Um estudo sobre a mediação escolar on-line durante a pandemia da covid-19

Paloma Sá Carvalho

Psicóloga, mestre em Psicologia Clínica (PUC-Rio), psicomotricista e mediadora escolar

No Brasil, a crise causada pela pandemia da covid-19 instalou-se em março de 2020. Tendo em vista a iminência do contágio altamente devastador possível de afetar crianças, adolescentes e jovens, foi decidido o fechamento das instituições de ensino por serem espaços de trocas de experiências e de convivência diária. É sabido que o ambiente escolar se caracteriza pela aprendizagem e trocas afetivas, além de configurar um espaço fértil para a transmissão de vírus e bactérias. Acreditamos também que a escola se apresenta como um espaço social, relacional e cultural, que abrange e convive uma comunidade de pessoas que compartilham um mesmo ambiente, como docentes, estudantes, famílias, gestores, funcionários administrativos e agentes educativos, com diversas experiências de vida e motivações em prol da educação. Sem dúvidas, no atual contexto pandêmico, o fechamento das escolas foi uma decisão assertiva de proteção humana, até que o problema seja resolvido ou minimizado. Desse modo, as aulas presenciais foram formatadas em um sistema on-line e, consequentemente, as mediações psicopedagógicas tiveram que adotar os mesmos recursos tecnológicos através de atividades de interação entre os mediadores e os estudantes em novos locais virtuais que, por vezes, videochamada.

Entretanto, o isolamento social e o fechamento das escolas acarretam inúmeros questionamentos e desafios para toda a comunidade escolar o qual, alunos, professores, famílias, coordenadores e psicopedagogos se viram diante de um contexto completamente inusitado onde a interação aluno-professor não poderia mais acontecer de forma presencial. Diante disso, podemos destacar algumas questões alarmantes, como o cumprimento do currículo escolar, o desenvolvimento do ensino e da aprendizagem para os estudantes e o atendimento às suas necessidades individuais, em uma situação adversa como a que estamos vivendo neste momento com a covid-19.

Não podemos deixar de ressaltar que o público atendido pela escola aqui descrita pertence a uma classe socioeconômica alta da zona sul carioca e que a presente instituição possui ensino bilíngue. Sou mediadora e faço parte da equipe do departamento de diferenciação e inclusão escolar chamado de Student Support Services - Serviços de Apoio ao Aluno. E a minha principal função é acompanhar diariamente os alunos do Ensino Fundamental II que fazem parte deste programa e através disso, oferecer suporte adequado às necessidades de cada um para que o processo de aprendizagem aconteça de forma satisfatória e saudável.

Logo, este trabalho busca não somente refletir sobre os diversos meios que possibilitaram a mediação escolar on-line durante o período de isolamento social, bem como, afirmar que a existência do vínculo afetivo entre mediador- aluno é o principal eixo norteador do processo de aprendizagem.

O artigo também foi influenciado pelas teorias de Henri Wallon (1975) e Vygotsky (2007), pois consideramos que as emoções têm papel preponderante no desenvolvimento das pessoas. Em seus estudos, Wallon (1975) percebe as emoções como primeiras manifestações afetivas presentes na criança. O movimento, e as expressões oriundas do mover-se, constituem os primeiros sinais de vida psíquica do indivíduo. Para ele, a afetividade e a inteligência são campos indissociáveis, pois as expressões, gestos e linguagem, são segundo ele, elementos imprescindíveis do afeto que constituem a inteligência. Tanto Vygotsky quanto Wallon afirmam que não se pode separar a afetividade e cognição.

Em seguida, buscamos também, contemplar as contribuições de Paulo Freire e de pesquisas específicas sobre o assessoramento psicopedagógico para a construção e manutenção do vínculo afetivo na mediação on-line.

Finalmente, as reflexões acerca do acompanhamento psicopedagógico somadas à evolução acadêmica dos alunos permitiram ampliar o repertório e a prática de inclusão escolar. Sendo assim, o presente trabalho corresponde a um estudo de campo do departamento de diferenciação e inclusão escolar durante o período de março a dezembro de 2020.

