Construção do processo de ensino-aprendizagem a partir das questões ambientais utilizando atividades lúdicas: relato de experiência no ensino remoto

Kelly Pinheiro dos Santos

Doutoranda em Ciências Ambientais e Conservação (UFRJ), professora de Ciências e Biologia da rede estadual do Estado do Espírito Santo

A pandemia da covid-19 dirigiu inúmeras modificações em nosso cotidiano, afetando diversos setores da sociedade. Um dos setores mais afetados foi o educacional, uma vez que, as atividades pedagógicas presenciais foram suspensas e os órgãos reguladores nacionais indicaram a continuidade do semestre letivo, por meio de atividades remotas. De acordo com Hodges (2020), o ensino remoto difere da modalidade de Educação a Distância (EaD), pois esta conta com recursos e uma equipe multiprofissional preparada para ofertar os conteúdos e atividades pedagógicas, por meio de diferentes mídias em plataformas on-line. Para Behar (2020, s/p),

o ensino é considerado remoto porque os professores e alunos estão impedidos por decreto de frequentarem instituições educacionais para evitar a disseminação do vírus. É emergencial por que do dia para noite o planejamento pedagógico para o ano letivo de 2020 teve que ser engavetado.

Há, ainda, o entendimento de que o ensino remoto ou a educação remota configura-se como as práticas pedagógicas mediadas por plataformas digitais (Alves, 2020). Com essas mudanças e desafios, inúmeros foram os questionamentos e preocupações de como trabalhar com os alunos em uma realidade de distanciamento social. Além disso, os professores tiveram que se adaptar rapidamente, transpondo seus conteúdos das aulas presenciais para plataformas on-line, na maioria dos casos, sem ter capacitação.

Isso posto, podemos observar que o cenário da pandemia trouxe consigo novas e velhas reflexões e preocupações para o campo educacional, tais como:

as condições de trabalho do docente, a qualidade do processo de ensino-aprendizagem, a relevância e o significado dos temas a serem abordados, o desenvolvimento de práticas pedagógicas centradas no estudante (Martins, 2020, p. 251).

Tais reflexões que já eram recorrentes; acabaram por se solidificar ainda mais. Para o professor de ciências, a preocupação em aplicar atividades que fossem relevantes, contextualizadas e dinâmicas se acentuaram; consoante a isso, o fato de manter o aluno como protagonista no processo de ensino-aprendizagem também se fez presente.

Em 2020, transcorridos menos de quatro meses, assistimos ao surgimento de crises climáticas, de saneamento e, a mais atual, a sanitária. Neste cenário, falar sobre meio ambiente é falar sobre as formações sociais e seus comportamentos e, para isso, a educação básica tem papel essencial.

A partir deste contexto e da necessidade de se discutir questões ambientais surgiu o projeto meio ambiente e arte o qual tem por objetivo permitir que o aluno apresente como observa as questões ambientais através de poemas ou desenhos, porque consideramos o desenho e os poemas mais do que uma simples imagem, pois vão além de uma análise objetiva, visto que é a materialização do inconsciente na forma de imagens, obras de arte de crianças, que com inocente simplicidade registram na folha de papel elementos de suas vidas, do cotidiano, dando ao desenho uma vida própria. Nas palavras de Bachelard (1978, p. 185):

A imagem, em sua simplicidade, não precisa de um ‘saber’. Ela é a dádiva de uma consciência ingênua, Em sua expressão, é uma linguagem jovem. O poeta na novidade de suas imagens é sempre origem de linguagem.

Nessa perspectiva, procuramos entender como os alunos percebem o meio ambiente.

