Arte, subjetividade e formação sensível: reflexões sobre a educação na contemporaneidade

Tiago Anderson de Morais

Mestrando em Ciências da Educação (Faculdade de Sidrolândia/MS), administrador de empresas, funcionário público de carreira de Mossoró/RN

Historicamente, a educação foi sendo marcada pela valorização do conhecimento objetivo, traduzido pelo enrijecimento do currículo e das estratégias de ensino e aprendizagem deslocadas da criticidade (Oliveira, 2017). Porém, a partir da expansão da formação educacional construtiva contemporânea, ocorreram mudanças importantes em relação ao ato de educar, principalmente ao se levar em consideração as dinâmicas formativas calcadas na expressão artística, na sensibilidade e subjetividade dos diversos sujeitos que compõem o ambiente de sala de aula e o transformam cotidianamente. 

Essas dinâmicas ou dimensões (formação sensível, artística e subjetiva) são entendidas como maneiras de se posicionar no mundo, pois aliam o conhecimento formal às diversas experiências sensoriais e individuais do ser humano. São constituídas de emoções, formas de se expressar, de interagir, de se posicionar criticamente diante das situações complexas. Também representam uma resposta de educandos e educadores às demandas de aprendizagem que são impostas verticalmente pela sociedade e que, de certa forma, ganham amplitude nos espaços educacionais.

Conforme citam Capecchi, Gomes e Marques (2017), a criatividade artística e a sensibilidade são indispensáveis para o desenvolvimento humano, a capacitação da autonomia, o discernimento e, portanto, fundamentais na construção do conhecimento educacional. A educação deve considerar todas as potencialidades natas do indivíduo: memória, raciocínio, sentido estético, capacidades físicas, aptidão para comunicar-se, isto é, a sua expressão artística e sensorial. É assim que se ressignifica o processo educacional como um todo.

Portanto, considerando essas reflexões introdutórias, destaca-se que a referida produção textual objetiva compreender a representatividade das dimensões da formação sensível, subjetiva e artística no ambiente educacional. Essas dimensões são abordadas como fator de sobreposição ao conhecimento formal, entendo que estas se complementam e se sobrepõem durante toda a formação do aluno e dos profissionais da Educação.

Metodologicamente, trata-se de um texto elaborado com base em referenciais bibliográficos que discutem a temática, sendo sobreposta a esses referenciais as reflexões do autor ao longo das entrelinhas.

Dimensões da formação artística, sensível e subjetiva: considerações teóricas

O processo de formação humana tem passado por transformações significativas ao longo da história evolutiva da sociedade. E nesse contexto, é possível observar a existência de correntes educacionais caracterizadas por processos deslocados da identidade subjetiva e artística do indivíduo enquanto ser pensante, isto é, períodos de valorização da formação de cunho positivista e objetivo do ponto de vista metodológico e teórico.

Por outro lado, também se constatam correntes de valorização do que é sensível e do seu potencial formativo para o ser, sobretudo a partir da introdução do pensamento crítico-reflexivo no ambiente educacional. Tudo isso evidencia que a subjetividade, sensibilidade e outros aspectos intrínsecos ao processo de formação-aprendizagem, foram se modificando de acordo com as características da sociedade e da dinâmica educacional como um todo.

Conforme citam Bottega e Rafaelli (2015), a dimensão sensível está relacionada ao processo de formação humana integral, isto é, envolve aspectos mentais, corporais, emotivos e críticos que objetivam capacitar a autonomia pensante do homem. Contudo, não se pode desconsiderar que as relações humanas – inclusive as que integram o ato de educar e formar – são permanentemente influenciadas por inúmeros fatores externos. Isso pressupõe afirmar que o ato de educar não se dá de maneira linear, mas sim, envolve aspectos diferenciados de subjetividade, do conhecimento formal e artístico, assim como do próprio processo de influência cultural da sociedade contemporânea.

As formas de conhecimento sensíveis e artísticas adquirem importância na medida em que deixaram de ser consideradas como parte de um processo deslocado da formação objetivo-positivista. Ambas, jamais podem ser tratadas enquanto uma simples componente da estrutura curricular e disciplinar, pois isso certamente empobreceria o próprio processo de construção do saber crítico. Na realidade, sensibilidade e arte são componentes permanentes do processo de educação, se sobrepondo a toda forma de conhecimento – inclusive o conhecimento objetivo –, seja nos espaços institucionais ou na vida cotidiana do indivíduo, a partir de suas experiências culturais.  

