Educação a Distância: tecnologias de informação e comunicação, sistemas de informação e a formação de docentes

André Ricardo Barbosa Duarte

Doutorando em Educação (UFMG), mestre em Educação (UEMG), professor de educação básica da rede municipal de Contagem/MG

Iandra Rebeca Ricelle de Oilveira

Graduanda em Matemática (UFMG)

Termos como tecnologias da informação e da comunicação (TIC) e sistemas de informação (SI) têm uma estreita ligação com as ciências gerenciais e as corporações comerciais, servindo a lógica de busca de competitividade no mercado globalizado. As TIC são definidas como:

Conjunto de recursos tecnológicos e computacionais para geração e uso da informação. A TI está fundamentada nos seguintes componentes: (a) hardware e seus dispositivos periféricos; (b) software e seus recursos; (c) sistemas de telecomunicações; e (d) gestão de dados e informações (Cecemca/Unesp, 2005, p. 238).

Enquanto os SI, de acordo com Stair (2002) e Norton (1996), é um arranjo que tem como característica central o gerenciamento da informação, baseado na sua coleta, armazenamento, organização, cruzamento e disseminação com o objetivo de orientar decisões e criar processos dentro de uma organização.

Contemporaneamente, essas tecnologias são utilizadas e associadas ao ambiente das empresas para sistematizar rotinas de produção, logística e na gestão de recursos humanos, dentre outras funções necessárias à sistematização dos processos organizacionais.

Esses aspectos estão associados, fortemente, a globalização econômica e a divisão internacional do trabalho que obrigaram as empresas a sinalizarem para uma mudança em seus padrões de acumulação de capital e de valoração de suas mercadorias frente a crescente competição mercadológica que acirra as relações comerciais desde o início do século XXI e, nesse momento, diante de uma grave crise sanitária provocada pela pandemia de covid-19 tornou-se a principal ferramenta para manter o comércio de mercadorias e serviços, as atividades de trabalho (home office) e as interações sociais e educativas.

Dessa forma, as TIC e os SI dentro do universo corporativo comercial atendem à demanda especifica de criar e fornecer vantagens competitivas dentro do mercado globalizado, pois apoia a tomada de decisões no que concerne a melhor forma de administrar uma cadeia produtiva de bens e/ou serviços.

E na educação? Quais seriam as aplicações e funções das TIC e dos SI? A primeira resposta para esse questionamento nos leva à Educação a Distância (EaD), sobretudo por que esse modelo de ensino agrega "a tecnologia digital que tornam flexíveis as relações entre espaço e tempo propiciam a interação entre as pessoas e delas com as informações disponibilizadas e com as tecnologias em uso" (Ribeiro, 2013, p. 12).

Portanto, neste artigo, é importante estabelecer um breve debate sobre a importância das TIC e dos SI na EaD. Para empreender essa discussão é necessário, primeiro, situar como são estruturadas e aplicadas as TIC e os SI dentro dessa modalidade de ensino e, posteriormente, apresentar as perspectivas e expectativas na formação de docentes. Por fim, serão analisados alguns dados estatísticos relacionados aos cursos e matrículas na modalidade EaD coletados no Censo da Educação Superior realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas e Estudos Educacionais Anísio Teixeira (INEP).

Tecnologias de informação e comunicação e os sistemas de informação na EaD

A EaD já se serviu de inúmeros recursos de difusão das informações para socializar o aprendizado técnico e cientifico no Brasil. Da troca de correspondências à web conferência, as lives, os ambientes virtuais de aprendizado (AVA), os grupos nas redes sociais, etc., o trânsito rápido de dados e informações é a base fundamental de organização e funcionamento dessa modalidade. Portanto, qualquer curso a distância está apoiado em um sistema de informação (SI), organizado pelas tecnologias mais simples como a troca de correspondências via Correios – como utilizado pelo Instituto Universal Brasileiro desde a década de 1940 – até as tecnologias telemáticas em uso na atualidade.

