Educação Física Inclusiva: a informação é a chave para a inclusão

Tiago Magalhães Pontes

Licenciado em Educação Física (UESPI), pós-graduado em Treinamento Desportivo (Faculdade Inta)

Marciana Aguiar Rodrigues

Docente universitária (UFPI)

Marília Aguiar Rodrigues

Docente universitária (UESPI)

A inclusão é o conjunto de meios e ações que combatem a exclusão aos benefícios da vida em sociedade, permitindo a ocorrência de transformações nos ambientes físicos e principalmente na mentalidade das pessoas, inclusive da pessoa que possui necessidades especiais. Processo de conscientização da sociedade que já vem acontecendo em todo o mundo e que se efetivou com maior ênfase nestes últimos 50 anos, devido à busca com mais intensidade das pessoas deficientes pelos seus direitos conquistados.

A inclusão é a modificação da sociedade como pré-requisito para que a pessoa com necessidades especiais – seja com deficiência visual, auditiva, motora, mental etc. – possa buscar seu desenvolvimento e exercer a cidadania com dignidade (Sassaki, 1997). Dessa forma, essas pessoas, tendo seus direitos respeitados, podem mais facilmente incorporar-se à sociedade em geral, diminuindo o preconceito sofrido por elas.

Sabemos que a maioria das crianças com necessidades educacionais especiais são excluídas das atividades pedagógicas das escolas. Considerando os seres humanos como corpos, aqueles que se apresentam incompletos em sua estrutura biológica são denominados deficientes. São considerados incapazes e ineficientes diante do mundo de trabalho, do espaço da educação e do direito do convívio com seus pares em momento de lazer (Gaio; Porto apud Marco, 2006).

A participação dessas pessoas nas aulas que têm o lúdico como o maior objetivo pode trazer inúmeros benefícios para os deficientes e os demais alunos, principalmente no desenvolvimento das capacidades perceptivas, afetivas, de integração e inserção social.

Por ser um componente curricular obrigatório, a Educação Física deve integrar a proposta pedagógica escolar. Para isso, é preciso compreendê-la como área de conhecimento que constrói, organiza, sistematiza e produz conhecimento com base em princípios pedagógicos. Nessa nova visão educacional, as atividades práticas da Educação Física Inclusiva vão além do ensino correto da cultura corporal do movimento, fazendo com que o educador analise, relacione, interprete e problematize com seus alunos as diversas manifestações da cultura corporal.

Na Antiguidade, a segregação e o abandono das pessoas com deficiência eram institucionalizados; eram vistas como doentes, incapazes, alvo de caridade popular, de assistencialismo social, e não como sujeitas de direitos sociais, à saúde, à educação, à Educação Física e aos esportes (Darido, 2007).

Conforme citado na literatura, na Roma Antiga as crianças que nasciam com algum tipo de deficiência eram afogadas, por serem consideradas anormais e débeis; havia também uma lei que dava ao pai o direito de eliminar a criança logo após o parto se ela apresentasse alguma anomalia. Na Grécia Antiga, as pessoas com deficiência eram mortas, abandonadas à sua sorte e expostas publicamente. Na Idade Média, a deficiência era ligada à marca do pecado, à culpa ou a qualquer transgressão social ou moral, o que impedia o contato com os seres divinos.

Os loucos, os deficientes mentais e criminosos eram considerados possuídos pelo demônio; dessa forma, tinham que ser excluídos da sociedade, enquanto os cegos e os surdos eram vistos com poderes e dons sobrenaturais.

Na época do Renascimento, com o surgimento da Ciência, explicações para as causas das deficiências começaram a ser buscadas, pois até então elas eram consideradas, do ponto de vista científico, como doenças de caráter hereditário, males mentais ou físicos.

No Brasil, o atendimento às pessoas com deficiência teve início na época do Império, com a criação de duas instituições: o Imperial Instituto dos Meninos Cegos, em 1854, atual Instituto Benjamin Constant (IBC). Em 1973, o MEC criou o Centro Nacional de Educação Especial – Cenesp, responsável pela gerência da Educação Especial no Brasil, o que impulsionou ações educacionais voltadas às pessoas com deficiência.