Sobre essa dimensão da formação sensível e artística tratada no parágrafo anterior, Amorim e Castanho fazem as seguintes considerações teóricas:

A sensibilidade e a estética não são apenas uma componente curricular da formação, mas uma maneira por meio da qual se pode chegar a outras esferas do humano não alcançadas pelo ensino. São provocadoras de sentimentos, na medida em que agem sobre os sentidos humanos, e, dessa maneira, portanto, seriam educadoras. Possibilitam ao sujeito conhecer as nuances das coisas cotidianas, por meio de sua própria experiência, incorporando os sentidos, fazendo da vida algo contextual, parte de si. Apreender o mundo, ingenuamente, por intermédio da ótica de outrem é o meio contra o qual uma educação que se pretenda estética luta, ao reivindicar que o sensível se faça janela por onde o indivíduo possa ver a si e ao mundo (Amorim; Castanho, 2008, p. 1.180-1.181).

Como se observa na citação, é através do sensível e de sua dimensão artística que o homem pode descortinar novas formas de conhecimento fundamentais para a sua formação enquanto sujeito crítico. Isso também implica garantir a autonomia do indivíduo, transpondo a instrumentalidade da formação mecanicista que ainda marca a educação na contemporaneidade. Apenas replicar a visão de mundo de outros, sem que ocorra a devida mediação e valorização da subjetividade e potencial artístico, certamente impedirá que o conhecimento se torne algo pleno e objetivo do ponto de vista da cognição do indivíduo.

Ao refletir acerca dos aspectos destacados anteriormente, Duarte Júnior (2000) afirma que a sensibilidade se constitui como um ponto de partida importante para entrelaçar o saber especializado e o conhecimento comum, histórico e tradicional, aperfeiçoando ainda mais a educação contemporânea. Ainda segundo o autor, é preciso levar em consideração que este, talvez consista hoje no “objetivo mais básico e elementar de todo e qualquer processo educacional, por mais especializado que ele possa parecer. Uma educação do sensível, da sensibilidade inerente à vida humana” (Duarte Júnior, 2000, p. 187).

Conforme se observa na reflexão teórica, formação sensível e arte parecem caminhar juntas e, por vezes, se confundem. A própria sensibilidade é constituída de um conteúdo iminentemente artístico, instituída a partir das características, experiências próprias do indivíduo, de sua formação educacional e influência sociocultural. Pode-se dizer que a sensibilidade é um meio pelo qual o homem irá se expressar artisticamente, isto é, apreender os sentidos do mundo que está a sua volta para, num momento posterior, expressar a sua identidade artística a partir da conjunção de aspectos formais e não formais da aprendizagem.

Na prática, são inúmeras as barreiras que acabam interferindo na materialização da formação sensível e artística do homem. Segundo cita Duarte Júnior (2000), a sociedade contemporânea precisa instituir (quiçá recuperar) formas de aproximação às coisas do mundo, com atenção para a dimensão sensível artística que é o verdadeiro fundamento de nossa relação com a aprendizagem. Ainda segundo o autor, a insensibilidade presente atualmente deve-se, principalmente, “à mitificação da ciência moderna, à qual, com sua atitude epistemológica de distanciamento e neutralidade, veio a se tornar a construtora por excelência das verdades de que dispomos” (2000, p. 170).

Nota-se, portanto, que a evolução da ciência moderna acabou gerando certa “coisificação” da formação humana no sentido da retração do seu potencial sensível. Isso significa dizer que o modelo de conhecimento atual, compartimentado e específico, abre pouco espaço para a imersão do indivíduo no universo das experiências e do imaterial. Ainda assim, não se pode afirmar que a formação e a aprendizagem no período contemporâneo são completamente desprovidas de sensibilidade e arte. Ambas fazem parte do cotidiano, ainda que não ocupando o espaço que merecem, principalmente ao levar em consideração a rigidez que ainda predomina no ambiente educacional formal.

