A musicalidade em tempos de pandemia: uma aula não presencial sobre a música “Águas de Março”, de Tom Jobim

Joyce Frade Alves do Amaral

Docente e Coordenadora Pedagógica da Rede Municipal do Rio de Janeiro, mestra em Ciências

Este trabalho, caracterizado como relato de experiência, tem o objetivo de demonstrar o desenvolvimento de uma atividade remota sobre Tom Jobim realizada no segundo segmento do Ensino Fundamental na Escola Municipal Waldemar Falcão, localizada no município do Rio de Janeiro.

O objetivo principal com a aula a ser apresentada neste trabalho foi, além do conhecimento cultural, que o aluno fosse capaz de se perceber como protagonista do próprio processo de aprendizagem, e, mesmo em meio à pandemia e por meio de uma aula remota, tornar possível a percepção do desenvolvimento de uma atividade interessante e frutífera para a construção do conhecimento cultural.

Dessa forma, neste trabalho será abordada a temática do Projeto Tom nas Escolas: a importância da educação musical nas escolas e a contribuição para o processo de aprendizagem, a metodologia da aula realizada e os resultados da atividade.

Sobre o Projeto Tom nas Escolas

Entre os meses de agosto e setembro de 2020, a Secretaria Municipal de Educação e o Instituto Tom Jobim lançaram o Projeto Tom nas Escolas, com diversos conteúdos artísticos e pedagógicos sobre o maestro para que todos os alunos da Rede Municipal de Ensino pudessem conhecer melhor sua vida e sua obra.

Dessa forma, por meio do aplicativo de estudos SME Carioca 2020, da Sala de Leitura Virtual da SME e nos canais do Programa Orquestra nas Escolas, os alunos tiveram acesso a trabalhos pedagógicos relacionados às músicas de Tom Jobim; também foram realizadas lives semanais com abordagem do projeto e depoimentos de personalidades ligadas ao maestro.

Além das atividades disponibilizadas pela Secretaria Municipal de Educação (SME), cada escola foi orientada a desenvolver alguma atividade sobre esse projeto com os alunos de forma não presencial, já que as aulas presenciais foram suspensas desde março de 2020 por conta da pandemia do coronavírus.

As atividades remotas na unidade escolar eram disponibilizadas via Instagram, Facebook, plataforma Teams, Google Classroom e grupo de WhatsApp. A atividade dessa aula, especificamente, foi realizada via grupo de WhatsApp, pois é a plataforma a que os alunos tinham mais facilidade de acesso. A atividade foi realizada de forma remota no segundo segmento do Ensino Fundamental, grupo atendido pela Escola Municipal Waldemar Falcão.

A contribuição do estudo musical para o processo de ensino-aprendizagem

A música tem grande poder de interação, e desde muito cedo adquire grande relevância na vida de uma criança, despertando sensações diversas, tornando-se uma das formas de linguagem muito apreciadas por facilitar a aprendizagem e instigar a memória das pessoas.

No âmbito escolar, a música tem por finalidade facilitar a aprendizagem do educando, pois instrui o indivíduo a ouvir de maneira afetiva e reflexiva. Dessa forma, o processo educativo precisa ser permanente e progressivo, precisando de diferentes formas de estudo para seus aperfeiçoamentos, pois em qualquer espaço sempre haverá diferentes condições familiares, sociais, ambientais e afetivas.

Nessa perspectiva, a musicalização abraça aspectos importantes com propósitos educacionais, e é um recurso que assessora o educador a cumprir bem o seu papel, visto que educar exige doses de emoção, alegria, compromisso, além de trazer experiências que enriquecem a relação entre professor e alunos. Vygotsky (2003) mostra que o ambiente externo interage diretamente no desenvolvimento e na aprendizagem das crianças; dessa maneira, acredita-se que o contato delas com a cultura que as rodeia seja um elemento fundamental para o seu crescimento saudável, daí se dá a contribuição do estudo musical na formação do aluno.