A Declaração de Salamanca (Unesco, 1994) é considerada mundialmente um dos mais importantes documentos que visam a inclusão social, juntamente com a Convenção sobre os Direitos da Crianças (1988) e a Declaração Mundial sobre Educação para Todos (1990), fazendo parte da tendência mundial que vem consolidando a Educação Inclusiva (Brasil, 1994).

Este trabalho visa compreender a importância da diversificação das práticas corporais presentes na Educação Física escolar visando a inclusão.

O trabalho teve como objetivo geral proporcionar à comunidade escolar a análise da realidade das dificuldades vivenciadas pela pessoa com deficiência, demonstrando o preconceito enfrentado por elas, a falta de acessibilidade e a necessidade de conscientização pela inclusão. Os objetivos específicos são: lutar por uma escola inclusiva, rompendo barreiras já construídas em relação às pessoas com deficiência, garantindo igualdade de direitos para todos; possibilitar ao aluno o reconhecimento e a valorização da diversidade, vivenciando situações diferentes de construir conhecimentos; sensibilizar a comunidade escolar diante das diversas expressões de inclusão que cotidianamente se apresentam na comunidade escolar e local. 

A metodologia utilizada foi a descritiva, por meio de uma abordagem qualitativa; como instrumento de pesquisa utilizou-se um questionário de cinco perguntas fechadas e abertas, que foi aplicado a 60 alunos da Escola Municipal Antonio José de Lima, em Morro do Chapéu/PI, que atualmente cursam o Ensino Fundamental (entre o 6º e o 9º ano), com faixa etária de 10 a 16 anos. As atividades foram realizadas nos meses de maio e junho de 2018, durante as aulas de Educação Física da escola, que corresponde a três aulas semanais.

Os resultados evidenciaram que 63% dos entrevistados respeitam os direitos da pessoa com deficiência, enquanto para 27% o basquete em cadeira de rodas foi a modalidade esportiva com maior grau de dificuldade para executar. Questionados sobre os benefícios do esporte na vida das pessoas com deficiência, foi apontada com 38% a superação, vencer as limitações; por final, apontaram que a deficiência que mais sofre discriminação é a deficiência visual, com 51% dos entrevistados. Concluímos que o esporte como atividade física para deficientes físicos é uma das principais maneiras de integração da sociedade, despertando o sentimento e a vontade de melhorar o seu mundo.

Educação Física Inclusiva

A inclusão está estabelecida na dimensão sociocultural e humana que procura destacar formas de interações positivas, acolher e dar apoio às dificuldades e necessidades dessas pessoas, tendo como ponto de partida a observação de alunos, pais e comunidade.

Segundo o PNE (1994), a oferta de Educação Especial poderá ser realizada de três formas: participação nas classes comuns, sala especial e escola especial. As salas e escolas especiais devem ser apenas para aqueles que realmente não puderem ser atendidos nas salas convencionais. O PNE considera público-alvo da Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva os educandos com deficiência intelectual, física, auditiva, visual etc.

Segundo Gorgatti (2008), a origem da participação de pessoas que apresentam diferentes e peculiares condições para a prática das atividades físicas ocorreu em programas denominados “ginástica médica”, na China, cerca de 5 mil anos atrás. Com o passar dos anos, inúmeros programas voltados para essa finalidade foram desenvolvidos; podemos citar como exemplos: Educação Física reabilitadora, Educação Física ortopédica, Educação Física corretiva, Educação Física preventiva e Educação Física terapêutica.

Atualmente o ponto central da Educação Física é o desenvolvimento da cultura corporal por meio do movimento, dando ênfase a atividades como danças, jogos e esportes, lutas corporais, brincadeiras etc. Mas quando se refere a alunos com necessidades especiais, é importante que muitos cuidados sejam tomados, como o tipo de necessidade especial apresentada por eles, pois cada necessidade requer procedimentos específicos.