Duarte Júnior também destaca que a restrição do conhecimento a modelos estritamente formais contribuiu não apenas para reduzir a abrangência do saber, mas também significou a perda de sua qualidade, conforme aponta na citação:

Este domínio de campos restritos do conhecimento, desarticulados de uma vida cotidiana e sensível, houve que perder também todo e qualquer caráter sensorial e estético. Vale dizer: o conhecimento desligou-se (muitas vezes, reconheça-se, por especificidades metodológicas e objetivas) de percepções harmônicas do mundo, de percepções que levavam em conta os sentidos diários do homem comum ou, ao menos, a ele se ligavam ou lhe faziam referência. Evidentemente, o conhecimento ampliou tanto os seus domínios, para regiões tão distantes quanto imensas, tão minúsculas quanto invisíveis, que uma referência direta sua à vida cotidiana parece ser mesmo coisa impossível (Duarte Júnior, 2000, p. 173).

Essa análise do autor é fundamental para apontar a representatividade do universo imaterial da sensibilidade e do artístico na formação do indivíduo, principalmente na sociedade contemporânea, dada a sua complexidade e dinamização. Porém, sensibilidade e arte pressupõem a instituição de uma identidade subjetiva do sujeito, identidade essa que o diferencia dos demais seres humanos, torna-o peculiar em termos de existência, aprendizagem e formação. E sobre essa questão destacada, Scoz faz as seguintes ponderações teóricas:

A subjetividade não é algo ordenado e definido de uma vez por todas, mas se expressa na confluência de uma série de sentidos que podem aparecer de variadas formas, dependendo do contexto de sua expressão. [...] A subjetividade pode ser compreendida como algo em construção, com base nos sentidos que os sujeitos vão produzindo na condição singular em que se encontram inseridos em suas trajetórias de vida e, ao mesmo tempo, em suas diferentes atividades e formas de relação. Assim, é o resultado das complexas sínteses das experiências individuais dos sujeitos em diferentes contextos de expressão (Scoz, 2008, p. 5).

Como se observa na citação, sensibilidade e subjetividade são expressões humanas próximas e de múltipla influência. No processo de formação do indivíduo, as experiências subjetivas são materializadas, na prática, por meio da sensibilidade, isto é, pela forma como o homem absorve o conhecimento social e interage com ele. Pode-se dizer que a subjetividade é o ponto de partida para quebrar com o que se chamaria de enrijecimento do conhecimento tradicional, isto é, aquele que se caracteriza como uma espécie de verdade independente e neutra, desprovido de experiências, vivências e expressão artística. Duarte Júnior (2000) destaca que a subjetividade e sensibilidade são componentes importantes das experiências sensoriais do indivíduo durante a aprendizagem. Estimulam uma formação integrada que transpõe currículos e disciplinas relativamente rígidos.

De acordo com Vaitsman (1995), a sociedade contemporânea tem cedido espaço gradativamente para a valorização das experiências subjetivas e artísticas, rejeitando a ideia de objetividade/especificidade no campo da formação e conhecimento. Essa nova situação histórica, segundo a autora, contrapõe-se à ideia de neutralidade da ciência, apontando cada vez mais para “uma tendência de redefinição de discursos articulados em torno da ideia de verdade/objetividade e falsidade/subjetividade, para outros onde tais dicotomias não se colocam como definidoras das relações entre sujeito e objeto” (Vaitsman, 1995, p. 3).

Portanto, não há como desconsiderar a importância das dimensões citadas (sensibilidade, subjetividade e arte) no processo de construção do conhecimento e na formação contemporânea do indivíduo. Essa importância ganha maior expressividade nos espaços educacionais, onde todos os sujeitos tornam-se coparticipantes do processo educacional. Assim, na Seção 3, destaca-se como essa tríade é profícua para a redefinição da estrutura tradicional de formação e aprendizagem, e que tem, no espaço supracitado, um ambiente heterogêneo.

Formação sensível, arte e expressão nos espaços educacionais 

O ambiente educacional tem sido marcado, tradicionalmente, como um espaço onde se perpetuou um modelo de aprendizagem e formação humana baseados na objetividade. Por mais que se considerem as várias transformações impressas pela sociedade contemporânea na forma de transmitir o saber, não se pode afirmar que estas tiveram a função de reestruturar completamente o modelo de ensino. Isso, contudo, também não pode servir de base para reafirmar que atualmente o universo subjetivo e a formação sensível não estejam alcançando os espaços de aprendizagem e contribuindo para direcioná-los a atender novas demandas impostas pela comunidade educacional.

