Breve história das mulheres e relação de gênero

Lyjane Queiroz Lucena Chaves

Mestranda em Educação (UERR), especialista no Ensino de Língua Portuguesa e Literatura (UERR) e no Ensino de História e Geografia (Faculdade Claretiano), licenciada em História (UFRR)

Este trabalho sobre a história das mulheres e relação de gênero busca discutir, analisar e refletir sobre a história das mulheres como um campo definível na historiografia, além de buscar compreender o conceito de gênero, temática que ainda está sendo construída na atualidade. A problemática principal deste artigo é buscar compreender a relação da história das mulheres com a política. O que o termo “movimento” tem a ver com a história das mulheres? Por que associar história das mulheres ao âmbito político?

Para enriquecer nosso artigo, tomamos como base referencial os seguintes autores e suas respectivas obras: Mary Del Priore, autora de Mulheres no Brasil Colonial e História das Mulheres no Brasil; Joan Scott, que publicou História das Mulheres; Rachel Soihet e Joana Maria Pedro, de A emergência da pesquisa da história das mulheres e das relações de gênero; Maria Santarcangelo, de A situação da mulher. Segundo nossas referências, há dificuldade em construir a história das mulheres; são poucas as teorias que tratam especificamente de tal história. Daí a disciplina de História entrar com papel fundamental nesse processo de construção da história da mulher. Ao longo deste artigo, vamos compreender esse campo historiográfico com a História em si, bem como a política, visto que, segundo Joan Scott, a história das mulheres está totalmente vinculada a uma questão de política; consequentemente, vamos adentrar o movimento feminista, considerando o ponto de partida para a construção de uma história das mulheres.

Outra questão a ser analisada é em relação a gênero, conceito que vem sendo muito discutido nas últimas décadas e que está muito associado à política e à teoria do estudo das relações entre homens e mulheres, e como são organizadas em diferentes épocas e sociedades.

Desenvolvimento

Segundo Joan Scott (1982), a história das mulheres e sua diferença sexual faz parte do campo historiográfico como objeto de estudo nas duas últimas décadas. Pouco se conhece sobre tal objeto num campo definível, em virtude de poucas teorias sobre o estudo da história das mulheres. Para melhor compreender essa dificuldade, Mary Del Priore, no seu livro Mulheres no Brasil Colonial – mesmo sendo restrito à época da colônia, serve para entender o geral –, explica:

Sua quase invisibilidade as identifica “aos de baixo”. Isso porque a maioria das mulheres era analfabeta, subordinada juridicamente aos homens e politicamente inexistente. [...] O sistema patriarcal instalado no Brasil Colonial, sistema que encontrou grande reforço na Igreja Católica que via as mulheres como indivíduos submissos e inferiores, acabou por deixar-lhes, aparentemente, pouco espaço de ação explícita (Del Priore, 2003, p. 9).

Apesar dessa dificuldade, a disciplina de História entra nesse processo de construção de uma história das mulheres: “A história deste campo não requer somente uma narrativa linear, mas um relato mais complexo, que leve em conta, ao mesmo tempo, a posição variável das mulheres na história, o movimento feminista e a disciplina da História” (Scott, 1992, p. 65).

Joan Scott utiliza muito o termo “movimento” ao se referir à história das mulheres. Ela afirma que essa história emergiu com o surgimento do feminismo. Um movimento de massas, que busca a igualdade entre os sexos e que pode ser definido como um processo não terminado de transformação da relação entre os gêneros:

Utilizo o termo “movimento”, deliberadamente, para distinguir o fenômeno atual dos esforços anteriormente disseminados por alguns indivíduos para escrever no passado sobre as mulheres, para sugerir algo da qualidade dinâmica envolvida nos intercâmbios no nível nacional e nos interdisciplinares pelos historiadores das mulheres e, ainda, para avocar as associações com a política (Scott, 1992, p. 64).