Após todas as precauções de segurança garantidas, a escola e o professor devem fazer adaptações para que assim a participação desses alunos nas aulas de Educação Física seja possível. O professor tem que desenvolver um papel flexível, fazer adaptações nas regras, nos planos de ensino, nos materiais utilizados; o mais importante é que os demais alunos possam conviver bem com essas adaptações, aumentando as possibilidades para o princípio da inclusão.

Destaca-se também, a valorização da superação de limitações e impedimentos, pois a participação em competições esportivas oficiais de portadores de necessidades especiais, adaptada para cada condição específica, traz discussões sobre a importância da inclusão para essas pessoas, amenizando a problemática do preconceito sofrido por elas. As aulas de Educação Física devem favorecer a construção de uma atitude de respeito próprio por parte da pessoa que apresenta necessidade especial, e a convivência com ela pode possibilitar a construção de atitudes, de solidariedade e aceitação. Por isso, no papel da inclusão cada um desses segmentos tem importância.

Para chegar a uma escola inclusiva, devem ser garantidas condições para que os alunos possam se locomover em todos os ambientes, com profissionais preparados, banheiros adaptados, rampas de acesso por toda a escola, pisos antiderrapantes, portas largas, corrimões e sinalização para alunos com baixa visão e para alunos surdos. A Constituição de 1988 assegura igualdade de condições de acesso e permanência no sistema educacional para todos; sendo assim, todos os alunos terão condições de frequentar todas as aulas.

Em todo o processo de inclusão, quem tem um maior papel de destaque é a família; ela é o principal componente de uma rede de apoio importante para a escolarização dos alunos, informando e orientando o professor sobre as necessidades específicas da criança. Enquanto a escola e o educador devem ter papeis parecidos, talvez seja necessário que o profissional dê um novo significado à sua prática pedagógica e à sua concepção de diversidade, preparando para atuar de forma inclusiva e igualitária, buscando estar preparado para a nova prática para atender as necessidades do ensino inclusivo.

Local da pesquisa

A pesquisa foi realizada com 60 alunos da Escola Municipal Antonio José de Lima, na cidade de Morro do Chapéu/PI; que atualmente cursam ali o Ensino Fundamental (entre o 6º e 9º ano), com faixa etária dos 10 aos 16 anos.

A prática das atividades foi realizada nos meses de maio e junho de 2018 durante as aulas de Educação Física, com três aulas semanais, sendo uma teórica e duas práticas, em que os alunos tiveram que vivenciar as dificuldades enfrentadas pelas pessoas deficientes no desenvolvimento de várias modalidades esportivas, como o vôlei sentado, o futebol para cegos, a corrida com cegos, o goalball, o basquete e o tiro com arco, todos sentados em cadeiras de rodas.

Procedimentos

A pesquisa começou a ser desenvolvida com a observação dos alunos, pois percebia-se o preconceito e o desrespeito diante dos dois alunos com deficiência que estão matriculados no estabelecimento. Diante disso, tivemos a ideia de tratar, durante as aulas de Educação Física, que são momentos de grande satisfação para todos os alunos, da inclusão através do esporte. Assim, pesquisamos sobre as Paraolimpíadas, suas modalidades, regras, objetivos, vídeos de superação etc.

Após conhecer as modalidades paraolímpicas, buscamos selecionar as que poderíamos encaixar na nossa realidade local, devido à falta de estrutura e de condições financeiras; optamos por desenvolver seis modalidades esportivas praticadas por pessoas que apresentam alguma deficiência.

Os alunos foram divididos em seis grupos de dez componentes cada, para que todos pudessem vivenciar as emoções e as dificuldades apresentadas por cada modalidade. Foi estabelecido um rodízio entre eles; assim, cada grupo desenvolveria uma modalidade por semana: no final de seis semanas conseguimos fazer com que todos os alunos desenvolvessem as seis modalidades estabelecidas desde o início.

Quadro 1: Modalidades esportivas trabalhadas no Projeto Educação Física Inclusiva

Modalidades

Informações

Futebol para cegos

Os seus praticantes vivenciam as emoções do futebol correndo atrás de uma bola adaptada, que possui um chocalho no seu interior como forma de orientação, enquanto os atletas são orientados por seus técnicos, que ficam atrás das balizas dando as coordenadas para que as jogadas sejam finalizadas em direção ao gol. É obrigatório que utilizem um tapa-olho, pois, além de ser um esporte para deficientes visuais, os seus praticantes nem sempre são 100% cegos.

