Cinema em sala de aula virtual como incentivo a leitura e a escrita no ensino remoto

Ruberlandia Araújo de Farias

Licenciada em Letras (UERN), especialista em Psicopedagogia Institucional (FIP), mestranda em Ciências da Educação (Facem), professora da rede pública municipal e estadual em Alto do Rodrigues/RN

Atualmente, muito se discute as dificuldades de leitura/escrita e interpretação que o aluno tem, em geral, quando chegam aos anos finais do Ensino Fundamental, pois se espera que tenha adquirido habilidades e competências de aprendizagem, ainda no primeiro ciclo do Ensino Fundamental, porém, não é essa a realidade com a qual os docentes se deparam no contexto escolar, principalmente, aqueles que lecionam Língua Portuguesa, especialmente nesta última década, que vem passando por mudanças trazidas pelas tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC) (Brasil, 2018, p. 65), que desafiam o professor a se reinventar e planejar novas estratégias de ensino da língua materna.

E é nesse cenário pós-moderno tecnológico que o aluno está inserido, em contato com diversos gêneros discursivos – orais e escritos, impressos ou digitais, sendo estimulado a ler e a produzir não só textos escritos, mas também orais de maneira ativa, interativa e criativa, capaz de tornar-se um cidadão consciente, ético e crítico, um sujeito ativo e social, agente de transformação do meio onde vive. Para Freire (1982), o domínio da leitura e da escrita é uma das formas de conscientização da realidade e de possível meio de transformação.

Todavia, a problemática vivenciada pelos professores no cenário escolar, principalmente diante deste caráter excepcional de isolamento social, devido a rápida disseminação do vírus SARS-CoV-2, em turmas do 6º ao 9º ano, é a grande dificuldade de leitura e escrita apresentada pelos alunos tanto nas aulas presenciais quanto nas aulas virtuais, vinculada a falta de interesse e estímulo dos mesmos em ampliar seu repertório linguístico e sua competência leitora.

Reconhecendo as dificuldades ao longo do processo de desenvolvimento da leitura e da escrita no Ensino Fundamental II, este artigo tem por objetivo evidenciar o cinema em sala da aula virtual como recurso instrumentalizador nas aulas de Língua Portuguesa, na modalidade de ensino remoto e auxiliador no desenvolvimento de leitura, interpretação e produção. Não se trata, entretanto, de uma fórmula mágica que resolverá as dificuldades de ensinar a ler e a redigir, a falar e a interpretar, mas de uma ferramenta de apoio ao trabalho pedagógico do professor de língua materna.

A partir da concepção de leitura emancipatória social proposta por Freire (1982), o trabalho faz alguns questionamentos, tais como: Por que o aluno do Ensino fundamental II não gosta de ler e/ou redigir? E por que seu repertório vocabular crítico e sociocultural é tão limitado? Como o cinema pode contribuir no desenvolvimento do processo aquisitivo da leitura e da escrita?É possivel despertar o interesse e aprendizado do aluno por meio da linguagem cinematográfica nas aulas remotas? Sob a perspectiva de uma pesquisa, cuja opção metodológica foi a bibliográfica, buscou-se aprofundamento na temática em questão, por meio de leituras, análises e reflexões da produção de autores diversos que discutem o tema.

Esse método vem sendo aplicado desde 2016, em uma escola da rede municipal de ensino, em Alto do Rodrigues/RN, nas turmas do sétimo ao nono ano, do Ensino Fundamental II, sendo readaptado e executado nas aulas remotas. O trabalho está dividido em três tópicos: o primeiro trata do cinema na prática docente, o segundo o cinema nas aulas de Língua Portuguesa, e o terceiro, experiência com o cinema em uma sala de aula virtual, no Ensino Fundamental II, em Alto do Rodrigues/RN. E, por fim, apontaremos possíveis soluções para o problema da dificuldade em leitura e escrita vindos de anos/séries anteriores, e ao mesmo tempo, indicar que as metodologias alternativas como o cinema na escola, são interessantes para que se possa mudar essa situação e melhorar a qualidade da leitura e da escrita e interpretação de textos, na modalidade proposta de ensino híbrido.

Assim, nossa análise parte de uma perspectiva local, cujo trabalho com cinema na escola, produzido pelos próprios alunos, do 7º ao 9º ano, apontou este recurso artístico e literário como ferramenta didática auxiliar do professor ao combate dos problemas de leitura, escrita e interpretação, além de minimizar a desmotivação no processo de aprendizagem, isto referente às aulas presenciais e também remotas.

