O uso do aplicativo WhatsApp durante o ensino remoto na rede pública de ensino do Estado de Minas Gerais

Claudia Maria Soares Rossi

Técnica em Assuntos Educacionais (IFMG)

Ana Clara Serpa Toscano de Brito

Especialista em Educação Básica (SEE/MG)

Uriel Borges da Silva Junior

Professor de Educação Básica (SEE/MG)

A sociedade atual se encontra em um momento peculiar de sua história, em meio a uma pandemia, com necessidade de distanciamento físico, porém não sociais. Nesse momento em que alguns autores, como Klaus Schwab (2019), defendem que estamos vivenciando a quarta Revolução Industrial, a revolução tecnológica, as metodologias tradicionais de ensino em que o professor é o detentor do conhecimento a fim de transmiti-lo para os estudantes como meros receptores passivos não pode mais ser usual no nosso cotidiano.

Devido a uma contínua difusão das tecnologias da informação e comunicação (TIC), a exemplo de smartphones, computadores e tablets, cujo papel de inovação dentro da área da educação visa criar e utilizar ferramentas que podem ser aplicadas para melhorar as oportunidades de aprendizado dos estudantes, é importante que as mudanças no processo de ensino-aprendizagem não sejam impostas, mas sim estudadas, analisadas e aplicadas da melhor forma possível, de maneira natural e paulatinamente.

Vivemos neste crítico momento da sociedade brasileira e mundial uma grande demanda por atividades de Educação a Distância (EaD) e ensino remoto; no Estado de Minas Gerais, essa demanda chega atrelada a algumas incógnitas: como está funcionando o modelo de ensino remoto proposto pela Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais? Qual aplicativo está sendo mais utilizado nessa proposta de ensino remoto? Como os professores estão se adaptando a essa nova ferramenta de ensino?

Haja vista que o ensino remoto não era costumeiramente utilizado na rede de educação básica pública de Minas Gerais, é importante verificar como se dá esse movimento de inovação e aquisição de novas ferramentas nesse processo nas escolas. Brito e Alencar (2018) observam que muitos cursos de licenciatura ainda não haviam adaptado seu currículo para a inserção das novas tecnologias da informação e comunicação com aplicação em seus componentes curriculares.

Os docentes da Educação Básica repentinamente se viram pressionados a elaborar materiais didáticos virtuais, ceder seus telefones e computadores pessoais para uso da escola e produzir conteúdos explicativos digitais visando atender a demanda em caráter de urgência produzida pela pandemia e, consequentemente, pelo ensino remoto. Porém, visualizando um cenário em que a formação inicial de muitos profissionais da Educação não incluiu o uso de TIC como parte do processo de formação metodológica, vê-se imprescindível vislumbrar um panorama sobre a utilização desses recursos, como está sendo o processo de adaptação desses profissionais e quais suas dificuldades, além de conhecer o interesse em aprender a manusear esses recursos, para que possa ser analisado e refletir sobre uma possível proposta de auxilio durante o processo.

Como objetivos específicos, o estudo visa verificar se o aplicativo WhatsApp é o mais utilizado entre os participantes da pesquisa; conhecer os critérios utilizados para o uso do WhatsApp no cotidiano do Reanp; analisar as funcionalidades utilizadas no aplicativo durante o Reanp; e elaborar um caderno de boas práticas com o uso do aplicativo no ensino remoto

Da pesquisa

Esta foi uma pesquisa aplicada, pois buscou “gerar conhecimentos para aplicação prática voltados a solução de problemas específicos” (Andrade, 2006). A abordagem foi quantiqualitativa (Severino, 2007). Conforme o levantamento webgráfico realizado sobre o Regime Especial de Atividades Não Presenciais (Reanp) e sobre o uso do aplicativo WhatsApp no ensino remoto; percebeu-se a necessidade de realização do estudo sobre o atual momento na educação mineira, no que concerne à Educação Básica. As buscas sistemáticas pelos artigos na base de dados da UFMG, da UFLA, da UFSJ, da UEMG, no Domínio Público e no Google Acadêmico, utilizando os termos “Regime Especial de Atividades Não Presenciais”, “Ensino remoto na Educação Básica”, “WhatsApp no Reanp”, “WhatsApp no Regime Especial de Atividades Não Presenciais” com e sem aspas, incluindo estudos sem restrição de datas. Com o primeiro não identificamos resultados, com o segundo encontramos cinco resultados, porém nenhum deles com a abordagem do uso de aplicativos (apps). Nas pesquisas seguintes também não foram localizados resultados com essa temática.

