A Aventura na perspectiva de professores de Educação Física escolar

Dimitri Wuo Pereira

Licenciado em Educação Física, mestre em Educação Física, doutor em Educação (Senac-SP)

Igor Armbrust

Licenciado em Educação Física, mestre em Educação Física (Ludens Guarujá)

A Educação Física escolar no final do século XX passou por diversos dilemas, que vão do reconhecimento profissional ao estabelecimento como área de conhecimento, chegando ao conflito entre ciências sociais e ciências biológicas, culminando com diversas abordagens que procuravam encontrar a melhor metodologia para o ensino (Pereira, 2017).

Muitas delas acenavam para a compreensão de o objeto de conhecimento da Educação Física ser a cultura corporal, ainda que por diferentes interpretações; assim, as propostas de ensino para a Educação Física Escolar foram além da lógica esportivista (Rosário; Darido, 2005).

O século XXI iniciou com diversas propostas dos governos federal, estaduais e municipais reconhecendo a Educação Física como forma de linguagem que tematiza a cultura corporal de movimento como objeto a ser estudado, portanto posicionando a Educação Física como instrumento de mediação entre os seres humanos através do corpo e seus movimentos (Betti, 2007; Brasileiro et al., 2016). Essa visão amplia a abrangência do corpo de conhecimentos no qual a área se estabelecia, não ficando restrita ao esporte competitivo e mais especificamente às modalidades com bola (futebol, voleibol, basquetebol e handebol), que eram os principais e quase exclusivos conteúdos desenvolvidos nas aulas (Brasil, 1998; Boscatto; Darido, 2018).

A partir das pesquisas e avanços sobre as compreensões de um corpo de conhecimento cada vez mais diversificado, os conteúdos consolidados por documentos anteriores (Brasil, 1997; 1998) como esportes, ginásticas, jogos e brincadeiras, lutas e danças ganharam notoriedade com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento que normatiza a Educação no país tanto quanto os documentos curriculares de estados e municípios passaram a reconhecer e valorizar outros conhecimentos, como as práticas corporais de Aventura como relevantes na formação das crianças (Brasil, 2017).

Nesse ínterim, a BNCC ousa em estabelecer mais um elemento que a sociedade, a cada dia, demonstrava maior apreço e aceitação. Trata-se das atividades cujo interesse está em desafiar a natureza, a arquitetura urbana e as próprias inseguranças em propostas arriscadas e perigosas, pelo simples prazer da superação e do desfrute de ambientes pouco usuais, como montanhas, mares, rios, paredes, ladeiras e ventos (Severino; Pereira; Santos, 2016; Inácio et al., 2016). A Aventura foi apresentada oficialmente como unidade temática para todos os estudantes brasileiros, de forma tímida, mas específica, no Ensino Fundamental II, com o nome Práticas Corporais de Aventura, nome que designa uma relação direta com a ideia de cultura corporal de movimento.

Nesse lavor, elogia-se a inciativa do grupo que sentiu a necessidade, já enaltecida por diversos autores a respeito da Aventura na Educação Física escolar (Pereira; Armbrust, 2010); todavia, entende-se que há um equívoco na nomenclatura, pois o conceito de Práticas Corporais de Aventura, exprime a Aventura como uma locução adjetiva, isto é, a Aventura é uma qualidade da prática corporal. Por outro lado, todas as outras unidades temáticas da BNCC – Esporte, Dança, Luta, Ginástica, Jogos e Brincadeiras – são identificadas por substantivos; portanto, têm seus nomes próprios definidos e valorizados, criando na sociedade uma ideia clara dos objetos de estudo, práticas e intenções a que se destinam. Apenas a Aventura ficou descrita como qualidade de algo que se faz dentro da cultura de movimento. Acredita-se que o uso do termo Aventura para identificação dessa prática corporal a colocaria no mesmo nível de compreensão para os estudantes, para os professores e para a sociedade e daria o mesmo valor a esse tema da cultura corporal, motivo pelo qual passamos a utilizar o termo Aventura doravante no texto.

A chegada no ano de 2018, através da BNCC, como tema obrigatório no Ensino Fundamental II causou preocupação nas unidades de ensino, principalmente por se tratar de um conteúdo novo, que se acredita não ter sido abordado na graduação para muitos professores e que, tendo o risco e perigo como elemento central da prática, poderia proporcionar inúmeros acidentes e problemas aos docentes (Pereira; Galindo; De Paula, 2017).