É função do professor buscar os procedimentos que deem sentido para o aluno e incorporá-los à prática de leitura em sala de aula, contribuindo para ampliar as capacidades deles. Daí a importância do cinema na educação, pois é indiscutível sua propagação de ideias, fatos históricos, tendências artístico-cinematográficas e o grau de diversão que aliados aos conteúdos, favorecem o dinamismo prazeroso e inovador no âmbito educativo.

Nossos discentes atuais necessitam de estímulos audiovisuais para manter o foco, ou seja, não dispersar sua atenção. E, nesse aspecto, não se concebe mais que o ensino de língua e, principalmente, o de leitura ocorram apenas de textos expressos no papel. Faz-se necessário incrementar novos “fazeres” pedagógicos que estimulem, instiguem e envolvam os alunos nesse vínculo dialógico com o professor mediador do conhecimento. Para Kato (1986, p. 7), o sujeito tem a capacidade de fazer o uso significativo da leitura e da escrita em diferentes práticas sociais.

O cinema na prática docente

A Revolução Industrial foi o período de grande desenvolvimento tecnológico que teve início a partir da metade do século XVIII e que se espalhou pelo mundo causando grandes transformações na economia mundial, bem como no estilo de vida da humanidade. Nesse cenário evolutivo da indústria, surgem os irmãos franceses Louis e Auguste Lumière que inventaram, em 1895, o cinematógrafo, revolucionando a arte da comunicação, de onde se originou o termo cinema.

A inclusão dessa arte como estratégia inovadora ligada ao desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem é fundamental para o aprimoramento das práticas pedagógicas com o objetivo de levar a uma formação didática de leitura dramatizada e interpretação silenciosa e/ou oral bastante praticadas em sala de aula, como afirmou Bakhtin (1999, p. 113), a língua é um fato social, cuja existência provém da necessidade de comunicação. E é isso que o cinema propicia no contexto escolar: a arte de expressão comunicativa.

O sujeito que utiliza a língua não é um ser passivo, mas alguém que interfere na constituição do significado do ato comunicativo, isto é, há uma relação intrínseca entre o linguístico e o social. Neste aspecto, a arte cinematográfica gera a possibilidade de inserir-se na sala de aula de forma promissora para enriquecer e ampliar o conhecimento dos alunos.

Duarte (2009, p. 72-73) diz não ter dúvidas do papel fundamental na formação integral do indivíduo, pois através da linguagem cinematográfica, o aluno pode aprender desde a Gramática à Literatura e qualquer outro ramo do conhecimento. O compromisso com a formação de leitores competentes é o ponto de partida desse trabalho e cada vez mais, se torna um desafio fazer com que o aluno se interesse pela leitura, fazer com que ele viaje no universo encantador dos diferentes gêneros textuais.

Não é uma fórmula mágica que resolverá as dificulades de ensinar a ler e a redigir, a falar e a interpretar, mesmo porque não há padrões fixos que sejam seguidos como uma “cartilha” do aprender a ler e a escrever. Tem de fruir do âmago do aluno – entender a leitura como algo amplo, além do texto escrito; como ensinou Paulo Freire, “a leitura de mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuiade da leitura daquele” (1989, p. 13).

Como disse Solé,

Para tornar os alunos bons leitores – para desenvolver, muito mais do que a capacidade de ler, o gosto e o compromisso com a leitura –, a escola terá de mobilizá-los internamente, pois aprender a ler (e também ler para aprender) requer esforço. Precisará fazê-los achar que a leitura é algo interessante e desafiador, algo que, conquistado plenamente, dará autonomia e independência. Precisará torná-los confiantes, condição para poderem se desafiar a “aprender fazendo”. Uma prática de leitura que não desperte e cultive o desejo de ler não é uma prática pedagógica eficiente (1998, p. 72).

O recurso audiovisual é uma importante ferramenta que através do lúdico pode proporcionar melhorias metodológicas que facilitarão a aprendizagem e o ensino na prática docente, especificamente no Ensino Fundamental II, contribuíndo para o desenvolvimento intelectual do aluno, além de motivá-lo a ler e a escrever fluentemente em sua língua materna.