Consideramos que a justificativa está na necessidade de refletir e ponderar os novos direcionamentos que nortearam nossa prática bem como, legitimar as ferramentas tecnológicas que funcionaram como ponte de acesso aos alunos em virtude do fechamento das escolas e da suspensão indefinida dos encontros presenciais entre estudantes e equipe pedagógica.

De repente tivemos que lidar com uma mudança repentina de paradigma do ensino presencial e, novos e inusitados caminhos foram pensados de forma excelente e cuidadosa pela nossa equipe de Students Support Services. O artigo propõe que a mediação escolar on-line inaugurou uma nova modalidade de suporte aos alunos e reafirmou ser um serviço não somente especializado, como se fundamentou como apoio para aqueles estudantes que necessitam de cuidados especiais. Desse modo, vislumbramos que o elo essencial para que este trabalho pudesse acontecer seria o vínculo afetivo entre mediador e mediando.

A lei da inclusão

Sabemos que desde a Conferência Mundial sobre Educação Especial em Salamanca, na Espanha, em 1994, a acessibilidade e a inclusão escolar se tornaram um compromisso universal das comunidades escolares. Na conhecida Declaração de Salamanca, documento que reuniu as orientações internacionais para as NEE, é dito que “dentro das escolas inclusivas, as crianças com necessidades especiais deveriam receber qualquer apoio extra que possam precisar, para se lhes assegure uma educação efetiva”.

Em janeiro de 2016 entrou em vigor a Lei Brasileira de Inclusão (LBI), também chamada de Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/15), que afirmou a autonomia e a capacidade das pessoas com algum tipo de deficiência para exercerem atos da vida civil em condições de igualdade com as demais pessoas (Brasil, 2015).

As inovações trazidas pela nova lei alcançaram, entre outras, as áreas de saúde, educação, trabalho, assistência social, esporte, previdência e transporte. No âmbito da inclusão escolar a lei assegurou a oferta de sistema educacional inclusivo em todos os níveis e modalidades de ensino. Estabeleceu ainda a adoção de um projeto pedagógico que institucionalize o atendimento educacional especializado, com fornecimento de profissionais de apoio. Proíbe as escolas particulares de cobrarem valores adicionais por esses serviços.

A LBI foi lançada no Congresso Nacional, 15 anos atrás, pelo deputado federal Paulo Paim (PT-RS) que reapresentou a proposta, resultando na Lei nº 13.146/15. A tramitação na Câmara possibilitou à relatora, deputada federal Mara Gabrilli (PSDB-SP), ajustar o texto original às demandas dos movimentos sociais e aos termos da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (Decreto Legislativo nº 186/08), que recomendava a eliminação de qualquer dispositivo que associasse deficiência com incapacidade.

A legislação aprovada dá apoio às pessoas com deficiência para exercerem seus direitos em diversas esferas sociais e inaugura um novo paradigma no país, o da inclusão, em que a sociedade se prepara para receber a pessoa com deficiência e não mais a pessoa com deficiência se adapta a uma sociedade que não está apta a recebê-la.

Dentre os diversos pontos abordados pela lei, gostaríamos de citar aqui os que mais nos chamaram a atenção:

Art. 4º Toda pessoa com deficiência tem direito à igualdade de oportunidades com as demais pessoas e não sofrerá nenhuma espécie de discriminação.

§ 1° Considera-se discriminação em razão da deficiência toda forma de distinção, restrição ou exclusão, por ação ou omissão, que tenha o propósito ou o efeito de prejudicar, impedir ou anular o reconhecimento ou exercício dos direitos e liberdades fundamentais de pessoa com deficiência, incluindo a recusa de adaptações razoáveis e do fornecimento de tecnologias assistivas.

§ 2º A pessoa com deficiência não está obrigada à fruição dos benefícios decorrentes de ação afirmativa. (...)