Desenvolvimento do projeto

A temática ambiental é um potente assunto para motivar crianças e adolescentes a mudarem de hábitos. Nessa perspectiva, integrar o assunto ao planejamento pedagógico do Ensino Fundamental II é crucial para que haja essa mudança e sobretudo desperte nos alunos a preocupação com as gerações futuras, pois, ao discutirmos sobre meio ambiente em sala de aula, trazemos à tona a problemática ambiental, estimulando a reflexão e o senso crítico do aluno. Desta forma, as aulas devem ser planejadas considerando, não somente os conteúdos de ciências e biologia, mas, devem ter o compromisso de estimular à transformação social e formar sujeitos críticos (Freire, 2005). Logo, é importante abordar questões que discutem sobre meio ambiente de maneira interdisciplinar e lúdica

Medeiros e outros (2011, p. 2) ressaltam a importância de tratar a questão ambiental no ambiente escolar:

A cada dia que passa a questão ambiental tem sido considerada como um fato que precisa ser trabalhado com toda a sociedade e principalmente nas escolas, pois as crianças bem informadas sobre os problemas ambientais vão ser adultos mais preocupados com o meio ambiente, além do que elas vão ser transmissoras dos conhecimentos que obtiveram na escola sobre as questões ambientais em sua casa, família e vizinhas.

Logo, quando o aluno passa a entender as funções do meio ambiente para a manutenção e existência da vida, passa a respeitar e a entender a importância das questões ambientais para as novas e futuras gerações, refletindo sobre seu papel na manutenção da preservação ambiental.

Metodologia

A atividade foi realizada de forma remota, com uma turma de 35 alunos do 9º ano do ensino fundamental da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Fraternidade e Luz, localizada no município de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo. Essa foi pensada de uma perspectiva a permitir que o aluno pudesse refletir sobre as questões ambientais de forma interdisciplinar e mostrar sua percepção sobre o assunto. Além disso, buscou-se trabalhar com objeto de conhecimento, habilidade e competências específicas, apresentadas no quadro a seguir, de acordo com o currículo do Estado do Espírito Santo, o qual se alinha à Base Nacional Comum Curricular, documento de fundamental importância que define as aprendizagens essenciais, visando assegurar o direito de desenvolvimento e aprendizagem de todos os estudantes da educação básica no país.

Objeto de conhecimento

Habilidade

Competências específicas

Responsabilidade

socioambiental

(EF09CI13) Propor iniciativas individuais e coletivas para a solução de problemas ambientais da cidade ou da comunidade, com base na análise de ações sustentáveis bem-sucedidas.

(CE04) Avaliar aplicações e implicações políticas, socioambientais e culturais da ciência e de suas tecnologias para propor alternativas aos desafios do mundo contemporâneo, incluindo aqueles relativos ao mundo do trabalho.

(CE08) Agir pessoal e coletivamente com respeito, autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, recorrendo aos conhecimentos das ciências da natureza para tomar decisões frente a questões científico-tecnológicas e socioambientais e a respeito da saúde individual e coletiva, com base em princípios éticos, democráticos, sustentáveis e solidários.

Preservação da

biodiversidade

(EF09CI12) Justificar a importância das unidades de conservação para a preservação da biodiversidade e do patrimônio nacional, considerando os diferentes tipos de unidades (parques, reservas e florestas nacionais), as populações humanas e atividades a eles relacionadas, reconhecendo as legislações e as regulamentações que asseguram a existência

das unidades de conservação, de modo a propor soluções sustentáveis para a composição dessas unidades em diferentes ecossistemas.

 (CE03) Analisar, compreender e explicar características, fenômenos e processos relativos ao mundo natural, social e tecnológico (incluindo o digital), como também as relações que se estabelecem entre eles, exercitando a curiosidade para fazer perguntas, buscar respostas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das Ciências da Natureza.

(CE04) Avaliar aplicações e implicações políticas, socioambientais e culturais da ciência e de suas tecnologias para propor alternativas aos desafios do mundo contemporâneo, incluindo aqueles relativos ao mundo do trabalho.

(CE05) Construir argumentos com base em dados, evidências e informações confiáveis, além de negociar e defender ideias e pontos de vista que promovam a consciência socioambiental e o respeito a si próprio e ao outro, acolhendo e valorizando a diversidade de indivíduos e de grupos sociais, sem preconceitos de qualquer natureza.