A tecnologia na educação necessita de estratégias, metodologias e atitudes diversas; segundo Moran (2009, p. 68), ”as tecnologias nos ajudam a encontrar o que está consolidado e a organizar o que está confuso, caótico, disperso”, pois uma aula mal estruturada mesmo com o uso do mais moderno recurso passa a não fazer sentido pedagógico para o aluno.

O cinema nas aulas de Língua Portuguesa

O cinema carrega consigo estética dos sentidos e das emoções, pois nos transmite significados que não poderiam ser transmitidos por outro tipo de linguagem como a discursiva ou científica, por isso alguns questionamentos são feitos quando se agrega o cinema à prática docente: Como o cinema pode contribuir no desenvolvimento do processo aquisitivo da leitura e da escrita? É possivel despertar o interesse e aprendizado do aluno por meio da linguagem cinematográfica na modalidade de ensino remoto? Por que o aluno do Ensino Fundamental II não gosta de ler e/ou redigir? E por que seu repertório vocabular crítico e sociocultural é tão limitado?

A escola é, por definição, um espaço de aprendizagem. A escola conserva, transmite, cria, renova contesta e valida o conhecimento. Em outras palavras, faz-se necessário observar as práticas escolares e suas conexões com a realidade discente; não dá para trabalhar leitura e escrita fora do contexto socioeconômico do aluno, pois lhe será abstrato. Como disse Solé (1998, p. 22), “o processo de leitura deve garantir que o leitor compreenda o texto e que possa ir construindo uma ideia sobre seu conteúdo, extraíndo dele o que lhe interessa, do contrário, não se terá êxito na leitura”.

Nesse sentido, o cinema na escola vem proporcionar o conhecimento intercultural, instigando uma visão crítica reflexiva entre os alunos. Trata-se, então, de uma estratégia de incentivo à leitura e a escrita, além de aperfeiçoar a capaciadade interpretativa. Conforme Solé (1998, p. 32-33), “a leitura, como prática social, é sempre um meio, nunca um fim”. O aluno precisa ter a percepção de que o ato de ler deve ser para se divertir, para localizar informações, para saber mais, para tirar dúvidas, construir e re(construir) significados.

Por conseguinte, é viável a conexão entre esses dois mundos, o do cinema e o da escola, ocasionando resultados positivos no processo de ensino aprendizagem, uma vez que os recursos audiovisuais despertam a atenção do aluno de forma que este interage com o conteúdo transmitido, possibilitando a conexão entre o imaginário e o real. Duarte (2002) friza que desde os primórdios a humanidade utiliza do recurso de contar histórias, que são passadas de geração a geração, para disseminar conhecimentos.

Neste sentido, é preciso corroborar o cinema como prática social que exerce forte poder atrativo a todas as faixas etárias; por isso que para Duarte (2002), ao pensar-se a educação como prática de socialização, compreende-se o ensino aprendizagem como uma interação social onde todos os sujeitos se fazem ativos. Parafraseando Freire (1996, p. 43), reafirma a frase: “pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem é que se pode melhorar a próxima prática”. Então, o cinema pode e deve ser usado, sim, como ferramenta metodológica em sala de aula, presencial e/ou virtual, em qualquer componente curricular, desde que o docente escolha uma forma proveitosa de usá-la como prática pedagógica.

Por certo, é presumível os benefícios oriundos dessa relação cinema x escola, quando aplicado de maneira adequada e aceitável, ou seja, o professor precisa (re)planejar, experenciar, fazer uso da linguagem visual e “provocar” no aluno, o gosto pela leitura e a produção de textos, só assim os objetivos para minimizar os efeitos negativos da falata de leitura e consequentemente, falhas na escrita, serão alcançados. Para isso, por que não mediar a relação do filme com o ensinoaprendizagem?

Portanto, acreditamos que o cinema pode ser uma importante ferramenta para o professor evidenciar aspectos das dificuldades de aprendizagem em leitura e escrita, dos alunos dos anos finais e elucidar conteúdos, tornando a sala de aula em um lugar mais prazeroso, melhorar a capacidade interpretativa que já é inerente no aluno desde a mais tenra idade.

Trabalhar com o cinema em sala de aula é ajudar a escola a reencontrar a cultura ao mesmo tempo cotidiana e elevada, pois o cinema é o campo no qual a estética, o lazer, a ideologia e os valores mais amplos são sintetizados numa mesma obra de arte (Napolitano, 2015, p. 11-12).