Ao tratar sobre a temática, Soares (2013) reafirma que os espaços educacionais têm adotado novas estratégias de formação, sobretudo, pelo comprometimento dos gestores, docentes e da comunidade. Nesse contexto, observa-se uma mudança no sentido de priorizar a humanização do ensino, materializada através da abertura de espaço para o sensível, a arte e a expressão subjetiva. Essa educação – baseada na valorização dos sentidos do indivíduo – não se coloca como substituta do currículo ou das estratégias de ensino relativamente formais, mas objetiva aprimorar o fazer educacional, humanizando a relação entre docentes e discentes, fazendo desse ambiente uma arena participativa.

É profícuo salientar que essas mediações formativas que foram destacadas transitam nos mais diferentes espaços (educação básica, técnica, universitária) e se materializam pela ação de diferentes sujeitos (alunos, professores, coordenadores etc.). Posto isso, pode-se dizer que a subjetividade e a sensibilidade não são exclusivas apenas dos gestores educacionais, já que a valorização da própria experiência de vida do aluno é uma forma de representar esse universo sensível. Apesar de se constituírem como mediadores do conhecimento, os profissionais de ensino não detêm a hegemonia da linguagem artística na formação, mas são catalisadores desse processo de enriquecimento do espaço educacional (Salomé, 2013).

Esses aspectos citados anteriormente coadunam as reflexões realizadas por Paulo Freire e Ira Shor quando afirmam que o processo educacional é, antes de tudo, expressão estética, artística e sensível de mediação de conhecimentos entre aluno e professor. Sobre o referido processo, destacam que:

Ainda que a tarefa de formar os alunos não seja estritamente do educador, qualquer que seja o nível da educação, no meu modo de entender é, necessariamente, um processo artístico. É impossível participar desse processo de modelagem, que é como um novo nascimento, sem alguns momentos estéticos. Nesse aspecto a educação é, por natureza, um exercício estético. Mesmo que não estejamos conscientes disso, enquanto educadores, ainda assim estamos envolvidos num projeto naturalmente estético. O que pode acontecer é que, desatentos ao aspecto estético da educação, nos tornemos maus artistas, mas, não obstante, artistas de algum tipo, na medida em que ajudamos os educandos a ingressar num processo de formação permanente (Freire; Shor, 2008, p. 149).

Dadas as limitações dos espaços educacionais e da formação dos professores, nem sempre o processo de ensino-aprendizagem se materializa permeado pelas dimensões artísticas, subjetivas e sensíveis. No caso dos professores, é preciso estimular experiências que sejam capazes de incorporar tais dimensões, abrindo espaço para um novo fazer educacional que priorize o cotidiano e o estabelecimento de um conhecimento empírico sobre a realidade e os sentidos.

Segundo citam Capecchi, Gomes e Marques (2017), atuar como professor sensível é abrir espaço para novas ideias, vontades, e outras formas invisíveis de ser, estar e perceber o cotidiano do mundo. Uma atuação sensível abre outros campos de visão para a formação, criando condições à inteligibilidade do sentir. Ainda segundo os autores supracitados, considerando que “as diversas interpretações e assimilações de um objeto compreendem um processo de integração do sujeito em toda a sua complexidade, a sensibilidade deve ser considerada no processo de constituição do ser professor” (Capecchi; Gomes; Marques, 2017, p. 708).

Diante dessas reflexões, torna-se evidente que a escola e os demais espaços de formação se constituem, por excelência, como ambientes subjetivos, autônomos e sensíveis ao trabalho artístico de educar. Por mais neutra, objetiva e rígida que pareça ser a ideia do ensino-aprendizagem, é impossível isolar o conhecimento técnico-formal das experiências vivenciadas por alunos e professores em sala de aula. São essas experiências, inclusive, que muitas das vezes transformam a realidade do ambiente educacional, direcionando o aprendizado para um novo patamar de significância na vida de todos que constituem esse espaço.

O que seria, então, na prática, uma formação educacional calcada na sensibilidade, subjetividade e expressão artística? Até aqui, viu-se que tais dimensões são fundamentais para enriquecer a aprendizagem, já que esta última não se caracteriza como um processo puramente objetivo e deslocado da realidade. A sensibilidade, subjetividade e a expressão são formas de deixar ecoar o pensamento crítico, as vontades, percepções, emoções de alunos, professores e demais sujeitos coparticipantes do espaço escolar.

