Palavreando a Genética: uma atividade lúdica no ensino de Biologia

Tiago Maretti Gonçalves

Professor de Biologia, doutor em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Genética Evolutiva e Biologia Molecular (UFSCar)

A Genética é a ciência da hereditariedade, constituindo o ramo da Biologia que se preocupa em estudar o mecanismo de transmissão dos caracteres de uma espécie de uma geração para outra, além das variações que ocorrem nesse processo, fator importante na evolução dos seres vivos (Casagrande, 2006, p. 19). Assim, segundo Pierce et al. (2016, p. 37), a Genética apresenta como um dos princípios unificadores da Biologia, baseando-se em que todos os organismos usam sistemas genéticos, possuindo várias características em comum, tomando como base o estudo de muitas outras disciplinas na Biologia. No entanto, essa área tão fantástica é vista por muitos alunos como um grande desafio de aprendizagem. Estudos mostram que a Genética é tida como um assunto bastante abstrato e de difícil compreensão; assim, os professores enfrentam inúmeros problemas no seu ensino devido ao seu nível de complexidade (Moura et al., 2013, p. 169). Nesse sentido, Borges, Silva e Reis (2017, p. 63) destacam que a Genética é uma das áreas do ensino que está interligada a outras áreas do conhecimento, sendo conteúdo transdisciplinar que engloba a Matemática, a Física, a interpretação, a lógica, a razão, entre uma infinidade de outras áreas de conhecimento que norteiam o seu estudo. Justamente por passear por várias áreas de conhecimento, a Genética é vista pelos alunos do Ensino Médio como um assunto complexo, fazendo com que a maioria deles a rejeitem já no contato inicial. Por outro lado, Vilela (2007) destaca que a problemática atrelada à rejeição da Genética pelos alunos se deve em grande parte ao despreparo do docente que ministra a disciplina, pela falta de associação dos conteúdos dados frente à realidade na qual o aluno está inserido e pela forma abstrata como os conteúdos são abordados em alguns livros didáticos.

Assim, segundo Gonçalves et al. (2021), para vencermos tais obstáculos é de grande importância propormos metodologias alternativas capazes de facilitar o processo norteador do ensino e da aprendizagem e a motivação dos alunos. Uma dessas metodologias é o uso de jogos no ensino de Genética. Segundo Caetano e Pereira (2020, p. 1), os jogos didáticos são instrumentos que podem auxiliar o docente no processo de ensino e aprendizagem na sala de aula, uma vez que são ferramentas que possuem como um de seus objetivos tornar o conteúdo apresentado mais atrativo para os alunos.

De acordo com Miranda (2001), os jogos com intuito didático promovem o envolvimento de desafio proposto pelo jogo, a socialização em detrimento das interações promovidas pelas situações simuladas, desenvolvendo a sensibilidade, a estima e a cooperação dos alunos. Esse envolvimento dos discentes com os jogos é uma das razões que fazem os professores olharem para as atividades lúdicas como propulsoras de propósitos educacionais (Trivelato; Silva, 2011).

Dessa maneira, o objetivo principal deste trabalho é a proposta de uma aula lúdica para facilitar e revisar a aprendizagem de temas de Genética aos alunos do 3º ano do Ensino Médio. A atividade se baseia no sorteio de palavras relacionadas ao escopo da Genética. Os alunos serão desafiados a construir frases com essas palavras; no entanto, essas frases terão que fazer alusão ao conteúdo aprendido e com a palavra sorteada. O professor irá corrigir as frases e discutir com os alunos seus principais pontos de interesse, facilitando a aprendizagem. Vale a pena ressaltar que essa atividade possui tempo de realização médio de 40 minutos.

No Quadro 1 estão dispostos de maneira sucinta o objetivo, o conteúdo e as habilidades que o professor pode abordar com os alunos na realização dessa atividade prática.

