Cinema e Educação: dialogicidade na programação e exibição de filmes em sala de aula

Antônio Eustáquio de Oliveira Fam

Pós-graduando em especialização em Artes e Tecnologia (IFNMG - Câmpus Diamantina)

Natália Cristina Campos Godinho Teodoro

Pós-graduanda em especialização em Artes e Tecnologia (IFNMG - Câmpus Diamantina)

Sérgio Pereira dos Reis

Pós-graduando em especialização em Artes e Tecnologia (IFNMG - Câmpus Diamantina)

A educação vem sendo planejada e promovida de forma  necrófila (Freire, 2016), desenvolvendo uma estrutura de dominação opressora, em que a população se torna alheia e consequentemente objeto da opressão praticada por quem controla os serviços públicos. Novas formas de dialogicidade na educação tornaram-se um caminho para discussão de temas, os quais para a elite opressora são considerados transversais e não importantes (na construção de um cidadão crítico); temas que não são discutidos pelos documentos normativos educacionais, nem pelos meios de comunicação.

A educação vem traçando caminhos que se adaptem aos alunos do século XXI, com base em estudos de novos meios e métodos pedagógicos que são ainda “estudos” – objetos de pesquisa, não sendo práticas comuns nas escolas ou universidades. Diante das preocupações dos alunos, estuda-se uma forma dialógica de tratar o cinema como meio pedagógico de autorreflexão e criticidade, que elenca dúvidas e criatividade.

O cinema, sétima arte, tanto documentário quanto filmes de ficção, vem ganhando espaço nas escolas no Brasil desde a sua regularização pela Lei nº 13.006, de 27 de junho de 2014, que estabelece a obrigatoriedade de as escolas exibirem filmes por no mínimo duas horas por mês; o cinema vem se promovendo como meio pedagógico dialógico que a escola pode utilizar como ferramenta para construção de uma educação libertadora e menos tradicional. Porém, o simples “exibir o filme” como tapa-buraco (Moran, 1995) em sala de aula não quer dizer que a educação esteja sendo trabalhada de forma dialógica e conscientizadora (Freire, 2016). Ainda há muito que promover e discutir para atingir o ponto de diálogo entre os envolvidos no processo de mediação da aprendizagem. A dialogicidade tem que ter seu início na base das escolas, sendo um processo estabelecido como cultural nas práticas gestoras e docentes.

Tanto o espaço escolar quanto a comunidade são repletos de diversidades e desigualdades; vêm-se construindo com a colaboração de todos os envolvidos, trazendo suas contribuições e anseios, parte de uma democracia que se aspira, também, nos meios políticos eleitorais.

Dado o exposto, o intuito do artigo é analisar o caminho que o educador pode utilizar para promover a ação pedagógica para exibição de filmes em sala de aula, em que educadores e educandos façam parte da construção do processo, otimizando a discussão e a dialogicidade na escolha, além de abrir campo para reflexões e críticas quanto à dialogicidade na escolha e contextualização do filme no processo de ensino-aprendizagem.

Este trabalho não defende a hipótese de tornar o filme como um meio “facilitador da compreensão” de determinado conteúdo curricular ou uma prática em substituição ao professor ausente (Moran, 1995), pois, no momento em que se salvaguardam essas hipóteses, perde-se totalmente o seu caráter crítico e conscientizador na aprendizagem do aluno. Não há nesse momento a dialogicidade na construção do conhecimento, sendo somente um facilitador ou exemplo “imediato” para a compreensão do aluno. Freire (2016, p. 93) ressalta que “o que nos parece indiscutível é que, se pretendemos a libertação dos homens, não podemos começar por aliená-los ou mantê-los alienados”. A aprendizagem crítica e libertadora dialoga com o conhecimento que ainda tem que se construir na cooperação entre educador e educando. Ramos, Araújo e Souza (2012) defendem que o cinema, como instrumento pedagógico e de comunicação, é parte da construção e da formação cultural do aluno, e inclui a comunicação para que o cinema seja incluso democraticamente, ouvindo os desejos e as questões que os educandos querem levantar na sua exibição/discussão em sala de aula.

No entanto, a educação se constitui como um instrumento de libertação e compreensão do aluno sobre os aspectos problematizadores do mundo. Esse entendimento gera criticidade e curiosidade com as questões que são trabalhadas em sala de aula, na televisão e principalmente nos textos dos filmes.

