Criando possibilidades em tempos de covid-19

Bruno Henrique Lins Andrade

Analista educacional (Seduc/RO), mestre, bacharel e licenciado em Psicologia (UNIR)

A pandemia da covid-19 tem impulsionado mudanças na forma de ensinar. Devido às recomendações de isolamento social e/ou quarentena, as instituições educacionais brasileiras se viram e se veem diante de uma grande tarefa: garantir o acesso ao conhecimento por meio da virtualidade. Nesse sentido, a pandemia tem desvelado a desigualdade social, uma das chaves no entendimento do fracasso escolar.

Em um país estruturado por situações de desigualdade, a maioria se vê, em algum momento, sem acesso a determinados bens, sejam materiais ou imateriais. Assim, o atual contexto tem evidenciado que não só estudantes da rede pública encaram grandes dificuldades para se manter estudando, mas que também professoras/es igualmente enfrentam seus próprios apertos para se manter trabalhando (Atié, 2020; Nascimento, 2020).

Neste país tropical e desigual, somam-se ainda a precarização das condições de trabalho e o recuo de direitos trabalhistas à falta de valorização (financeira, social e cultural) dos/as profissionais educacionais. Nessa conjuntura, não é de se admirar que a saúde mental de professoras/es da Educação Básica não seja das melhores, refletida nas situações extremas, como os casos de burnout, mas também no estresse e em esgotamentos mentais cotidianos (Souza; Leite, 2011; Pereira et al., 2014).

Com base nessa compreensão, entendemos que não é tarefa fácil a que atualmente se coloca para os profissionais da Educação no Brasil, pois, ainda que ensinar de modo virtual seja possível e mesmo realizável, há de se considerar que uma a cada quatro pessoas no país não tem acesso à internet (Tokarnia, 2020). Logo, considerar apenas a virtualidade como resposta educativa para a pandemia seria de antemão excluir muitos/as educandos/as.

Considerando esses fatos, a escola pública de onde relato, localizada em Rondônia, tem procurado criar ações para desenvolver seus trabalhos. Essas atividades contemplam basicamente os seguintes eixos:

  1. busca ativa de estudantes que não tem acessado as plataformas virtuais;
  2. reuniões semanais com as equipes pedagógica e gestora;
  3. comunicação entre profissionais e com estudantes por aplicativos de mensagens;
  4. tarefas impressas para estudantes que não têm acesso à internet; e
  5. reuniões de formação em plataformas virtuais.

Ainda nessa situação atípica nossa escola buscou realizar atividades voltadas à saúde mental das/os professoras/es. Isso se justifica pelo que foi exposto até aqui, bem como pelo entendimento de que situações como a que estamos vivendo apresentam grandes possibilidades de agravar condições mentais já existentes, como ansiedade e estresse, e gerar outras, características da pandemia, como sintomas de estresse pós-traumático, raiva e confusão (Schmidt et al., 2020). Além disso, já estão descritos efeitos da sobrecarga de trabalho docente nesse momento (Oliveira, 2020). Assim, este relato tem o objetivo de descrever uma ação de saúde mental acontecida com as/os professoras/es da escola mencionada.

Pensando uma ação a partir da teoria

A relação entre Psicologia e Educação no Brasil tem uma história controversa. No princípio, esse contato se vinculou ao diagnóstico e às intervenções nas chamadas dificuldades de aprendizagem. Esse viés clínico, ainda muito requisitado, está distante do que o Conselho Federal de Psicologia indica no momento como papel dos profissionais psicólogos/as no âmbito escolar/educacional. Essa classe deve intervir no processo de educação, na concepção das pessoas que vivem a díade ensino-aprendizagem, colaborando para desvendar a produção do fracasso escolar (Patto, 2015; CFP, 2019).

No entanto, para pensar qualquer intervenção, entendo ser preciso partir das necessidades da pessoa, grupo ou comunidade em que se intervém, favorecendo a construção de uma relação dialógica e dialética em que há respeito e trocas mútuas. Dessa forma, baseado em estudos de Saúde Ocupacional e considerando a saúde mental das/os professoras/es neste momento, primeiro realizei uma investigação sobre a situação deles/as antes e durante a pandemia.

Como instrumento, utilizei um questionário virtual contendo 32 perguntas, divididas em sete seções: Caracterização, Saúde mental antes da pandemia, Saúde mental durante a pandemia, Trabalho durante a pandemia, Trabalho doméstico durante a pandemia, Rede de apoio e Avaliação do questionário. Compartilhei os resultados com as/os professoras/es junto a algumas reflexões e orientações para melhoria da saúde mental.