Vôlei sentado

O vôlei sentado é exclusivamente para deficientes físicos dos membros inferiores; a rede sofre uma adaptação, tendo sua altura modificada. A altura da rede e o tamanho da quadra acabam por tornar a competição mais rápida do que o voleibol tradicional. No voleibol sentado, a quadra tem 10m x 6m e é dividida por uma rede a 1,15m para homens e 1,05m para mulheres. Os atletas devem sempre manter a pélvis encostada no chão.

Goalball

É um jogo praticado por atletas que possuem deficiência visual; o objetivo é arremessar uma bola com as mãos no gol do adversário. Cada equipa joga com três jogadores e três reservas, sendo obrigatório o uso de vendas nas pernas por todos os atletas. A sua percepção é pelo tato e audição. A bola possui chocalhos para o grande uso da audição e assim eles podem saber em que direção a bola está indo. É um jogo que precisa de muita concentração e silêncio.

Corridas para cegos

Nessa modalidade os atletas com deficiência visual correm com os olhos vendados; é permitido o uso de sinais sonoros e de um guia, que corre junto com o competidor para orientá-lo. Eles são unidos por uma corda presa às mãos, e o atleta deve estar sempre à frente. Os atletas-guia não podem puxar os atletas para ganhar mais velocidade; não é permitido que os atletas-guia cruzem a linha de chegada antes do atleta.

Tiro com arco

Os participantes têm como objetivo acertar as flechas o mais perto possível do alvo, que está colocado a uma distância de 70m, tem 1,22m de diâmetro e é formado por dez círculos concêntricos. Quanto mais próxima do círculo central estiver a flecha, maior a pontuação obtida. Os atletas que podem participar são pessoas com paralisia cerebral; lesões medulares; amputados e outros tipos de deficiência (especialmente em nível muscular).

Basquete em cadeira de rodas

As regras do basquete em cadeira de rodas são muito semelhantes às do jogo de basquete tradicional. São feitas apenas algumas modificações que levam em consideração a cadeira de rodas, a mecânica da sua locomoção e a necessidade de jogar sentado. A cadeira pode ter três ou quatro rodas, sendo duas rodas grandes na parte traseira e uma ou duas na parte frontal. O jogador poderá usar uma almofada de material flexível no assento da cadeira. Os jogadores podem usar faixas e suportes que o fixem na cadeira ou faixas para prender as pernas juntas.

Fonte: Comitê Paraolímpico Brasileiro, 2018.

Após todos os alunos receberem as informações necessárias para a prática das modalidades paraolímpicas, as atividades foram realizadas seguindo o cronograma de seis semanas. O objetivo era que eles vivenciassem as principais dificuldades enfrentadas pela pessoa que apresenta algum tipo de deficiência e que os momentos de superação fossem os mais importantes durante a execução das modalidades esportivas consideradas paraolímpicas.

Após a observação e a execução das atividades inclusivas, aplicou-se um questionário de perguntas fechadas (o pesquisado escolheu sua resposta a partir de um conjunto de itens) e questões abertas (que dão condição ao pesquisado de discorrer espontaneamente, sem limitações e com linguagem própria). A seleção das questões para o questionário foi baseada na revisão de literatura e nos objetivos geral e específicos desta pesquisa.

Após conversa com os alunos e explicação dos objetivos da pesquisa, distribuímos os questionários para todos os envolvidos. Foi explicado também que não havia necessidade de identificação nos questionários; acreditamos que essa garantia deixaria os participantes completamente à vontade para expressar seus pensamentos, necessidades e opiniões.

Portanto, foram entregues 60 questionários aos alunos divididos entre as séries do Ensino Fundamental II (6º ao 9º ano), estabelecendo como critério de participação na pesquisa aqueles alunos que estivessem participando regularmente das aulas de Educação Física. A coleta de dados foi realizada na última semana de junho de 2018.