O papel do educador é entender que a construção da dialogicidade percorre o caminho da cooperação com o educando, construindo juntos os conhecimentos, com suas respectivas especificidades. O cinema é um espaço que ganha importância nessa construção, ouvindo e problematizando os anseios e desejos de cada sujeito dentro de sala de aula.

Metodologia

A metodologia aplicada no artigo construiu-se por meio da revisão bibliográfica que trabalha a questão do cinema na educação e da construção crítica do conhecimento,  que, a partir da obra de Freire (2016), foi articulando o tema com aplicação e sua inserção de modo dialógico e democrático entre educadores e educandos dentro das salas de aula, não somente como uma ferramenta obrigatória de cumprimento legal, mas como um mediador e um instrumento para uma educação conscientizadora e libertadora (Freire, 2016).

A revisão bibliográfica foi realizada no período de dezembro de 2019 a março de 2020 e teve como palavras-chave “Paulo Freire” e “Cinema”; “Educação” e “Cinema”; “cinema” e “dialogicidade”. Foram utilizadas as plataformas “SciELO”, “Periódicos Capes” e “Google Acadêmico” como ferramenta de pesquisa, além dos livros citados nas referências bibliográficas.

Educação e diálogo

A educação é uma construção coletiva, além de ser fonte de aspirações, lutas e curiosidades, que vive em constante procura do conhecimento. As aspirações pedagógicas transcedem métodos tradicionais que engessam a autonomia e a criatividade do educador e educando.

A base da transformção do ambiente escolar é o diálogo, a diminuição do espaço entre o educador e o educando. Em uma educação formada de democracia e de construção coletiva do conhecimento, parte-se da ideia de que o diálogo é a única forma de entender o contexto e saber o quanto e quando se deve criticá lo com embasamento para haver sua desconstrução.

Nessa perspectiva, Freire (2016) aborda a dicotomia de uma educação que é imposta por uma elite para manter o status quo e sua hegemonia em relação a uma massa oprimida; e uma outra educação que pode ser transformadora e libertadora, graças à dialogicidade, em que ela é discutida de forma horizontal e democrática entre educadores e educandos. No entanto, Freire (2016) corrobora para que todas as inserções pedagógicas sejam discutidas e trabalhadas a fim de que não se opere de forma imposta, sem diálogo ou participação dos educandos no processo.                                                                                                                               O cinema como método pedagógico não pode ser limitador da conscientização dos educandos ou ser tratado como uma ferramenta de alienação, colocando os alunos em frente a uma tela sem ao menos haver discusão “do que”, “para que” e o “que quer” exibindo um filme. Delval (2006) salienta que muitos esperam que as escolas preparem o/a aluno/a para a vida em sociedade, dando-lhe condições para decisões a partir do que lhe foi proporcionado no ambiente acadêmico. Para Delval (2006), as escolas são construções sociais em que não se aprende a ter autonomia, pois todas as tarefas já estão preestabelecidas e devidamente definidas. O autor discorre que

quem representa a autoridade é o professor, e os alunos têm de se limitar a executar as tarefas que lhes são designadas, mesmo que não vejam sentido nelas. A capacidade de iniciativa dos alunos é muito reduzida, porque a escola atual não é um lugar onde se aprende a adquirir responsabilidades, quanto mais responsabilidades individuais: quem não estuda não passa. Mas não há responsabilidades coletivas concernentes à participação do indivíduo no grupo (Delval, 2006, p. 14).

Desse ponto de vista, a escola ainda está em processo de adaptação ao novo aluno/a do século XXI, e percebe-se que ainda não se pode construir um ambiente para a dialogicidade se ainda não há caminhos e aberturas para sua concretização. Porém existe uma barreira institucional dentro das estruturas burocráticas e físicas das escolas que veda a participação de todos e todas na dialogicidade para construção de uma escola mais cidadã, em que os professores se veem limitados por projetos pedagógicos e burocracias administrativas que não condizem com a realidade da escola e da comunidade em que eles ou elas estão inseridos. O ensino de qualidade se perde em uma estrutura fadada a uma educação sem sentido e sem criticidade, moldando um aluno ou uma aluna para serem mão de obra para um sistema capitalista baseado na produção e no consumo exarcebado.