Como hipótese de estudo, acredita-se que há escassez de instituições de Ensino Superior (IES) que implementaram o conteúdo de Aventura na graduação; portanto, os professores de Educação Física escolar têm diversas carências em relação à inserção da Aventura em suas aulas.

Partindo dessa problemática, a pesquisa procurou conhecer melhor o que pensam os professores de Educação Física escolar sobre a Aventura em sua formação inicial e como entendem que deva ser sua atuação com essa unidade temática da BNCC, permitindo reflexões e buscando soluções para os problemas decorrentes dessa inovação.

Materiais e métodos

Estabelecido o objeto de estudo como a percepção dos professores sobre a Aventura na Educação Física escolar, definiu-se a pesquisa como descritiva com abordagem quantitativa e qualitativa (Severino, 2007), procurando caracterizar o perfil dos docentes, a atuação ou não com Aventura nas aulas e suas perspectivas.

O instrumento utilizado foi um questionário produzido pelos autores no formato semiestruturado, que continha questões fechadas e abertas permitindo conhecer padrões de respostas por estratificação de dados e as subjetividades a respeito do tema. O questionário foi distribuído de modo virtual via redes sociais: Facebook, Instagram e WhatsApp, com um formulário Google.

A amostra da pesquisa foi composta por 93 docentes de escolas públicas e privadas que atuam no ensino básico. Todos leram e autorizaram sua participação através da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. A pesquisa foi aprovada pelo comitê de ética da Uninove.

A análise de dados foi feita utilizando estatística descritiva de tendência central e de dispersão com média, moda, mediana, desvio padrão e porcentagem dos dados obtidos e a análise de conteúdo temático para interpretar a questão aberta de forma qualitativa (Bardin, 1999).

Perfil dos professores e professoras

Os respondentes graduaram-se em 47 IES públicas e privadas; a moda estatística demonstrou a Universidade Nove de Julho, que teve a disciplina de Aventura em sua grade curricular desde 2003, com 14 sujeitos, foi a que mais respondentes participaram da pesquisa. A abrangência da pesquisa foi nacional, tendo participantes das cinco regiões do país, com representantes dos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso, Goiás, Amazonas, Ceará, Paraíba e Bahia; o Estado de São Paulo tinha a maior quantidade de participantes, 71 no total.

Com relação ao período de formação dos professores, separou-se por décadas, obtendo-se os seguintes dados: 2010 a 2019 = 42%; 2000 a 2009 = 36,5%; 1990 a 1999 = 14%; 1980 a 1989 = 7,5%. Verificaram-se também aqueles professores que cursaram a disciplina de Aventura na graduação, por período de formação.

Gráfico 1: Professores que tiveram a disciplina de Aventura por década de graduação

Pelo demonstrado, percebe-se um acréscimo do conteúdo de Aventura nos cursos de formação de professores nas últimas décadas, em especial a partir de 2010. Das 47 IES, nas quais se graduaram, em 17 delas há confirmação de uma disciplina de Aventura por parte desses professores.

Foi possível revelar que, dos 68 sujeitos que se graduaram nas IES privadas, 44,1% tiveram a disciplina Aventura, enquanto dos 25 sujeitos das IES públicas, apenas 28% cursaram essa disciplina na graduação.

Do total de sujeitos, 39,8% informaram que cursaram a disciplina de Aventura, contra 60,2% que não obtiveram esse conhecimento em sua graduação. Quando questionados sobre a importância do tema Aventura na formação inicial, 97,8% disseram que consideram relevante, contra 2,2% que entenderam não ser importante. Os dois sujeitos que não consideram importante esse conhecimento na graduação formaram-se na década de 1990, não tendo esse tipo de conhecimento no currículo, um de uma instituição pública e outro de uma instituição privada.

Os dados mostraram três grupos de professores quanto ao tempo com que utilizam a Aventura como conteúdo escolar: o grupo dos mais experientes (com mais de cinco anos de atuação no tema) teve 40,8% de professores; o grupo intermediário (com dois a cinco anos de experiência com Aventura) teve 24,8% de sujeitos; e o terceiro, que iniciou com a vigência da BNCC, é formado por 34,4% dos professores. Do total 4,3% não trabalham com Aventura em suas aulas de Educação Física na escola.