Tendo em vista que este estudo busca destacar o uso do WhatsApp como ferramenta no Reanp, tornou-se importante verificar se era realmente o aplicativo mais utilizado no período; por isso foi aplicado um questionário online (que está no Apêndice A) elaborado pelos autores. O link do formulário foi disponibilizado em grupos do WhatsApp de escolas estaduais de Minas Gerais, enviado por e-mails para escolas e compartilhado em grupos de professores do Estado de Minas Gerais via redes sociais, como Facebook.

Percebendo também a importância de compreender o ponto de vista de professores da Educação Básica do Estado de Minas Gerais acerca do uso do aplicativo no Reanp, foi estipulada a quantidade de 100 professores para aplicação do questionário e para manter o caráter qualitativo do trabalho, devido ao tempo de preparação do estudo e da sua aplicação. Porém, como será elucidado posteriormente, foram abrangidos 47 municípios e 11 das 12 mesorregiões do estado, exceto o Noroeste Mineiro, devido à ausência de respostas dessa região.

Sobre o Regime Especial de Atividades Não Presenciais

Com o advento da pandemia da covid-19, em março de 2020 as escolas estaduais de Minas Gerais foram obrigadas a suspender suas atividades presenciais e qualquer atividade escolar. Com essa paralisação, a Secretaria de Educação de Minas Gerais (SEE/MG), seguindo o Decreto Estadual nº 47.886, de 15 de março de 2020 e a Deliberação do Comitê Gestor Extraordinário covid-19 nº 26, de 8 de abril de 2020, que dispõe sobre o retorno das atividades através do regime de teletrabalho no âmbito do Sistema Estadual de Educação para o dia 14 de abril de 2020, publicou a Resolução nº 4.310, de 17 de abril de 2020, que instituiu o Regime Especial de Atividades Não Presenciais (Reanp) no Estado de Minas Gerais.

Essa legislação definiu normas para o cumprimento da carga horária letiva mínima estabelecida pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, visando “à garantia da aprendizagem dos estudantes e da proposta pedagógica das escolas” a fim de minimizar os possíveis prejuízos à aprendizagem dos alunos. Embora as atividades remotas no estado só regressassem no dia 13 de maio de 2020, devido a decisão liminar do TJMG, em 15 de abril de 2020, suspendendo a Deliberação nº 26, que apontava a interrupção da decisão, sendo revogada pela decisão do dia 27 de abril de 2020, que entendeu ser possível o retorno dos diretores escolares e dos coordenadores de escola para organização do teletrabalho escolar.

A Resolução nº 4.310/2020 foi elaborada com os seguintes tópicos:

  1. Capítulo 1 - Reorganização do Calendário Escolar e do Reanp na Educação Básica e na Educação Profissional;
  2. Capítulo 2 - Educação Profissional e Normal Médio;
  3. Capítulo 3 - Atendimento educacional especializado;
  4. Capítulo 4 - Implementação do Regime Especial de Teletrabalho
  5. Capítulo 5 - Disposições gerais.

Esses capítulos apresentam de forma sucinta o retorno das atividades escolares, apresentando os planos de estudo tutorado (PET), apostilas com conteúdos teóricos básicos e atividades elaboradas pela própria SEE/MG. Apontam também o retorno presencial dos gestores escolares e do escalonamento de alguns servidores para o trabalho presencial nas escolas. Os PET abrangem os níveis da Educação Básica e Educação Profissional e modalidades especiais, podendo ser encontrados no Google Drive disponibilizado pela SEE/MG (https://estudeemcasa.educacao.mg.gov.br/pets).

Nessa resolução não foram apresentados e/ou explicados os outros meios de comunicação que seriam disponibilizados para o Reanp, como o aplicativo desenvolvido e aprovado pela SEE/MG, o Conexão Escola, e o programa televisivo 'Se liga na Educação. Foi elaborado e disponibilizado no dia 17 de abril de 2020 o Documento Orientador do Reanp, que trazia informações de utilização do aplicativo Conexão Escola, do Programa Se Liga na Educação, do site Escola Interativa e informando que “cada estudante e professor poderá utilizar os dados móveis patrocinados pela SEE/MG para ampliar as possibilidades de acesso ao material pedagógico disponibilizado e ao aplicativo digital Conexão Escola”. Posteriormente, também foi publicado o Memorando nº 34/20 com as atribuições dos servidores no Reanp.

