Produção científica como ferramenta relevante para alunos do Ensino Médio da rede pública

Camila Rodrigues Amaral

Professora de Química (Fasm - Unidade Muriaé/MG), doutora em Engenharia e Ciência dos Materiais (UENF)

José Lucas de Oliveira Serafim

Graduado em Ciências Biológicas, técnico dos laboratórios de Ciências Biológicas e Química (Fasm - Unidade Muriaé/MG), pós-graduando em Biologia Celular e Molecular (Faveni)

Mariana de Paula Martins

Graduanda em Ciências Biológicas (Fasm - Unidade Muriaé/MG)

Philipy Dias Almeida

Graduando em Ciências Biológicas (Fasm - Unidade Muriaé/MG)

Ruth de Andrade Baía

Graduanda em Ciências Biológicas (Fasm - Unidade Muriaé/MG)

Elaine Arminda de Souza Nascimento

Graduanda em Ciências Biológicas (Fasm - Unidade Muriaé/MG)

Diversos estudos (Baptista et al., 2011; Patacho, 2011) apontam a necessidade de revisão das práticas escolares, pois o que se verifica em grande parte das escolas é um ensino tradicional em que o aluno é mero espectador, exigindo-se dele a cópia, a memorização e a reprodução dos conteúdos (Coutinho et al., 2014).

O desenvolvimento científico e tecnológico enseja diversas mudanças na sociedade e na escola. A necessidade de práticas pedagógicas que instiguem o aprendizado dos alunos vem ganhando a atenção de pesquisadores nos últimos anos (Brasil, 2018). Dentre elas, destacam-se o uso do método científico e a elaboração de pesquisa científica no ambiente escolar. Essas atividades proporcionam aos alunos a aquisição de novos conhecimentos e passam a pensar de maneira lógica sobre os fatos cotidianos e a resolução de problemas práticos.

O uso da produção científica no planejamento e desenvolvimento das práticas escolares pode constituir um elemento fundamental para a superação dos modelos tradicionais. As atividades práticas e de pesquisa auxiliam de forma significativa na assimilação do conhecimento e despertam no aluno sua vocação e o interesse em busca de informações.

A pesquisa estimula os alunos e os envolve no despertar da curiosidade, do questionamento, da descoberta e da criação, proporcionando um movimento autônomo de desenvolvimento da capacidade de análise, de investigação e de tomada das próprias decisões. Permite construir um espírito crítico, ativo e participativo na comunidade em que está inserido, ajudando a resolver problemas (Galvão, 2014).

Nessa perspectiva, o objetivo do presente estudo foi desenvolver e produzir trabalhos práticos e científicos com alunos do Ensino Médio de uma escola da rede pública com a participação de graduandos e professores da Fasm.

Referencial teórico

O modelo tradicional de ensino é ainda amplamente utilizado por muitos educadores nas escolas. Tal modelo trata o conhecimento como um conjunto de informações que são simplesmente passadas dos professores para os alunos, o que nem sempre resulta em aprendizado efetivo. Os alunos fazem papel de ouvintes e, na maioria das vezes, os conhecimentos passados pelos professores não são realmente absorvidos por eles, são apenas memorizados por um curto período de tempo e geralmente esquecidos em poucas semanas ou meses, comprovando a ineficiência da aprendizagem.

Para que o processo de ensino seja efetivado, faz-se necessário destacar aspectos importantes: a existência de problematizações prévias do conteúdo como pontos de partida; a vinculação dos conteúdos ao cotidiano dos alunos; e o estabelecimento de relações interdisciplinares que estimulem o raciocínio exigido para a obtenção de soluções para os questionamentos, fato que efetiva o aprendizado (Fracalanza et al., 1986).

A prática do lúdico no ensino deve ser explorada no sentido do prazer, do novo, ativo, pensante, questionador e reflexivo. É nesse sentido que a ludicidade tem o papel fundamental de resgatar o prazer na construção do conhecimento, conferindo mais alegria, dinamismo e criatividade às aulas, para despertar a atenção dos estudantes tão solicitada diante de tanta tecnologia que cerca essa nova geração. 

Ensinar por meio da pesquisa é abrir espaço para a construção do conhecimento que emanou da dúvida, do questionamento e/ou da simples curiosidade. A produção científica no Brasil se constitui, de acordo com a história, uma atividade acadêmica ligada ao Ensino Superior, em que estudantes de graduação, sob orientação de um docente, vivenciam o desenvolvimento de uma pesquisa. Essa atividade compõe desde a década de 1950 uma tática institucional com vistas ao desenvolvimento científico e tecnológico do país.

Na década de 1960, no Brasil e nos Estados Unidos surgiram movimentos com o objetivo de melhorar o ensino das ciências. Segundo Krasilchik (2004), pretendia-se na ocasião oferecer aos jovens um ensino mais eficiente e atual, de modo que futuramente pudessem se dedicar à pesquisa científica.