As TIC são compreendidas como o conjunto de recursos tecnológicos e computacionais utilizados para a geração, uso, guarda e difusão das informações (Cecemca/Unesp, 2005), destinadas para um determinado fim. As TIC são o suporte físico e organizacional por onde a informação é tratada e disponibilizada para todos(as) que compõem e usam o SI. É a via por onde circulam os dados e informações e onde se produz a interação dos usuários. Assim, é possível definir que um SI possui uma estrutura técnica (TIC) e um sistema social com demanda especifica.

Existe um sistema técnico, formado pelas técnicas e ferramentas e utilizadas para realizar cada tarefa. Existe também um sistema social, com suas necessidades, expectativas, e sentimentos sobre o trabalho. Os dois sistemas são simultaneamente otimizados quando os requisitos da tecnologia e as necessidades das pessoas são atendidos conjuntamente (Rossini, 2003, s/p).

As instituições de ensino superior (IES) públicas e privadas que possuem cursos na modalidade EaD, estruturam seus SI (Figura 1) nos ambientes virtuais de aprendizagem (AVA) - Moodle, Teleduc, Aulanet, Topclass, Google Classroom e Teamssão alguns exemplos. Esses possuem inúmeras ferramentas que agregam recursos de "interação virtual fria (formulários, rotinas, provas, e-mail) e [...] interação online (pessoas conectadas ao mesmo tempo, em lugares diferentes)" (Moran, 2000, p. 7) para produção e circulação de dados e informações necessários a interação virtual que serve as pessoas, a um grupo ou vários grupos de indivíduos (sistema social).


Figura 1: TIC e SI são concebidos e gerenciados por demandas de um sistema social

Nessa organização de um SI voltado para um curso na modalidade EaD, o AVA é o principal recurso de interlocução entre os usuários(as) e as instituições que ofertam os cursos. Os grupos e indivíduos (professores (as), tutores (as), coordenadores(as), supervisores(as), analistas de sistemas, alunos(as) etc.) que compõem o sistema social determinará os usos e fins dos dados e informações que circulam pelo SI e deste construir os processos de ensino-aprendizagem pela interação virtual.

É importante entender que os processos de construção de conhecimentos são resultantes de uma ação dialógica no tratamento de dados, que convertidos em informações são interpretados e utilizados pelos pares deste processo.

Normalmente tratam-se esses conceitos em um sentido hierárquico, em que os dados são simples fatos que se tornam informação, se forem combinados em uma estrutura compreensível; ao passo que a informação se torna conhecimento, se for colocada em um contexto, podendo ser usada para fazer previsões. Uma informação é convertida em conhecimento quando um indivíduo consegue ligá-la a outras informações, avaliando-a e entendendo seu significado no interior de um contexto específico. De acordo com esse sentido, os dados são pré-requisitos para a informação, e esta é pré-requisito para o conhecimento (Silva, 2004, p. 144).

Diversos atores dos sistemas de educação (professores(as), estudantes, comunidade escolar) e os gestores públicos e privados depositam grandes expectativas no uso das TIC como ferramentas de aprendizagem. Essas ferramentas têm o potencial de democratizar o acesso à informação, facilitar a produção e disseminação de conteúdo, viabilizar a construção coletiva do conhecimento e, cada vez mais, possibilitar diversas interações sociais e de aprendizagem.

As inovações tecnológicas na atualidade sustentam essas expectativas sobre os processos de ensino-aprendizado e colocou a necessidade de uma abordagem multidisciplinar e transdisciplinar sobre todo o ativo informacional e de conhecimentos que são compartilhados pelas sociedades em diferentes espaços, tempos e contextos. As concepções pedagógicas das últimas décadas, baseadas no incentivo ao pensamento crítico e a comunicação dialógica, influenciaram de maneira significativa o universo das escolas e universidades e deram um novo sentido à construção, socialização e usos dos conhecimentos construídos de forma colaborativa.