A partir dessa perspectiva, vivenciamos um mundo globalizado e estamos inseridos nele; daí, é fundamental que a escola proporcione aos alunos o domínio das diferentes linguagens e a compreensão do contexto em que ocorre as práticas sociais. Nessa óptica, a linguagem do cinema presente na vida do ser humano é um caminho no processo de ampliar o domínio das capacidades de compreensão, autonomia intelectual, o pensamento crítico e um novo olhar para o mundo.

Assim, ler textos não é uma tarefa fácil, nunca foi. Ler implica uma prática social que atende a diferentes objetivos: ler por fruição, ler para fazer uma pesquisa, ler para obter uma informação, ler para saber mais sobre determinado assunto, etc. O indivíduo não nasce pronto nem é reprodução do ambiente externo: seu desenvolvimento é fruto da ação das experiências vividas, mas a maneira de cada um apreender o mundo é individual. Por sua vez, desenvolvimento e aprendizado estão intimamente ligados (VYGOTSKY, 2007, p. 33).

Experiência com o cinema em uma sala de aula virtual no Ensino Fundamental II em Alto do Rodrigues

Urge, então, a pergunta: ”Por que o aluno do Ensino Fundamental II não gosta de ler e/ou redigir? E por que seu repertório vocabular crítico e sociocultural é tão limitado?”

Se pensarmos como Vygotsky, para esclarecer como se estruturam a aprendizagem e a interação do ponto de vista da construção do conhecimento, a distância entre o nível de desenvolvimento real – o saber que já foi adquirido pelo aprendiz – e um nível mais elevado que ele é capaz de alcançar com a ajuda de alguém que já domine o assunto, vamos, assim, compreender melhor o porquê da falta de interesse do aluno, do ensino fundamental II não gostar de ler nem redigir, quando nas aulas vê-se claramente a reação de repúdio e descaso deles.

Faz-se necessário fazer uma anamnese para detectar se houve falhas no processo inicial de alfabetização ou se o contexto social onde esse aluno está inserido é desfavorável não possibilitando seu acesso ao mundo letrado ou se o fator é intrínseco, ou seja, o discente não tem interesse nem incentivo a fazer da leitura seu ato de prazer, além disso, os estudantes se sentem mais atraídos pela internet com jogos e redes sociais do que pelas aulas e livros apresentados pela escola.

Atrevo-me ainda a dizer que as múltiplas leituras em muitos casos são enfadonhas, sem ritmo ou expressão, monótonas de se ouvir, o aluno não consegue ir além do texto nem fazer inferências. Talvez, o comportamento de leitor mais experiente do mediador-professor poderá ajudá-lo a se interessar pela cultura do mundo letrado.

Cabe ressaltar que, entendemos por mundo letrado, conforme Kleiman (1998, p. 181) “aquele estado em que o indivíduo participa competentemente de eventos em que as práticas de oralidade, leitura e escrita, bem como a presença de outras linguagens, permeiam as práticas sociais”, ou seja, o indivíduo é capaz de utilizar a leitura e a escrita para continuar aprendendo e se desenvolvendo ao longo da vida.

Nesse sentido, cabe à escola criar situações de aprendizagem em que os alunos tenham contato com textos diversos de diferentes gêneros e esferas de circulação. E isso é um grande triúnfo para o professor na sala de aula estimular a leitura de textos a partir da leitura do filme, isto é, a partir da apreciação de uma obra audiovisual.

Observa-se que os educandos que apresentam dificuldades e/ou desinteresse por leitura e, consequentemente, em produzir textos, sentem-se desvalorizados e incapazes de desenvolver tais competências e habilidades contribuindo significativamente para o fracasso escolar generalizado, promovendo um resultado inferior a idade de nível educativo e intelectual, comprometendo seu desempenho ao londo de sua jornada escolar. A aprendizagem influencia o desenvolvimento, assim como o desenvolvimento influencia a aprendizagem, por isso é preciso desvincular o rótulo de “alunos incapazes ou fracassados” e transformá-los em indivíduos motivados, ativos e participativos com um bom rendimento de aprendizagem; constitui-se,dessa forma, um desafio tanto para a escola quanto para educadores.

Nesse caso, para alcançar esses objetivos, é preciso que os alunos tenham contato com diferentes gêneros textuais e a uma educação de qualidade; se não o tem em casa, a escola tem que cumprir seu papel educativo e propiciar o domínio seguro do repertório linguístico-discursivo à sua disposição adequada à sua faixa etária para que seja desenvolvida sua competência comunicativa, proporcionando condições de progressão na aprendizagem.

