Covid-19 e mudanças educacionais no Ensino Fundamental I

Valdecira Aparecida da Silva Moreira

Especialista em Gestão Pública, mestra em Ciências da Educação (UDS)

Cleonice Adriana Schmitz dos Santos

Especialista em Gestão Escolar, mestra em Ciências da Educação (UDS)

Maria Valdete da Silva Bolsoni

Psicopedagoga, mestra em Ciências da Educação (UDS)

No dia 17 de março de 2020, os professores e pais do município de Colorado do Oeste/RO foram surpreendidos por um decreto que determinou o fechamento imediato das escolas, como medida de contenção da covid-19.

Diante do inesperado, as escolas iniciaram um trabalho de reaprendizagem, de quebra de paradigmas, de adaptação. As orientações eram para que os profissionais da educação tentassem manter a calma e procurassem manter contato com os pais e alunos no sentido de evitarem o pânico.

Em meio às incertezas, surgem como caminho a ser seguido as orientações legais contidas na LDB, que possibilita o ensino remoto em caso de emergência.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) já previa a possibilidade de ensino a distância em casos emergenciais. A partir deste entendimento, os Conselhos de Educação de vários estados se manifestaram para regulamentar e amparar as escolas que optaram por continuar suas atividades pedagógicas de maneira remota (Brasil, 1996).

Iniciou-se análise da LDB, do PPP da escola, das condições econômica da clientela e do acesso à tecnologia, principalmente por se tratar de turma bastante heterogênea em relação a situação socioeconômica.

O mundo vivenciou experiência ímpar, isolamento social, com informações chegando a toda velocidade de todas as partes do mundo, ninguém parecia estar seguro.

Escolas sem tecnologias, professores com poucas habilidades com aplicativos e programas online, pais, famílias, alunos sem direcionamento, tudo estava diferente, todos tiveram que aprender a aprender, a união como força divisória entre a superação e o fracasso.

A grande pergunta era como oferecer ensino de qualidade em momento de transição, de medo, de incertezas. A presente investigação evidenciou que a parceria, laços de amizades e divisão de saberes direcionaram os trabalhos pedagógicos e fizeram a grande diferença na aprendizagem na escola em pesquisa.

Reinventando a forma de ensinar

Diante das incertezas, provocas pelo momento vivenciado na educação brasileira em decorrência dos perigos da contaminação da covid-19, o desafio ora apresentado era como não abandonar os alunos, principalmente aqueles que dependiam da escola para se alfabetizar.

Veja o depoimento de uma professora alfabetizadora de como ela procedeu no primeiro momento diante da determinação de distanciamento social:

Por meio do WhatsApp, entrei em contato com os pais esclarecendo que estava com o material impresso, colado nos caderninhos de tarefa dos alunos e o que eles achavam de marcarmos dia, horário e local para entrega dos mesmos. Os pais ficaram felizes, estavam preocupados com a situação e compreendiam a necessidade de continuidade do processo (Professora “A”, 2020).

Segundo depoimento da professora alfabetizadora, os pais estavam preocupados em ocupar o tempo de ócio dos filhos. Alguns deles nesse momento não estavam em quarentena, precisavam trabalhar o dia todo. Deixavam os filhos com os avós, outro com irmãos mais velhos, e que as atividades didáticas pedagógicas seriam muito bem-vindas, até para aliviar as tensões provocadas pelo momento e as mudanças radicais de hábitos de vida.

Em relação às orientações aos pais, Pereira, Narduchi e Miranda (2020) defendem que

a escola, como instituição social, tem um papel fundamental diante desta pandemia. Ela deve oferecer opções que ajudem os alunos a compreenderem o momento que eles estão vivendo. A necessidade de distanciamento social, para conter a disseminação do novo coronavírus (Pereira; Narduchi; Miranda, 2020, p. 14).

Segundo depoimento da professora alfabetizadora a parceria escola-família ia tornando o ato de ensino-aprendizagem como algo natural, os alunos aos poucos começaram a entender a necessidade de isolamento social, e por que não podiam abraçar a professora, ver os coleguinhas, ter alguém preparado para ensiná-los, pois os pais pareciam muito estressados, despreparados para auxiliar os filhos no processo de ensino escolar.

A professora relatou durante a entrevista que nos dias que se seguiram, as desigualdades em relação à aprendizagem começaram a se acentuar, de acordo com as condições socioeconômica e cultural dos pais.

Sobre as novas formas de educação em casa, os desafios e dificuldades Machado (2020) afirma:

Essas novas formas de “levar” a escola até o aluno estão sendo desafiadoras para todos os envolvidos. Para os professores que em tempo recorde tiveram que reinventar o seu plano de aula, se aventurando em um universo desconhecido para muitos, o ensino à distância e novas tecnologias. Para os responsáveis, que em meio a um turbilhão de atividades e preocupações, estão assumindo o papel de tutores e educadores de seus filhos (Machado, 2020, p. 3)

Nesse contexto de aprendizagem, a equipe gestora e pedagógica tem papel ímpar no sentido de orientar e acalentar os ânimos. Passando a assumir a função de acolhida, de parceria, de busca em conjunto evidenciando a todos que eles não estão sozinhos e que juntos, com fé e foco, são capazes de reinventar a educação em tempos de pandemia.

