidades biológicas e a alimentação há a intermediação do Homem que, em condições normais e disponíveis, exerce o seu arbítrio na escolha alimentar. Os alimentos elegem-se segundo fatores de natureza sociocultural, religiosa, ecológica, econômica, psicológica, afetiva e emocional e, em cada uma dessas dimensões, por diversos elementos.

Visto isto, é nítido que se nutrir de hábitos alimentares saudáveis é um fator necessário; apesar das influências do livre arbítrio e das condições que interferem nessa alimentação, esses hábitos devem ser estimulados previamente para um bom funcionamento do organismo e a formação de hábitos saudáveis efetivos. Portanto, a conscientização de que a alimentação saudável conduz a uma vida saudável é um processo de ensino-aprendizagem que pode acontecer nos espaços escolares como pré-requisito para o bem-estar social. Saber o que é benéfico para o organismo e a nutrição do corpo é o primeiro passo para conscientizar a população da necessidade de se alimentar de forma saudável.

O pensamento de Charlot (2013, p. 134-135) enfatiza a importância dos ensinamentos escolares como meio para mudança de hábitos e práticas futuras para os estudantes, em que “a posição entrando na escola (in) e a sua posição saindo dela (out) comparam-se ambas e conclui-se que a escola contribui para a reprodução social”. Essa reprodução social pode ser compreendida como resultado dos aprendizados alimentares dentro do âmbito escolar, em que as atividades desenvolvidas em sala de aula são refletidas diretamente no cotidiano dos estudantes em todos os contextos sociais.

A conscientização e a aprendizagem dos hábitos saudáveis devem ser feitas com base na distinção da qualidade dos alimentos consumidos, diferenciando-os entre os contribuintes para o bom funcionamento do organismo e os que não fornecem quaisquer benefícios. Gadotti (2011, p. 87) ressalta que “a melhor escolha da comida é aquela produzida localmente; a pior é a que vem empacotada, de longe, e que produz muito mais lixo (produtos industrializados) e mais custos sociais e ambientais”.

Sendo assim, é necessário o conhecimento da procedência desses alimentos, ou seja, “trata-se de saber, de conhecer como os produtos que consumimos foram produzidos. Conhecer todo o sistema de produção alimentar” (Gadotti, 2011, p. 87).

Dessa forma, é possível a formação de estudantes conscientes e que compreendam a necessidade de alimentar-se saudavelmente correlacionando isso a um fator que influencia na saúde e no bem-estar, além de uma reprodução social individual do ambiente escolar para o externo que possibilite um incentivo à alimentação saudável dos indivíduos que estão no círculo de vivência desses estudantes, resultando em uma conscientização coletiva e efetiva.

Alimentação saudável: um projeto interdisciplinar

A escola é movimentada por projetos interdisciplinares cujas temáticas abordam conteúdos obrigatórios, temas transversais, teores sociais, conforme a necessidade da equipe escolar – quando esta tem autonomia pedagógica – e/ou imposição do sistema de ensino local, regional e nacional, bem como do sistema político, por meio de leis que obrigam a abordagem de determinados assuntos no contexto escolar.

As escolas que compõem o sistema de ensino municipal da cidade de João Pessoa/PB têm a obrigatoriedade de abordar anualmente, em projeto interdisciplinar, a temática da alimentação saudável. Tal obrigação se pauta na Lei Ordinária nº 11.971, de 30 de julho de 2010. Essa lei institui, em quatro artigos, a orientação para que se realize a Semana Municipal da Alimentação Saudável nas escolas das redes públicas e privadas da capital pessoense. Decretada pela Câmara Municipal de João Pessoa e sancionada pelo professor Luciano Agra, então prefeito, tal lei decide:

Art. 1º Fica instituída a Semana Municipal da Alimentação Saudável nas escolas das redes públicas e privadas da cidade de João Pessoa na ultima semana do mês de março, coincidindo com o dia 31 de março, data em que se comemora o Dia da Saúde e Nutrição.

Art. 2º A semana de que trata esta lei integrará o Calendário Oficial do Município de João Pessoa.

Art. 3º São objetivos da Semana: organizar palestras, seminários, campanhas educativas e congressos com a temática da alimentação saudável nas escolas.

Parágrafo Único - A comemoração da Semana Municipal da Alimentação Saudável nas escolas de redes públicas e privadas da cidade de João Pessoa envolverá o Poder Executivo Municipal, o Poder Legislativo e o Conselho Municipal de Alimentação Escolar.