Dessa forma, fez-se a opção pela pesquisa de natureza qualitativa, pois esta implica uma partilha densa com pessoas, fatos e locais que constituem objetos de pesquisa, tencionando extrair desse convívio os significados visíveis e latentes, a compreensão, a interpretação dos fenômenos e os dados obtidos de uma particular realidade (Chizzotti, 2003). Essa partilha pode ser percebida através de materiais como desenhos e poemas.

Nessa perspectiva, para execução da atividade, através da plataforma Google Classroom e do WhatsApp, os alunos foram orientados através das atividades pedagógicas não presenciais (APNP), a pesquisar sobre a temática ambiental e elaborarem um desenho ou poema que retratassem a forma pela qual eles entreviam a relação do ser humano com a natureza. Esse desenho poderia ser feito com base no ambiente ao entorno de sua casa ou mesmo através de uma simples percepção deles quanto ao tema.

Após a elaboração do desenho ou poema, os alunos tiveram o prazo de uma semana para postarem na plataforma ou enviarem pelo WhatsApp. As atividades foram então analisadas, observando qual era a relação, vista pelos alunos, do ser humano e meio ambiente.

Resultados e discussão

Embora de forma remota, a atividade apresentou resultados satisfatórios visto que, através dos desenhos e poemas postados na plataforma Google Classroom ou no WhatsApp, pode-se observar que os alunos consideraram os aspectos que estavam impactando o meio ambiente.

Outro dado importante, apresentado através dos desenhos dos alunos, foi a maneira como o ser humano e a natureza se relacionam. Na Figura 1, percebe-se um distanciamento entre o ser humano e a Natureza, sendo colocado na posição de destruidor, não o incluindo no meio ambiente.

Para Brügger (2004) e Reigota (2009) o conceito de meio ambiente deve considerar os aspectos naturais e sociais, observando todas as relações entre os fatores biológicos, sociais, físicos, econômicos, culturais e históricos. Consoante a isso, as percepções de diferentes atores são construídas a partir de suas experiências, e são moldadas com referência nos contextos histórico e cultural (Hoeffel; Fadini, 2007).

Figura 1: Desenho do aluno mostrando a separação do homem e a Natureza

Na Figura 2 percebemos a relação de domínio que o homem tem com a Natureza, enxergando-a como um “recurso” para satisfazer suas necessidades. Isso porque o progresso e o desenvolvimento trazidos pelo modelo econômico atual (Morin; Ciurana; Motta, 2009) contribuem para formar os paradigmas que regem a sociedade atual e que a aprisionam a um modelo que, em muitos casos, tem se mostrado extremamente nocivo (Guimarães, 2007).

Figura 2: Desenho mostrando a relação de domínio do homem sobre a Natureza

Atrelado a isso, observamos que a maioria dos problemas ambientais tem suas raízes em fatores socioeconômicos, políticos e culturais, e que não podem ser previstos ou resolvidos por meios puramente tecnológicos (Dias, 1992), sendo necessário haver discussões que possam sensibilizar e levar o indivíduo a uma mudança de hábito. Deste modo, o desenho, é dotado de uma “representação simbólica”, pois o símbolo comporta uma relação de identidade com o que simboliza, suscitando a sua presença concreta (Morin, 1999, p. 173), tecendo uma teia de significados do pensamento objetivo e subjetivo. As percepções sobre as questões ambientais também foram expostas por meio de poemas, como retratado na Figura 3.

Figura 3: Poema

No poema, podemos perceber que, embora o homem seja visto como o predador, ele também pode ser apresentado como aquele que certamente pode cuidar do ambiente.  A aluna parte do suposto que a relação do ser humano com a natureza é bem diferente do normal, visto que, pode estar no papel daquele que cuida, como também daquele que destrói. Além disso, também consegue abordar que, embora existam leis ambientais, essas não são respeitadas.

Nessa perspectiva, o educador ao ligar o conteúdo das ciências às questões do cotidiano torna a aprendizagem mais significativa, posto que, as atividades pedagógicas desenvolvidas são apoiadas nas vivências dos alunos e nos fenômenos que ocorrem a sua volta, buscando examiná-los com o auxílio dos conceitos científicos pertinentes. É através de um ensino investigativo, provocativo, que o aluno começa a pensar e a refletir sobre o processo de construção do conhecimento (Freire, 2005).

