O YouTube como facilitador do estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena

Marcelo Brandão Araujo

Professor Inspetor Escolar (Seeduc/RJ), doutorando em Educação (Ulbra)

Antecedentes

Mais de um século depois da abolição da escravidão no Brasil, com a assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel, em 13 de maio de 1988, passou a vigorar, a partir do dia 09 de janeiro de 2003, a Lei Federal nº 10.639/03, tornando obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira nas escolas públicas e privadas que oferecem o Ensino Fundamental e o Ensino Médio. Contudo, a cultura e a história dos povos indígenas ficaram de fora do dispositivo legal. Diante disso, cinco anos depois da implementação da Lei Federal nº 10.639/03, após forte pressão e reivindicação das organizações indígenas e dos setores da sociedade engajados na defesa da causa do índio brasileiro, o estudo da história e cultura dos povos originários foi incluído com a publicação em 10 de março de 2008, da Lei Federal nº 11.645/08. Todavia, apesar da vitória dos povos indígenas e dos afro-brasileiros, a promulgação do dispositivo legal, consequentemente, trouxe à tona alguns questionamentos importantes do ponto de vista do cumprimento da legislação em vigor, tais como: será que o dispositivo legal está sendo efetivamente cumprido nos Colégios Estaduais? Como as novas tecnologias de informação e comunicação podem facilitar e dinamizar a implementação da legislação em questão, sobretudo, em tempos de COVID-19? Será que o planejamento pedagógico (PP) dos docentes, lotados nas 1.230 escolas mantidas pela Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (Seeduc/RJ) está contemplando o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena?

Estratégias pedagógicas e o papel da comunidade escolar para o cumprimento da Lei Federal n° 11.645/08

Diante das incertezas mencionadas acima em relação a oferta do estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena, levando em conta o ideal de gestão participativa e “que somos chamados a construir novos ‘formatos’ escolares, que respondam aos desafios sociais, culturais e educacionais que enfrentamos hoje” (Candau, 2016). Cabe à comunidade escolar como um todo a iniciativa de formular, reformular e desenvolver metodologias, alternativas pedagógicas que sejam capazes efetivamente de garantir que os alunos tenham acesso aos conteúdos voltados para a história e a cultura, de tal modo que os discentes possam discutir e reconhecer a relevância do negro e do índio para a econômica, política, mundo do trabalho, artes, ciência e em muitas outras áreas.

Em continuidade, considerando que o problema da precariedade ou até mesmo eventualmente da ausência de conteúdos de história e cultura afro-brasileira e indígena nas salas de aula ou em outros ambientes pedagógicos não é de responsabilidade exclusivamente do corpo docente, mas, também da gestão e coordenação pedagógica. Podemos, então, concluir que a solução dessa questão depende, necessariamente, da capacidade de mobilização e entrosamento entre direção, professores e o pedagógico. Além da participação de pais ou responsáveis e alunos em todas as etapas do processo de planejamento e realização das atividades que visam a promoção do estudo da história e cultura dos povos originários e afro-brasileiros. Uma vez que a representatividade e legitimidade das ações dependem do nível de envolvimento, interação entre os atores do processo de aprendizagem. Portanto, olhando por esse prisma, os responsáveis e os alunos não são tratados como, simplesmente, coadjuvantes da proposta. Mas, muito mais que isso! Todos eles são considerados protagonistas, ou seja, parte integrante da equipe de organização e desenvolvimento das metodologias, escolha de conteúdos e estratégias de avaliação e recuperação da aprendizagem, que concorram a favor de forma eficiente do estudo de história e cultura negra e indígena. Mas, porque o projeto precisa ser planejado e desenvolvido dando ênfase ao envolvimento e autonomia do aluno? Na opinião de Moraes (1997), “o aspecto mais grave está no fato de que a maioria dos projetos desconsidera o aprendiz como principal centro de referência de toda ação educacional” (p. 15).