Estamos em uma etapa de grandes mudanças na transição para a Sociedade da Informação, que afetam também à Educação. Temos que repensar seriamente os modelos aprendidos até agora. Ensinar e aprender com tecnologias telemáticas é um desafio que até agora não foi enfrentado com profundidade. Temos feito adaptações do que já conhecíamos. A educação presencial e a distância começam a ser fortemente modificada e todos nós, organizações, professores e alunos somos desafiados a encontrar novos modelos em todas as situações. As tecnologias telemáticas de banda larga, que permitirão ver-nos e ouvir-nos facilmente, colocam em xeque o conceito tradicional de sala de aula, de ensino e de organização dos procedimentos educacionais (Moran, 2000, p. 4).

Portanto, socializar informações e conhecimentos através de outros métodos que vão além dos espaços escolares tradicionais (sala de aula), suas ferramentas (livros, cadernos, quadro etc.) e dinâmica conteudista baseada no "conceito ou modelo clássico de comunicação humana [que] consiste num processo ou ato linear composto por três elementos essenciais: emissor, mensagem e receptor" (Cogo, 1996, p. 146), talvez seja o maior desafio imposto no processo de formação dos(as) docentes no atual contexto, que reverbera tanto no processo de formação dentro dos cursos de graduação, quanto na atuação desses profissionais nas escolas públicas e privadas de Educação Básica.

O conhecimento é construído através das relações entre os seres humanos e o mundo, e a comunicação se define como situação em que as pessoas criam conhecimento 'juntas', ao invés de transmiti-lo, dá-lo ou impô-lo. [...] A comunicação deve ser vivida por seres humanos, como a sua vocação vivida em sua dimensão política (Cogo, 1996, p. 147).

Dessa forma, criar um ambiente de ensino-aprendizagem fundamentado em uma dinâmica de produzir, colaborar e compartilhar na EaD, sobretudo nos cursos dedicados à formação de docentes para atuar educação básica, requer um grande esforço de ruptura da "noção mecânica de comunicação como transmissão de informação de fontes ativas a receptores passivos" (Cogo, 1996, p. 146). Quando abordamos essa temática na EaD – em virtude das distâncias físicas significativas entre os gestores do SI (docentes/tutores(as)/universidades) e seus principais usuários (alunos(as)) – torna-se urgente e relevante discutir as interações entre as TCI e a formação de docentes.

As perspectivas e expectativas do uso das TIC na formação de docentes

As tecnologias quando introduzidas no processo de ensino-aprendizagem têm como primeiro desafio romper a lógica de utilização apenas como instrumentos de consultas, ou seja, as TIC para o desenvolvimento de práticas de ensino a distância não são tão somente repositórios de materiais didáticos (textos, livros, vídeos, exercícios, provas etc.). Em uma perspectiva mais ampla, o uso das tecnologias não pode ser mais significativo do que o processo dialógico de ensino-aprendizagem.

A simples existência de meios técnicos capazes de conduzir as transformações não significa que essas transformações se produzirão necessariamente, nem que elas se darão na direção esperada, nem mesmo que terão em todos os lugares características idênticas. [...] Diante dessas considerações, a questão que se coloca é a de saber como analisar as relações existentes entre as NTC e as sociedades (Benakouche,1995, p. 57).

Quando dominar o uso das tecnologias assume papel central no processo de ensino, pode-se instituir uma dinâmica mecânica: acessar-ler-responder. Nesse esquema, excessivamente burocrático, o(a) educando(a) interfere pouco no processo. Assim sendo, criar-se uma barreira conceitual em que o "conhecimento fica 'corporificado' nos equipamentos e apropriado por um grupo restrito" (Schwartzman, 1997, s/p). Cria-se um ambiente de risco para aprendizagem, quando há um uso mecânico da tecnologia. Ou seja, esse uso torna o ato de ensino-aprendizagem na EaD em um fazer pedagógico mais para o uso (faça-para-si-mesmo) do que para a troca (faça-para-o-coletivo) de informações e conhecimentos.