Em relação à preocupação quanto à desigualdade promovida pela diferença cultural dos pais, veja o depoimento da professora alfabetizadora:

Em contrapartida alguns alunos se destacavam, a exemplo: a aluna filha de mãe doutorando começou a produzir livros e a divulgá-los nos meios sociais, compartilhando aprendizagem e provando que mesmo em tempos de pandemia a educação não poderia parar. Enquanto professora ficava imensamente feliz por poder participar das descobertas e aprendizagem da aluna. No entanto me angustiava saber que alunos com a mesma idade, da mesma turma, não tinham as mesmas oportunidades (Professora “A”, 2021).

Verificou-se in loco, por meio da pesquisa de campo que a realidade mencionada pela professora demonstrava que alunos sem oportunidade de contato com tantas informações e formações, com pais angustiados, estressados, sem paciência e ou conhecimento para auxiliar seus filhos, regrediam na aprendizagem, não por serem menos inteligentes, apenas suas famílias não tinham as mesmas condições.

Segundo a professora alfabetizadora, enquanto a pandemia parecia momento feliz a ser guardado para sempre por alguns alunos com pais bastantes presentes, para outros, isso parecia impossível, pois cada família se adaptou e se organizou como pode diante da situação.

A pesquisa trouxe à tona a realidade de alguns alunos que foram para o sitio, tiveram contato direto com a natureza, oportunidade de alimentar os animais, correr livremente pelos pastos, entre outros momentos possíveis na vida no campo, alguns pais estabeleceram rotinas de atividades da escola, momento pais e filhos em família, outros não por menos amor, mas devido a situação econômica e tendo que trabalhar e tomar todos os cuidados para não contrair a doença não tinham a mesma oportunidade e havia aqueles não sabiam como interagir, auxiliar e até mesmo lidar com os próprios filhos.

Veja o depoimento da professora diante da nova realidade educacional:

Após avaliação da situação percebi que eram necessárias algumas intervenções pedagógicas para minimizar a desigualdade de aprendizagem, tive a ideia de gravar vídeos explicando passo a passo como resolver as atividades diárias, assim às crianças poderia seguir seu ritmo, me coloquei a disposição dos pais, e alunos, eles poderiam me ligar a qualquer hora, inclusive nos finais de semana e ou a noite. Comecei a gravar vídeos falando com os alunos na intenção de que eles se sentissem mais próximo a mim. Nesse momento percebendo que algumas crianças tinham pouco contato com o mundo da leitura em casa, alguns pais também começaram a enviar livros em PDF, gravar vídeos dos filhos realizando as atividades, lendo e realizando atividades em família que eram importantíssimas para o desenvolvimento das mesmas. Em relação ao material escrito não abri mão, continuei a enviar os cadernos com conteúdos envolvendo todos os componentes curriculares e quinzenalmente o recolhia, fazia as correções e enviava novo material (Professora “A”, 2021).

De acordo com a Professora “A” (2021), alguns alunos apresentavam ritmos mais lentos quanto à entrega das atividades, necessitando que ela entrasse em contato com os pais e lhe propiciava tempo extra, e todos conseguiam no seu tempo fazer as atividades, conseguindo assim atingir 100% dos alunos.

Quanto à forma de avaliação em período de pandemia, veja o depoimento da professora:

A avaliação do trabalho era realizada continuamente, me preocupava com o envio de vídeos e materiais em PDF, então sempre perguntava no grupo como eles estavam sentindo se queriam que diminuísse o ritmo ou poderia continuar? Se os vídeos estavam auxiliando ou atrapalhando? O interessante que por meio da parceria, os pais relatando suas angustias, sucessos, avanços, um ajudava o outro a superar os efeitos da pandemia da covid-19. Meu coração bateu acelerado ao receber esta mensagem do meu aluno Albertino, as demonstrações de carinho, me fazem rogar a Deus que esta pandemia acabe logo e que possamos voltar à normalidade (Professora “A”, 2021).

Percebe-se que mesmo após um ano do início da pandemia, as incertezas ainda persistem, a professora alfabetizadora declarou seu amor a profissão e aos alunos, compreende que em nome desse amor a necessidade do afastamento físico dos alunos, mas terá uma alegria ímpar no dia em que as aulas poderão ser ministradas presencialmente.

Resultados e discussão

Em tempos de pandemia, distanciamento social, cabe a escola buscar alternativas, formas diferenciadas de ensinar e aprender, destaca-se como pontos fracos do ensino remoto as dificuldades diversas, entre elas as  midiáticos por parte dos pais, alunos e professores como, por exemplo, trabalhar com: Google ClassroomCisco Webex,  Google.net.

Como ponto forte em tempos de crise social, aponta-se o amor pela docência, a vontade de aprender e ensinar, o foco e a determinação, mas também a capacidade de avaliar e reavaliar, de retomada, do refazer caminhos quantas vezes forem necessários, até atingir a qualidade na educação.