Antes e durante a pandemia

Ao todo, 21 professoras/es responderam ao questionário. Dentre elas/es, apenas dois eram homens, a maioria com alguma crença espiritual ou praticante de alguma religião e convivendo com sua família. Considerando a maioria, a partir daqui utilizarei o feminino para fazer generalizações.

  • Saúde mental antes da pandemia: todas estavam satisfeitas com a vida, em níveis bons e excelentes; a maioria delas (13) também considerava estar em nível bom de autoestima; para 14, o estresse já existia no cotidiano, e para 18 a ansiedade se fazia presente; apenas uma pessoa sentia baixa motivação para as atividades diárias; cinco pessoas informaram ter frequentado ou pensar em ir ao/à psicólogo/a; sete delas relataram uso de medicamentos para lidar com situações emocionais; o autocuidado era bom ou excelente para grande parte (14).
  • Saúde mental durante a pandemia: 13 pessoas relataram menores níveis de satisfação com a vida e de autoestima; quem estava em um nível bom de satisfação tendeu a permanecer assim; 15 pessoas sentem estresse e a ansiedade é, nesse momento, unânime; para 15 pessoas a disposição para atividades diárias diminuiu e para seis permaneceu igual; agora, seis admitiram ter frequentado ou cogitado ir ao/à psicólogo/a; oito delas utilizam medicamentos para lidar com as emoções; o nível de autocuidado diminuiu para 12 pessoas.
  • Trabalho durante a pandemia: 16 delas acham que está muito mais difícil/difícil realizar o trabalho neste momento; 12 consideram que seu desempenho está abaixo/muito abaixo do que era antes; apenas três pessoas disseram que o trabalho está mais fácil agora; uma pessoa acha que seu desempenho melhorou.
  • Trabalho doméstico durante a pandemia: todas relataram realizar atividades desse tipo; oito delas disseram que o estresse com essas tarefas aumentou; nove percebem que o tempo dedicado para essas ações aumentou durante a pandemia; 12 acompanham filhos/as nas atividades escolares e para seis isso tem sido estressante.
  • Rede de apoio e fontes de bem-estar: as relações em família são positivas e fonte de bem-estar emocional para a maioria (19); 12 pessoas afirmaram que as ações governamentais em tempos de pandemia têm exercido influência negativa em suas emoções; para outras oito isso não acontece e para uma as ações do governo influenciam positivamente em suas emoções. Conforme as respostas, outras fontes de bem-estar emocional para as professoras durante a pandemia aparecem ilustradas na Figura 1.

Figura 1: Nuvem de palavras apresentando as fontes de bem-estar emocional para as professoras durante a pandemia

  • Avaliação do questionário: a maior parte das pessoas considerou que responder ao questionário foi bom e as fez refletir sobre si (17); a outra parte disse ter se sentido indiferente (4) em relação às perguntas.

Por fim, as professoras também definiram suas palavras de esperança do que está por vir para o período pós-pandemia, representadas na Figura 2.

Figura 2: Nuvem de palavras de esperança para o pós-pandemia

Após compartilhar os resultados, propus às professoras uma técnica simples (Figura 3) para poder mobilizar a criatividade diante do momento que se apresenta. Entendo que é importante, além de detectar a situação atual, propor algo que possa colaborar para que as pessoas criem saídas possíveis para lidar com as dificuldades ora vivenciadas. Isso é mobilizar a busca de outras posturas em consonância com a situação atual, distanciando-se daquelas que já não são funcionais (Frazão; Fukumitsu, 2014).

Após a técnica, solicitei que quem quisesse compartilhar suas reflexões o fizesse, porém ninguém se propôs a fazê-lo. Talvez esse seja um dos limites de atividades como essa, feitas de forma virtual. De toda forma, a avaliação posterior das professoras sobre a atividade foi, no geral, positiva. Ainda assim, depreendo que, se houvesse a possibilidade de compartilhar e dialogar sobre as percepções de cada uma a partir da técnica, a intervenção poderia ter sido mais rica e possibilitado maiores trocas.

Ao final, fiz orientações quanto ao manejo de emoções e sentimentos. Com base em conhecimentos psicológicos, indiquei que as professoras possam ter momentos para conhecer suas emoções, no intuito de lidar melhor com elas. Nesta concepção, as emoções e sentimentos são mensagens sobre as relações intersubjetivas da pessoa referentes à sua interação com o meio. Se isso for compreendido e a busca pelo entendimento das próprias emoções e sentimentos se fizer um hábito, são maiores as chances de que elas se tornem motivadoras, em vez de paralisadoras (Martín, 2011).