Concordamos com a premissa, fruto de vários estudos e pesquisas, de que o desafio inovador em EaD é superar o "conteudismo" e o uso mecânico de tecnologias e criar ambientes ricos de aprendizagem. Entende-se por ambientes ricos de aprendizagem a ultrapassagem das concepções transmissivas de saberes cindidos sobre determinada área do conhecimento, onde se focalize uma formação profissional consistente em que tenha lugar o porquê, o para quê e o como desenvolver o fazer pedagógico. O importante do processo de ensino e aprendizagem numa abordagem inovadora é a atividade mental relacional mediada pelo docente (Chamon, 2008, p. 6).

Ribeiro (2013) aponta que é necessário haver a interatividade entre os sujeitos no processo de ensino-aprendizagem, dessa maneira as TIC na EaD não serão apenas utilizadas como repositórios e/ou instrumentos de consulta, mas sim entendidas dentro de um contexto de práticas de ensino.

A interatividade, essencial às TIC, potencializa a criatividade, a expressão do pensamento e a colaboração entre os sujeitos envolvidos no processo formativo. No entanto, a tecnologia em si mesma, qualquer que seja ela, não é suficiente para garantir a qualidade da educação na modalidade à distância. Para obter qualidade da aprendizagem nesses ambientes, a ação pedagógica deve privilegiar a mediação entre o professore e o aprendiz. Além disso, deve desenvolver a capacidade de organização do aluno e orientar, didaticamente, o processo de ensino-aprendizagem à distância e a utilização adequada das ferramentas tecnológicas que servirão de instrumento nesse processo (Ribeiro, 2013, p. 12).

Nesse contexto, debater a formação de professores (as) no ensino à distância nesse momento nos remete a pensar o mundo globalizado com toda a força e significado do uso das tecnologias e suas influências diretas e indiretas no campo da educação, desde a educação infantil até o ensino superior.

O mundo contemporâneo é marcado por uma série de mudanças que estão afetando o modo de ver, pensar e agir das pessoas, pois esse é o tempo em que as distâncias já não representam mais limitações significativas para a comunicação. Portanto, pensar o século XXI – e os fazeres dinâmicos da educação nesse contexto – nos remete as novidades tecnológicas e ao intercâmbio entre as pessoas, as sociedades e a informação. Um momento de mudanças que acelera cada vez mais o avanço tecnológico. Nesse processo, surge o protagonismo da EaD, que tem o papel de

tornar mais fácil o acesso do aluno à informação, tornando-o mais proativo na busca de seus caminhos. Essa pró-atividade é uma marca da educação contemporânea, na qual o aluno repositório de informações e conteúdos não tem mais seu lugar na sociedade. Cada aluno é um agente de sua própria formação e deve criar, dentro de certos limites, seu próprio perfil de aprendizado (Arieira et.al., 2009, p. 322).

O protagonismo do ensino a distância não é substituir a educação no modelo presencial, mas complementá-la na dinâmica de socialização dos conhecimentos de seus usuários de acordo com seus perfis, preferências e habilidades cognitivas. É permitir que pessoas excluídas, por diversos motivos, no modelo presencial de educação possam ser incluídas e ter garantido seu direito de acesso à educação, à informação e à formação cientifica e técnica.