Diante dessa realidade, mediante observações realizadas nas turmas do 7º ao 9º anos do Ensino Fundamental II, ficou evidente que as competências leitoras dos alunos não correspondiam ao domínio da leitura e da escrita que se espera nessa fase final da educação básica, eles não adquiriram competências suficientes para o domínio da leitura e da escrita, apresentando graves dificuldades, também, na interpretação e compreensão textual.

De acordo com a BNCC (Base Nacional Comum Curricular), a importância da leitura é um dos eixos organizadores do ensino. Não é somente objeto historicamente reconhecido da aprendizagem em Língua Portuguesa, mas tema central para esta.

Leitura […] é tomada em sentido mais amplo, dizendo respeito não somente ao texto escrito, mas também a imagens estáticas (foto, pintura, desenho, esquema, gráfico, diagrama) ou em movimento (filmes, vídeos etc.) e ao som (música), que acompanha em muitos gêneros digitais (Brasil, 2017, p. 70).

Nessa perspectiva atual de ensino híbrido, decidimos inserir no plano de aula remoto como recurso metodológico, análise de gêneros variados de filmes, onde no primeiro momento foi realizado um levantamento das preferências individuais de cada aluno. Em seguida, selecionamos aqueles relacionados às várias temáticas, desde ficcionais a fatos sociais e literários.

Foram dadas orientações aos alunos sobre a origem do cinema e o conceito de gêneros textuais, com o objetivo de esta prática promover a reflexão e a leitura crítica da mensagem de um filme, apontando as características expostas e envolvendo todos os eixos ao tema abordado. Além disso, estimular nos alunos o gosto pela leitura e produção de textos, por meio da observação, a capacidade de julgamento e sensibilidade estética de uma produção cinematográfica.

Nesse contexto, elaboramos o projeto Cinema na Escola, no qual os discentes foram orientados a escrever, produzir e contracenar roteiros de curta metragem, culminando ao final do ano letivo de 2020, as apresentações cinematográficas na sala de aula virtual por meio do aplicativo Google Meet.

Para Pacheco (2019, p. 46), “inovar equivale a operar rupturas paradgmáticas”. Sendo assim, analisamos a incorporação do cinema nas aulas de Língua Portuguesa, do Ensino Fundamental II, especificamente no ambiente virtual, como ferramenta auxiliar nos processos de ensino e de aprendizagem de conteúdos escolares, bem como o desenvolvimento linguístico das práticas de linguagem: leitura, oralidade, produção de textos e análise linguistica/semiótica.

Resultados e discussão

Com base na análise relacionada à metodologia, pode observar que o projeto Cinema na Escola, planejado e execultado nas aulas remotas de Língua Portuguesa, nas turmas do 7º ao 9º anos do Ensino Fundamental II, em uma escola da rede pública de Alto do Rodrigues, possibilitou a interação entre professor x alunos e alunos x alunos, promovendo um melhor desempenho na leitura e escrita, além do aperfeiçoamento interpretativo de textos de gêneros diversos, progredindo também, gradativamente na oralidade e manuseio das ferramentas digitais, pois aqueles mais tímidos destacaram-se nesses aspectos.

Diante dessa rica oportunidade, apresentamos desde filmes da literatura brasileira à literatura universal. O encantamento que um filme pode provocar traz mudanças na maneira de perceber o mundo e o outro, afinal, se a escola é um espaço onde pode haver diferentes possibilidades de experiências com potenciais de mudança no modo de pensar e relacionar-se com o mundo, a experiência com o filme na duraçãode uma aula pode motivar o aluno na construção do saber, da aprendizagem em si.

O projeto foi bem aceito, e os alunos por sua vez demonstraram interesse e buscaram contribuir de forma entusiástica para a apresentação final dos vídeos de curta-metragem por eles planejados, produzidos e contracenados, sendo apresentado na plataforma do Google Meet sob minhas orientações e supervisão. Seguindo esse raciocínio, Moran (2000) considera “importante diversificar as formas de dar aula, de realizar atividades, de avaliar” (Moran, 2000, p. 138), afirmando:

Haverá uma integração maior das tecnologias e das metodologias de trabalhar com o oral, a escrita e o audiovisual. Não precisaremos abandonar as formas já conhecidas pelas tecnologias telemáticas, só porque estão na moda. Integraremos as tecnologias novas e as já conhecidas. As utilizaremos como mediação facilitadora do processo de ensinar e aprender participativamente (Moran, 2000, p. 144).