Em outras palavras, o “movimento” da história das mulheres tem como ponto inicial a política feminista, que tem origem na década de 1960, quando ativistas feministas reivindicavam uma nova história, a “sua própria” história. Foram as próprias mulheres que, antes dos historiadores, perceberam que estavam sendo marginalizadas da História. Em nosso referencial teórico, as autoras trazem a mesma problemática, que é a história das mulheres totalmente vinculada e inserida no campo político. Isso se dá porque as próprias feministas fizeram da História o seu campo de luta e crescimento para resgatar seu passado, alcançar seus objetivos e resolver seus problemas.

O movimento feminista cresceu em uma época em que estavam eclodindo diversos movimentos de libertação, como por exemplo os movimentos dos Direitos Civis, de igualdade racial e os movimentos homossexuais, entre outros. Cada vez mais determinados grupos estavam percebendo que suas vidas eram marcadas pela exclusão e pelo preconceito e que algo tinha que ser feito. Foi nesse contexto que as mulheres começaram a perceber que sexo é algo político, uma vez que é rodeado de poder e hierarquia. Segundo Maria Santarcangelo, as feministas são mais maduras e realistas; sobre tal movimento a autora comenta: “a mesma luta em prol dos direitos femininos ou a guerra dos sexos, iniciada há dois séculos, reacendeu sua chama a partir de 1960. Os movimentos feministas sempre tiveram uma expansão maior nos locais onde mais se evidenciava a participação da mulher” (Santarcangelo, 1980, p. 255).

Foi a partir desse impulso, desse conhecimento e desse contexto que em 1960 surgiu, primeiro nos EUA, o movimento feminista, espalhando-se por toda parte do mundo, criando uma identidade coletiva de mulheres que buscam no geral superar as desigualdades entre os sexos e lutar por direitos de cidadania para todos, o que está totalmente ligado a políticas públicas.

Vale salientar que, quando nos referimos à história das mulheres e política, não podemos deixar de lado a chamada “relação de gênero”, que, segundo Scott, está ligada às relações de poder entre os sexos. A história da categoria de gênero teve início com o movimento feminista na década de 1960-1970, porém, foi só na década de 1980 que a categoria gênero se concretizou. Como foi falado no início deste trabalho, gênero é uma temática que ainda está sendo construída, mas já relaciona-se com política e teoria. Ou seja, tal conceito foi consequência de discussões tanto políticas como teóricas.

A questão da interdisciplinaridade é de fundamental importância nos estudos sobre as mulheres. Por exemplo, segundo os estudos das Ciências Humanas, “gênero” está associado ao estudo das relações entre homens e mulheres, relações que são organizadas em diferentes épocas e sociedades. Outro exemplo dessa interdisciplinaridade é a Escola des Annales e o marxismo; ambos influenciam nessa construção da história da mulher e na forma como tem sido trabalhado o gênero na historiografia brasileira. A tradição historiográfica dos Annales busca ampliar suas fontes; consequentemente, contribui para que as mulheres sejam incorporadas à historiografia. Para o marxismo, a instauração da sociedade sem classe resolveria as diferenças entre homens e mulheres, considerando secundárias as questões étnicas.

A relação de gênero estabelece uma neutralização, uma diferenciação, é um estudo que considera homens e mulheres totalmente separados, porém é baseada nas distinções que a própria sociedade constrói e não em diferenças naturais. Em relação à construção do termo gênero, o artigo de Rachel Soihet e Joana Maria Pedro afirma que

a disciplina História é certamente a que mais tardiamente apropriou-se dessa categoria, assim como da própria inclusão de ‘mulher’ ou de ‘mulheres’ como categoria analítica na pesquisa histórica. [...] Grande parte desse retardo se deveu ao caráter universal atribuído ao sujeito da história, representado pela categoria ‘homem’. Acreditava-se que, ao falar dos homens, as mulheres estariam sendo, igualmente, contempladas, o que não correspondia à realidade (Soihet; Pedro, 2007, p. 284).