Resultados e discussões

Foi aplicado um questionário online que alcançou 100 professores da rede pública de ensino do Estado de Minas Gerais, abrangendo 47 municípios: Janaúba, Belo Horizonte, Passos, Uberaba, Uberlândia, Ouro Preto, Verdelândia, Careaçu, Varginha, Curvelo, Mario Campos, Barroso, São João Del-Rei, Montes Claros, Ribeirão das Neves, Carrancas, Ibiraci, Jenipapo de Minas, Juiz de Fora, Ibirité, Sete Lagoas, Luisburgo, Mesquita, Araxá, Mendes Pimentel, Alfenas, João Monlevade, Contagem, Coração de Jesus, Manhuaçu, Capelinha, Pescador, Rio Novo, Carandaí, Estiva, Nova Lima, Itamarandiba, São João da Ponte, Paineiras, Poços de Caldas, Sabará, Santa Rita de Caldas, Guidoval, Carmópolis de Minas, São João do Pacuí, Alvinópolis e Dom Joaquim, atingindo onze das doze mesorregiões em que o estado é dividido político-administrativamente.

Com a finalidade de identificar quem é essa parte da comunidade escolar, foi necessário primeiramente traçar um perfil desses professores. Logo, o primeiro momento do questionário foi direcionado a traçar um perfil dos participantes da pesquisa; corresponde às primeiras seis perguntas do questionário.

A primeira pergunta focou em saber o gênero de cada professor/a.

Tabela 1: Gênero dos professores.

Gênero

Respostas (%)

Feminino

71%

Masculino

28%

Preferiu não dizer

1%

Fonte: Dados da pesquisa.

A segunda pergunta objetivou saber a faixa etária dos participantes:

Gráfico 1: Faixa etária

Fonte: Dados da pesquisa.

Constatou-se que, dos 100 professores participantes da pesquisa, 43% têm entre 36 e 45 anos, 37% estão entre 25 e 35 anos, 18% entre 46 e 55 e 2% entre 56 e 65. Observa-se que 80% dos professores estão entre 25 e 45 anos de idade.

A terceira pergunta buscou saber a disciplina que o professor leciona.

Gráfico 2: Disciplina lecionada

Fonte: Dados da pesquisa.

Essa pergunta permitia aos participantes escolher mais de uma opção, tendo em vista que alguns lecionam mais de uma disciplina; observa-se que a maioria dos professores atua na área de Língua Portuguesa (21). É importante observar que participaram dessa pesquisa professores de Atendimento Educacional Especializado (5), professores do ensino do uso de biblioteca (2) e professora de Sala de Recursos (1).

A quarta pergunta foi em relação à modalidade de ensino em que o/a professor/a trabalha.

Gráfico 3: Modalidade em que leciona

Fonte: Dados da pesquisa.

Essa pergunta também permitia aos professores marcar mais de uma opção, tendo em vista que alguns lecionam em diferentes modalidades de ensino. A grande maioria trabalha no Ensino Regular (94).

A quinta questão refere-se ao nível de ensino em que o professor está trabalhando no Reanp.

Gráfico 4: Nível de ensino em que leciona

Fonte: Dados da pesquisa.

Essa pergunta também permitia aos professores marcar mais de uma alternativa, tendo em vista que alguns lecionam em mais de um nível de ensino. A maioria marcou que está lecionando nos anos finais do Ensino Fundamental (66) e no Ensino Médio (55).

A sexta pergunta foi em relação ao nível de utilização do WhatsApp antes do Reanp.

Gráfico 5: Utilização do WhatsApp antes do Reanp

Fonte: Dados da pesquisa.

Foi verificado que a maioria dos participantes da pesquisa (52%) utilizava o WhatsApp para fins pessoais. Outro número expressivo é em relação aos professores que utilizavam o software para fins profissionais e pessoais (37%).

As próximas perguntas fazem parte do segundo momento do questionário; buscou-se descobrir quais plataformas estão sendo utilizadas pelos professores para atender aos alunos, como está sendo esse atendimento e obter informações sobre como os professores estão reagindo à utilização do WhatsApp durante as aulas remotas.

Em uma escala de 0 a 5, em que 0 indica que não é utilizado e 5 que é muito utilizado, tivemos as seguintes respostas sobre aplicativos utilizados no período de Reanp para comunicação com os alunos.