A formação sensível, da subjetividade e do conhecimento artístico no ambiente educacional se dá pela valorização do aspecto humano e das experiências que transbordam o conteúdo curricular. Num primeiro momento, essa heterogeneidade poderia ser considerada como um obstáculo ao desenvolvimento da didática curricular de caráter geral. Porém, deve ser utilizada pelos docentes como fonte de enriquecimento educacional, uma vez que “proporciona a criação de um espaço de convivência fértil para a construção de significados, em que contribuições individuais diversas podem se mesclar ao conhecimento epistemologicamente construído” (Capecchi; Gomes; Marques, 2017, p. 699). Para os autores, o conhecimento não se constrói apenas pela educação curricular, mas é a sobreposição de dinâmicas variadas, experiências de vida, crenças, emoções, formas de enxergar o mundo.

Diversas são as experiências que abrem espaço para a introdução do universo subjetivo e sensível nos ambientes educacionais. E ainda que, inicialmente, este universo pareça estar restrito à relação professor/aluno, é indubitável que a dinâmica de formação sensível/subjetiva envolve diferentes sujeitos e atores. Mesmo porque, o fazer educacional resulta de uma construção coletiva que não se inicia e finda na sala de aula. Envolve todos os profissionais da docência, alunos e a própria comunidade na qual esse ambiente está inserido. Stangherlim introduz algumas reflexões importantes sobre essa dinâmica formativa:

A relação professor-aluno é constituída simultaneamente de diversas configurações de sentidos subjetivos produzidas por seus protagonistas nas relações estabelecidas nos espaços sociais nos quais estão inseridos. Entende-se que os protagonistas dessa relação não se restringem aos professores e aos alunos, mas todos os envolvidos nas dimensões dos processos subjetivos que compõem a educação – diretores; equipe pedagógica; supervisores; secretários de educação; familiares e moradores da comunidade local. Todos são protagonistas das mais diversas manifestações de sentimentos, de emoções, de crenças, de valores, de concepções, as quais se expressam por meio de gestos, verbalizações, atitudes e ações que vão se constituindo nas configurações de sentidos subjetivos da relação professor-aluno (Stangherlim, 2008, p. 3).

Portanto, o processo educacional como um todo está permeado de sentidos humanos expressos através de subjetividades e sensibilidades. Os espaços educacionais devem manter-se firmes na luta por uma formação calcada na heterogeneidade, na expressão de vida de alunos, professores e gestores. Qualquer processo de busca por neutralidade e objetividade poderá causar a perda da identidade do ato de ensinar e aprender, isto é, de produzir conhecimento. Seria no mínimo contraditório negar a importância das interações subjetivas do indivíduo que participa e transforma, simultaneamente, a educação e a sociedade.

Por fim, destaca-se que essas dimensões abordadas não se materializam no sentido de negar ou romper completamente com a estrutura curricular da formação. Na realidade, currículo e identidade subjetiva e sensitiva são componentes de um mesmo processo educacional que busca garantir autonomia e pensamento crítico a alunos e professores. Formar é a sobreposição desses componentes destacados no texto, preservando a importância de cada um no desenvolvimento do processo de ensino e aprendizagem efetivos.

Considerações finais               

Conforme se destacou durante as reflexões realizadas, a educação contemporânea tem passado por transformações significativas, fruto da materialização de dinâmicas de ensino e aprendizagem diversas. Nesse contexto, ressalta-se a importância e o papel da formação sensível, subjetiva e artística nos espaços educacionais que, tradicionalmente, foram marcados pela rigidez do currículo e pela objetividade do saber que produziu conhecimentos tidos como verdade absoluta, universal.

As análises também apontaram que a sensibilidade artística e a subjetividade – que compreendem aspectos sensoriais da expressão humana – são fundamentais para a instituição de um pensamento crítico por parte de educadores, alunos e gestores dos espaços educacionais. As experiências cotidianas, a visão de mundo, as emoções, também são parte de um universo sensível, fundamental para enriquecer o processo de formação contemporâneo como um todo.

Não se pode deixar de destacar, ainda, que o universo imaterial da sensibilidade e subjetividade não se insere em sala de aula objetivando apagar ou reduzir o grau de importância do conhecimento tradicional. Na realidade, a valorização das expressões sensoriais do indivíduo são estratégias instituídas para acrescentar ao currículo e as estratégias de ensino consideradas formais. Essa dimensão imaterial tem por intuito retroalimentar o fazer educacional, humanizando a relação nos espaços de formação, e contribuindo para que esse ambiente se torne cada vez mais múltiplo, heterogêneo.