As mulheres foram garantindo seu espaço pouco a pouco, subindo degrau por degrau. Joan Scott, assim como Maria Santarcangelo, cita o movimento feminista principalmente nos EUA e França, mas, como nos afirma Scott, o feminismo já se tornou um movimento internacional, com características diferentes, peculiares, dependendo de região e nação (Scott, 1992, p. 67). As mulheres sempre buscaram construir seu espaço, sair da invisibilidade para a visibilidade, sempre lutaram para ser reconhecidas. No início, o movimento feminista tinha como único objetivo a conquista de votar, mas, com o tempo, percebeu que ainda havia muitos problemas a serem resolvidos, muitos sonhos a serem realizados.

Um bom exemplo dessa relação de gênero e construção da história das mulheres está nas mulheres nordestinas, que estão cada vez mais aumentando sua participação, exercendo atividades econômicas e políticas, além de muitas serem apaziguadoras de conflitos armados. Como sabemos, a sociedade nordestina é baseada no patriarcalismo, a presença do sexo masculino ainda é fortemente presente e, consequentemente, a história colocou a mulher nordestina de lado, mesmo sua atuação na sociedade sendo crescente. Um dos problemas que ocasionam essa baixa participação da mulher nordestina tem a ver com a própria história, com a estratificação social no processo de colonização e que até molda a cabeça de tais mulheres, que acham que o único papel delas é ser dona de casa. Segundo o artigo de Suzimar dos Santos Novais, as mulheres nordestinas estão ganhando espaço sobretudo no que diz respeito às ações de divórcio, petições de guarda de filhos e de herança e solicitações de emancipação.

Conclusão

Percebemos então que as mulheres sempre estiveram presentes, lutando para ganhar espaço e deixando sua marca. Com o tempo, perceberam que ainda tinham e têm muito por que lutar e muitos problemas a serem resolvidos, como a sexualidade e violência, autoritarismo, desigualdade entre os sexos, desigualdade salarial em relação aos homens. O feminismo já se consolidou. Percebemos também e, como nos mostra Santarcangelo, “A mulher desde os primórdios da humanidade vem participando das lutas e conquistas do homem, embora muitas vezes na obscuridade, no anonimato” (Santarcangelo, 1980, p. 243).

Conclui-se que a história das mulheres sempre esteve e sempre vai estar ligada à política, uma vez que provocou a evolução do feminismo. Ou seja, as feministas buscam o mesmo interesse: fim da subordinação aos homens, da invisibilidade e da impotência; a defesa do direito à igualdade e de controle sobre seu corpo e sua vida. Foi a partir de interesses nas políticas públicas que tal movimento ganhou força para construir tal história. Basta analisar o início do século passado, as marchas das “sufragettes” que expressaram a luta pelo direito do voto.

Cabe aqui finalizar o presente artigo com uma citação de Maria Santarcangelo:

Vimos, então, como a mulher de uma situação das mais servis, salvo em sociedades onde subsistiram traços matriarcais, no decorrer de séculos foi vencendo tabus e conseguindo uma posição cada vez mais elevada dentro da hierarquia social e doméstica; enfim, foi-se projetando na família, no trabalho, na religião, na comunidade (Santarcangelo, 1980, p. 244).

Referências

DEL PRIORE, Mary. Mulheres no Brasil Colonial. 2ª ed. São Paulo: Contexto, 2003.

NOVAIS, Suzimar dos Santos. Mulheres sertanejas: política, sociedade e economia. Fortaleza: Anpuh, 2009.

SANTARCANGELO, Maria Candida Vergueiro. A situação da mulher. São Paulo: Soma, 1980.

SCOTT, Joan. História das mulheres. In: BURKE, Peter (Org.). A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: Ed. UNESP, 1992.

SOIHET, Rachel; PEDRO, Joana Maria. A emergência da pesquisa da história das mulheres e das relações de gênero. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 27, nº 54, p. 281-300, 2007.

Publicado em 29 de junho de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

CHAVES, Lyjane Queiroz Lucena. Breve história das mulheres e relação de gênero. Revista Educação Pública, v. 21, nº 24, 29 de junho de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/24/breve-historia-das-mulheres-e-relacao-de-genero