Tabela 2: Aplicativos utilizados no período do Reanp

Aplicativo

Não utilizado

Muito utilizado

Conexão Escola

44

09

Facebook

66

05

Google Classroom

66

14

Google Meet

47

11

Instagram

82

01

WhatsApp

04

61

Zoom

81

05

E-mail

37

21

Serviço de armazenamento online

33

31

Fonte: Dados da pesquisa.

Essa pergunta permitia aos/às professores/as marcar mais de uma opção; nota-se que o aplicativo WhatsApp vem sendo a plataforma mais utilizada pelos professores para comunicação com os alunos, tendo em vista que somente quatro dos pesquisados não o utilizavam no Reanp. É válido ressaltar que os serviços de armazenamento online e o e-mail estão sendo outros meios de comunicação consideravelmente utilizados durante esse Reanp. Destaque-se também que o aplicativo elaborado pela SEE-MG, Conexão Escola, não se encontra entre as plataformas mais utilizadas pelos participantes da pesquisa.

A pergunta seguinte procurou saber qual foi o critério para a escolha do aplicativo WhatsApp no cotidiano do Reanp.

Tabela 3: Critério de escolha

Critério de escolha

Número de respostas

Acesso dos alunos limitado às redes sociais

45

Pouco espaço de armazenamento para download de outro aplicativo

09

Sistema operacional defasado

07

Recomendação da escola

49

Preferência do professor

15

Fonte: Dados da pesquisa.

Essa pergunta permitia aos/às professores/as marcar mais de uma opção; nela se pode observar que o acesso dos estudantes à internet é limitado às redes sociais, algo muito comum hoje em dia, tendo em vista que as operadoras de telefonia móvel vendem pacotes que limitam o acesso exclusivamente para esse tipo de serviço, além de serem mais acessíveis financeiramente do que pacotes com mais benefícios. Considerando esse item, é importante destacar que as escolas também recomendaram a utilização do WhatsApp para comunicação entre professores e estudantes; inclusive foi o motivo mais indicado pelos participantes da pesquisa.

A pergunta seguinte é em relação ao nível de conhecimento das ferramentas do WhatsApp durante o Reanp.

Gráfico 6: Conhecimento das ferramentas do WhatsApp no Reanp

Fonte: Dados da pesquisa.

Nota-se que 33% dos professore possuem nível de conhecimento satisfatório (conseguem utilizar as ferramentas básicas, como enviar áudios e imagens); 31% dispõem de conhecimento excelente (dominam todas as ferramentas disponíveis com êxito); e 29% possuem nível muito bom (dominam a maior parte das ferramentas). Ao juntar essas três respostas positivas, chega-se a um montante de 93% de professores que possuem familiaridade com as principais ferramentas do WhatsApp durante o Reanp.

Na pergunta seguinte, em uma escala de 0 a 5, em que 0 indica que não é utilizado e 5 que é muito utilizado, tivemos as seguintes respostas quanto ao uso das ferramentas do aplicativo WhatsApp no Reanp.

Tabela 4: Uso das ferramentas

Ferramenta

Não utilizado

Muito utilizado

Conversas individuais

05

48

Mensagens de texto

04

61

Mensagens de áudio

06

43

Gifs

42

05

Figurinhas

23

18

Emojis

22

17

Chamadas de voz

44

14

Chamadas de vídeo

52

10

Links

12

35

Imagens

08

43

Grupos

04

57

Vídeos

07

45

Documentos

09

37

Status

55

08

WhatsApp Web

18

46

Encaminhamento de mensagens

09

60

Fonte: Dados da pesquisa.

Nesse momento da pesquisa, foi proporcionado aos professores marcar mais de uma alternativa, sendo interessante observar que, das dezesseis opções de ferramentas disponibilizadas na questão, dez estão entre as mais utilizadas, ou seja, são ferramentas que estão auxiliando os professores durante o Reanp. Destacamos as ferramentas Encaminhamento de Mensagens, Mensagens de Texto, Grupos e Conversas Individuais, que são as mais utilizadas pelos professores para se comunicar com seus alunos e com a escola. Essas ferramentas estão no envio e recebimento de materiais, correções das atividades do plano de estudo tutorado e planejamentos pedagógicos entre professores e equipe pedagógica.

A última pergunta do questionário foi: “Com relação às atividades do plano de estudo tutorado (PET), qual a frequência desses envios e recebimentos pelo WhatsApp?”