Art. 4º Esta lei entra em vigor na data de sua publicação.

Desse modo, anualmente, desde o ano letivo de 2010, o calendário escolar tem dedicado a última semana do mês de março para a culminância dos projetos interdisciplinares de cada unidade de ensino encaminhados anteriormente à Secretaria de Educação e Cultura – Sedec sobre a temática da alimentação saudável em consonância com a legislação.

Para a realização do projeto, cada disciplina elenca as ações anuais a serem realizadas de forma mono ou interdisciplinar, coletiva e individual, teórica e prática, lúdica e criativa, em aulas de campo, em visitas monitoradas, na sala de aula, de vídeo, de informática, com atividades para casa e para a classe, em equipes e individualmente. Com cronograma que compreende a execução do final do mês de fevereiro ao final do mês de março de cada ano, é um marco para a culminância, coincidindo com o Dia da Saúde e Nutrição.

No decorrer desses dez anos letivos de participação no projeto, de 2010, quando de sua elaboração, a 2020, já desenvolvemos muitas ações, quiz de perguntas e respostas, gincanas, jogos, dinâmicas, paródias, peças de teatro de fantoches, esquetes cênicos, caças ao tesouro, aulões de atividade física, entrevistas com feirantes em mercado público, coleta de lista de alimentos saudáveis e não saudáveis em supermercados, receitas saudáveis elaboradas, desenvolvidas e fotografadas por estudantes e familiares, jogos com a pirâmide de alimentos, escrita de receitas com a Educação de Jovens e Adultos – EJA, elaboração de receitas coletivas, alfabeto corporal, criação de vídeos, slides, áudios, músicas e palestras, entre outras ações.

Nesse percurso escrito decidimos refletir sobre a dinâmica que denominamos “Sacola de Degustação”, ação que detalharemos a seguir, a fim de que possa ser apreciada, analisada, conhecida, reaplicada, adaptada em outros lugares de aprendizagem por outros(as) educadores(as), uma vez que julgamos ser uma ação criativa que promove amplo envolvimento dos estudantes em sua participação e atinge a aprendizagem de forma prazerosa, significativa e interativa.

A Sacola de Degustação

A Sacola de Degustação é uma dinâmica degustativa. Consiste na utilização de uma sacola colorida, que não permite a visualização de seu interior. Nela alimentos saudáveis e não saudáveis são colocados à prova degustativa dos estudantes que, de olhos vendados, tentam adivinhar que alimentos provaram; se acertam, pontuam para a sua equipe; se erram, passam o ponto para a equipe adversária.

A brincadeira traz cerca de 30 alimentos a serem provados, com consistência sólida, líquida e pastosa, com cores variadas e cheiros fortes; desse modo, outros sentidos são colocados em sintonia com o degustativo, como o olfato dos estudantes vendados e a visão dos estudantes que integram as equipes (estes não podem falar caso adivinhem de que alimento se trata ao vê-lo, sob pena de perca de pontuação para a sua equipe). Para Gadotti (2011, p. 86-87),

Precisamos comer para sobreviver, mas, diferentemente dos animais, não nos alimentamos por puro instinto. Sentimos prazer ao nos alimentar e podemos fazer escolhas. Transformamos o ato de comer num ato significativo. Não é uma mera satisfação de uma necessidade instintiva. Comer é também um ato cultural. As sociedades o transformaram num ato social.

Por isso podemos aprender socialmente que alimentos são saudáveis ou não para a nossa nutrição e saúde, assim como podemos adquirir o hábito de consumir alimentos saudáveis com o estímulo e a conscientização externa da escola, da família e das demais esferas da sociedade.

Entre os alimentos degustados na dinâmica da Sacola de Degustação colocamos alguns daqueles com os quais geralmente não nos alimentamos desacompanhados de outros, como temperos; são colocados também os que ocupam o topo da aprovação, como chocolates e doces em geral. Numerado, cada alimento é degustado em sintonia com a numeração escolhida por quem vai degustar, inviabilizando a tendência da sequência degustativa.

Dessa forma, colorau, alface, pimenta, sal, cominho, açúcar, coentro, banana, uva, laranja, mamão, pepino, melão, melancia, cenoura, alho, chuchu, cebola, chiclete, biscoito, pipoca, bombom, bolo, pudim, chocolate, café, refrigerante, água, suco e sorvete se misturam na sequência dos paladares. Vale resaltar que os alimentos são servidos em copinhos e colheres descartáveis, visando à higiene, e que guardanapos e o cesto de lixo da sala ficam à disposição para eventuais imprevistos com algum alimento provado.