Em prosseguimento, o presente artigo se propõe em apresentar uma estratégia que possa contribuir para o cumprimento do dispositivo legal em tela, no sentido de sugerir a utilização dos recursos audiovisuais e interacionais da plataforma de compartilhamento de vídeos YouTube que foi empregado no ano letivo de 2020 e está sendo colocado em prática em 2021, inclusive, com sucesso pela comunidade escolar do Colégio Estadual Jornalista Álvaro Bastos (Cejab), em funcionamento em Macaé, município localizado na Região Norte Fluminense, a 176 quilômetros de distância da capital, Rio de Janeiro, com população estimada em 261.501 habitantes. Sendo assim, para o ano letivo de 2021, a proposta inicial para o uso dos recursos da rede social YouTube como alternativa para o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena foi organizado e desenvolvido pelo Cejab em duas etapas, sendo que a primeira foi subdivida em três partes, cujas estratégias poderão, inclusive, ser empregadas por outras escolas da rede. Segundo a coordenação pedagógica, em março de 2021, o Cejab tinha 49 professores, 976 alunos matriculados e 25 turmas.

1ª Etapa

Em cumprimento ao Calendário Escolar para o ano letivo de 2021, durante o período destinado para a realização do Planejamento Pedagógico, professores, diretores, coordenadores pedagógicos, representantes do corpo discente e dos responsáveis participaram de reuniões remotas entre os dias 03 a 05 de fevereiro. Os encontros virtuais foram realizados com o intuito de promover debates sobre a organização em termos administrativos e, sobretudo, pedagógicos para o ano letivo de 2021, com início previsto para 08 de fevereiro. Durante e após o período de planejamento, os docentes enviaram por e-mail os planos de estudo para o pedagógico. Segundo relato da coordenação, a partir daí, então, começava a 1ª etapa dos trabalhos, subdividida em três partes, da proposta de utilização da rede social YouTubecomo facilitador do estudo da história e cultura afro-Brasileira e indígena.

1ª Parte: Num primeiro momento, os membros da equipe de coordenação pedagógica recepcionaram os envios dos planos de estudo com o objetivo de verificar se os documentos contemplaram suficientemente conteúdos relacionados com a história e cultura afro-brasileira e indígena.

2ª Parte: Depois, num segundo momento, a coordenação convidava principalmente os professores que não contemplaram nos planos de estudo de modo suficiente um estudo relacionado com as questões do negro e do índio, para participar de encontros remotos visando à apresentação de sugestões de inclusão da plataforma de compartilhamento de vídeos YouTube como um instrumento audiovisual e interativo facilitador do estudo de temas relacionados com a cultura e a história dos negros e dos povos indígenas.

3ª Parte: O terceiro momento consistia na realização de videoconferências com os professores para a apresentação de sugestões de vídeos disponíveis no YouTubevoltados para o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena. Contudo, a coletânea de filmes que era sugerida aos docentes tinha sido escolhida previamente pelos discentes que tinham participado de encontros virtuais com a coordenação sobre a utilização de palavras-chave e mecanismos de busca na internet. Portanto, os estudantes ficavam responsáveis pela realização da pesquisa de campo online para verificar a existência de compartilhamento de vídeos na plataforma YouTubesobre o tema em questão. Desse modo, a escola fazia o caminho inverso, ou seja, não eram os professores que escolhiam os filmes, mas, ao contrário, eram os alunos que elegiam os vídeos a partir das suas próprias pesquisas, necessidades e interesses. Olhando por esse prisma, um dos maiores desafios da educação nos dias de hoje consiste em reconhecer o protagonismo discente como sujeito capaz de escolher caminhos e propor alternativas para a sua vida escolar. Mas, por que a escola incentivou, deu autonomia aos estudantes para realizar pesquisas de campo eletrônicas? De certo, a iniciativa do pedagógico foi coerente, posto que “a pesquisa é fundamental para descobrir e criar”. (Demo, 2001, p. 34). Uma vez que “é o processo de pesquisa que, na descoberta, questionando o saber vigente, acerta relações novas no dado e estabelece conhecimento novo” (Demo, 2001, p. 34). Além disso, “é a pesquisa que, na criação, questionando a situação vigente, sugere, pede, força o surgimento de alternativas” (Demo, 2001, p. 34).