Além disso, a música desempenha importante papel na educação, não apenas como estética, mas também como facilitadora do processo de ensino-aprendizagem e como instrumento que tem grande poder de tornar a sala de aula um ambiente mais receptivo e alegre, pois todos estarão envolvidos emocionalmente com o espaço, tanto físico quanto emocional da escola.

Benefícios da música no ambiente escolar

A música habilita os alunos a que possam realizar funções motoras e intelectuais, bem como relacionar-se com o meio social (Vectore, 2019). Essas ferramentas de trabalho servem para os professores como meios facilitadores do ensino. Além de contribuir para deixar o ambiente escolar mais alegre, a música oferece um efeito calmante após períodos de atividades físicas e atividades que exigem esforço, como visitas a ambientes externos, reduz o estresse em momentos de avaliação e pode ser usada como método no aprendizado de todas as disciplinas.

Sendo assim,o professor pode escolher várias músicas que tratem do assunto que será trabalhado em sua aula; isso tornará a aula atrativa, dinâmica e ira ajudar a rememorar as informações repassadas para as atividades posteriores.

O som, uma vez produzido, tanto por instrumentos, objetos ou pelo corpo como palmas, por exemplo, pode transportar o educando para um mundo vasto de aprendizado, ou seja, por meio das atividades musicais, a escola pode ampliar o conhecimento do aluno, favorecendo a convivência com os diferentes gêneros musicais, apresentando novos estilos, proporcionando um diagnóstico reflexivo do que lhe é apresentado, permitindo que o aluno torne-se um ser crítico.

Ligar a música e o movimento, utilizando a dança ou a expressão corporal, pode contribuir para que algumas crianças em situação difícil na escola possam se adaptar. Por isso é tão importante a escola se tornar um ambiente alegre e favorável ao desenvolvimento do aluno.

As performances musicais executadas na escola não serão voltadas exclusivamente para formar músicos, e sim, através da prática e percepção da linguagem musical, para proporcionar a abertura dos canais sensoriais, facilitando a expressão de emoções, ampliando a cultura e contribuindo para a formação total do cidadão (Silva, 1995).

Pensando nesses aspectos colaboradores para a aprendizagem do aluno, a aula foi planejada com o objetivo de promover a autonomia e o protagonismo ao aluno, pois, por ser uma aula remota, o aluno foi capaz de se identificar como responsável pelo seu próprio processo de aprendizagem, gerando assim mais interesse e dedicação ao processo educativo como um todo (Tarouco, 2003).

Metodologia

Conforme mencionado, a aula remota a ser detalhada a seguir foi planejada conforme orientação da SME em decorrência do Projeto Tom nas Escolas. A aula foi toda realizada remotamente pelo aplicativo WhatsApp por meio de um grupo formado para os alunos da escola, denominado como Aula Online na Waldemar. O público desse grupo são os alunos do segundo segmento do Ensino Fundamental, o atendido pela unidade escolar. Sendo assim, a aula remota foi organizada em três etapas a saber:

Na primeira etapa, foi feita a divulgação da atividade no grupo de WhatsApp. Como os alunos já tinham conhecimentos prévios sobre a atividade a ser desenvolvida, pois, conforme dito antes, o conteúdo do Projeto Tom nas Escolas foi disponibilizado em diversas plataformas digitais e no material didático dos alunos, foi solicitado que visitassem o site https://www.appai.org.br/o-que-e-o-que-e-confira-gonzaguinha-no-bom-espetaculo-2/. Deveriam ler e fazer um resumo do texto sobre a música “Águas de Março”. O objetivo dessa primeira etapa foi desenvolver a leitura e a interpretação e contribuír para o desenvolvimento cultural por meio da aprendizagem sobre a obra de um importante compositor da música popular brasileira.

Na segunda etapa, foi orientado que os alunos postassem o resumo no grupo de WhatsApp. Os alunos tiveram um prazo para a entrega da atividade, o que gerou autonomia e senso de autorresponsabilidade ao ter o compromisso com a realização e entrega da atividade.