Art. 8º É dever do Estado, da sociedade e da família assegurar à pessoa com deficiência, com prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à sexualidade, à paternidade e à maternidade, à alimentação, à habitação, à educação, à profissionalização, ao trabalho, à previdência social, à habilitação e reabilitação, ao transporte, à acessibilidade, à cultura, ao desporto, ao turismo, ao lazer, à informação e comunicação, aos avanços científicos e tecnológicos, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, dentre outros decorrentes da Constituição da República Federativa do Brasil, da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo e das leis e de outras normas que garantam seu bem-estar pessoal, social e econômico (Brasil, 2008).

A mediação escolar vem delineando um árduo e longo caminho no contexto escolar brasileiro, a partir da última década, pelo advento da Resolução nº 125/10, do Conselho Nacional de Justiça; da Lei Federal nº 13.140, de 26 de julho de 2015, e do Código de Processo Civil, de 2015. Atualmente, a mediação e a conciliação fazem parte do Sistema Multiportas da Justiça brasileira, que as colocou em outro patamar, como novas possibilidades para a resolução de conflitos. A mediação escolar faz parte desse novo sistema.

Mediação escolar: o papel do mediador

O princípio básico da inclusão escolar é a inserção dos alunos que necessitam de atenção especial no ensino regular. Sendo assim, é necessário discutir e contextualizar a figura do mediador que atua como um profissional que auxilia a criança no processo de adaptação afetiva, social e acadêmica:

O mediador é aquele que no processo de aprendizagem favorece a interpretação do estímulo ambiental, chamando a atenção para os seus aspectos cruciais, atribuindo significado à informação recebida, possibilitando que a mesma aprendizagem de regras e princípios sejam aplicados às novas aprendizagens, tornando o estímulo ambiental relevante e significativo, favorecendo o desenvolvimento. A principal função do mediador é ser o intermediário entre a criança e as situações vivenciadas por ela, onde se depara com dificuldades de interpretação e ação (Mousinho et al., 2010, p. 4).

O objetivo principal do mediador é proporcionar autonomia para que a criança possa prosseguir em seu desenvolvimento. Para Mousinho et al. (2010), a área de atuação do mediador pode ser na saúde ou na educação, contanto que este mediador seja acompanhado pela equipe terapêutica da criança e da equipe escolar. O mediador escolar é geralmente um estudante de psicologia ou pedagogia em formação (ou em alguns casos, já formado), que realiza cursos relacionados à educação inclusiva e a mediação, além de realizar as intervenções com a criança dentro da sala de aula.

O mediador é o responsável pela interação entre a criança e todas as pessoas do ambiente escolar. Também é a pessoa que passa mais tempo com a criança na escola e que faz “a ponte” sobre os desenvolvimentos com os pais e os terapeutas. Cabe ao mediador acompanhar a criança em todos os ambientes da escola, desde a entrada da criança em sala, as aulas, e a saída, priorizando sempre o seu desenvolvimento integral. Assim, em certas circunstâncias, o mediador deve começar a se afastar para que a criança possa adquirir a autonomia, e nos momentos precisos retornar a interceder com o objetivo de que ela adquira uma aprendizagem significativa (Mousinho et al., 2010):

A principal função do mediador é ser o intermediário entre a criança e as situações vivenciadas por ela, onde se depare com dificuldades de interpretação e ação. Logo, o mediador pode atuar como intermediário nas questões sociais e de comportamento, na comunicação e linguagem, nas atividades e/ou brincadeiras escolares, e nas atividades dirigidas e/ou pedagógicas na escola. O mediador também atua em diferentes ambientes escolares, tais como a sala de aula, as dependências da escola, pátio e nos passeios escolares que forem de objetivo social e pedagógico (Mousinho et al., 2010, p. 3)

Ainda segundo Mousinho et al. (2010, p. 11), “a Educação Inclusiva é um ‘estudo de caso’, o que significa dizer que cada caso é único”; portanto, o presente trabalho pretende também contribuir para o aprimoramento dessa atividade tão singular e única de mediar o aprendizado de um aluno e sua relação com a própria atividade pedagógica e seus pares cotidianos. Com isso, acreditamos que a formação constante e continuada do profissional é um fator primordial, ou seja, a busca de mais leituras e cursos para aprimorar o seu conhecimento é fundamental para a criação de um repertório vasto e rico o qual, o mediador lançará mão diante cada novo aprendiz.