Além disso, no contexto do reconhecendo da capacidade de criar e inovar do aluno e do protagonismo do mesmo no processo de construção do seu próprio conhecimento, a equipe gestora com o apoio do pedagógico, no final do ano passado, começou um trabalho de mobilização dos estudantes, promovendo reuniões remotas com o objetivo de incentivá-los na produção dos seus próprios vídeos sobre história e cultura afro-brasileira e indígena, através da utilização dos recursos de produção e compartilhamento do YouTube. Assim, a equipe de gestão e Coordenação Pedagógica conseguiu perceber que o estudante “atua na sua realidade, constrói o conhecimento [...] utilizando todo o seu potencial criativo, o seu talento, a sua intuição, o seu sentimento, as suas sensações e as suas emoções” (Moraes, 1997, p. 84).

Além dos filmes do YouTube, a coordenação também enviou para os professores sugestões de roteiro de estudo para dar suporte teórico as discussões sobre os vídeos durante as aulas remotas. O roteiro foi elaborado pelo pedagógico e pelos alunos durante as videoconferências realizadas em 2020. Segundo a Equipe de Coordenação Pedagógica, os estudantes escolheram o seguinte nome para o roteiro: “5R” ou roteiro de “reconhecimento”.

Quadro 1: Roteiro 5R

Reconhecimento da importância da interculturalidade no ambiente escolar como forma de superação da monocultura herdada do período colonial.

Reconhecimento das contribuições do negro e do índio para o desenvolvimento econômico, cultural, artístico e científico do país.

Reconhecimento da importância das ações e políticas de reparação e de combate à discriminação racial.

Reconhecimento da existência da desigualdade racial e da necessidade de ações e políticas de promoção da igualdade racial.

Reconhecimento e respeito à herança cultural indígena e afro-brasileira.

Tema escolhido pelo professor.

Fonte: Adaptado do roteiro original 5R – Cejab (2020).

2ª Etapa

O pedagógico criou um grupo de trabalho (GT) para fins de elaboração e implementação da metodologia de avaliação da proposta de utilização da rede social YouTube, como facilitador do estudo da história e cultura afro-brasileira. A partir daí, então, foi proposto um cronograma de encontros virtuais para construção do instrumento de avaliação. E, após algumas reformulações, o GT apresentou dois questionários eletrônicos, um para o preenchimento do professor e outro para o estudante. O questionário foi elaborado no Google Forms, tendo em vista que o Formsfoi considerado um recurso eficaz na organização e registro automático das respostas enviadas, dispondo todas as postagens de forma individualizada numa planilha eletrônica. Além disso, o Formsfoi escolhido porque gera automaticamente dados estatísticos e gráficos que ajudam na consolidação dos resultados e reformulação do projeto.

A avaliação elaborada pelo GT rompeu com a função classificatória, que na opinião de Luckesi (2003) serve apenas para estigmatizar docentes e discentes em bons ou ruins. Além disso, o modelo de avaliação para fins de classificação não permite a reformulação e aperfeiçoamento do projeto educacional, tendo em vista que “constitui-se num instrumento estático e frenador do processo de crescimento” (Luckesi, 2003, p. 35). De fato, o modelo de avaliação apresentado pelo GT não foi pensado para criticar ou desqualificar o trabalho docente nem para atribuir uma nota ao desempenho discente. Mas, diferentemente, foi observado que a estratégia de avaliação foi construída, sobretudo, com a intenção de obter e consolidar informações visando à reformulação e aperfeiçoamento da metodologia utilizada. Portanto, as pessoas não eram avaliadas, mas sim a metodologia. Assim, é possível perceber que a proposta de avaliação do GT “desemboca num posicionamento de ‘não indiferença’, o que significa obrigatoriamente numa tomada de posição sobre o objeto avaliado” (Luckesi, 2003, p. 33).