Tabela 5: Frequência de envios e recebimentos de atividades pelo WhatsApp

Envios e recebimentos

Número de respostas

Dentro do horário de aula

68

Finais de semana

15

No contraturno das aulas

51

Não é utilizado

07

Fonte: Dados da pesquisa.

Essa pergunta permitia aos professores marcar mais de uma opção em relação ao recebimento e envios de atividades relacionadas ao PET; a grande maioria recebe e envia dentro do horário das aulas e/ou no contraturno delas. Vale destacar que esse envio é realizado principalmente por fotografias das atividades, mas também como vídeos, textos e áudios. Alguns dos/as docentes informaram também que não recebem as atividades pelo aplicativo.

Para finalizar a avaliação, foi sugerido que os/as participantes compartilhassem suas experiências com o uso do aplicativo WhatsApp durante o Reanp. Das 61 respostas obtidas, foram selecionadas dezoito experiências, as quais representam um compilado das respostas enviadas.

Quadro 1: Experiências com o WhatsApp no Reanp

1 – “Recurso mais acessível para a maioria dos alunos”.

2 – “Está sendo uma ferramenta de suma importância, para manter o contato com os alunos”.

3 – “Apesar de ser limitado para uso do ensino (principalmente por não ter sido criado para esse fim), se mostrou o mais acessível de atingir os alunos”.

4 - “Tem sido a maneira mais fácil de acesso aos alunos, pois a maioria dos meus alunos são de zona rural. Ou têm pouco acesso à internet ou não têm nenhum”.

5 - “A maioria dos nossos alunos mora na zona rural, então o aplicativo WhatsApp é mais fácil para comunicar. Nas minhas turmas do Ensino Médio os alunos formaram pequenos grupos para um ajudar o outro. As atividades são enviadas pelo zap, através de fotos”.

6 - “É a melhor forma de conseguir contato com os alunos. Poucos acessam o Google Classroom; pelo WhatsApp tenho contato com quase todos em qualquer dia da semana”.

7 - “Para mim foi tranquilo, pois já uso há muito tempo, mas não é uma ferramenta adequada, deixa a desejar. Seria bom se pudesse participar uma maior quantidade de pessoas numa videochamada, para haver mais interação entre os alunos e professores”.

8 - “Melhor ferramenta, mais direta e acessível”.

9 - “Tenho tido excelentes experiências, porém com acesso ainda restrito sempre aos mesmos alunos”.

10 - “Tem sido boa, porque tem sido o aplicativo com que consigo alcançar o maior número de alunos”.

11 - “É a única ferramenta de comunicação utilizada atualmente para contato com alunos, onde envio documento, vídeos, mensagens de texto, áudios. Onde recebo atividades respondidas pelos alunos através de fotos”.

12 - “De certa forma uma boa experiência, mas um pouco sobrecarregado”.

13 - Alunos não entendem o conceito de horário comercial, então realizam chamadas nos mais diferentes horários. Já tive aluno me ligando incessantemente de meia-noite até 3 da manhã. No entanto, ainda é a melhor alternativa, por conta do uso de dados e acessibilidade. Facilita pros pais também”.

14 - “Muito cansativo ter que ler mensagens a todo minuto de grupos de pessoas da escola. Mas WhatsApp ajuda bastante na comunicação imediata”.

15 - “Acredito que o WhatsApp se tornou uma ferramenta importante no Reanp pelo fato de os alunos o utilizarem anteriormente e já conhecerem. A facilidade de manuseio também. Para os professores, o WhatsApp Web também contribuiu”.

16 - “O WhatsApp tem sido o principal meio de comunicação com os estudantes e seus responsáveis. A sua utilização se deu devido ao tardio e precário funcionamento do app Conexão Escola; a facilidade tecnológica em sua utilização; e ao fato de a maioria dos estudantes e responsáveis possuir esse app nos celulares, tornando assim uma ferramenta menos excludente que as demais. Contudo, essa é uma alternativa criada pelos próprios professores e escolas, a SEE/MG não recomendou nem ofereceu subsídios financeiros e formativos para que os professores utilizassem o WhatsApp. Os dados móveis consumidos pelo aplicativo, os celulares e/ou computadores utilizados são de custo financeiro dos próprios professores, não existe nenhum tipo de auxílio por parte do estado. E os professores que, por ventura, não possuem conhecimento tecnológico sobre a utilização do WhatsApp não receberam nenhuma formação por parte do estado. Foram os colegas profissionais, os amigos e familiares que auxiliaram esses professores”.