O mediador deve também atuar em ambiente para além da escola, tendo em vista que as observações dele em consultas terapêuticas podem facilitar no aprendizado. Da mesma forma que a criança obtém informação a todo instante, o mediador deve estar sempre se atualizando, por isso é necessário que pesquise a respeito do tema, e que registre o desenvolvimento do mediado em relatório, para que os pais, a escola e os profissionais possam acompanhar (Maia; Rodrigues, 2018).

A pandemia da covid-19 e o distanciamento social iniciados no ano de 2020 trouxeram novos elementos à prática da mediação escolar, isto é, a nova realidade inaugurou o viés da virtualidade como único veículo possível para que a mediação pudesse se dar.

Uma aproximação possível em tempos de isolamento social: o vínculo afetivo

A afetividade constitui um papel fundamental na formação da inteligência, de forma a determinar os interesses e necessidades individuais do indivíduo. Atribui-se às emoções um papel primordial na formação da vida psíquica, um elo entre o social e o orgânico (Wallon, 2008, p. 73).

Segundo o Dicionário Aurélio, a afetividade é o conjunto de fenômenos psíquicos que se manifestam sob a forma de emoções, sentimentos e paixões, acompanhados sempre da sensação de dor ou prazer, de satisfação ou insatisfação, de agrado ou desagrado, de alegria ou tristeza. A palavra emoção vem do latim movere, mover-se para fora, é a expressão máxima do afeto.

É sabido que a afetividade está constantemente presente na vida da criança, independente de sua origem, gênero ou classe social. Porém, ainda encontramos resistência na valorização da mesma em sala de aula, visto que a escola ainda é fortemente influenciada por métodos que privilegiam o tradicionalismo que, com frequência desvalorizam a importância da experiência na formação do aluno. Neste sentido, sabemos que a ação pedagógica poderá sofrer grandes, ou até mesmo incalculáveis danos caso o corpo pedagógico não saiba, ou não consiga administrar adequadamente os conflitos afetivos no ambiente escolar.

O final do século XIX foi marcado por uma série de estudos sobre a relação entre afetividade e aprendizagem. Tais pesquisas fomentaram grandes transformações e repercutiram no processo de desconstrução da pedagogia tradicionalista, inaugurando, portanto, uma pedagogia modificada: educação nova, instituída por educadores como Jean Piaget, Paulo Freire, Emília Ferrero, entre outros.

Segundo Wallon (1999), em sua teoria psicogenética, o indivíduo é um ser corpóreo, concreto e deve ser visto como tal, ou seja, seus domínios cognitivos, afetivos e motor fazem parte de um todo, a própria pessoa. Desta forma, a criança não pode ser percebida de forma fragmentada. A partir desta concepção, o afeto surge como um instrumento que proporciona a integração da criança com a sensibilidade, através da motivação e da conscientização, buscando a formação de um cidadão crítico e reflexivo.

A afetividade e a aprendizagem

Procuramos pensar em uma educação comprometida com o aluno, enquanto sujeito do processo educacional, merecedor de uma escola viva, crítica e libertadora. Ensinar e aprender são processos indissociáveis, segundo Piaget (1985), o desenvolvimento intelectual abrange dois lados: um afetivo e um cognitivo, ou seja, para ele é impossível desvincular a afetividade da cognição, ou o contrário. Como não há separação entre o desenvolvimento afetivo e o cognitivo, o desenvolvimento social está intimamente relacionado ao desenvolvimento cognitivo e afetivo, formando uma ligação entre estes, à medida que a criança interage com os adultos e com outras crianças. Piaget (1985, p. 271) diz o seguinte:

A vida afetiva, como a vida intelectual é uma adaptação contínua e as duas adaptações são, não somente paralelas, mas interdependentes, pois os sentimentos exprimem os interesses e os valores das ações, das quais a inteligência constitui a estrutura.

Sobre este mesmo assunto, Wallon acredita que o indivíduo mantém com o meio uma relação composta de várias transformações interdependentes. Segundo Wallon (2008, p. 163),

meios e grupos são noções conexas, que podem por vezes coincidir, mas que são distintas. [...] Comportam evidentemente condições físicas e naturais, mas que são transformadas pelas técnicas e pelos usos do grupo humano correspondente.