Outro ponto da abordagem a ser destacado foi a reflexão acerca da significância das mediações formativas (arte, subjetivo e sensível) e sua relação com os múltiplos espaços e profissionais da educação. Conforme se observou, tais dimensões não estão restritas apenas à formação escolar, mas também ao processo de construção do saber na universidade. Além disso, pode-se constatar que a subjetividade, a sensibilidade e arte fazem parte da rotina de educadores e alunos, já que ambos expressam as mais variadas formas de experiência e vivência. Assim, apesar de serem mediadores, por excelência, do processo de formação, os profissionais de ensino não detêm a hegemonia dessas dimensões destacadas, mas as compartilham no ambiente educacional com todos.

Portanto, as discussões realizadas se inserem na perspectiva de evidenciar a importância da formação heterogênea múltipla e diversificada do ponto de vista cognitivo. É dentro dessa dinâmica que é possível construir uma educação do futuro, com raízes no presente. A valorização das condições materiais e imateriais do ensino-aprendizagem é fundamental para permitir que os espaços educacionais se tornem autônomos, formadores de sujeitos crítico-reflexivos, capazes de redefinir as suas trajetórias de vida e da sociedade como um todo.

Referências

AMORIM, Verussi Melo de; CASTANHO, Maria Eugênia. Por uma educação estética na formação universitária de docentes. Educação & Sociedade [online], São Paulo, v. 29, nº 105, p. 1.167-1.184, 2008.

BOTTEGA, Fernanda; RAFFAELLI, Alexandra F. O educar sensível e as possibilidades no século XXI. In: 5º SEMIC – SEMINÁRIO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA DO CURSO DE PEDAGOGIA. Anais... Itapiranga: Faculdades de Itapiranga, 2014.

CAPECCHI, Maria Cândida Varone de Morais; GOMES, Vivilí Maria Silva; MARQUES, Marissel. Por uma didática mediada pela sensibilidade: no caminho de um ser professor. Rev. Bras. Estud. Pedagóg., Brasília, v. 98, nº 250, set./dez. 2017.

DUARTE JÚNIOR, João Francisco. O sentido dos sentidos. A educação (do) sensível. Tese (Doutorado) - Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2000. Disponível em: http://repositorio.unicamp.br/jspui/bitstream/REPOSIP/253464/1/DuarteJunior_JoaoFrancisco_D.pdf. Acesso em: 2 jan. 2020.

FREIRE, Paulo; SHOR, Ira. Medo e ousadia: o cotidiano do professor. 12ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2008.

OLIVEIRA, Rosane Machado de. Currículo escolar: um conjunto de conhecimentos para a concretização de objetivos educacionais. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento, ano 2, nº 8, v. 5, p 52-73, nov. 2017.

SALOMÉ, J. S. Educação, arte e formação humana: reflexões sobre a educação estética na escola. In: XI JORNADA DO HISTEDBR - A PEDAGOGIA HISTÓRICO-CRÍTICA, A EDUCAÇÃO BRASILEIRA E OS DESAFIOS DE SUA INSTITUCIONALIZAÇÃO, Cascavel. Anais... v. 1. p. 1-11, 2013.

SCOZ, B. J. L. Subjetividade de professoras/es: sentidos do aprender e do ensinar. Psicologia da Educação, v. 26, p. 5-27. 2008.

SOARES, Andrey Felipe Cé. A formação sensível dos docentes por meio da formação estética dos coordenadores pedagógicos. Revista Intersaberes, v. 8, nº 15, p. 23-34, jan./jun. 2013.

STANGHERLIM, R. Sentidos subjetivos na relação professor-aluno. Revista de Educação AEC, v. 35(139), p. 51-59, 2006. Disponível em: http://acervo.paulofreire.org:8080/jspui/bitstream/7891/4257/1/FPF_PTPF_01_0906.pdf. Acesso em: 02 jan. 2020.

VAITSMAN, J. Subjetividade e paradigma de conhecimento. Boletim Técnico do Senac, v. 21, nº 2, maio/ago. 1995. Disponível em: http://oceanu sacademico.blogspot.com.br/2011/04/o-paradigma-da-subjetividade.html. Acesso em: 2 jan. 2020.

Publicado em 20 de abril de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

MORAIS, Tiago Anderson. Arte, subjetividade e formação sensível: reflexões sobre a educação na contemporaneidade. Revista Educação Pública, v. 21, nº 14, 20 de abril de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/14/arte-subjetividade-e-formacao-sensivel-reflexoes-sobre-a-educacao-na-contemporaneidade