Segundo Gil (2012), uma das principais características da pesquisa descritiva é a utilização de técnicas padronizadas de coleta de dados; nesse tipo de pesquisa evidenciam-se as que têm por objetivo estudar as características de um grupo, levantando opiniões e atitudes de uma população, descobrir associações entre variáveis. Os dados serão analisados com base em estatísticas descritivas e apresentados em tabelas e gráficos, sendo assim agrupados a partir das informações coletadas.

No dia da culminância do Projeto Educação Física Inclusiva: a Informação é a Chave para a Inclusão,foram convidadas pessoas com deficiência para que deixassem seus depoimentos de vida, expressassem suas dificuldades na escola, no trabalho, na fila do banco ou até mesmo a discriminação sofrida por elas durante as suas vidas, depoimentos que servirão como fonte de inspiração para todos nós que temos o costume de reclamar da vida por motivos supérfluos.

Houve também exibição de vídeos e documentários sobre pessoas com deficiência que conseguiram superar suas limitações e cresceram na vida pessoal e profissional, que levam uma vida praticamente igual às outras pessoas da sociedade. Finalizamos com uma palestra do psicólogo do município, quando ele abordou temas importantes sobre o respeito às pessoas com deficiência, seus direitos atendidos e a necessidade do convívio de todos em uma sociedade igualitária e justa.

Análise dos dados

Para análise dos dados foi utilizada a planilha eletrônica do Excel. Os dados foram analisados a partir de estatísticas descritivas e apresentados por meio de tabelas, sendo agrupados conforme as informações coletadas. A pesquisa também tem caráter qualitativo, porque visa aprimorar os estudos sobre a inclusão de pessoas com necessidades educativas especiais nas aulas de Educação Física, despertando nos alunos, nos pais e nos educadores uma visão ampliada da diversificação das práticas corporais utilizadas atualmente na Educação Física escolar.

Durante a análise das respostas dos entrevistados, por questão de ética, não iremos citar nomes, além de termos garantido aos envolvidos na pesquisa que nosso procedimento seria garantir o sigilo absoluto. Acreditamos que essa garantia deixaria os participantes mais à vontade para expressar seus pensamentos, necessidades, opiniões e sentimentos. A análise dos dados dos sujeitos foi realizada com a intenção de revelar, pelas respostas, como os praticantes das modalidades esportivas paraolímpicas enxergam o mundo discriminado vivido pelas pessoas que possuem algum tipo de deficiência – seja física, auditiva, visual ou mental.

Discussão e resultados

Fizeram parte deste estudo 60 alunos da Escola Municipal Antonio José de Lima, em Morro do Chapéu/PI, sendo 25 do sexo feminino e 35 do sexo masculino. Os homens apresentam maior facilidade para a execução das atividades práticas esportivas, mas as mulheres são as que mais demonstram concentração para executar com qualidade as modalidades.

Tabela 1: Distribuição dos alunos por ano/série do Ensino Fundamental

Ano/série

Quantidade

%

6º ano

20

33,5

7º ano

15

25,0

8º ano

15

25,0

9º ano

10

16,5

Total

60

100,0

Os dados demonstram que os alunos do 6º ano estiveram em maior número, exatamente 33,5%, devido a esses ano/série ter o maior número de estudantes matriculados na escolas de todo o Brasil. É nesse ano do Ensino Fundamental II que apresenta os maiores problemas de repetência, evasão e distorção idade-série, e para participar da pesquisa não poderia encaixar-se nesses critérios. Já os alunos do 7º e 8º anos apresentam o mesmo percentual de envolvidos na pesquisa: 25% dos entrevistados, enquanto com o menor percentual (16,5%) apareceram os estudantes matriculados no 9º ano; a baixa quantidade de alunos nessa etapa de ensino justifica-se por ser o ano mais avançado e, consequentemente, vai selecionando aqueles estudantes que realmente têm interesse nos estudos e almejam chegar a outras etapas da Educação Básica ou às universidades.