Embora a função fundamental da escola seja a construção e a transmissão do conhecimento, há que se evidenciar as relações afetivas como sendo importantíssimas, visto que a construção e transmissão de conhecimentos proposta pela escola gera a relação interpessoal, ou seja, a troca de experiências entre os indivíduos.

Vygotsky (1984, p. 75) frisa a importância das interações sociais, afirmando que a construção do conhecimento ocorre a partir de um grande e importante processo de interação. Ele destaca, além da importância da socialização no processo de construção do conhecimento, que a afetividade tem um importante papel na construção do próprio sujeito e em suas ações. O autor vislumbra que as funções relacionadas ao desenvolvimento infantil aparecem em duas escalas: primeiro, numa escala social, que ele chama de interpsicológica, e depois, numa escala individual, no interior da criança (intrapsicológica).

Vale ainda ressaltar que o grande educador Paulo Freire, em seu livro Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa, (1999, p. 148), disserta sobre a importância dos pequenos gestos, palavras e olhares de respeito e de qualificação do professor com seu aluno adolescente: “Este saber, o da importância [dos] gestos que se multiplicam diariamente nas tramas do espaço escolar, é algo sobre o que teríamos que refletir seriamente”. Ainda sobre afetividade, Freire (1999, p. 47) afirma: “Às vezes, mal se imagina o que pode passar a representar um simples gesto de um professor. O que pode um gesto aparentemente insignificante valer como força formadora ou como contribuição à do educando por si mesmo”. Freire também critica o ensino tradicionalista, que ele chama de “educação bancária”, na qual fala-se quase exclusivamente do ensino conteudista como transferência do saber. Freire ainda ressalta que esta é uma compreensão estreita do que é educação e do que é aprender. Como afirma, “o que importa na formação docente é a compreensão do valor dos sentimentos, das emoções, do desejo, da insegurança a ser superada pela segurança, do medo que, ao ser ‘educado’, vai gerando a coragem” (Freire, 2005, p. 50).

Com isso, vimos que a afetividade é essencial no complexo processo da inteligência e aprendizagem. A afetividade representa a força motriz que direciona e motiva o aluno ao ato de aprender, desta forma, corrobora-se a importância do relacionamento afetivo durante o processo de ensino- aprendizagem. Enfim, podemos perceber a necessidade da presença afetiva nas relações sociais, principalmente quando se diz respeito à relação entre professor e aluno. Isto é essencial para o sucesso da vida escolar do discente, pois como o próprio Paulo Freire (1979, p. 15) assinalou, “não há educação sem amor [...]. Quem não é capaz de amar os seres inacabados não pode educar”.

Contudo, ensinar com afeto não é sinônimo de uma pedagogia descompromissada com a qualidade e competência; pelo contrário, ensinar com afeto significa ouvir o aluno em sua totalidade e peculiaridade para a partir daí, adaptar a metodologia à realidade em questão, possibilitando, assim, a aquisição de conhecimento.

Mediação escolar on-line

A partir da segunda quinzena de março, surgiram inúmeros problemas e questionamentos extremamente alarmantes para o nosso departamento. Naquele momento a nossa principal preocupação era como poderíamos viabilizar a mediação escolar durante o período de isolamento social de forma eficaz. Como garantir o vínculo afetivo mediador-aluno a distância? Foram diversos sentimentos, ideias e incertezas que tomaram conta de nossa equipe e, pouco a pouco, toda angústia foi dando espaço a novas possibilidades de criação de ambientes virtuais de aprendizagem, cuidado e afeto.

Tudo começou na fatídica sexta-feira, 13 de março, quando foi decretado o fechamento da escola sem data prevista para o retorno presencial. Inicialmente resolvemos suspender nossos acompanhamentos para que pudéssemos nos reorganizar enquanto equipe. Nosso principal objetivo era elaborar formas hábeis de dar continuidade aos nossos casos de mediação, e oferecer subsídios aos nossos alunos para que eles pudessem dar sequência ao seu processo de aprendizagem. Após diversas reuniões decidimos que continuaríamos o nosso trabalho no formato on-line por meio de videochamadas.