Além de contribuir para o aperfeiçoamento contínuo da proposta, o formulário eletrônico de avaliação para preenchimento do professor foi criado, inclusive, para garantir a renovação dos temas do roteiro de estudo, inicialmente denominado pelos alunos de “R5” ou “roteiro de reconhecimento”. Também foi criado para viabilizar a participação docente na construção do roteiro com a inclusão da pergunta visualizada no questionário abaixo com símbolo asterisco na cor vermelha. Além disso, o GT decidiu tornar a pergunta “nome” opcional para manter o anonimato de docentes e discentes que eventualmente optarem por não se identificar.

Quadro 2: Formulário de Avaliação - Professor

Perguntas

Respostas

Nome:

Texto de resposta curta

Disciplina:

Múltipla escolha

Turma:

Múltipla escolha

Como estava a qualidade do som e imagem do vídeo?

Múltipla escolha: excelente, boa, regular, ruim

Você gostou de ter usado a rede social YouTube como recurso pedagógico para o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena?

Múltipla escolha: muito, pouco, não gostei

Qual foi o nível de interação (interesse) da turma?

Múltipla escolha: excelente, bom, regular, ruim

Qual é a sua opinião sobre a eficácia em termos de aprendizagem do roteiro de estudo “R5” ou “roteiro de reconhecimento”?

Múltipla escolha: excelente, bom, regular, ruim

Você incluiu um tema no roteiro de estudo? Caso tenha incluído, favor enviar o tema para o e-mail da coordenação pedagógica.

Múltipla escolha: sim ou não

Anote aqui as suas críticas e sugestões

Texto de resposta longa

Fonte: Adaptado do questionário original elaborado pelo GT Cejab (2020).

Quadro 3: Formulário de Avalição – Aluno

Perguntas

Respostas

Nome:

Texto de resposta curta

Disciplina:

Múltipla escolha

Turma:

Múltipla escolha

Como estava a qualidade do som e imagem do vídeo?

Múltipla escolha: excelente, boa, regular, ruim

Os colegas interagiram com o professor?

Múltipla escolha: muito, pouco, não interagiu

O roteiro de estudo ajudou no desenvolvimento da aula?

Múltipla escolha: muito, pouco, não ajudou, não foi utilizado

Você gostou de ter usado a rede social YouTube como recurso pedagógico para o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena?

Múltipla escolha: muito, pouco, não gostei.

Anote aqui as suas críticas e sugestões

Texto de resposta longa

Fonte: Adaptado do questionário original elaborado pelo GT Cejab (2020).

Justificativa para o uso do YouTube como alternativa pedagógica para o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena

Segundo a direção a ideia de utilizar a rede social YouTube para fins de ensino surgiu inicialmente em fevereiro de 2019, após a entrega do planejamento, posto que durante a leitura dos planos de estudo a coordenação pedagógica constatou que a maioria dos professores teriam que reforçar, ampliar os conteúdos sobre a história e cultura afro-brasileira e indígena. Além disso, a iniciativa da escola se justifica por conta do fascínio dos jovens em relação ao uso das novas tecnologias, principalmente as conectadas a internet. Nesse sentido, a atuação da gestão e equipe pedagógica não se restringe em apenas, simplesmente, acompanhar as práticas docentes, mas, muito mais que isso! Os gestores e coordenadores também podem propor ao professor a utilização de ferramentas de ensino mais significativas, atraentes para os estudantes. Tendo em vista que a aprendizagem não acontece exclusivamente nas dependências da escola com o uso do quadro branco, caneta e apagador ou lousa e giz, mas, também acontece através de outros instrumentos, como por exemplo, as mídias sociais.

A educação deve ser pensada de forma ampla. O aprendizado dá-se não somente no âmbito dos muros da escola, mas também com a tecnologia, com a família, com os amigos e com o convívio em sociedade e, ainda, com, para e através dos meios de comunicação (Busarello; Bieging; Ulbricht, 2013, p. 5).

A iniciativa do Cejab no que diz respeito a busca de alternativas pedagógicas que pudessem concorrer a favor da ampliação dos conteúdos voltados para estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena também se justifica por conta dos indicadores que apontam a existência de desigualdade racial no âmbito do mercado de trabalho, distribuição de renda, representatividade no poder, frequência escolar e violência.