Gadotti (2011) aborda a questão do ensinar e do aprender, em que o educador, como mediador do conhecimento, dialoga com o educando no processo de ensino-aprendizagem, dando sentido ao conhecimento. Para esse autor, o papel do educador está envolvido com a  “boniteza” do ensinar pelo diálogo e torna a aprendizagem mais atraente, com emoção, criando sentido no que venha ser mediado com o educando. Sua concepção corrobora os ensinamentos de Freire (2016), pois na construção do conhecimento tem que haver conexão com o que está sendo proposto e o que será trabalhado na realidade social. O conhecimento é uma construção coletiva, em que as diversidades cooperam (Freire, 2016), em que os anseios individuais e coletivos sempre mantêm o caráter democrático e emancipatório na sua dialogicidade. Gadotti (2011) enfatiza que “de nada adiantará ensinar se os alunos não conseguirem organizar o seu trabalho, não forem sujeitos ativos da aprendizagem, autodisciplinados e motivados” (Gadotti, 2011, p. 25). O caráter dialógico na educação decorre de aspectos em que educadores e educadoras se conscientizam no ato da produção do conhecimento (Freire, 2016).

Educação e cinema

O cinema é um método que vem ganhando espaço no ambiente educacional, porém sua inserção ainda está revestida de uma adaptação ao conteúdo curricular sem a participação de “todos” os sujeitos na sua implementação pedagógica. Quando se fala em ambiente educacional, entendem-se todos aqueles que produzem o conhecimento, formal ou informal.

A adaptação pedagógica no cinema é um assunto curricular, que mantém a educação no patamar tradicional e bancário, mesmo utilizando métodos tecnológicos avançados. Vale enfatizar que a mera utilização de um método tecnológico avançado não equivale a estar proporcionando uma educação com qualidade ou lúdica; o processo, em si, de utilização tem que promover esse método, utlizando-o de forma a democratizar e conceber o diálogo com os alunos, criando sentido na sua inserção.

Balbinot e Miquelin (2017) discutem em seu trabalho a questão da utilização do cinema em sala de aula como recurso de ligação entre o conhecimento que o aluno carrega consigo e o que ele vai aprender, sendo enfatizadas e trabalhadas sua percepção e sua predileção com esse método pedagógico. No entanto, alguns alunos não concebem o cinema como meio pedagógico de aprendizagem, pois estão acostumados a ter o filme como tapa-buraco (Moran, 1995) ou como “diversão”. Isso é um caos para o educando e para o educador, que percebem-se como “marionetes” de um sistema viciado e pouco atrativo para a aprendizagem. No entanto, a concepção capitalista dos filmes é uma questão herdada e alienada no dia a dia do educador e do educando. Esses autores relatam que, na maioria das vezes, o professor é um dos colaboradores de concepções que ainda reforçam os pilares da educação bancária (Freire, 2016) no Brasil.

Ramos, Araújo e Souza (2012) enfatizam o valor cultural dos filmes e seu papel junto à sociedade, discutindo que o cinema tem que ser trabalhado no interior das escolas não somente como um entretenimento, mas de forma didática com riqueza de informações. As autoras enfatizam que “a discussão continua entre teóricos contemporâneos sobre o verdadeiro valor cultural do cinema, e estes vêm se preocupando em responder qual o papel desempenhado pelo mesmo nas sociedades” (Ramos; Araújo; Souza, 2012, p. 5). Ou seja, fica claro que as autoras entendem que os filmes e documentários trazem consigo valor cultural e social que podem servir de diálogo para questões que ainda não são transparecidas, evidentes e claras para o povo.

Analisar o cinema como método pedagógico em uma escola é um desafio para a educação, pois ainda não há, de fato, uma reformulação curricular que promova a sua utilização em sala de aula de forma didática e programada. A sua utilização parte, muitas vezes, do professor que “encaixa” de forma desvinculada e desprogramada do tema trabalhado em sala de aula como forma de cumprir um ordenamento legal que produz efeito, e não alternativas a serem trabalhadas.

A utilização inadequada do cinema em sala de aula – como, por exemplo, para preencher um horário vago ou cumprimento de ordenamento legal – transforma esse meio pedagógico em um “vilão” na aprendizagem dos alunos, sendo motivo indubitável da evasão escolar ou do desinteresse com a escola e, principalmente, com a aprendizagem.

Resultado das discussões

A educação e o cinema são aliados inseparáveis, porém não dependentes entre si, na construção de um sujeito capaz de ser questionador e, ao mesmo tempo, um cidadão/ã comprometido/a com a democracia e com a construção do conhecimento.