Considerações finais

A pandemia da covid-19 trouxe uma série de mudanças, entre elas na forma de se lecionar. Professores de todos os setores tiveram que se reformularem e se adaptarem ao novo sistema de ensino: o remoto.

Com esse sistema vieram dúvidas e alguns questionamentos:

1) De que forma deveriam ministrar as aulas?

2) Como atrair os alunos em um momento em que não temos o contato físico?

3) Como ensinar conteúdos tão pertinentes, sobretudo os de meio ambiente, em um contexto tão diferente?

Dessa forma, através da atividade podemos observar que questões relacionadas ao meio ambiente podem ser amplamente trabalhadas em um contexto de educação remota. Além disso, pode-se observar como o aluno percebe o meio ambiente e como relaciona o ser humano com a Natureza em sua volta.

Referências

ALVES, Lynn. Educação remota: entre a ilusão e a realidade. Interfaces Científicas, Aracaju, v. 8, nº 3, p. 348-365, 2020.

BACHELARD, G. A filosofia do não. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Coleção Os Pensadores).

BEHAR, Patricia Alejandra. O ensino remoto emergencial e a Educação a Distância. Rio Grande do Sul: UFRGS, 2020.

BRÜGGER, P. Educação ou adestramento ambiental? 3ª ed. rev. Chapecó: Letras Contemporâneas, 2004.

CHIZZOTTI, A. A pesquisa qualitativa em ciências humanas e sociais: evolução e desafios. Revista Portuguesa de Educação, v. 16, nº 2, p. 221-236, 2003.

DIAS, Genebaldo Freire. Educação Ambiental: princípios e práticas. São Paulo: Gaia, 1992.

ESPIRITO SANTO. Secretaria de Educação. Diretrizes curriculares do Espirito Santo. Referencial curricular de Ciências da Natureza. Vitória, 2018.

FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.

GUIMARÃES, M. Educação Ambiental: participação para além dos muros da escola. In: MELLO, S. S.; TRAJBER, R. (Coords.). Vamos cuidar do Brasil: conceitos e práticas em Educação Ambiental na escola. Brasília: Ministério da Educação/Ministério do Meio Ambiente/Unesco, 2007. p. 85-93.

HODGES, C. et al. The difference between emergency remote teaching and online learning. Educause Review, 27 mar. 2020.

HOEFFEL, J. L.; FADINI, A. A. B. Percepção ambiental. In: Encontros e caminhos: formação de educadoras(es) e coletivos educadores. v. 2. Brasília: Departamento de Educação Ambiental, 2007. p. 253-262.

MARTINS, R. X. A covid-19 e o fim da Educação a Distância: um ensaio. Revista de Educação a Distância, v. 7, nº 1, p. 242-256, 2020.

MEDEIROS, Aurélia et al.A Importância da Educação Ambiental na escola nas séries iniciais. Revista Faculdade Montes Belos, v. 4, nº 1, set. 2011.

MORIN, E. O Método: 3. Conhecimento do Conhecimento. Porto Alegre: Sulina, 1999.

______; CIURANA, E. R.; MOTTA, R. D. Educar na era planetária: o pensamento complexo como método de aprendizagem pelo erro e incerteza humana. 3ª ed. São Paulo: Cortez; Brasília: Unesco, 2009.

REIGOTA, M. O que é Educação Ambiental. 2ª ed. rev. São Paulo: Brasiliense, 2009.

Publicado em 30 de março de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

SANTOS, Kelly Pinheiro dos. Construção do processo de ensino-aprendizagem a partir das questões ambientais utilizando atividades lúdicas: relato de experiência no ensino remoto. Revista Educação Pública, v. 21, nº 11, 30 de março de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/11/construcao-do-processo-de-ensino-aprendizagem-a-partir-das-questoes-ambientais-utilizando-atividades-ludicas-relato-de-experiencia-no-ensino-remoto