Questionamos os alunos entrevistados sobre a importância dos direitos adquiridos pelas pessoas portadoras de deficiência, já que elas gozam de prioridade de atendimento em filas de supermercados e bancos, vagas exclusivas de estacionamento, redução de impostos em várias áreas ou até mesmo aposentadoria devido à deficiência. Segundo os dados coletados, pudemos perceber que ainda falta conhecimento por parte da população em geral sobre esses direitos adquiridos.

Tabela 2: Entrevistados respeitam os direitos das pessoas com deficiência?

Alternativas

Quantidade

%

Sim

38

63

Às vezes

14

23,5

Não

8

13,5

Total

60

100

Ficamos felizes com o fato de que a grande maioria (63%) afirma que respeita e valoriza os direitos adiquiridos pelas pessoas deficientes, pois todos os dias enfrentam diversas formas de preconceito, lutando para assegurar o cumprimento das leis. É importante que esse percentual tenha se apresentado elevado, pois demonstra que grande parte da população brasileira já conhece os seus direitos, mas sabemos que é necessário haver mais ações para que essas informações sejam mais bem compartilhadas e cheguem a todas as pessoas, enquanto obtivemos 23,5% dos entrevistados que somente “às vezes” respeitam esses direitos, justificando que não não conhecem todos os direitos, por isso acabam por agir naturalmente. O menor percentual ficou com os 13,5% que desconhecem totalmente esses direitos conquistados pelos deficientes ou alegam falta de orientações ou de divulgações em função dos órgãos competentes. Até mesmo a imprensa divulga pouco esses direitos os quais as pessoas portadoras de deficiência devem buscar.

Tabela 3: Modalidade que apresentou maior dificuldade na sua prática

Modalidade

Quantidade

%

Basquete em cadeira de rodas

16

27

Corrida para cegos

13

22

Tiro com arco

10

17

Futebol para cegos

9

15

Goalball

7

11

Vôlei sentado

5

8

Total

60

100

Em outro questionamento, foi interessante ouvir o que os alunos participantes do Projeto Educação Física Inclusiva viveciaram, pois sentiram as reais dificuldades para as práticas das seis modalidades propostas desde o início do projeto, relatando os obstáculos, as barreiras e como conseguiram adaptar-se para conseguir superar as dificuldades.

De acordo com a Tabela 3, questionamos em qual das modalidades eles tiveram maior dificuldades; conforme os dados, destacou-se a modalidade basquete em cadeira de rodas, com 27%, por o atleta ter que se locomover na cadeira com o auxilio das mãos, exigindo bastante força e coordenação e ao mesmo tempo tendo que conduzir a bola de basquete, passá-la aos companheiros ou preparando-se para o arremesso à cesta, sem falar que, no momento do arremesso, falta o apoio dos membros inferiores, o que de certa forma dificulta para obter maior precisão nesse movimento específico.

Em segundo lugar vem a modalidade corrida para cegos (22%); segundo relatos dos praticantes, a maior dificuldade é a orientação de espaço e direção, pois o atleta corre depositando toda a confiança em seu guia que vai ao lado, sendo difícil correr em linha reta e imaginar o tropeço por não saber o local exato em que está pisando.

Logo em seguida vêm os praticantes do tiro com arco (17%); estes também necessitam do auxílio da cadeira de rodas para locomoção até o local marcado para preparar o arco e executar o arremesso da flecha, sendo tudo isso realizado apenas com as mãos.

Com percentual mais abaixo estão os praticantes do futebol para cegos (15%), os quais relataram que as dificuldades encontradas estavam na questão de não estarem enxergando a bola (por estarem vendados) e necessitavam muito da audição, pois por regra a bola desse esporte contém um chocalho de guizos objetivando fazer barulho para os atletas terem a percepção de onde encontrar a bola e finalizar jogando-a em direção ao gol.

Em penúltimo lugar estão os alunos que sentiram dificuldades na execução da modalidade Goalball (11%), os quais afirmaram que a audição é o maior obstáculo no esporte, pois necessita-se de muito silêncio para que possam ouvir a chegada da bola. Conforme a regra, essa modalidade também necessita de uma bola com guizos para que sejam produzidos sons perceptíveis pelos praticantes, objetivando evitar que a bola adentre as balizas.