Na terceira etapa, foi orientado que os alunos assistissem ao vídeo com o clipe da música “Águas de Março” e retratassem, por meio de um desenho em formato de quadro, sua interpretação de uma parte da música. Também foi preciso escrever no desenho o trecho da música que foi retratado. O videoclipe também estava disponibilizado naquele site.

Essa etapa foi de suma importância para o desenvolvimento crítico, reflexivo e cognitivo dos alunos, pois foram protagonistas (Petermann, 2017) de seu próprio processo de aprendizagem e foram capazes de decidir o que e como seria desenvolvida a atividade sobre a música.

Neste momento gostaria de chamar a atenção sobre a relevância da aula remota, pois possibilitou ao aluno o desenvolvimento da autonomia e da capacidade de decisão e ação, fazendo com que ele se percebesse como peça fundamental do próprio processo de aprendizagem e construção do conhecimento (Werneck, 2006).

Ao final, foi orientado que postasse no grupo o desenho feito, para a consolidação da atividade realizada.

Tanto a orientação quanto o desenvolvimento da aula remota foram conduzidos de forma simples e direta, o que minimizou o surgimento de dúvidas e contribuiu para tomada de decisão dos alunos, conforme está na Figura 1.

Figura 1: Orientação para o trabalho, via grupo de WhatsApp

Figura 2: Uso de linguagem simples foi essencial para o resultado

Conforme observado na Figura 2, foi usada linguagem simples e de fácil explicação a fim de facilitar a compreensão dos alunos ao desenvolver a atividade. Nessa perspectiva, os alunos se sentiram confiantes, demonstraram interesse e motivação na execução da atividade proposta, conforme demonstrado na Figura 2.

O exposto na Figura 2 ressalta a contribuição da aula remota para o processo de ensino e reforça que é possível ensinar de forma simples e promover um processo de aprendizagem e construção de conhecimento autônomo e eficaz, como será demonstrado com a apresentação dos resultados da atividade realizada.

Resultados

Este trabalho relata a experiência de uma atividade no segundo segmento do Ensino Fundamental em uma escola pública municipal. A atividade foi relizada de forma remota por conta da suspensão das aulas presenciais devido à pandemia do coronavírus. Foi utilizado o aplicativo WhatsApp para o desenvolvimento da atividade e interação com os alunos participantes, que mostraram interesse no desenvolvimento da atividade e se sentiram motivados para a sua realização.

A seguir está a produção de alguns alunos referente às atividades desenvolvidas conforme exposto na metodologia, uma aluna do 7º ano (Luana) e dois alunos do 9º ano (Eros e Dyego), que realizaram a atividade conforme solicitado. Fizeram o resumo e a produção artística (desenho) de uma parte selecionada da música.

Abaixo segue a forma como os alunos apresentaram a atividade; todas foram postadas no WhatsApp do grupo da escola.

Aluna Luana

Resumo:

Em 1972 o autor dessa música, António Carlos Jobim, foi para um sítio em Poço Fundo para concluir outra música, "Matita Perê".

Subitamente, durante uma pausa no trabalho, um outro tema surge enquanto o compositor dedilha o violão. Junto com a melodia, ele começa a cantarolar os primeiros versos da canção. Teresa, sua mulher, elogia a música, e Jobim, com uma caneta e papel de embrulho de pão, escreve as ideias iniciais de “Águas de Março”.

Produção artística do trecho da música selecionado para o desenho:

"É uma ave no céu, é uma ave no chão

É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão

É o fundo do poço, é o fim do caminho

No rosto um desgosto, é um pouco sozinho."

A atividade apresentada a seguir é do aluno Eros, do 9º ano.

Resumo e produção artística sobre a música

"Águas de Março" é um clássico da música brasileira, composto por Tom Jobim em 1972. O lançamento da canção foi feito em um Disco de Bolso, o Tom Jobim e o tal de João Bosco, e no ano seguinte no álbum Matita Perê. Em 1974, foi lançada uma versão em dueto com Elis Regina, no LP Elis e Tom. A canção ainda teve versão em inglês composta por Tom e, apesar da mudança de idioma, o autor se manteve fiel ao significado da música.