Desigualdade racial no mercado de trabalho e distribuição de renda

De acordo com o resultado da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad), divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2020, 56,1% se declararam negros. O percentual representa o total das pessoas que se declararam pardas e negras, tendo em vista que para o IBGE os pardos também compõem a população negra do país. Assim, dos 209,2 milhões de habitantes, 19,2 milhões se assumiram como negros, enquanto 89,7% milhões se declaram pardos. Todavia, apesar da superioridade populacional, estudo concluído pelo IBGE e apresentado no Gráfico 1 revelou que 2018, a força de trabalho do país era composta por 54,9% de negros. Porém, apesar dos negros representarem mais da metade da força de trabalho, entre os desocupados, eles estavam em maior número, representando 64,2% da população do país. O estudo em tela mostra ainda as taxas de subutilização de acordo com o grau de escolaridade.

Gráfico 1: Força de trabalho

Fonte: Informação Demográfica e Socioeconômica nº 41, IBGE (2019).

Ainda sobre a questão do mercado de trabalho, levantamento do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, feito em parceria com a Fundação Getúlio Vargas e em cooperação com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), por sua vez, conforme visualização do Gráfico 2, revelou que, em 2015, apenas 4,9% das cadeiras nos conselhos de administração das 500 maiores empresas do país de maior faturamento eram ocupados por negros. Já em relação aos cargos de executivo a situação ainda era pior, uma vez que os negros ocupavam somente 4,7% dos cargos. Já no que diz respeito à desigualdade racial na distribuição de renda, de acordo com o IBGE, no Brasil, negros e pardos recebem menos se comparado com os brancos, tendo em vista que em 2018, o rendimento médio domiciliar per capita deles era em média R$ 934,00, enquanto o rendimento médio dos brancos era quase o dobro, ou seja, R$ 1.846,00.

Gráfico 2: Executivos e membros de conselhos de administração

Fonte: Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social (2016).

Desigualdade racial no Legislativo e no Judiciário

Matéria publicada em 19 de novembro de 2020 pela agência de notícias Lupa mostrou que, no Congresso Nacional, os negros somavam 22,4% dos deputados federais e 28,9% dos deputados estaduais, entre os candidatos eleitos em 2018. Enquanto o Grupo de Estudos Multidisciplinares de Ação Afirmativa (Gemaa) publicou dados do Censo do Poder Judiciário do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O censo do Judiciário deu ênfase na questão da desigualdade racial na carreira da magistratura no período compreendido entre os anos 1988 a 2015. A pesquisa foi realizada no âmbito dos cinco tribunais superiores, a saber: Supremo Tribunal Federal (STF), Superior Tribunal de Justiça (STJ), Tribunal Superior do Trabalho (TST), Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e Superior Tribunal Militar (STM). Vale destacar que o trabalho de pesquisa ilustrado na Figura 1abaixo mostrou que nenhum indígena ocupou o cargo de magistrado nos tribunais superiores do país.

Figura 1: Censo do Poder Judiciário

Fonte: Grupo de Estudos Multidisciplinares de Ação Afirmativa (Gemaa/UERJ) (2015).

Desigualdade racial nos índices de violência e de frequência escolar

Em 2017, pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada/Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostrou que 75,5% das pessoas assassinadas eram negras ou pardas, representando um total de 49.524 mortes. Além disso, a possibilidade de um jovem negro ser morto era 2,5 vezes maior em relação a chance de um jovem branco se tornar vítima de homicídio. Já em relação à população carcerária, de acordo com os dados mais recentes divulgados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, em junho de 2017, 61,6% dos detentos eram negros ou pardos, enquanto os brancos tinham um percentual de detenção de 34,38%. Já no que diz respeito aos indicadores educacionais, apesar dos avanços significativos em relação ao acesso e frequência escolar de negros e pardos, sobretudo, por conta das políticas de cota racial, a visualização do Gráfico 3 indica que os brancos continuam sendo majoritários na primeira e segunda etapas da Educação Básica e no Ensino Superior.

Gráfico 3: Frequência escolar

Fonte: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (IBGE, 2019).