O menor percentual de dificuldades em sua realização vem na modalidade vôlei sentado (11%); os alunos afirmaram que esse esporte não exige muito esforço por parte de seus praticantes, apesar de depender dos membros superiores para realizar os movimentos de deslocamento pela quadra, que teve seu espaço reduzido, aproximando muito os atletas para as jogadas trabalhadas e a rede, ao ter sua altura diminuída, também auxilia bastante.

Segundo Heil (2008, p. 28), “a adesão às práticas esportivas regulares traz uma série de benefícios para as pessoas com deficiência, tais como: melhora na locomoção, equilíbrio, percepção espacial, conscientização corporal, agilidade e amplitude dos movimentos em geral; assim como ajuda a vencer limitações impostas pela deficiência e também pela sociedade”.

Concordamos com o autor; segundo os relatos dos alunos, todos tiveram que desenvolver outra percepção a que não estavam acostumados, como a concentração em determinadas provas, a audição foi mais exigida, quando puderam ouvir detalhes de um jogo que até então eram desconhecidos para eles. Detalhes como a noção de direção também foram muito importantes, pois em provas em que estavam com os olhos vedados essa noção básica tornou-se importante. Relatos também destacam a importância das condições físicas, dando mais valor ao alongamento e aquecimento antes e depois das práticas esportivas, o que até então não era encarado como prioridade pelos alunos.

O mais importante foi a conscientização sobre os valores e respeito para com o próximo; a possibilidade dessa troca de experiências acrescentou muito na vida dos alunos.

Tabela 4: Benefícios do esporte na vida das pessoas com deficiência

Benefícios

Quantidade

%

Vencer as limitações, superação

23

38

Inclusão, socialização

15

25

Autoestima, valorização como ser humano

11

18

Disciplina, respeito, responsabilidade

7

12

Outros

4

7

Total

60

100

Em relação aos benefícios do esporte na vida das pessoas com deficiência, nosso estudo constatou que a maioria dos entrevistados que vivenciaram essa realidade disseram que a prática de alguma atividade física na vida dessas pessoas é importante por inúmeros fatores, constatados na Tabela 4.

Dessa forma, foi citado com maior percentual (38%) que os benefícios proporcionam a essas pessoas a oportunidade de vencer as suas limitações, de superação na vida, enquanto 25% disseram que o maior benefício para essas pessoas seria a inclusão e a socialização, pois muitos estariam em convívio com outras pessoas, trocando experiências de vida e buscando aumentar o respeito pelo próximo.

Logo em seguida, vieram os 18% que colocam a autoestima e a valorização como ser humano como um dos fatores importantes e necessários: quando o ser humano é valorizado sua autoestima se eleva. Logo a seguir podemos identificar, com 12%, quem disse que o deficiente pode adquirir, além da disciplina, o respeito e a responsabilidade, pois o esporte sempre proporciona limites e regras a serem cumpridas.

Por último ficaram os entrevistados que apontaram outros tipos de benefício além dos citados na pesquisa, perfazendo um total de apenas 4% dos pesquisados.

Segundo Souza (2004), os benefícios do desporto adaptado devem ser encarados como uma pratica lúdica e prazerosa; o indivíduo que utiliza essas práticas como facilitadoras para melhorar a qualidade de vida está tendo a oportunidade de vivenciar sensações que muitas vezes não são possíveis por conta da sua limitação.

O que podemos observar é a questão na inatividade física dessas pessoas com deficiência, pois muitas apresentam redução de mobilidade, aumentando o peso corporal e consequentemente diminuindo a disposição para realizar as tarefas do dia a dia, enquanto as praticantes de algum exercício físico apresentam qualidade de vida melhor, com mais bom humor, reduzem a propensão a doenças cardiovasculares, ao estresse e sentindo-se mais autoconfiantes na vida, sentindo-se valorizadas como seres humanos.