Assim, as metodologias e o uso das TIC na EaD devem ser percebidas como incentivadoras do acesso e permanência do(a) educando(a), principalmente no ensino médio e superior. Entretanto, esse modelo ainda apresenta dificuldades e limitações na qualidade (acesso e conectividade), no uso e compreensão das ferramentas e nas questões administrativo-pedagógicas. De acordo com a pesquisa "Trabalho docente em tempos de pandemia" elaborada pelo Grupo de Estudos sobre Política Educacional e Trabalho Docente (Gestrado) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em parceria com a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) apontou que dos 15.654 docentes da educação básica – que responderam o questionário on-line autoaplicado, disponibilizado na plataforma Google Forms no período de 8 a 30 de junho de 2020 – apenas 28,9% declaram ter facilidade com o uso de tecnologias digitais. Nas redes públicas de educação básica, 53,6% dos(as) docentes das redes municipais declaram não ter recebido nenhum treinamento, ou formação para uso das TIC, já nas redes estaduais esse percentual é de 24,6% (Gestrado/UFMG, 2020).

Dessa forma, e em torno das perspectivas e expectativas da formação de docentes no modelo EaD na atualidade, julgamos necessário apresentar e avaliar alguns dados estatísticos extraídos do Censo da Educação Superior 2018 disponibilizados pelo INEP no ano de 2019. O objetivo é compreender a extensão da EaD na atualidade para subsidiar e provocar reflexões sobre os temas tratados até aqui.

Alguns dados estatísticos da EaD no Brasil

De acordo com dados divulgados pelos INEP, o número de matrículas em cursos de graduação na modalidade EaD são de 2.056.511, distribuídas em12.112 polos pelo Brasil, em 2018 (Tabela 1).

Tabela 1: Graduação em EaD, número e percentual de matrículas e polos por categoria administrativa da IES – Brasil

Categoria administrativa da instituição de Ensino Superior (IES)

Matrículas

Polos

n

%

n

%

Pública – total (1)

172.927

8,4

1.802

14,9

Federal

93.075

4,5

941

7,8

Estadual

77.949

3,8

837

6,9

Municipal

1.903

0,1

24

0,2

Privada – total (2)

1.883.584

91,6

10.310

85,1

Total (1+2)

2.056.511

100

12.112

100

Fonte: Sinopse do Censo do Ensino Superior/INEP, 2019.

Nessa modalidade de ensino, é observada a predominância das IES privadas como ofertantes dos cursos, sendo essa categoria administrativa responsável por 91,6% das matrículas e 85,1% dos polos. As IES públicas (federal, estadual e municipal) respondem por 8,4% das matriculas, sendo que 4,5% destas estão vinculadas às dependências administrativas federais, 3,8% nas estaduais e 0,1% nas municipais.

Em relação aos polos, as IES públicas respondem por 14,9% dos estabelecimentos. Desse percentual, 7,8% são federais; 6,9% estaduais e 0,2% municipais. Esses dados revelam que os cursos na modalidade EaD são, fortemente, ofertados por IES privadas.

De acordo com os dados do censo em relação à distribuição territorial das matrículas e polos, temos os resultados mostrados na Tabela 2.

Tabela 2: Graduação a distância – Distribuição de matrículas e polos - Brasil e Exterior

Região

Matrículas

Polos

n

%

n

%

Norte

221.877

10,8

963

8,0

Nordeste

348.577

16,9

2.479

20,5

Sudeste

835.289

40,6

5.054

41,7

Centro-Oeste

183.438

8,9

1.152

9,5

Sul

466.096

22,7

2.441

20,2

Exterior

1.234

0,1

23

0,2

Total

2.056.511

100

12.112

100

Fonte: Sinopse do Censo do Ensino Superior/INEP, 2019.

As matrículas e polos estão mais concentrados na região Sudeste, 40,6% e 41,7%. A região Sul é a segunda que possui maior concentração de matrículas22,7% e 20,2% dos polos. A região Nordeste é a terceira com 16,9% matrículas e 20,5% dos polos, ligeiramente maior nesse quesito em relação à região Sul. A região Norte é a quarta com 10,8% das matrículas e 8,0% dos polos, seguida pelo Centro-oeste com 8,9% das matrículas, porém, em relação aos polos, essa concentra 9,5%, percentual superior ao da região Norte. Vale destacar o registro de 1.234 matrículas de alunos(as) que cursam o Ensino Superior em 23 polos localizados fora do país.