17 - “Como professora, tem sido excelente ferramenta por ser mais acessível aos alunos. Estabelecendo regras bem definidas, a rotina é bem mais organizada”.

18 - “É o mais rápido e prático. Moro na zona rural e só tenho esse meio de comunicação. Para acessar e-mail tenho que ir à cidade”.

Fonte: Dados da pesquisa.

Das 61 respostas, 31 utilizaram o termo “comunicação” ao se referir ao WhatsApp, ou seja, é um aplicativo que vem cumprindo o papel de trocar de informações entre seus usuários; nesse caso, gestão escolar, equipe pedagógica, professores e estudantes. 27 participantes da pesquisa utilizaram a expressão “acessibilidade”, principalmente quando se referem aos alunos, pois alguns só conseguem ter acesso às propostas escolares através do WhatsApp. Devemos destacar que observamos professores de zona rural que lecionam em escolas nessas áreas e entendem que seus alunos só possuem esse aplicativo para acessar os materiais de estudo. 16 professores citaram que as funcionalidades e/ou ferramentas do WhatsApp possuem um potencial que nenhum outro aplicativo nesse momento está conseguindo suprir. 

O ensino remoto trouxe diversas adversidades de comunicação à comunidade escolar e o WhatsApp vem se mostrando uma importante ferramenta de apoio às atividades docentes na rede pública de ensino do Estado de Minas Gerais. Isso é comprovado com os resultados do questionário. Em meio a essa situação imprevista na área da Educação, é necessário se desdobrar sobre essa temática para que se possa compartilhar materiais que fundamentem as escolhas realizadas por professoras/es, diretoras/es e equipes pedagógicas.

Ao final do questionário, abrimos a oportunidade para que os professores que queiram saber o resultado da pesquisa deixassem seus e-mails para que possamos dar um retorno. Dos 100 participantes, 54 tiveram o interesse de ver este estudo publicado, mais uma vez evidenciando a importância se dedicar a estudos sobre esse assunto, tão atual e presente no nosso “novo normal”.

Gadotti, em seu texto As perspectivas atuais da educação, do início do ano 2000, fala que “a perplexidade e a crise de paradigmas não podem se constituir num álibi para o imobilismo”; tendo essa compreensão em mente, as boas práticas docentes encontradas nas respostas dos questionários foram agrupadas em um caderno elaborado com o objetivo de formar propostas metodológicas que podem ser aplicadas no software enquanto ele é utilizado no ensino remoto e possivelmente posterior a esse período. O caderno de orientações e alinhamentos didáticos em período de aulas remotas está disponível no Google Drive, no seguinte link: https://drive.google.com/drive/folders/10rRdIQd3C04Z_CJLj9rs3t29CXR9TBoQ.

Considerações finais

As atividades não presenciais no Estado de Minas Gerais acompanharam a necessidade de minimizar os danos causados pelo estado de calamidade instaurado pela pandemia da covid-19. Com a paralisação total das atividades escolares em 18 de março de 2020, entendendo a gravidade da doença e observando a importância do distanciamento físico, as secretarias de Educação pensaram formas de retomar o processo de ensino-aprendizagem a fim de diminuir os danos causados pela pandemia. Este trabalho não se conclui neste momento, tendo em vista que ainda estamos vivendo momentos de ensino remoto no Estado de Minas Gerais; por isso faz-se necessário continuar investigando como está se desenvolvendo esse novo processo de ensino. Por mais que não tenha feito parte das nossas investigações, é importante averiguar como está se dando o processo de aprendizagem dos estudantes da rede, já que todo o trabalho durante o ensino remoto tem como fim a aprendizagem.

Em relação aos resultados obtidos, foi possível averiguar e responder as inquietações levantadas previamente ao início do trabalho. Existe um modelo de ensino que a princípio não foi introduzido democraticamente pela Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais. Houve professores que relataram dificuldades diversas em relação ao manuseio das TIC, além de não terem passado por formações que antecederam o início do ensino remoto. O questionário nos leva a acreditar que as ferramentas disponibilizadas (aplicativo Conexão Escola e aulas na Rede Minas) pela Secretaria de Educação não foram compatíveis com a realidade tecnológica dos professores, de especialistas em Educação, diretores e estudantes.

Como critérios de utilização do aplicativo, em algumas das respostas foi possível perceber alguns motivos para a baixa utilização do aplicativo desenvolvido pela Secretaria; um professor citou a falta de subsídios “financeiros e formativos” para o uso do aplicativo WhatsApp, mas justificando o uso, pois o aplicativo da SEE/MG teve um funcionamento “tardio e precário”, segundo esse professor. Alguns docentes indicaram o WhatsApp como importante pelo fato de os próprios estudantes terem acesso a essa ferramenta antes do ensino remoto, apontam facilidade, praticidade e boa comunicabilidade.