Dessa forma, instauramos uma forma de mediar até então nunca experimentada: cada aluno teria encontros virtuais com duração de 50 a 60 minutos com seu mediador. A frequência desses encontros variava de acordo com a demanda individual de cada um. Essa nova modalidade de mediação escolar criou a possibilidade do encontro individual e direcionado exclusivamente às necessidades de cada criança. Os resultados obtidos foram avanços acadêmicos bastante significativos, famílias e crianças extremamente satisfeitas e felizes com o nosso trabalho.

A princípio enfrentamos alguns obstáculos como: câmeras dos alunos desligadas, instabilidade da rede, o aprendizado de novas ferramentas num curto espaço de tempo, ausências dos alunos, dificuldades de comunicação da escola com as famílias etc. Não podemos deixar de mencionar que algumas famílias viveram o ano de 2020 como um grande período de férias; por conta disso, viajaram bastante, o que dificultou a organização do aluno em relação à sua rotina escolar: a sua assiduidade tanto nas aulas remotas quanto nos encontros de mediação, atrasos nas entregas das atividades e avaliações, foram alguns exemplos dessa situação.

Por outro lado, tivemos famílias extremamente parceiras que passaram a valorizar ainda mais a mediação e encontraram no formato on-line um apoio fundamental para que a aprendizagem dos seus filhos transcorresse de forma satisfatória.

O vínculo através da tela

Ao retomarmos a questão sobre o papel do mediador na rotina escolar podemos afirmar que uma das premissas básicas sobre sua atuação é que ele deve estar fisicamente próximo do estudante, isto é, o seu exercício em sala de aula pode ir desde sentar-se ao lado para observar a tarefa a ser realizada ou, até mesmo, solicitar que o aluno produza a atividade escolar em outro ambiente. No funcionamento on-line, essa rotina prática presencial precisou ser reconfigurada para videochamadas realizadas sob forma de tutoria, em que a criança é orientada pelo mediador.

Quando estabelecemos o trabalho de mediação on-line foi preciso resgatar o conceito de vínculo afetivo, ou seja, tivemos que trazer à luz a discussão sobre este tema, pois algo que era vivido de forma tão natural no dia a dia na escola, passou a causar uma certa inquietação e preocupação diante o isolamento social. Como se daria a construção do vínculo através da tela? Como manter a ligação afetiva no modo on-line?

Cada aprendiz representa a elaboração de um ambiente e de uma cultura familiar, estes irão influenciar diretamente suas referências de sucesso/ fracasso, de satisfação/insatisfação, assim como nas suas escolhas e gostos pessoais. Contudo, cabe ao mediador sustentar os predicados individuais de cada mediando a fim de garantir um acompanhamento consistente, cuidadoso e amoroso no que tange o ensinamento de cada conteúdo acadêmico.

Não há dúvidas de que, no ensino presencial, a assistência física de um mediador contém a qualidade exclusiva da presença, isto é, a presença física é fundamental para alimentar o vínculo. A alternância entre presença e ausência opera como uma poderosa ferramenta de acolhimento ao aluno, ora o mediador se coloca ao lado de seu aluno, ora se coloca como observador distante. Tal oscilação de posturas contribui para a aquisição de autonomia e autoconfiança do estudante. Vale lembrar que qualquer fixação ou exagero em um comportamento gera aprisionamento e dependência, provocando, assim, piora no rendimento escolar ou até mesmo falsos resultados acadêmicos.