A maioria dos participantes da pesquisa atua somente em escolas públicas (75%), a rede privada de ensino teve 14% de sujeitos na pesquisa, e os professores que atuam nas duas redes foram 11%.

Dificuldades da atuação na escola com a Aventura

A falta de materiais como cordas, skates e patins, entre outros, é apontada como empecilho para o ensino da Aventura na escola. Sobre isso, 82,8% dos sujeitos responderam que têm carência de equipamentos para as aulas de Aventura. Destes, 50,5% afirmam que procuram fazer adaptação, criação e improvisação de materiais para conseguir efetivar suas atividades práticas, 23,6% informaram que utilizam materiais próprios nessas aulas, 14% disseram que pedem para que os alunos tragam de suas casas os materiais (principalmente skates e patins) e 14% informaram que a escola fornece os equipamentos; outros 13% apontam que buscam parcerias com instituições públicas e privadas para a resolução do problema de falta de materiais. Dois professores disseram que aplicam apenas aulas teóricas, com vídeos, pesquisas e debates para levar esse conteúdo para suas aulas de Educação Física.

Estratificando-se os aspectos considerados complicadores para a colocação da Aventura nos planos de ensino escolares, descobriram-se cinco condições fundamentais.

Gráfico 2: Dificuldades de implantação na escola

As dificuldades em relação à estrutura vão desde o espaço físico da instituição até os equipamentos necessários para uma boa atuação, e são o principal entrave para 77,4% dos sujeitos. A gestão escolar nem sempre apoia as ações dos professores, sendo citada para 36,6%. Os riscos da prática são apontados como fator de receio por 31,2%. A falta de formação é o quesito afirmado por 24,7%. O receio dos pais é indicado por 22,6% e 17,2% apontaram outros elementos, como custos, falta de vivência, medo dos próprios alunos e a imposição curricular.

A atuação com Aventura nas escolas

Em relação às modalidades escolhidas pelos professores como tema das aulas de Aventura nas escolas, observou-se que slackline e parkour foram as mais citadas, com 79,6% e 69,9% das respostas, respectivamente. O skate vem na sequência, com 57%. Escalada, orientação, trilha e bicicleta obtiveram entre 25% e 30% das respostas dos professores. Outras modalidades também foram explicitadas, porém, por menos de 10% de citações: patins, surfe, rapel e tirolesa, entre outras.

A estratégia de ensino apontada como a mais usada pelos professores que atuam com Aventura nas escolas é a ludicidade, com 89,9% do total dos sujeitos. Exercícios estruturados para aprendizagem de gestos técnicos foi a segunda mais apontada, com 67,7%. Conversas e debates com os estudantes foi a terceira mais escolhida pelos professores, com 65,5%; pesquisas e apresentação de vídeos ficaram com 46,2%. Trazer um convidado para a aula obteve 45% das respostas e a competição foi a atividade menos descrita, com apenas 14% dos professores utilizando-a como proposta de ensino da Aventura.

A questão sobre a série na qual os professores consideram que a Aventura deve ser desenvolvida no ensino básico mostrou que o Ensino Fundamental I, II e Médio são a opção de 80% dos professores para a inserção da Aventura na escola. No Ensino Infantil 57% dos professores consideram importante colocar a Aventura; 44% dos sujeitos afirmaram que deveria estar em todas as séries escolares.

A pergunta sobre a principal diferença que os professores percebem entre a unidade temática da Aventura na escola e as unidades temáticas do esporte, dança, luta, ginástica, jogos e brincadeiras, presentes na BNCC, mostrou que 56% entendem que a falta de capacitação dos professores é o fator mais importante. 

Quando se trata dos objetivos que os professores consideram que a Aventura pode atingir com os estudantes, há um entendimento geral de que competências motoras, emocionais, sociais e cognitivas podem ser alcançadas, porém, o aspecto mais relevante para os professores foi a competência emocional, com 87% dos professores destacando esse objetivo; 11,8% dos professores disseram outras competências, e quando analisamos suas opções verificaram-se respostas relacionadas principalmente à ampliação do acervo da cultura corporal como meta a ser alcançada pelos alunos em relação à Aventura.