Essas matrículas estão distribuídas por 3.177 cursos, ofertados nas áreas gerais de Educação; Artes e Humanidades; Ciências Sociais, Jornalismo e Informação; Negócios, Administração e Direito; Ciências Naturais, Matemática e Estatística; Computação e Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC); Engenharia, Produção e Construção; Agricultura, Silvicultura, Pesca e Veterinária; Saúde e Bem-Estar; e Serviços, como pode ser visto na Tabela 3.

Tabela 3: Distribuição dos cursos de graduação a distância segundo as áreas gerais

Áreas gerais

n

%

Educação

1.000

31,5

Artes e humanidades

94

3,0

Ciências Sociais, Jornalismo e Informação

44

1,4

Negócios, Administração e Direito

1.294

40,7

Ciências Naturais, Matemática e Estatística

12

0,4

Computação e Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC)

190

6,0

Engenharia, Produção e Construção

248

7,8

Agricultura, Silvicultura, Pesca e Veterinária

20

0,6

Saúde e Bem-Estar

148

4,7

Serviços

127

4,0

Total

3.177

100

Fonte: Sinopse do Censo do Ensino Superior/INEP, 2019.

Os cursos na área de Negócios, Administração e Direito são os mais ofertados, 40,7%; seguidos pelos cursos na área da Educação, 31,5%. As áreas de Ciências Naturais, Matemática e Estatística (0,4%) e Agricultura, Silvicultura, Pesca e Veterinária (0,6%) não atingem 1% dos cursos ofertados. Os demais apresentam oferta abaixo dos 10% do total de cursos oferecidos. Destaque para as áreas de Computação e Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) e Engenharia, Produção e Construção, que respondem por 6,0% e 7,8%, respectivamente.

A oferta de cursos nas IES públicas e privadas abrange 10 áreas gerais e os dados do Censo do Ensino Superior em 2018 informa a distribuição desses cursos em relação à categoria Administrativas das IES (Tabela 4).

Tabela 4: Oferta de cursos de graduação EaD por áreas gerais e categorias Administrativas das IES

Áreas gerais

Total

Categoria administrativa da IES

Federal

Estadual

Municipal

Privada

n

%

n

%

n

%

n

%

Educação

1.000

256

25,6

109

10,9

22

2,2

613

61,3

Artes e humanidades

94

1

1,1

1

1,1

-

0,0

92

97,9

Ciências Sociais, Jornalismo e Informação

44

2

4,5

-

0,0

-

0,0

42

95,5

Negócios, Administração e Direito

1.294

46

3,6

23

1,8

6

0,5

1.219

94,2

Ciências Naturais, Matemática e Estatística

12

-

0,0

-

0,0

-

0,0

12

100,0

Computação e Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC)

190

7

3,7

1

0,5

-

0,0

182

95,8

Engenharia, Produção e Construção

248

6

2,4

3

1,2

-

0,0

239

96,4

Agricultura, Silvicultura, Pesca e Veterinária

20

1

5,0

-

0,0

2

10,0

17

85,0

Saúde e Bem-Estar

148

-

0,0

-

0,0

-

0,0

148

100,0

Serviços

127

6

4,7

2

1,6

1

0,8

118

92,9

Total

3.177

325

10,2

139

4,4

31

1,0

2.682

84,4

Fonte: Sinopse do Censo do Ensino Superior/INEP, 2019.