A partir do momento em que as mediações passaram para o formato digital, observamos a formação de uma tríade: familiares, criança e mediador. Se antes havia um trabalho dual de construção de vínculo, com o advento da videochamada tornou-se essencial lidar com a presença dos responsáveis, além do aluno, é claro, do outro lado da tela. Certa vez, durante um atendimento, passei por uma situação extremamente delicada. Após os 10 minutos iniciais com o aluno em que costumo dialogar sobre sua rotina, pude observar que sua mãe estava participando do atendimento sem aviso prévio. O mais curioso era que a mesma estava sentada fora do campo de visão da minha câmera e eu só pude perceber a sua presença a partir da sua voz. Sua atuação, além de invasiva do campo de mediação, foi extremamente violenta colocando seu filho em situações constrangedoras na maior parte do tempo. Quando ela não concordava com algum comportamento do mesmo, brigava e me convidava para uma espécie de pacto-testemunho, me solicitando ajuda ao mesmo tempo em que denunciava e reclamava toda uma situação dramática a qual sua família estava vivenciando. Essa situação se repetiu inúmeras vezes e o meu manejo foi crucial no decorrer dos encontros, buscava acalmá-la e acolher sua angústia em relação ao seu filho que não estava conseguindo dar conta das aulas on-line muito menos do conteúdo pedagógico. Não iremos aqui desenvolver mais o caso; o uso do mesmo foi meramente ilustrativo da relação on-line mediador-mediando. Logo, não podemos deixar de enfatizar que quando se fala de uma pedagogia afetiva, se faz necessário tomar alguns cuidados para que não haja equívocos. Educar com afeto não é sinônimo de trabalhar no ambiente educativo sem estabelecer limites, e quanto mais cedo os acordos são estabelecidos, melhor.

Sendo assim, buscamos criar estilos e estratégias específicas para cada criança mediada por nós: pedir que o aluno permanecesse com sua câmera ligada foi uma tentativa de manter uma proximidade com o mesmo, iniciar o acompanhamento com um diálogo prévio sobre o contexto atual ou sobre qualquer tema trazido pelo aluno, interessar-se pelo estado emocional do aluno e de seus familiares, foram algumas medidas adotadas por mim durante os encontros virtuais. Saber ler e respeitar o ritmo de produtividade de cada estudante foi algo bastante desafiador, pois a linha divisória entre a falta de comprometimento/engajamento e as dificuldades emocionais provenientes do isolamento social se configura como uma fronteira móvel que varia de acordo com o estado emocional, faixa etária, ambiente e singularidade de cada criança. Tal tarefa exige do mediador uma sensibilidade apurada, maturidade, autoconhecimento e uma escuta ativa mediante as manifestações on-line de nossos alunos. Somado a isso, o fato dos nossos encontros se darem através de videochamada corroborou para a reconstrução de um corpo mediador capaz de captar os sinais sutis e peculiares de cada mediando.

Pouco a pouco, a dupla mediador-mediando foi sendo (re)construída nos moldes virtuais e o equilíbrio foi sendo estabelecido no decorrer dos encontros. O vínculo foi edificado de forma singular e consistente reverberando, portanto, no sucesso acadêmico dos nossos alunos. Cada um à sua maneira, com suas possibilidades e limites, avançou significativamente tanto emocionalmente quanto pedagogicamente.

Considerações finais

Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens educam-se entre si, mediatizados pelo mundo (Paulo Freire).

A inclusão escolar e a mediação são temas que ainda demandam muitos estudos e práticas para que sejam bem-sucedidas. Contudo, os trabalhos que os mediadores vêm desenvolvendo são encantadores, e os ganhos para as crianças e adolescentes são notáveis em até mesmo um curto prazo de tempo, acentuando assim a necessidade da continuidade e aprimoramento do mesmo.

 Diante das questões levantadas até aqui, podemos afirmar que o isolamento social revelou uma intrigante questão para a educação atual: seria o virtual menos real do que o presencial?

Até pouco tempo atrás, o uso de telas estava associado ao prazer e à distração para crianças e adolescentes, em sua grande maioria. Na última década, com o surgimento das redes sociais, foi preciso reformular alguns valores éticos e morais da sociedade, o bom-senso, a empatia, o respeito e noções de privacidade foram alguns exemplos de princípios que precisaram ser repensados pelos sujeitos. Somado a isso, se fez e ainda se faz urgente buscar o equilíbrio entre tecnologia, aprendizagem e desenvolvimento psicoemocional. Posto que a pandemia da covid-19 se instaurou no mundo, postulou-se a inversão do discurso vigente e colocou-se o ensino remoto emergencial como essencial para a continuidade do processo de escolarização, engendrando, portanto, a quebra de paradigmas e exigindo soluções criativas das equipes pedagógicas.