Em 2003, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) fundou o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica Júnior, direcionado aos estudantes da Educação Básica. De acordo com a Resolução Normativa do CNPq nº 017/06, em seu anexo V, o programa tem como objetivo

despertar a vocação científica e incentivar talentos potenciais entre estudantes do Ensino Fundamental, Médio e Profissional da rede pública, mediante sua participação em atividades de pesquisa científica ou tecnológica, orientado por pesquisador qualificado em instituições de ensino superior ou institutos/centros de pesquisa (Brasil, 2006).

Para Gomes Heck et al. (2012), a proposta de iniciação científica direcionada ao Ensino Médio com vistas ao ensino universitário utiliza o método científico como pilar estrutural, proporcionando ao aluno uma experiência prévia e única sobre o ensino do qual fará parte em um futuro muito próximo, capacitando-o para adquirir seus conhecimentos de maneira mais independente.

Metodologia

A proposta do trabalho levou à busca de articular conceitos e metodologias que possibilitassem a compreensão da relação entre ensino e pesquisa. O trabalho foi pautado em questões como a implementação e o desenvolvimento da atividade prática escolar dos alunos do 1º e 2º anos do Ensino Médio da Escola Estadual Professor Gonçalves Couto, localizada na cidade de Muriaé/MG.

O projeto foi realizado em diferentes etapas como descritas a seguir:

  • Primeira etapa: ocorreu na faculdade com a elaboração de onze projetos (Tabela 1) organizados pelos professores orientadores. Esses projetos foram desenvolvidos de acordo com a realidade vivenciada pelos estudantes e relacionados aos conteúdos de Química e Biologia, que são disciplinas de grande peso. Nesse primeiro momento também na Fasm, aconteceu a seleção e a participação de oito graduandos do curso de Ciências Biológicas na construção dos projetos.

Tabela 1: Relação de grupos por projeto de pesquisa

Grupos

Projetos de pesquisa

1

Controle biológico de cochonilhas utilizando extrato de syzygium aromaticum como potencial inseticida

2

Determinação do oxigênio dissolvido em diferentes pontos do Rio Muriaé em Minas Gerais

3

Potencial alelopático de dieffenbachia picta na germinação e crescimento inicial de phaseolus vulgaris

4

Controle biológico de formigas camponotus sp in vitro com uso de extrato de tabaco

5

Análise microbiológica dos bebedouros dos Hospitais de Muriaé/MG

6

Caracterização físico-química de amostras de leite in natura comercializados em Muriaé/MG

7

Determinação do teor de álcool na gasolina de postos de combustível do município de Muriaé/MG

8

Aplicação da eletrofloculação como método de separação no tratamento de efluentes

9

Uso do extrato de ​syzygium aromaticum no controle biológico de formigas camponotus sp

10

Potencial herbicida a base de limão, ureia e vinagre

11

Avaliação do extrato de tabaco com potencial no controle biológico de cochonilhas em laboratório

  • Segunda etapa: aconteceu na Escola Estadual Gonçalves Couto com a organização dos 11 grupos (30 alunos no total) e orientação dos estudantes sobre a importância da realização da pesquisa e a contribuição que ela pode trazer. Houve também uma reflexão sobre a problemática e a relevância de cada trabalho. Ainda nesse momento também foi apresentado um cronograma de oito semanas de atividades específicas para cada grupo. Atividades preestabelecidas, encontros para discussão, execução das práticas laboratoriais, análises, avaliação, escrita dos resultados e apresentação final (Figura 1 e Tabela 2).
  • Terceira etapa: ocorreu nos laboratórios de Química e Biologia da Fasm com a execução de cada projeto sob orientação dos graduandos responsáveis por grupos específicos e os professores orientadores. Nesta etapa os estudantes puderam vivenciar toda parte prática do trabalho, executando a prática laboratorial, a análise dos possíveis resultados e a construção deles.

Figura 1: Esquema de execução das atividades

Tabela 2: Cronograma de atividades

Cronograma de atividades de execução

  Semanas   

   

      Atividades

Apresentação inicial dos projetos

x

             

Revisão bibliográfica

x

x

x

x

       

Início dos testes e práticas de laboratório

   

x

x

x

     

Análise dos dados

     

x

x

x

   

Avaliação e discussão dos resultados

       

x

x

   

Produção dos resumos e banners

         

x

x

 

Preparação para apresentação

         

x

x

 

Apresentação no encontro de Iniciação Cientifica da Fasm

             

x

  • Quarta etapa: Socialização da aprendizagem. Foi a etapa de conclusão do projeto, momento em que os estudantes apresentaram o saber produzido no XVII Encontro de Iniciação Científica promovido pela Faculdade Santa Marcelina (Fasm). No evento os estudantes apresentaram seus trabalhos científicos juntamente com outros 56 trabalhos de alunos da graduação.