Em conformidade com a tese freiriana, Silva (2014) trabalha a perspectiva de utilização de filmes no ambiente escolar, enfatizando a linguagem fílmica na sua contribuição dentro do espaço escolar com potencial educacional na construção de um sujeito cidadão e com conduta crítica, utilizando as possibilidades da linguagem cinematográfica, como temas, lugares, períodos históricos e culturas. Além disso, é importante para o espectador saber ler/assistir a um filme observando não somente o tema, mas também os aspectos estéticos que dão sentido final à narrativa, construindo, com a relação entre falas, cenas, atores e mensagens, um diálogo permanente entre o conteúdo temático e as linguagens produzidas. Segundo a autora,

todo filme, seja um documentário ou uma ficção, é resultado de decisões e indagações contextuais de seus idealizadores; assim, é um objeto que resulta de uma produção cultural coletiva e, como tal, é passível de observações e questionamentos (Silva, 2014, p. 365).

O cinema adquire importância no interior da sala de aula a partir do momento em que se conjuga com os anseios críticos do aluno, desde a escolha do filme ou documentário até a sua exibição. Silva (2014) deixa isso bem claro em seu artigo ao propor preparações e procedimentos didáticos para a utilização dos filmes em sala de aula. Porém, a proposição dos filmes em sala de aula sem a participação dos/as alunos/as em sua construção é questionável como produto de conscientização e construção do conhecimento, pois traz consigo a hierarquização na escolha, colocando/privilegiando o professor como único detentor da autonomia didática, excluindo todos os demais atores.

Berti e Carvalho (2013) trabalham em seu artigo o debate nas escolas sobre questões sociais do dia a dia dos alunos e alunas e suas alteridades utilizando o cinema como meio pedagógico. Assim, as autoras enfatizam que,

se o tema da aula for compatível com as práticas críticas e criativas, isso pode virar “aula séria”. Se não, opta-se pelos exercícios repetitivos e pela clássica educação bancária, que tão bem denunciou Paulo Freire.

Com o cinema não é diferente. Quando ele está presente na escola, geralmente é para se “encaixar” nas aulas e dialogar com os conteúdos, com a perspectiva de incrementar o assunto. Por esse motivo, costuma ser adotado como recurso didático (“serve para” ilustrar os conteúdos, sistematizar temáticas ou despertar interesse pela área). Essa visão restrita não potencializa a alteridade (Berti; Carvalho, 2013, p. 187).

Complementando a ideia, as autoras acrescentam:

Nessa perpectiva, a idéia central de inserir o cine debate nasce como potencializador dessas transformações, ao promover debates com alunos/as,  professores/as em torno de temas específicos extraídos de filmes brasileiros. Esses temas são os elementos geradores do diálogo no cotidiano escolar, tendo como objetivos: contribuir para o desenvolvimento e para a ampliação das atividades culturais dos sujeitos aprendentes; aproximar diferentes atores sociais; estimular as escolas para a organização de videotecas; divulgar a cinematografia brasileira; incentivar os estudantes a ingressar na universidade, problematizando o acesso e a permanência deles nessa instituição (Berti; Carvalho, 2013, p. 191).

Diante das discussões elencadas e bem trabalhadas pelos diversos autores e autoras no campo da educação e do cinema e do processo de construção do conhecimento utilizando o sistema freiriano, percebe-se ainda que não há uma horizontalidade na escolha dos temas e filmes a serem discutidos em sala de aula.

O que se propõe através deste artigo é a adaptação do sistema de Paulo Freire na escolha de filmes mediante a problematização de temas que partem de consenso coletivo. Essa adaptação parte de uma perspectiva de educação que está a serviço da libertação e da criticidade, e, segundo Freire (2016), a intenção é chamar a atenção dos verdadeiros humanistas para o fato de que eles não podem, na busca da libertação, servir-se da concepção “bancária”, sob pena de se contradizerem em sua busca.

Propõe-se uma forma de dialogicidade no trabalho com o filme em sala de aula, observando os seguintes aspectos sugeridos:

  • Antes da proposta da utilização do cinema em sala de aula, é importante observar aspectos sociais e cuturais de cada segmento (comunidade, tribo, quilombo, assentamento etc.) onde será trabalhado o filmeou documentário, pois, de acordo com cada segmento, cada um/a com suas peculiaridades, observa-se o que se pode trabalhar, observando os temas que serão enfatizados na exibição;
  • Estudar os anseios e lutas de cada segmento, suas indagações intra e extramuros escolares;
  • Entender que a sala de aula é a comunhão de diversidades e desigualdades que enriquecem o diálogo, sendo o educador um mediador das temáticas a serem abordadas;
  • Ter o dom da “escutatória” ao mediar as colaborações que estão sendo trabalhadas em sala de aula, observando os temas geradores e se eles têm ligação com alguma produção cinematorgráfica;
  • Fazer o levantamento dos temas geradores (Freire, 2016) que os educadores e educandos levantaram na discussão;
  • Problematizar, o educador, cada tema gerador, propondo analisar e trabalhá-los juntamente com o educando de acordo com a realidade social de cada segmento;
  • Com base no levantamento das informações obtidas nas discussões, propõe-se uma lista nominal e com sinopse de filmes que trabalham as temáticas geradoras, sendo aberta, a todo instante, aos educandos a indicação de um filme ou documentário que possa ser mais harmônico com as informações discutidas;
  • Após a escolha democrática do filme que será exibido em sala de aula, analisar-se, junto com os educandos, uma data para a sua exibição;
  • A exibição do filme ou documentário é ponto culminante no seu encontro com os temas geradores que foram discutidos entre educadores e educandos;
  • Após a exibição do filme ou documentário, propor uma roda de discussão dos temas geradores com base no produção cinematográfica e o cotidiano social dos educadores e educandos;
  • Propor aos educandos, após a roda de discussões, a implementação do que foi relatado em sala de aula como medidas a serem adotadas em sua comunidade para que possa ser um método de aproximação dela com a escola;
  • Frisar, sempre que oportuno, que o verdadeiro conhecimento é aquele que é construído com e a serviço da libertação da comunidade.

Percebe-se que na construção didática da utilização do filme em sala de aula baseou-se em todos os tópicos adotados por Freire (2016) em seu livro Pedagogia do Oprimido. A construção didática está a serviço da desconstrução de uma educação opressora e bancária que se baseia em depositar conteúdos nos alunos e alunas para manter o status quo de privilégios e regalias. No entanto, de forma freiriana e dialógica, remete-se essa concepção a críticas e novas pesquisas e que não existe somente um meio de democratizar a construção do conhecimento, porém acredita-se que esse método carrega todos os aspectos democráticos e emancipatórios de uma educação que está a serviço da libertação do oprimido.

Considerações finais

O valor cultural e pedagógico do cinema contribui como meio de conscientização para o educador e educando, defendendo-se a forma dialógica e democrática na escolha e exibição dos filmes em sala de aula. Sabe-se que a escola é um ambiente composto de diversidades e peculiaridades que enriquecem a produção e a mediação da aprendizagem, por isso é necessário que haja diálogo na escolha do conteúdo que será trabalhado e dialogado entre professores e alunos.

O educando carrega consigo conteúdos culturais que estão arraigados em sua vivência e atuação política em sociedade, transmitindo valores e concepções que fazem dele um sujeito histórico (Freire, 2016), com correspondência ativa na construção da sociedade em seu tempo. A necessidade de diálogo em tudo que está sendo inserido em sala de aula é determinante na construção e mediação de conteúdos que fazem menção a anseios e indagações intrínsecas e inerentes às vivências de eudcadores e educandos. Diante disso, pode-se perceber no presente trabalho que todo e qualquer meio ou método pedagógico garante eficácia no momento em que se transmutam os anseios dialogados e mútuos de todos os envolvidos no processo de mediação da aprendizagem.

Os anseios e gostos dos alunos remetem a entender suas capacidades críticas baseadas em uma educação libertadora que, independente da concepção de espaço formal ou informal para a aprendizagem, dialogue em todas suas fases, fazendo com que o ensino seja consonante com o que se propõe para um cidadão crítico e atuante. O educador e a escola têm que sempre estar à disposição ao diálogo com seus educandos, democratizando seus projetos pedagógicos, juntamento com seus currículos.

Referências

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SILVA, Josineide Alves da. Cinema e educação: o uso de filmes na escola. Revista Intersaberes, v. 9, nº 18, p. 361-374, jul./dez. 2014.

Publicado em 25 de maio de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

FAM, Antônio Eustáquio de Oliveira; TEODORO, Natália Cristina Campos Godinho; REIS, Sérgio Pereira dos. Cinema e Educação: dialogicidade na programação e exibição de filmes em sala de aula. Revista Educação Pública, v. 21, nº 19, 25 de maio de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/7/cinema-e-educacao-dialogicidade-na-programacao-e-exibicao-de-filmes-em-sala-de-aula