No quadro escolar, a tabela de pontuação vai se formatando conforme cada estudante prova os alimentos ofertados. Além de adivinhar que alimentos provaram, também assinalam se ele é saudável ou não, trabalham os sentidos de paladar, olfato e visão; todos os estudantes – dos que provam aos que integram as equipes – são proibidos de exercer o sentido do tato.

Os estudantes das equipes são proibidos de exercer a fala para não ajudar na audição de quem prova, controlando assim os impulsos de ansiedade, e estimulando o respeito mútuo. A fala aparece voluntariamente após cada acerto ou erro, comemorando ou lamentando; a comunicação se estabelece e estimula ou amedronta quem degusta de olhos vendados por cada equipe.

Figura 1: Momento da dinâmica degustativa numa escola

A Sacola de Degustação ocorreu nos anos letivos de 2018 e 2019, integrando o projeto de alimentação saudável como ação da disciplina de Artes Cênicas numa escola municipal localizada no bairro de Manaíra, em João Pessoa/PB, com estudantes dos turnos da tarde e da noite, da EJA e do Ensino Fundamental II, nas salas do 6º ao 9º anos, em atuação por turma, dentro de cada sala de aula, que, subdividida em duas equipes, experimentou a dinâmica da Sacola de Degustação.

Reflexões pertinentes

Sendo a arte algo essencial para que nossa existência seja humanizada e que nossa sensibilidade, nossa criatividade e nossa emoção sejam estimuladas de forma sequenciada e positiva, desejamos que esta reflexão, oriunda da prática pedagógica exercida possa ser ponte para novas ideias e práticas interdisciplinares e transdisciplinares nos ambientes escolares e nos ambientes de aprendizagem, como aqui percorremos.

Freire (2011, p. 169) afirma que “o seu que fazer, ação e reflexão, não pode dar-se sem a ação e a reflexão dos outros, se seu compromisso é o da libertação”. Assim, oportunizamos a partir deste relato de experiência pedagógica, por meio da arte e dos conhecimentos em Saúde, que a alimentação saudável, mais do que uma ação prevista por uma lei municipal, pode e deve ser uma prática permanente no ambiente escolar, pois, com base nessa ação educativa, os estudantes de diferentes níveis de escolarização não só criarão hábitos saudáveis em relação à sua alimentação como levarão esses hábitos e discussões até seus familiares, influenciando-os positivamente.

O espaço escolar é rico em possibilidades de transformação social, e a alimentação saudável é uma questão de saúde pública que traz implicações na vida das pessoas. A escola está fazendo e refletindo sobre o que faz, sempre.

Referências

BRASIL. Lei n°8.080, de 19 de setembro de 1990. Lei de Promoção, proteção e recuperação da saúde. Brasília: Senado Federal, 1990.

CHARLOT, Bernard. Da relação com o saber às práticas educativas. São Paulo: Cortez, 2013.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 50ª ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.

GADOTTI, Moacir. A boniteza de um sonho: ensinar-e-aprender com sentido. 2ª ed. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2011.

JOÃO PESSOA. Lei Ordinária nº 11.971, de 30 de julho de 2010. Disponível em: https://leismunicipais.com.br/a/pb/j/joao-pessoa/lei-ordinaria/2010/1197/11971/lei-ordinaria-n-11971-2010-institui-a-semana-municipal-da-alimentacao-saudavel-nas-escolas-das-redes-publicas-e-privadas-da-cidade-de-joao-pessoa. Acesso em: 15 abr. 2020.

MARTINS, Maria do Céu Antunes. A alimentação humana e a enfermagem: em busca de uma dietética compreensiva. Rev. Enf. Ref., Coimbra, v. III, nº 4, p. 143-149, jul. 2011.

Publicado em 23 de março de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

OLIVEIRA, Ailza de Freitas; RÉGIS, Bianca Freitas; CANANÉA, Fernando A. Abath L. C.; RÉGIS, Íris Freitas. Sacola de Degustação: arte, educação e saúde com alimentação saudável. Revista Educação Pública, v. 21, nº 10, 23 de março de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/10/sacola-de-degustacao-arte-educacao-e-saude-com-alimentacao-saudavel