A interpretação da questão referente ao que levou o professor a inserir a Aventura em suas aulas de Educação Física foi feita a partir da análise de conteúdo temático, por seu caráter qualitativo, por se tratar de uma pergunta com respostas abertas.

As unidades de sentido nos conduziram a cinco categorias das principais motivações dos professores, as quais abordaremos a partir das falas dos professores:

1 – Formação: relacionada à graduação ou formação continuada dos professores e ao interesse pelo estudo da Aventura.

“Leituras e contatos com autores da área” (S78). “Participação em grupo de estudos e pesquisas sobre o tema” (S72). “Ter vivenciado na graduação” (S91). “Perceber na graduação a possibilidade de trabalhar esse tema na escola” (S52). “Aulas da pós-graduação em Educação Física escolar” (S38). “Projeto Residência Pedagógica” (S9).

2 – Prática pessoal: vivências que o professor já trouxe consigo.

“Sou praticante de várias práticas de Aventura” (S68). “Tenho muita afinidade com a prática de skate” (S43). “Já atuei no ramo de turismo de Aventura” (S33). “Prazer, eu gosto” (S31). “Atuar como atleta de patins inline” (S2).

3 – Ampliação do acervo cultural: referente à diversificação da cultura corporal de movimento, à motivação que as práticas de Aventura podem proporcionar e à possibilidade de prática em ambientes naturais e externos à escola.

“Ampliar as possibilidades de vivências para os alunos através de conteúdos motivadores” (S5). “Aventura é uma ferramenta para o desenvolvimento socioemocional, interpessoal intrapessoal e ecológico sustentável” (S10). “Aquisição de habilidades importantes no dia a dia dos alunos, superação, coragem, resiliência, concentração etc.” (S15). “Trabalhar emoções e motivações que às vezes não são trabalhadas nos esportes convencionais” (S28). “Aumentar o repertório das práticas corporais” (S85). “Para contemplar todos os aspectos da cultura corporal de movimento” (S93).

4 – Currículo: criação da BNCC e dos documentos estaduais e municipais que já explicitam a Aventura como tema da Educação Física escolar.

“Faz parte do currículo (S11). “A possibilidade transdisciplinar” (S20). “Agora faz parte da BNCC” (S21). “É um conteúdo que está na proposta curricular dos estados e municípios” (S35). “Por fazer parte do currículo da área” (S36). “A princípio para cumprir a grade curricular” (S74). “O currículo do Estado de São Paulo e a BNCC” (S75). “Ser conteúdo presente no currículo do município e no currículo norteador de todas as escolas – BNCC” (S89).

5 – Estudantes: a participação dos próprios alunos na escolha de conteúdos escolares, por seus interesses e curiosidades.

“Curiosidade dos alunos” (S50). “Principalmente a demanda dos alunos” (S71). “Pela procura dos alunos por esse tipo de aula” (S80). “Tem muitos alunos que gostam” (S83). “A demanda de jovens com curiosidade e querendo essa prática corporal na escola” (S86).

Discussão

De acordo com as respostas dos professores, considerando uma representação de abrangência nacional, foi possível observar que a maioria das IES ainda não apresenta, em sua grade curricular, uma disciplina para tratar do tema da Aventura. Além disso, foi apenas neste século que esse conteúdo começou a ser implantando nos cursos de formação, e esse problema afeta diretamente a preparação dos professores para dar uma resposta adequada ao desafio de ensinar Aventura na escola.

Há, no entanto, evidências de alteração nesse quadro, quando se verifica que a partir de 2010 houve acréscimo nas IES que colocaram o tema definitivamente nos cursos; além disso, Aventura está presente em todo o território nacional e a sinalização da BNCC sobre a obrigatoriedade do tema na Educação Física escolar deve acelerar esse processo.

Verificou-se ainda que IES privadas foram mais rápidas em dar essa resposta aos futuros professores, talvez pela necessidade de atender ao mercado de trabalho em crescimento e por um possível marketing que a Aventura pode representar aos estudantes. Em todo caso, há no país um quadro deficitário de docentes com competência técnica e científica para tratar do tema Aventura.

Sobre os professores, verificou-se que menos da metade estudou esse tema na graduação; apesar disso, 95,7% deles trabalham a Aventura em suas aulas, o que demonstra que encontraram em sua formação continuada e em suas competências individuais condições de suprir essa deficiência. Acredita-se que muitos têm experiências significativas a esse respeito, pois 40% já atuam há mais de cinco anos com Aventura e, deles, 76% são professores de escolas públicas, que em geral são aquelas com menos recursos.