Tabela 5: Defiência que mais sofre descriminação

Tipo de deficiência

Quantidade

%

Deficiência visual

31

51

Deficiência física

16

27

Deficiência auditiva

10

17

Deficiência intelectual

3

5

Total

60

100

Conforme o último censo do IBGE, realizado em 2010, aproximadamente 45 milhões de brasileiros possuem algum tipo de deficiência, o que corresponde a 24% da população. Diariamente, as pessoas com deficiência precisam transpor muitas barreiras e frequentemente são discriminadas ao terem seus direitos desrespeitados no convívio em sociedade.

Em nosso último questionamento, buscamos saber, na opinião dos alunos, qual das deficiências sofre mais preconceito por parte da população em geral. De acordo com os dados registrados, identificamos que a maioria (51%) afirmou que a deficiência visual é a que mais sofre descriminação, fato este que se justifica pela dependência que essa pessoa adquire, seja no deslocamento para a escola, trabalho, lazer etc.

O menor percentual, apenas 5%, ficou para deficiência intelectual, ou seja, geralmente os familiares dessas pessoas priorizam atendimentos especializados para elas, como clínicas regulamentadas, instituições credenciadas nesses tipos de atendimento ou escolas voltadas para esse público.

Considerações finais

Muitos espaços sociais foram negados à pessoa com deficiência, principalmente o espaço educacional escolar, em especial as aulas de Educação Física. Ter acesso a um sistema educacional inclusivo em todas as etapas da educação, em ambientes que maximizem seu desenvolvimento acadêmico e social, pressupõe a adoção de medidas de apoio específicas para garantir as condições de acessibilidade necessárias à plena participação e autonomia dos estudantes com deficiência.

A inclusão dos alunos com deficiência nos ambientes educacionais e principalmente nas aulas de Educação Física é uma realidade cada vez mais marcante. A disciplina se apresenta como um foro para celebrar as diferenças corporais, oferecendo oportunidades de ressignificar, divulgar e fortalecer valores e manifestações que perpetuem a expressão de identidades, a valorização da cultura e do direito do cidadão brasileiro.

No âmbito escolar, a prática de exercícios físicos é considerada fundamental para o desenvolvimento afetivo, cognitivo e motor dos alunos, oportunizando também um ambiente favorável para desenvolver a cooperação, a socialização, a coletividade e o respeito entre eles, independentemente de qualquer limitação física.

O estudo evidencia que nos últimos tempos a inclusão ganhou mais espaço, e as escolas devem proporcionar um ambiente mais adequado para atender aos alunos com necessidades especiais, e isso inclui estrutura física, recursos materiais e a capacitação do professor como importante mediador do conhecimento. Ressaltamos a relevância de conscientizar os professores de Educação Física e os alunos para que se faça uma reflexão sobre o desenvolvimento e as adaptações de suas aulas, estimulando sua integração na escola e na vida.

Concluímos que o esporte como atividade física para deficientes físicos é uma das principais maneiras de integração da sociedade, despertando o sentimento e a vontade de melhorar o seu mundo, provando para si mesmos e para a sociedade que são capazes de ter soluções para as suas maiores dificuldades, tornando-se mais ativos e alcançando independência na realização de suas atividades do dia a dia, melhorando seus relacionamentos sociais de lazer, crescendo a autoestima em busca de uma vida mais digna e mais saudável.

Vimos que os alunos, ao trocarem experiências com essas pessoas excluídas da sociedade, puderam entender que ainda falta muito a ser feito, por parte dos poderes públicos, da sociedade e por cada um de nós. Todos sairão ganhando com isso, pois aceitar as diferenças enriquece a nossa formação como cidadão, desenvolve valores éticos que devem ser ressaltados nos educadores, educandos e políticos.

Referências

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Publicado em 18 de maio de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

PONTES, Tiago Magalhães; RODRIGUES, Marciana Aguiar; RODRIGUES, Marília Aguiar. Educação Física Inclusiva: a informação é a chave para a inclusão. Revista Educação Pública, v. 21, nº 18, 18 de maio de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/18/educacao-fisica-inclusiva-a-informacao-e-a-chave-para-a-inclusao

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