Durante o recesso que antecedeu o ano letivo de 2021, a Secretaria de Educação disponibilizou alguns cursos na sua plataforma de formação e desenvolvimento de profissionais da Educação, como sobre o “Google for Education”, que buscam preparar e formar para o próximo ano letivo profissionais mais ambientados com as práticas rotineiras do ensino remoto, o que sinaliza uma posição assertiva da secretaria, tendo em vista que não foi oferecido algo parecido anteriormente, o que foi motivo de críticas negativas dos professores que responderam ao questionário.

Segundo os resultados da pesquisa, o aplicativo WhatsApp foi o programa mais utilizado pelos profissionais da Educação no ensino remoto. Demonstrou ser uma ferramenta vital para a continuidade da modalidade de ensino ou mesmo para um ensino híbrido, principalmente no que diz respeito à comunicação entre professores e estudantes. Seus recursos de envio de áudios, vídeos e mensagens instantâneas, além das formatações possíveis, se tornaram fundamentais para manter um elo de busca da construção do conhecimento através do processo de ensino-aprendizagem.

Há o entendimento de que é necessário apurar e buscar mais detalhes de como foram e vêm sendo recebidas essas novas práticas de ensino pelos estudantes; há necessidade de buscar mais referências bibliográficas, porém com o advento da pandemia, esses dados e menções ao ensino remoto estão surgindo no Brasil e no mundo pouco a pouco, e uma literatura mais aprofundada vem sendo elaborada por pesquisadores educacionais em todo o planeta.

Em relação à revisão literária, não obtivemos resultados positivos quanto à busca de textos sobre o ensino remoto, o que nos leva a crer que é algo que vem sendo criado, como citado no parágrafo anterior. Ao perceber a insuficiência de material bibliográfico e webgráfico, utilizamos as legislações estaduais que nos amparam legalmente sobre o ensino remoto, material produzido pela própria SEE/MG, além de autores que pesquisam as TIC no âmbito educacional, além de fundamentar as formas de investigação e elaboração desta pesquisa. O questionário utilizado via Google Forms foi de extrema importância (ainda mais em momentos de distanciamento físico) para termos conhecimento e condições quantitativas e qualitativas de averiguar os objetivos traçados nesta pesquisa.

Seguir novas formas de análise e averiguar as “novas contradições” que vêm sendo apresentadas no ensino remoto, torna-se necessário, tendo em vista que este trabalho não se finda aqui. A construção do conhecimento é algo contínuo, não é totalmente consumível somente em uma pesquisa. O ano letivo de 2020 nos apresentou muitos desafios e com eles novas formas de ensinar; cabe a cada profissional da Educação envolvido nesse processo contribuir com seus pensamentos e percepções do ambiente escolar físico e virtual.

Referências

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BRITO, A. C. S. T.; ALENCAR, A. F. Informática e formação de professores nos cursos de licenciatura em Pedagogia de universidades públicas brasileiras: aproximações. Em: V CEDUCE, 2018, Niterói. João Pessoa: Realize, 2018. v. 2.

BRITO, A. C. S. T.; SILVA JUNIOR, U. B. S. Caderno de orientações e alinhamentos didáticos em período de aulas remotas. Disponível em: https://drive.google.com/drive/folders/10rRdIQd3C04Z_CJLj9rs3t29CXR9TBoQ. Acesso em: 01 abr. 2021.

FRAGO, A. V. Alfabetização na sociedade e na história. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.

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MINAS GERAIS. Resolução nº 4.310, de 22 de abril de 2020. Diário Oficial do Estado de Minas Gerais. Disponível em: https://www2.educacao.mg.gov.br/index.php?option=com_gmg&controller=document&id=24729-resolucao-see-n-4310-2020?layout=print. Acesso em: 15 jul. 2020.

______. Decreto Estadual nº 47.886, de 15 de março de 2020. Disponível em: https://www.portaldoservidor.mg.gov.br/index.php/2-noticias/430-decreto-n-47-886-de-15-de-marco-de-2020-16-03-20. Acesso em: 15 jul. 2020.