Referencial teórico para utilização do YouTube como recurso pedagógico para o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena

A obra Mídia e educação: novos olhares para a aprendizagem sem fronteira consiste numa alternativa para compor juntamente com outras o referencial teórico sobre o uso e eficácia das tecnologias de informação e comunicação como ferramenta de aprendizagem, principalmente em virtude do poder sedutor dessas tecnologias sobre os jovens. Além disso, considerando que no contexto da contemporaneidade, a tecnologia de informação e comunicação está fortemente presente no cotidiano das pessoas em incontáveis situações da atividade humana. Por essa razão, o estudo de Sociedade em Redes, bem como de A Galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade, também poderão compor o arcabouço teórico, uma vez que ajudam no estudo sobre a presença da tecnologia nas rotinas diárias do ser humano.

Em continuidade, levando em conta que nos tempos atuais, ainda persiste no âmbito educacional o esforço de manutenção da monocultura de mentalidade colonial, que não reconhece a existência e presença de outras culturas e identidades na escola. Assim, a temática sobre a interculturalidade no contexto escolar como possibilidade de superação da monocultura pode ser encontrada nos textos Educação intercultural e cotidiano escolar e Direitos humanos, educação e interculturalidade: as tensões entre igualdade e diferença. Já em relação à questão da interculturalidade indígena e de fronteira, temos a opção de utilizar a coletânea de artigos reunidos na obra Faces da interculturalidade, produzida durante a realização do 56º Congresso Mundial de Americanistas, realizado em 2017, na Cidade de Salamanca, Espanha. Além disso, o estudo da obra Educação intercultural: desafios e possibilidade, também é alternativa que poderá ser utilizada como base teórica, pois fornece subsídios para a escolha de ferramentas que concorrem a favor da operacionalização do diálogo intercultural, especialmente no cotidiano escolar.

Produto

A iniciativa da comunidade escolar tem o potencial de produzir materiais lúdicos e pedagógicos voltados para o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena, tendo em vista que além do incentivo para que os alunos produzam os seus próprios vídeos através das mídias sociais, incluindo a plataforma de compartilhamento YouTube, outros produtos também poderão surgir durante o desenvolvimento dos trabalhos conforme os gostos e interesses dos professores e alunos.

Considerações finais

Durante o trabalho de pesquisa sobre a iniciativa do Cejab, foi possível perceber que as escolas têm um papel decisivo na implementação efetiva da Lei Federal nº 11.645/08. Todavia, a inclusão de conteúdos de história e cultura afro-brasileira e indígena nos planos de estudo não visa apenas o cumprimento da legislação em vigor. Mas, muito mais que isso! Tem o intuito de promover o conhecimento e a valorização da herança cultural negra e dos povos originários como uma forma, inclusive, de contribuir para a erradicação das práticas e sentimentos racistas presentes na sociedade brasileira. Além disso, o trabalho desenvolvido pela escola mostrou que o YouTube e as demais redes sociais podem contribuir de modo significativo para a aprendizagem, principalmente em tempos de covid-19. No entanto, considerando que a pesquisa de campo foi feita numa escola vazia, surgiu, inevitavelmente, o sentimento de que as mídias sociais não substituem a partida de futebol na quadra da escola, o bate papo dos alunos no pátio durante o intervalo, a troca de vivências e saberes entre os estudantes na biblioteca, laboratório, sala de aula e em outros espaços de aprendizagem, o cafezinho na sala dos professores, o almoço com os amigos no refeitório da escola, o encontro, o abraço, o aperto de mão. Contudo, por outro lado, apesar do distanciamento imposto pela pandemia por um longo período de tempo, a partir da iniciativa da gestão e do pedagógico, alunos e professores encontram um modo de minimizar o isolamento social abraçando a ideia de transformar a rede social YouTube numa ferramenta pedagógica, numa alternativa bem-sucedida de aproximação e para o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena.

Referências

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Publicado em 15 de junho de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

ARAUJO, Marcelo Brandão. O YouTube como facilitador do estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena. Revista Educação Pública, v. 21, nº 22, 15 de junho de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/22/o-youtube-como-facilitador-do-estudo-da-historia-e-cultura-afro-brasileira-e-indigena