Em relação às atividades não presenciais, Pereira, Narduchi e Miranda afirmam:

A adoção das atividades não presenciais, apoiadas pelo uso dos recursos oferecidos pelas tecnologias de informação e comunicação (TIC), constituiu-se, assim, num caminho para minimizar as perdas causadas, no campo da educação, pelo isolamento social. Dessa forma, as TIC surgem como uma alternativa para evitar que os estudantes sofram prejuízos no processo de ensino-aprendizagem. (Pereira; Narduchi; Miranda, 2020, p. 9).

Após um ano da covid-19, a pesquisa realizada no município de Colorado do Oeste, em uma escola municipal, propicia evidencias de que muitas barreiras foram quebradas, professores e pais resistentes à tecnologia, encontraram nela um caminho para continuar ensinando e aprendendo.

Das mudanças educacionais no Ensino Fundamental I, provocadas em decorrência ao período de 17 de março de 2020 a 17 de março de 2021, em relação ao ensino remoto, está disparada a capacidade de organização dos pais e professores que no início não tinham horários definidos, causando sobrecarga, estresse, não conseguiam separar trabalho de vida social e familiar.

A investigação em campo comprovou que os professores em geral tornaram-se pesquisadores de programas e aplicativos educacionais, bem como se empenharam na aquisição de equipamento como celulares e notebooks de grande capacidade de armazenamento e memória interna.

Várias ações foram colocadas em práticas para auxiliarem os alunos na superação das mudanças radicais em sua rotina provocada pelo distanciamento social.

E por sua vez, dos estudantes, que foram separados de seus colegas de turma, afastados de suas rotinas, e estão se vendo em um novo mundo. Agora, é preciso da união, cooperação e boa vontade de todos para o alcance do objetivo que é passarmos por este período com a menor defasagem possível no ensino para o ano letivo de 2020 (Machado, 2020, p. 4).

Em consonância com a afirmação de Machado (2020) a professora alfabetizadora da escola em pesquisa fez questão de ressaltar a alegria da superação de cada dificuldade no momento em que elas acontecem como pontos positivos da educação remota.

Segundo a professora a escola encontra oportunidade de acompanhar e identificar avanços e dificuldades na aprendizagem através de vídeos, fotos e depoimento (áudios) das crianças e familiares. Envio de questionamento para os pais, a fim de verificar se existe necessidade de modificar a metodologia ou se a mesma está atendendo as expectativas.

Conclusões

São tantos os medos e incertezas diante do novo; porém cabe as escolas encontrarem caminhos viáveis, minimizar as dificuldades em decorrência da falta física do professor, junto aos alunos, principalmente nos anos iniciais do Ensino Fundamental.

As pesquisadoras compreendem que a pandemia trouxe inúmeras dificuldades, no entanto são unânimes no entendimento de que ela também propiciou momentos ímpares de união, solidariedade, valorização do humano e aprendizagem como um todo.

A pesquisa trouxe à tona, a princípio, dificuldades financeiras para a aquisição de celulares e notebooks, por parte das escolas e profissionais, no entanto com o avanço da pandemia, aos poucos essas questões foram resolvidas por meio de organização financeira por parte do profissional ou aquisição por meio de projetos por parte da escola.

A educação brasileira vem passando por divisor de águas, podendo ser classificada como antes da pandemia, durante a pandemia e pós-pandemia. Nesse novo cenário de demanda global a tecnologia passa a ser a protagonista principal da educação, não há como retroceder. O momento requer profissionais proativos, viciados em aprender e ensinar.

Referências

BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece diretrizes e bases da Educação Nacional. Diário Oficial da União, Brasília, 23 dez. 1996. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm. Acesso em: 11 julho. 2020.

______. Lei nº 13.005, de 25 de junho 2014. Aprova o Plano Nacional de Educação - PNE 2014-2024 e dá outras providências. Brasília: 2014.

 ______, Ministério da Educação. Base Nacional Curricular Comum. 2016. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br. Acesso em: 10 jul. 2020.

MACHADO, Patricia Lopes Pimenta. Educação em tempos de pandemia: o ensinar através de tecnologias e mídias digitais. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento, ano 5, nº 6, v. 8, p. 58-68, jun. 2020. Disponível em: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/tempos-de-pandemia.

ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DE SAÚDE. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Covid-19 (doença causada pelo novo coronavírus). Folha Informativa, 6 abr. 2020.

PEREIRA, Alexandre de Jesus; NARDUCHI, Fábio; MIRANDA, Maria Geralda de. Biopolítica e educação: os impactos da pandemia de covid-19 nas escolas públicas. Rev. Augustus, Rio de Janeiro, 2020.

Publicado em 08 de junho de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

MOREIRA, Valdecira Aparecida da Silva; SANTOS, Cleonice Adriana Schmitz dos; BOLSONI, Maria Valdete da Silva. Covid-19 e mudanças educacionais no Ensino Fundamental I. Revista Educação Pública, v. 21, nº 21, 8 de junho de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/21/covid-19-e-mudancas-educacionais-no-ensino-fundamental-i