Fazer articulação da prática pedagógica com o cinema reforça a ideia de que diferentes metodologias podem favorecer a aprendizagem dos alunos e fortalecer o elo com o professor-mediador do processo, pois o cinema tem o poder de estimular o desenvolvimento da linguagem verbal e da compreensão textual.

Assim, como diz a teoria da aprendizagem de Vygotsky (1989), a educação, de modo geral, deve passar pelas relações do indivíduo e mundo, o sujeito e o meio. O conhecimento acontece pela intermediação, a intervenção do homem e suas representações.

Considerações finais

Não há como negar que as práticas de leitura e escrita na contemporaneidade, em sua maioria, são mediadas por uma tecnologia digital. Nessa perspectiva, tratando-se o cinema como um recurso didático auxiliar nesse processo de ensino-aprendizagem, como um dos procedimentos metodológicos para minimizar as dificuldades em leitura e escrita dos alunos nos anos finais da Educação Básica, tentamos analisar e propor uma metodologia de uso do cinema nas aulas de Língua Portuguesa para corroborar com o trabalho docente em sala de aula tanto presencial como virtual, dinamizando o conhecimento propício para a formação de verdadeiros cidadãos críticos e formadores de opinião responsáveis pela atuação, formação e transformação da sociedade em que vive.

E, ao finalizar este estudo, do exposto fica a ideia de que se faz necessário ter conhecimento da história e formação do cinema e suas características, que são relevantes como apoio ao trabalho docente, o qual possibilitou ampliar leituras inerentes aos temas abordados em sala de aula, o que nos permitiu concluir que é possível trabalhar com o filme de forma transversal e interdisciplinar.

Contudo, não se quer afirmar aqui que o simples fato de implantar esse projeto Cinema na Escola na modalidade de ensino remoto, traga sempre resultados positivos ou que vá conseguir melhorar totalmente os índices de defasagem em leitura e escrita. Isto é só um recurso metodológico que visa a melhoria na qualidade do ensino que pode potencializar a interação entre professor e aluno, bem como facilitar a práxis docente.

Por fim, ressaltando a proposição do objetivo principal desse estudo e considerando a contribuição teórica dos autores anteriormente citados, os resultados dessa pesquisa comprovam que não se encerra aqui, portanto, a discussão, uma vez que depende de muitos outros aspectos que podem ser pesquisados com foco no uso de filmes como recurso metodológico, que não se pretendeu estudar ou analisar no presente artigo. Os resultados evidenciaram a necessidade de um trabalho contínuo a curto, médio e longo prazos, para que os objetivos processuais sejam concretizados e não se encerrem em si mesmos.

Referências

BAKHTIN, Mikhail. Maxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1990.

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Básica. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018.

DUARTE, Rosália. Cinema e educação: refletindo sobre cinema e educação. 3ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. São Paulo: Autores Associados/Cortez, 1982.

KATO, Mary. No mundo da escrita: uma perspectiva psicolinguística. São Paulo: Ática, 1986.

KLEIMAN, Ângela. Ação e mudança na sala de aula: uma nova pesquisa sobre letramento e interação. In: ROJO, R. (Org.). Alfabetização e letramento: perspectivas linguísticas. Campinas: Mercado de Letras, 1998.

MORAN, José Manuel. Mudanças na comunicação pessoal. São Paulo: Paulinas, 2000.

______. A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá. In: ______. Como utilizar as tecnologias nas escolas. Campinas: Papirus, 2009.

NAPOLITANO, Marcos. Como usar o cinema na sala de aula. 5ª ed. São Paulo: Contexto, 2015.

PACHECO, José. Inovar é assumir um compromisso ético com a educação. Petrópolis: Vozes, 2019.

SOLÉ, Isabel. Estratégias de leitura. Trad. Cláudia Schiling. Porto Alegre: Artes Médicas, 2003.

VYGOTSKY, Lev Semyonovich. Pensamento e linguagem. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

Publicado em 30 de março de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

FARIAS, Ruberlândia Araújo de. Cinema em sala de aula virtual como incentivo a leitura e a escrita no ensino remoto. Revista Educação Pública, v. 21, nº 11, 30 de março de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/11/cinema-em-sala-de-aula-virtual-como-incentivo-a-leitura-e-a-escrita-no-ensino-remoto