A maior dificuldade apresentada pelos professores é a falta de recursos materiais e espaço físico adequado. As aulas de Educação Física foram historicamente projetadas para quadras e atividades esportivas com bolas, sendo escassos materiais como cordas, skates, fitas de slackline e bússolas, entre outros. Portanto, os professores adaptam e improvisam para conseguir atingir o resultado que esperam nas aulas de Aventura. Cerca de 20% deles utilizam equipamentos próprios para dar as aulas, e foram mencionadas soluções como pedir aos alunos que tragam de casa algum material, ou então fazer parcerias com praticantes das modalidades, o que mostra a dificuldade de apoio das instituições escolares ao professor, tanto que pouco mais de 10% das escolas adquirem o material de que o professor necessita para esse tema.

Quando se trata da escolha do professor pelo tema da aula de Aventura, o parkour e o slackline foram os mais citados, provavelmente por que o parkour não necessita equipamentos específicos para a prática e o slackline em função do baixo valor com que se consegue comprar uma fita adaptada de carga. Então, os fatores principais para a decisão do conteúdo são financeiros. O skate aparece em terceiro lugar por ser uma atividade já arraigada na cultura corporal brasileira. A escalada aparece na sequência e provavelmente não tem mais utilização nas aulas pela necessidade de ir à natureza ou então a construção de paredes de escalada, que elevam o custo da atividade. A trilha é o tema seguinte escolhido pelos docentes; tem o inconveniente de necessitar saídas da escola, e isso demanda logística de transporte e autorização dos pais.

A forma mais comum de aplicar as aulas foi com o uso do lúdico, afinal a Aventura é carregada de elementos simbólicos e da fruição própria do lazer, tanto que a competição foi a estratégia menos utilizada. Percebe-se que mais da metade dos professores utiliza as conversas e debates como forma de levar o conhecimento aos estudantes. Aqui se analisa que os professores estão trabalhando as questões conceituais sobre a Aventura nas aulas abrangendo diferentes competências humanas, mas o receio de acidentes e a falta de materiais os fazem evitar a dimensão procedimental.

A questão sobre a série ideal para introduzir a Aventura na Educação Física escolar mostrou o descompasso com a BNCC, pois os sujeitos da pesquisa acreditam, em sua grande maioria, que ela pode ser inserida na Educação Infantil, no Ensino Fundamental I e II e no Médio. Para eles, a temática pode abranger todas as idades escolares, diferentemente do que está exposto na BNCC.

Houve entendimento por parte dos professores de que a Aventura proporciona o desenvolvimento de atitudes e valores positivos nos alunos, sendo a competência mais alcançada nas aulas pelos alunos.

A interpretação das cinco categorias de sentido obtidas na análise de conteúdo temático permitiu uma compreensão dos aspectos mais significativos para os professores trabalharem com a Aventura em suas aulas.

Na categoria Formação, evidenciou-se que muitos utilizam a Aventura em suas aulas porque no âmbito da graduação, da pós-graduação, de grupos de estudo e do estágio eles obtiveram capacitação que os despertou a arriscar-se na Aventura como tema educacional.

Percebeu-se também, na categoria Prática pessoal, que há professores que, a partir de suas experiências com a Aventura, decidiram colocá-la no currículo escolar, o que mostra que a cultura corporal vivenciada continua sendo uma das formas com as quais os professores se inclinam a escolher seus conteúdos.

A categoria Ampliação do acervo cultural demonstrou que a Aventura é uma possibilidade de melhorar a motivação dos alunos nas aulas de Educação Física, que ela pode instigar a evolução de habilidades socioemocionais, motoras e intelectuais dos estudantes.

Não resta dúvida de que a nova BNCC foi impactante na decisão pela seleção do conteúdo Aventura pelos docentes, afinal eles apontaram com grande frequência na categoria Currículo os documentos legais como motivo para trazer o tema para suas escolas.

Por fim, na categoria Estudantes, foi notório perceber que os professores estão ouvindo os interesses e desejos das crianças e jovens para que a decisão final também seja coletiva; mesmo que esse não seja o motivo de todos os docentes, encontrar professores com esse espírito é gratificante para aqueles que acreditam num planejamento participativo.