Quadro 1: Objetivo, conteúdo e habilidades trabalhados na atividade proposta

Competências

Descrição

Objetivo

Revisar e facilitar a compreensão dos conteúdos aprendidos nas aulas teóricas de Genética

Conteúdo abordado

Tópicos de Genética Geral

Habilidades

Desenvolver no aluno a prática da ludicidade, da interação e da cooperação em grupo

Condução prévia e materiais utilizados na atividade lúdica

A seguir estão listados os materiais necessários para a condução da atividade. O professor deverá recortar os retângulos, como nas Figuras 1 e 2, acondicionando cada um deles nas caixas verde e vermelha, respectivamente. A caixa verde conterá as palavras para os alunos comporem as frases; a caixa vermelha terá as cartas de consequência.

As palavras do escopo da Genética que devem ser recortadas (retângulos) estão no Anexo 1; as cartas de consequência recortadas da figura 2 (retângulos) estão no Anexo 2. São necessárias também duas caixas de madeira ou papelão, uma pintada com a cor verde (para as palavras) e a outra pintada de vermelho (para as consequências) e um cronômetro.

Montagem e condução da atividade lúdica

Inicialmente, a turma deverá ser dividida em grupos de no máximo quatro integrantes. Cada grupo receberá letras, (A, B, C, D...) ou palavras (Alfa, Beta, Zeta, Ômega...) para identificação. A ordem da jogada dos grupos pode ser dada pela ordem dessas letras ou palavras.

Depois de recortadas, embaralhadas e acondicionadas, as palavras e as cartas de consequência nas caixas verde e vermelha, um integrante de cada grupo irá retirar três palavras da caixa verde e terá que ler em voz alta para a turma, mostrando cada uma delas. Na sequência, o mesmo integrante irá retirar na caixa vermelha uma carta consequência, que terá uma situação positiva (caso o grupo construa corretamente as frases) ou negativa (caso o grupo cometa erros na construção das frases). O grupo terá que montar pelo menos três frases relacionadas ao que foi aprendido nas aulas teóricas utilizando as três palavras do escopo da Genética sorteadas. Podem ocorrer retângulos com mais de uma palavra em sequência; dessa forma, ficará a cargo do grupo escolher uma delas para compor a frase elaborada. O professor irá cronometrar o tempo para os alunos montarem as frases.

Decorrido um tempo máximo de dois minutos, um aluno do grupo é escolhido para ler a frase elaborada em voz alta perante a turma. Após essa etapa, o professor irá verificar se a frase está correta, discutindo e correlacionando ao que foi aprendido nas aulas teóricas de Genética. Se o grupo acertar, receberá pontuação positiva; por outro lado, se errar, terá uma pontuação negativa relacionada à carta de consequência sorteada por ele (caixa 2). Na Figura 1, está evidenciado o esquema do funcionamento do jogo proposto (Figura 1a), com um exemplo de construção de frases a partir de três palavras sorteadas (Figura 1b).

Figura 1: Palavreando a Genética: a) Esquema de funcionamento da atividade lúdica; b) exemplos de frases montadas a partir do sorteio de três palavras pertencentes à caixa verde

Caso o grupo não monte as frases no tempo estipulado, perde a vez, passando sua jogada para o próximo grupo. A equipe vencedora é aquela que montar o maior número de frases corretas dentro do tempo de resposta estipulado pelo professor.

Vale a pena ressaltar que essa atividade é fortemente recomendada aos alunos do 3º ano do Ensino Médio, ficando a cargo do professor quais palavras recortar ou incluir entre aquelas disponíveis no Anexo 1. Assim, pelas palavras propostas, a realização da atividade deve ocorrer ao final da disciplina com o intuito de potencializar o aprendizado e revisar o conteúdo, uma vez que constituem termos e palavras relacionados ao conteúdo completo de Genética.