Figura 3: Técnica de reflexão “Que profissional/pessoa...”

Assim, indiquei alguns aplicativos de celular organizados por especialistas para conhecimento e possível utilização no manejo das emoções. Com esse mesmo intuito, compartilhei também uma folha semanal de registro de emoções. Outro material que apontei foi a Cartilha para enfrentamento do estresse em tempos de pandemia, produzida no Brasil por profissionais da Psicologia (Enumo et al., 2020).

À guisa de continuação

A intervenção aqui relatada foi, logo após a realização, avaliada pelas professoras em questionário virtual. Todas consideraram como boa/excelente, e a maioria afirmou que as informações compartilhadas acrescentaram algo em suas vivências. No mais, todas indicaram que gostariam de outros encontros como esse. As professoras sugeriram também temas para outros diálogos: comunicação, autoestima, ansiedade, estresse, autocuidado, emoções, saúde mental docente, adaptação à nova realidade, relações no trabalho.

As respostas ao questionário, que demonstraram as dificuldades de executar o trabalho neste momento e as influências disso na saúde e bem-estar das professoras, confirma o que a Psicodinâmica do Trabalho já afirma há muito tempo: o trabalho é fator de identidade e, como tal, pode gerar prazer e/ou sofrimento (Dejours; Abdoucheli; Jayet, 2014). Junto a essa psicodinâmica laboral, a própria situação de pandemia levantou outras dificuldades, refletidas na ansiedade sentida agora por todas.

Como conclusão, noto que são necessárias mais intervenções voltadas à saúde docente não só em tempos de pandemia. Entendo que a situação atual só ajudou a expor condições latentes no cotidiano das professoras. Como visto, o estresse e a ansiedade já eram sentidos por boa parte das profissionais antes da pandemia. Outro ponto interessante é a medicalização das emoções, que pode se tornar problemática do ponto de vista psicodinâmico: negar/camuflar o que sinto leva à necessidade de negar também o que os outros sentem, situação que contribui para sustentar a violência e o sofrimento no trabalho (Dejours, 2007).

Neste momento delicado, bem como em outros, é preciso ter a compreensão de que a saúde de professoras/es sofre influência de todas as conjunturas sociais, econômicas e políticas nas quais estamos imersos/as. As cobranças por resultados não podem ser naturalizadas, especialmente no contexto atual. Responsabilizar apenas professores/as pelos resultados da educação é deixar em seus ombros uma carga que remonta a uma diversidade de questões sociais, históricas e culturais. A desigualdade exposta pela pandemia tem demonstrado que em nosso país as situações de exclusão têm raízes muito antigas, firmadas desde a intrusão dos colonizadores e refletidas na colonialidade que ainda perdura.

Educar é uma tarefa árdua que busca a formação do humano (Barroco; Souza, 2012), e para fazê-lo é preciso estar em boas condições de saúde mental. Logo, em contexto de precarização das condições de trabalho, perda de direitos e pouca valorização, é preciso fortalecer a classe de profissionais da Educação, tendo em vista sua importância para a construção de uma cultura que seja mais preocupada com a solidariedade e a cooperação do que com o lucro e a competição. Igualmente, faz-se essencial possibilitar a todas as pessoas o reconhecimento de sua responsabilidade na ordem dessas mudanças, tão necessárias e urgentes.

Referências

ATIÉ, L. Prática docente: 30 depoimentos sobre como a escola foi recebida em casa. Desafios da educação, Porto Alegre, 08 maio 2020. Disponível em: https://desafiosdaeducacao.grupoa.com.br/depoimentos-sobre-escola-em-casa/. Acesso em: 31 mar. 2021.

BARROCO, S. M. S.; SOUZA, M. P. R. Contribuições da Psicologia Histórico-Cultural para a formação e atuação do psicólogo em contexto de Educação Inclusiva. Psicol. USP, v. 23, nº 1, p. 111-132, 2012. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0103-65642012000100006

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DEJOURS, C. A banalização da injustiça social. Rio de Janeiro: FGV, 2007.

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OLIVEIRA, J. Em meio à rotina de aulas remotas, professores relatam ansiedade e sobrecarga de trabalho. El País, São Paulo, 21 maio 2020. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2020-05-21/em-meio-a-rotina-de-aulas-remotas-professores-relatam-ansiedade-sobrecarga-de-trabalho.html. Acesso em: 31 mar. 2021.

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Publicado em 15 de junho de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

ANDRADE, Bruno Henrique Lins. Criando possibilidades em tempos de covid-19. Revista Educação Pública, v. 21, nº 22, 15 de junho de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/22/criando-possibilidades-em-tempos-de-covid-19