Conforme observado pelos dados do Censo do Ensino Superior 2018, as IES privadas ofertam 84,4% dos cursos de graduação na modalidade EaD. A participação das IES públicas é muito baixa na oferta, sendo que nas áreas de Ciências Naturais, Matemática e Estatística e Saúde e Bem-Estar não existem cursos oferecidos por instituições públicas de ensino superior. Em outras áreas, como Artes e Humanidades (97,9%); Engenharia, Construção e Produção (96,4%); Computação e Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) (95,8%); Ciências Sociais, Jornalismo e Informação (95,5%), a oferta de graduação por IES privadas é quase majoritária. As IES federais respondem por 10,2% dos cursos ofertados, sendo sua maior participação na área de Educação, 25,6%. As IES estaduais, assim como as federais, têm maior oferta na Educação, 10,9%. Já as IES municipais têm seu maior percentual dentre os cursos ofertados na área de Agricultura, silvicultura, pesca e veterinária, 10%.

O Censo do Ensino Superior de 2018 informa que foram ofertadas 1.685.591 vagas nos cursos de graduação em Educação. Sua distribuição por área detalhada e tipo de curso estão na Tabela 5.

Tabela 5: Vagas ofertadas, candidatos inscritos e ingressos nos cursos da área de Educação em 2018

Área detalhada e tipo de curso

Vagas oferecidas

Candidatos (as) inscritos

Ingressos

Total

Total

Inscritos por vaga

Total

% de vagas preenchidas

Educação

1.685.591

916.652

0,54

395.376

23,5

Formação de professores de Letras

320.489

90.664

0,28

36.035

11,2

Formação de professores em áreas específicas (Artes, Biologia, Ciências agrárias, Ciências naturais, Ciências sociais, Computação, Educação Física, Ensino profissionalizante, Ensino religioso Filosofia, Física, Geografia, História, Matemática, Música, Química, exceto Letras)

916.279

351.290

0,38

129.668

14,2

Formação de professores sem áreas específicas (Educação do campo, Educação Especial, Formação pedagógica de professor da Educação Básica e Pedagogia)

446.793

470.526

1,05

228.115

51,1

Programas interdisciplinares abrangendo educação

1.030

1.823

1,77

604

58,6

Fonte: Sinopse do Censo do Ensino Superior/INEP, 2019.

De acordo com esses dados, a relação candidato(a) inscrito(a) versus o número de vagas para os cursos na área de Educação aponta menos de 1 inscrito(a) para cada vaga ofertada (0,54). Em relação ao ingresso, em 2018, das 1.685.591 vagas oferecidas, apenas 395.376 foram providas, um percentual de 23,5%. Em relação ao número de inscritos e as vagas providas, esse percentual é de 43,1%, ou seja, considerando a relação candidatos(as) inscritos(as) versus número de vagas ofertadas menor que 1, cerca de 521.276 candidatos, desconsiderando as taxas de reprovação nos processos seletivos, elegíveis para as vagas não concretizaram sua matrícula no ano de 2018.

Os cursos interdisciplinares abrangendo Educação e a formação de professores sem áreas específicas (Educação do campo, Educação Especial, Formação pedagógica de professor da Educação Básica e Pedagogia) são os que apresentaram maior relação candidato(a)/vaga, respectivamente, 1,77 e 1,05. São os que também apresentam o maior número de ingressos, sendo 58,6% para os cursos interdisciplinares e 51,1% para os de formação de professores sem áreas específicas.

Os cursos de formação de professores de Letras, que abrange a formação de docentes em Língua Portuguesa, Inglesa, Espanhola, Italiana e em Língua Brasileira de Sinais (Libras), é o que apresenta o menor número de candidatos(as) por vaga, 0,28, e o menor percentual de ingresso, 11,2%. Dentro dos cursos de formação específica, vale destacar que História com 174.986 vagas e 21.932 ingressos; Matemática com 124.583 vagas e 23.074 ingressos e Educação Física com 98.441vagas e 37.938 ingressos são os que apresentam o maior número de vagas e o maior número de alunos(as) que ingressaram no ensino superior na modalidade EaD em 2018. Esses cursos representam 23,6% das vagas ofertadas e 21% dos ingressos em cursos de formação de professores(as) nessa modalidade.