Considerações finais

A proposição da Aventura na Educação Física escolar está mexendo com os professores e com as IES. Ambos estão repensando suas práticas e suas grades curriculares para se adequar à realidade social que as práticas de risco e perigo controlado representam na educação escolar.

Considera-se que ainda há avanços esperados no futuro em relação ao assunto, mas verificar que os professores estão procurando soluções e que os cursos estão alterando a formação inicial já é um ponto bastante positivo.

Entende-se que a questão dos materiais e espaços de prática seja debatida e alimentada pelo interesse da comunidade escolar para diminuir essa deficiência das aulas de Aventura, que, como fenômeno recente, ainda terão que lutar muito para adquirir mais aceitação e confiabilidade no ambiente escolar.

Ficou claro nesta pesquisa que a formação inicial e a continuada são os caminhos para desmistificar a Aventura na Educação Física escolar, que a decisão da inserção da Aventura na BNCC foi acertada, pois amplia ainda mais o acervo cultural dos educandos e que ouvir os interesses de crianças e jovens continua a ser uma exigência de qualquer proposta educacional.

Espera-se que mais estudos como este possam ser feitos para elucidar o tema e levantar discussões e propostas que enriqueçam as aulas de Educação Física na escola.

Referências

BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2008.

BETTI, Mauro. Educação Física e cultura corporal de movimento: uma perspectiva fenomenológica a semiótica. Revista de Educação Física, Maringá, v. 18, nº 2, p. 207-217, 2º sem. 2007.

BOSCATTO, Juliano Daniel; DARIDO, Suraya Cristina. Currículo e Educação Física escolar: análise do estado da arte em periódicos nacionais. Journal of Physical Education, Maringá, v. 28, n. 1, e-2855, fev. 2018.

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Básica. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília, 2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/. Acesso em: 8 maio 2019.

BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1997. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/. Acesso em: 23 jul. 2020.

BRASILEIRO, Livia Tenório; AYOUB, Eliana; MELO, Marcelo Soares Tavares de; LORENZINI, Ana Rita; PAIVA, Andrea Carla de; SOUZA Jr., Marcílio Barbosa. A cultura corporal como área de conhecimento da Educação Física. Pensar a prática, Goiânia, v. 19, nº 4, p. 1.003-1.013, out./dez. 2016.

INÁCIO, Humberto Luis de Deus; CAUPER, Dayse Alysson Camara; SILVA, Luiza Antônia de Paula; MORAIS, Gleison Gomes de. Práticas corporais de Aventura na escola: possibilidades e desafios – reflexões para além da Base Nacional Comum Curricular. Motrivivência, Florianópolis. v. 28, nº 48, p. 168-187, set. 2016.

PEREIRA, Dimitri Wuo. O pensamento complexo de Edgar Morin: subsídios teóricos para a superação da fragmentada formação o professor de educação física. 153f. Tese (Doutorado), Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Nove de Julho, São Paulo, 2017.

PEREIRA, Dimitri Wuo; GALINDO, Camila Bianca; DE PAULA, Renan Oliveira. Experimentando na escola a prática da Aventura. Revista Brasileira de Educação Física Escolar, São Paulo, ano 3, v. 2, p. 20-32, nov. 2017.

ROSÁRIO, Luis Fernando Rocha; DARIDO, Suraya Cristina. A sistematização dos conteúdos da Educação Física na escola: a perspectiva dos professores experientes. Motriz, Rio Claro, v. 11, nº 3, p. 167-178, set./dez. 2005.

SEVERINO. Antônio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. 23ª ed. rev. e atual. São Paulo: Cortez, 2007.

SEVERINO, Antônio Joaquim; PEREIRA, Dimitri Wuo; SANTOS, Vinícius Sampaio Feitoza dos. Aventura e educação na Base Nacional Comum. Eccos – Revista Científica, São Paulo, nº 41, p. 107-125, set./dez. 2016.

Publicado em 22 de junho de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

PEREIRA, Dimitri Wuo; ARMBRUST, Igor. A aventura na perspectiva de professores de Educação Física escolar. Revista Educação Pública, v. 21, nº 23, 22 de junho de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/23/a-aventura-na-perspectiva-de-professores-de-educacao-fisica-escolar