Resultados

Ao passar por essas diversas experiências no decorrer do processo de investigação (coleta de dados, estudos e análises) e de elaboração das conclusões, os alunos empregaram diferentes conhecimentos, competências e habilidades, que, consequentemente, contribuíram para o desenvolvimento de sua autonomia.

Compreenderam como o conhecimento pode ser produzido a partir da interpretação e que o levantamento de dados deve ser feito com base em conceitos e/ou conhecimentos da área que se investiga, que esses conceitos e/ou conhecimentos podem mudar ao longo do tempo em razão de novas descobertas.

Os resultados mostraram uma série de benefícios ao processo de ensino-aprendizagem, como valorização da experiência cotidiana dos alunos, estímulo à leitura, análise e interpretação de textos e letramento científico, além de desenvolvimento de competências de investigação e compreensão.

Considerações finais

Com o desenvolvimento deste trabalho, pode-se concluir que o contato com a prática da iniciação científica no cotidiano escolar de alunos de Ensino Médio possibilitou novas descobertas em um processo de investigação e contribuiu para o processo de ensino-aprendizagem, buscando conhecimento com senso crítico e postura proativa e de autonomia.

Procuramos, assim, caminhos que fortalecessem o compromisso com a consciência crítica desses estudantes investindo na sua capacidade criadora e estimulando-os a construir conhecimento.

Referências

BAPTISTA, M. et al. Cursos de educação e formação: uma oportunidade para questionar práticas de sala de aula e reconstruir identidades escolares. Ensaio: Pesquisa em Educação em Ciências, Belo Horizonte, v. 13, nº 2, p. 151-170, 2011.

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular: Ensino Médio. Brasília: MEC/SEB, 2018.

BRASIL. Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Iniciação Científica Júnior – ICJ – RN nº 017/06. anexo V. Disponível em: http://www.cnpq.br/view/-/journal_content/56_INSTANCE_0oED/10157/100352. Acesso em: 23  mar. 2020.

COUTINHO, R. X.; FOLMER, V.; PUNTEL, R. L. Aproximando universidade e escola por meio do uso da produção acadêmica na sala de aula. Ciênc. Educ., Bauru, v. 20, nº 3, p. 765-783, 2014.

FRACALANZA, H. et al. O ensino de Ciências no 1º grau. São Paulo: Atual. 1986. GALVÃO, E. C. Os desafios da escola pública paranaense na perspectiva do professor PDE. Produções Didático-Pedagógicas. V. II, 2014. Disponível em: http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/cadernospde/pdebusca/producoes_pde/2014/2014_uenp_geo_artigo.pdf. Acesso em: 13 abr. 2020.

GIL-PÉREZ, D.; CACHAPUZ, A. A necessária renovação do ensino das ciências. 3ª ed. São Paulo: Cortez, 2000.

GOMES HECK, T.; MASLINKIEWICZ, A.; SANT’HELENA, M. G.; RIVA, L.; LAGRANHA, D.; SENNA, S. M.; DALLACORTE, V. L. C.; GRANGEIRO, M. E. (in memoriam); CURI, R.; BITTENCOURT, P. I. H. de. Iniciação científica no Ensino Médio: um modelo de aproximação da escola com a universidade por meio do método científico. Revista Brasileira de Pós-Graduação, v. 8, nº 2, 31 mar. 2012.

KRASILCHIK, M. Prática de ensino de Biologia. 4ª ed. São Paulo: Edusp, 2004.

MORAN, J. M. Metodologias inovadoras com tecnologias. Entrevista a João Matar. Disponível em: https://pt.scribd.com/doc/2525970/Moran-Ensino-e-aprendizagem-inovadores-com-tecnologia.  Acesso em: 3 abr.  2020.

MOREIRA, M. A. Aprendizagem significativa. Brasília: Editora da UnB, 1999.

PATACHO, P. M. Práticas educativas democráticas. Educação & Sociedade, Campinas, v. 32, nº 114, p. 39-52, 2011.

Publicado em 19 de janeiro de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

AMARAL, Camila Rodrigues; SERAFIM, José Lucas de Oliveira; MARTINS, Mariana de Paula; ALMEIDA, Philipy Dias; BAÍA, Ruth de Andrade; NASCIMENTO, Elaine Arminda de Souza. Produção científica como ferramenta relevante para alunos do Ensino Médio da rede pública. Revista Educação Pública, v. 21, nº 2, 19 de janeiro de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/3/producao-cientifica-como-ferramenta-relevante-para-alunos-do-ensino-medio-da-rede-publica