Considerações finais

Na EaD, o uso das TIC e dos SI devem produzir uma interação efetiva, qualitativa e dialógica entre seus usuários (professores, alunos, tutores, instituições etc.) no sentindo de superar a lógica conteudista e de simples instrumentos técnicos. Nesses termos, o grande desafio de todas as tecnologias e seus sistemas– principalmente nas utilizadas em EaD – é garantir que os conhecimentos produzidos dentro dos ambientes de aprendizagem sejam legitimados nos contextos sociais via interação de seus usuários. Reconhecer esse aspecto é de extrema importância, pois a diversidade está no cerne da EaD, tendo em vista que as TIC permitem atingir comunidades de diferentes tramas sociais e com as mais variadas formas de comunicação. Portanto, é necessário sua fundamentação teórica e prática como método de ensino e aprendizagem desde o ingresso na graduação, sobretudo nos cursos dedicados à formação de docentes que futuramente irão atuar na educação básica pública e privada.

Em relação à expansão da EaD no Brasil, os números analisados comprovam grande participação de matrículas nos cursos superiores destinados a formação de professores(as). As IES privadas são ofertantes majoritárias dos cursos de graduação, seguida, de muito longe, pelas IES federais. Existe um gap muito significativo em relação à oferta vagas e matrículas entre as IES privadas e públicas, assunto esse que merece uma profunda discussão em relação ao futuro da EaD, tendo em vista que as instituições públicas de ensino superior no Brasil são reconhecidas pela alta qualidade na formação de pesquisadores e docentes.

Os cursos de formação de docentes, pelos números do ano de 2018, demonstram, ou pelo menos sugerem, que as condições de trabalho em relação a carreira e a remuneração em muitas redes públicas e privadas não são atrativas o que reverbera baixo interesse em relação aos cursos dessa área. O significativo gap entre a oferta de vagas e o número de ingressos é uma forte evidência de que a atratividade da carreira docente – sobretudo pela oferta de melhor remuneração – é uma condição fundamentalmente para tornar os cursos mais atrativos.

Diante dos dados apresentados é possível concluir que a EaD já se consolidou como um modelo de formação dentro da educação superior no Brasil. Desta maneira, é importante aprofundar as discussões sobre sua forma, conteúdos e usos. Não há como negar as contribuições positivas desse modelo na democratização do acesso ao Ensino Superior e no esforço em qualificar profissionais para atuar, principalmente, na Educação Básica.

Contudo, é imprescindível que se mantenha o debate sobre os processos de ensino-aprendizagem mediados pelas TIC e pelos SI na EaD, pois esse tema é aquele que se associa fortemente com a formação dos profissionais docentes perante um novo ambiente educacional, marcado, sobretudo, pelo fim do monopólio da informação e pela construção coletiva do conhecimento.

Contemporaneamente, qualquer atividade educativa é marcada pelo compartilhamento de conhecimentos e experiências – quer seja presencial, semipresencial ou a distância. Toda formação educacional necessita – para seu exercício democrático – de uma dinâmica dialógica e participativa, sendo a comunicação e a cultura os pontos de partida de um processo de ensino-aprendizagem que produz efeitos que vão além da simples reprodução dos conteúdos ensinados. E é nesse contexto que a EaD e a formação de professores (as) devem ser considerados e debatidos continuamente, principalmente nesse momento em que as TIC foram apropriadas como paliativo pedagógico diante do distanciamento social imposto pela pandemia de covid-19 que fechou escolas e universidades, apartando professores(as) e alunos(as).

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Publicado em 04 de maio de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

DUARTE, André Ricardo Barbosa; OLIVEIRA, Iandra Rebeca Ricelle de. Educação a Distância: tecnologias de informação e comunicação, sistemas de informação e a formação de docentes. Revista Educação Pública, v. 21, nº 16, 4 de maio de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/16/educacao-a-distancia-tecnologias-de-informacao-e-comunicacao-sistemas-de-informacao-e-a-formacao-de-docentes