Tom Jobim começou a compor a canção, apenas no violão, em março de 1972, em seu sítio em Poço Fundo, no Rio de Janeiro. A inspiração surgiu após um dia cansativo trabalhando em "Matita Perê".

Certa vez, Tom mencionou em entrevista que compôs a música em um momento de muita tristeza. O artista estava sem esperança, bebia muito, reclamava que ninguém ouvia suas músicas e se dizia deprimido. Na ocasião, ele sofria com problemas de saúde e refletia sobre a finalização de seus projetos, o que entrava em conflito com seu desinteresse por tudo.

A produção seguinte foi a realizada pelo aluno Dyego, também do 9º ano. Aqui quero chamar a atenção pelo fator motivacional e de interesse do aluno. Como pode ser observado, ele não tinha os recursos tecnológicos dos outros alunos para realizar a atividade no computador, mas mesmo assim ele, como protagonista de sua aprendizagem, fez a atividade em uma folha de caderno, tirou foto e colocou no grupo no dia marcado para a entrega da atividade.

Pelos resultados apresentados, foi notória a possibilidade de realização de uma aula remota eficaz e que impactasse na vida acadêmica do aluno. Assim, mais uma vez ressalto a importância de ter um olhar cuidadoso quanto às diversas possibilidades de ensino e que, quando elas são planejadas e realizadas de acordo com a realidade e possibilidade dos alunos, o retorno é totalmente satisfatório tanto para o aluno quanto para o professor.

Referências

PETERMANN, Rafael; JUNG, Neiva Maria. Participação, protagonismo e aprendizagem na fala-em-interação de sala de aula em uma equipe de trabalho no Ensino Médio. Rev. Bras. Linguíst. Apl., Belo Horizonte,  v. 17, nº 4, p. 813-844,  Dez. 2017. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1984-6398201711341 e em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-63982017000400813&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 16 jan. 2021.

SILVA, Mônica Ribeiro da. Educação e a formação do cidadão. Educ. Rev.,  Curitiba, nº 11, p. 129-134, dez. 1995. Disponível em: https://doi.org/10.1590/0104-4060.152 e http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-40601995000100018&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 13 jan. 2021.

TAROUCO, Liane Margarida Rockenbach; MORO, Eliane Lourdes da Silva; ESTABEL, Lizandra Brasil. O professor e os alunos como protagonistas na educação aberta e a distância mediada por computador. Educ. Rev.,  Curitiba,  nº 21, p. 01-15, jun. 2003. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/0104-4060.281 e http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-40602003000100004&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 13 jan.  2021.

VECTORE, Celia et al. Linguagem musical em instituições infantis: avaliação de duas propostas para formação docente. Psicol. Esc. Educ., Maringá,  v. 23,  e189263, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1590/2175-35392019019263 e http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-85572019000100313&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 13 jan. 2021.

VYGOTSKY, L. S. Psicologia pedagógica. Porto Alegre: Artmed, 2003.

WERNECK, Vera Rudge. Sobre o processo de construção do conhecimento: o papel do ensino e da pesquisa. Ensaio: Aval. Pol. Públ. Educ., Rio de Janeiro, v. 14, nº 51, p. 173-196, jun. 2006. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S0104-40362006000200003 e http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-40362006000200003&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 16 jan.  2021.

Publicado em 30 de março de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

AMARAL, Joyce Frade Alves do. A musicalidade em tempos de pandemia: uma aula não presencial sobre a música “Águas de Março”, de Tom Jobim. Revista Educação Pública, v. 21, nº 11, 30 de março de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/11/a-musicalidade-em-tempos-de-pandemia-uma-aula-nao-presencial-sobre-a-musica-raguas-de-marcor-de-tom-jobim