Resultados esperados

Como resultado, esperamos que a abordagem dessa atividade possa permitir que os discentes revisem o que foi aprendido nas aulas teóricas dentro dos tópicos de Genética, facilitando sua aprendizagem. Assim, o papel do professor é de grande importância na realização dessa atividade lúdica, pois ele irá desempenhar a mediação entre o que foi aprendido e a verificação das frases construídas pelos alunos. Além disso, o professor poderá corrigir e discutir as frases elaboradas pelos discentes, chamando a atenção para a existência de termos potencialmente complexos na Genética e que ainda são confusos para a plena compreensão dos estudantes.

Conclusões

A abordagem de atividades lúdicas pode ser de grande importância, pois permitem motivar o aluno, facilitando o processo de ensino e aprendizagem, revisando o que foi abordado nas aulas teóricas de Genética. Além disso, proporciona maior interação e cooperação entre os próprios discentes e o professor, sendo uma prática muito saudável e recomendada.

Como perspectiva, poderão ser criados outros jogos para potencializar o ensino, como de tópicos de Biologia Celular (Citologia), que, como a Genética, também é uma área complexa por conter muitos termos e processos microscópicos abstratos.

Referências

BORGES, C. K. G. D.; SILVA, C. C.; REIS, A. R. H. As dificuldades e os desafios sobre a aprendizagem das leis de Mendel enfrentados por alunos do Ensino Médio. Experiências em Ensino de Ciências, v. 12, nº 6, p. 61-75, 2017. Disponível em: https://if.ufmt.br/eenci/artigos/Artigo_ID403/v12_n6_a2017.pdf. Acesso em: 11 mar. 2021.

CAETANO, G. L.; PEREIRA, G. R. Proposição de um jogo didático acerca dos procariontes para os anos finais do Ensino Fundamental. Research, Society and Development, v. 9, nº 9, p. 1-17, 2020. Disponível em: https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/7373. Acesso em: 11 mar. 2021.

CASAGRANDE, G. L. A genética humana no livro didático de Biologia. 2006. 103f. Dissertação (Mestrado em Educação Científica e Tecnológica) - Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2006. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/xmlui/handle/123456789/88524. Acesso em: 11 mar. 2021.

GONÇALVES, T. M. A guerra imunológica das células contra os patógenos: a proposta de um modelo didático tridimensional de baixo custo para simulação da resposta imune celular mediada por linfócitos T CD8+. Brazilian Journal of Development, v. 7, nº 1, p. 4.854-4.860, 2021. Disponível em: https://www.brazilianjournals.com/index.php/BRJD/article/view/23099. Acesso em: 11 mar. 2021.

MIRANDA, S. No fascínio do jogo, a alegria de aprender. Ciência Hoje, v. 28, p. 64-66, 2001.

MOURA, J.; MEIRELES DE DEUS, M. S.; GONÇALVES, N.; M. N.; PERON, A. P. Biologia/Genética: o ensino de Biologia, com enfoque na genética, das escolas públicas no Brasil – breve relato e reflexão. Semina: Ciências Biológicas e da Saúde, v. 34, nº 2, p. 167-174, 2013. Disponível em: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/seminabio/article/view/13398. Acesso em: 11 mar. 2021.

PIERCE, B. A. Genética: um enfoque conceitual. 5ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016.

TRIVELATO, S. F.; SILVA, R. L. F. Ensino de Ciências. São Paulo: Cengage Learning, 2011.

VILELA, M. R. A produção de atividades experimentais em Genética no Ensino Médio. 2007. 50f. Monografia (Especialização em Ensino de Ciências por Investigação) - Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2007. Disponível em: http://www.educadores.diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/2010/artigos_teses/Biologia/monografia/genetica.pdf. Acesso em: 11 mar. 2021.

Anexo 1: Palavras que poderão ser escolhidas, impressas e recortadas pelo professor para a condução da atividade

Anexo 2: Cartas de consequência para imprimir e recortar

Publicado em 25 de maio de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

GONÇALVES, Tiago Maretti. Palavreando a Genética: uma atividade lúdica no ensino de Biologia. Revista Educação Pública, v. 21, nº 19, 25 de maio de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/19/palavreando-a-genetica-uma-atividade-ludica-no-ensino-de-biologia