Desse modo, se não fossem os encontros realizados através de videochamadas e os privilégios socioeconômicos dos alunos em questão, a continuidade do ano letivo escolar não poderia ter sido vivenciada. Além disso, os estudantes que tinham suporte do departamento de diferenciação dessa escola, puderam contar com encontros semanais exclusivos e desenhados de acordo com a demanda particular de cada um.

É claro que a pandemia da covid-19 e seus desdobramentos acarretarão repercussões sob diversos aspectos subjetivos dos nossos alunos e ainda iremos observar suas manifestações ao longo dos próximos anos. Cabe a nós, profissionais da área da Educação, mantermo-nos atentos e sensíveis a todas as formas de manifestações, assim como buscar ferramentas e aparatos suficientemente bons para acolher as demandas dos mesmos e com isso ajudar na promoção do ganho de aprendizado.

Sem dúvidas, o ano de 2020 foi um dos períodos mais sombrios da História; a pandemia da covid-19 desencadeou crises em diversos setores da população mundial e suas consequências ainda serão sentidas sob diferentes aspectos por alguns anos. A partir do dia 13 de março até setembro de 2020, as escolas particulares do Rio de Janeiro se mantiveram fechadas e não mediram esforços em conceber uma série de processos os quais nortearam a equipe pedagógica no sentido de manter as relações da comunidade escolar ativas e pulsantes. O suporte oferecido pela equipe de Students Support Services sustentou o enlace entre apoio socioemocional e qualidade do ensino, pré-requisitos que julgamos serem fundamentais para a realização do ensino on-line.

Em contrapartida, diante de todos os desafios enfrentados pela equipe acadêmica, a modalidade on-line contribuiu para o aprendizado de ferramentas auxiliares do ensino que, em condições normais, não teriam sido apreendidas. Nessa perspectiva, a questão tecnológica mostra sua força e imprime sua permanência no sistema de ensino escolar.

No que se refere ao processo de inclusão escolar, concluímos que a mediação on-line outorga e preserva a possibilidade de estreitar os vínculos afetivos entre mediadora e aluno, assim como neutraliza possíveis fatores que podem cooperar para a distração e até mesmo resistência do mesmo. No sistema presencial, alguns estudantes oferecem certa relutância ao mediador, sentimentos como vergonha e o receio de ser estigmatizado como aquele que é diferente dos demais colegas fomentam a objeção em aceitar a presença do mediador na rotina escolar. Sendo assim, a modalidade da mediação on-line contribui também para a expansão das possibilidades de aprendizagem.

O artigo propõe refletir sobre a relevância dos aspectos emocionais durante a construção do processo de ensino-aprendizagem no decorrer da mediação on-line. Ao abordar a importância da afetividade na relação mediador-mediando, supomos que a existência de uma relação afetiva favoreça a formação de indivíduos melhores e comprometidos consigo próprios e com o meio. Responsabilidade, preparo científico e gosto pelo ensino com seriedade e comprometimento favorecem a formação de sujeitos que fazem a diferença no mundo. Quando lançamos um olhar permeado de afetos, permitimos que as diferentes manifestações existentes no vínculo estabelecido cheguem até o estudante, criando assim um espaço para que ele seja ativo e autor do próprio conhecimento. Daí, então, ocorre um despertar, um desejo de apropriar-se do conhecimento, isto é, o encontro efetivo de quem ensina com quem aprende repercutindo, portanto, no aprendizado maduro e consistente. Este envolvimento dá oportunidade para que haja um movimento na direção do desabrochar de cada indivíduo.

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Publicado em 01 de junho de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

CARVALHO, Paloma Sá. Um estudo sobre a mediação escolar online durante a pandemia da covid-19. Revista Educação Pública, v. 21, nº 20, 1 de junho de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/20/um-estudo-sobre-a-mediacao-escolar-ion-linei-durante-a-pandemia-da-covid-19