______. Memorando nº 34/2020/SEE/SG - Gabinete. Disponível em: https://www2.educacao.mg.gov.br/images/stories/2020/INSPECAO_ESCOLAR/Boletim_maio/Memorando-Circular_n%C2%BA_34_2020_SEE_SG_-_GABINETE.pdf. Acesso em: 15 jul. 2020.

______. Deliberação do Comitê Gestor Extraordinário Covid-19 nº 26, de 8 de abril de 2020. Diário Oficial do Estado de Minas Gerais. Disponível em: http://www.fazenda.mg.gov.br/coronavirus/instrumentos-normativos/DELIBERACAO-DO-COMITE-EXTRAORDINARIO-COVID-19-N-26-DE-08-DE-ABRIL-DE-2020.pdf. Acesso em:15 jul. 2020.

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Sites consultados

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Site Repositório UFMG. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/. Acesso em: 10 maio 2020.

Apêndice A

Questionário de pesquisa

Questão

Alternativas

Cidade em que leciona

Livre

Gênero

Masculino; Feminino; Prefiro não dizer; Outros.

Faixa etária

25 - 35 anos; 36 - 45 anos; 46 - 55 anos; 56 - 65 anos; 66 ou mais.

Qual(is) disciplina(s) leciona durante o Reanp?

Arte; Biologia; Ciências; Educação Física; Ensino Religioso; Filosofia; Física; Geografia; História; Língua Inglesa; Língua Portuguesa; Matemática; Professor/a de Apoio; Professor/a Sala de Recursos; PEUB; Química; Regente de Turma; Sociologia.

Qual a modalidade de ensino em que trabalha?

Educação de Jovens e Adultos; Ensino Regular; Educação Profissional; Educação Integral; Educação Especial; Outros.

Quais os níveis de ensino em que está trabalhando no Reanp?

Ensino Fundamental - Anos iniciais; Ensino Fundamental - Anos finais; Ensino Médio; EJA - Etapa 1 (Fundamental); EJA - Etapa 2 (Ensino Médio).

Nível utilização do WhatsApp antes do Reanp.

Não utilizava; Utilizava para fins pessoais; Utilizava para fins profissionais; Utilizava para ambos; Outros.

Aplicativos utilizados no período de Reanp para comunicação com os alunos (0 - não utilizado; 5 - muito utilizado).

Conexão Escola; Facebook; Google Classroom; Google Meet; Instagram; WhatsApp; Zoom; E-mail; Serviços de armazenamento online (Google Drive, One Drive etc.).

Qual foi o critério para a escolha do aplicativo WhatsApp no cotidiano do Reanp?

Acesso dos alunos limitado às redes sociais; Pouco espaço de armazenamento para download de outro aplicativo; Sistema operacional defasado; Recomendação da escola; Preferência do professor; Não é utilizado; Outros.

Nível de conhecimento das ferramentas do WhatsApp durante o Reanp.

Fraco (não domina as ferramentas e tem dificuldade com o envio e recebimento de mensagens e arquivos); Moderado (não domina a maior parte das ferramentas); Satisfatório (consegue utilizar as ferramentas básicas, como enviar áudios e imagens); Muito bom (domina a maior parte das ferramentas); Excelente (domina todas as ferramentas disponíveis com êxito).

Com relação ao seu uso das ferramentas do aplicativo WhatsApp no Reanp, responda (0 - não utilizado e 5 - muito utilizado).

Conversas individuais; Mensagens de texto; Mensagens de áudio; Gifs; Figurinhas; Emojis; Chamadas de voz; Chamadas de vídeo; Links; Imagens; Grupos; Vídeos; Documentos; Status; WhatsApp Web; Encaminhamento de mensagens.

Com relação às atividades do plano de estudo tutorado (PET), qual a frequência desses envios e recebimentos, via WhatsApp?

Dentro do horário de aula; No contraturno das aulas; Finais de semana; Outros.

Compartilhe aqui as suas experiências no uso do WhatsApp durante o Reanp.

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Fonte: Dados da pesquisa.

Publicado em 08 de junho de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

ROSSI, Claudia Maria Soares; BRITO, Ana Clara Serpa Toscano de; SILVA JUNIOR, Uriel Borges da. O uso do aplicativo WhatsApp durante o ensino remoto na rede pública de ensino do Estado de Minas Gerais. Revista Educação Pública, v. 21, nº 21, 8 de junho de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/21/o-uso-do-aplicativo-whatsapp-durante-o-ensino-remoto-na-rede-publica-de-ensino-do-estado-de-minas-gerais