Oralidade e alfabetização: implicações dos gêneros orais para o ensino e a aprendizagem

Mônica Duarte Silva Estrella

Graduada em Pedagogia (UNIRIO), professora da Educação Básica da rede municipal de Rio Bonito/RJ

Rafael Rossi de Sousa

Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e mediador a distância do curso de Pedagogia (UNIRIO)

Oralidade: um patrimônio imaterial

Todos os povos do mundo dispõem da linguagem oral. Esta é uma manifestação humana que adentra as relações sociais. Ou melhor, as relações sociais concretizam-se na e pela corrente da linguagem.

Sustentados na condição de que a relação do homem com o mundo não é direta, mas mediada pelos instrumentos de trabalho (ferramentas e objetos), temos a linguagem enquanto um dos elementos mediadores nas relações homem-mundo.

O uso da linguagem se constitui na condição mais importante do desenvolvimento das estruturas psicológicas superiores (a imaginação, a reflexão, memorização ativa, atenção voluntária, aspecto estes que contribui para o desenvolvimento do pensamento e da linguagem) da criança. O conteúdo da experiência histórica do homem, embora esteja consolidado nas criações materiais, encontra-se também generalizado e reflete-se nas formas verbais de comunicação entre os homens sobre os conteúdos. Assim, a interiorização dos conteúdos historicamente determinados e culturalmente organizados se dá, portanto, principalmente por meio da linguagem (Jobim e Souza, 1994, p. 125).

Dessa forma, podemos conceber a oralidade como o primeiro encontro rebuscado com a linguagem, pois em inúmeras culturas, a identidade do grupo estava sob guarda de contadores de histórias, cantores e outros tipos de emissários, que na prática eram autenticamente os portadores da memória da comunidade e essa memória perpassou de gerações em gerações enraizando-se como patrimônio imaterial de uma determinada comunidade. O filme Os Narradores de Javé (direção de Eliane Caffé. Brasil, 2003) mostra claramente a utilização da oralidade como patrimônio imaterial de uma determinada comunidade, quando narra a história de um distante vilarejo chamado Javé que estava prestes a ser destruído por causa da construção de uma usina hidrelétrica. Seus habitantes, ao saberem da notícia, logo procuraram uma alternativa para que a pequena vila não fosse destruída.

A solução encontrada pelos habitantes foi de escrever a história do vilarejo de Javé, que, por ter a maioria dos habitantes analfabeta, não possuía nenhum relato histórico documentado. Antônio Biá, por ser um dos poucos que sabiam ler, recebeu a missão de escrever o “livro Javérico”, que contaria toda a história do vilarejo baiano para que a região fosse considerada patrimônio histórico e cultural do país, impedindo assim o seu desaparecimento. Ao coletar informações com os moradores mais antigos observamos a veracidade dos fatos históricos acontecidos naquela região e como foram disseminados com o passar do tempo através da oralidade, que são poderes simbólicos que constituem a identidade de um determinado grupo social.

A organização da diversidade de fala em uma dada comunidade implica, pois, a organização dos meios linguísticos e é através dessa organização que se reflete o caráter criativo do uso da língua, […]. Inversamente, poderíamos dizer em acréscimo que a organização da diversidade social de uma dada comunidade ou grupo social implica a organização dos meios socioculturais e que é através dessa organização que se reflete o uso criativo dos meios sociais (normas e regras etc.) (COSTA, 1989, p. 13).

Daí, expõem-se as necessidades do entendimento e respeito às inúmeras variantes linguísticas, que a heterogeneidade dos alunos que frequentam o primeiro ano do ciclo de alfabetização traz para a sala de aula, pois uma determinada língua nunca é falada da mesma forma, sendo que ela estará sempre sujeita a variações, como por exemplo: no Nordeste, uniforme escolar é denominado “farda”; no Sudeste, apenas “uniforme”.

Na realidade, toda língua, que sirva a uma grande nação consideravelmente extensa e muito diferenciada cultural e socialmente, quer pertença a uma pequena comunidade isolada de algumas poucas dezenas de indivíduos, é um complexo de variedades, um conglomerado de variantes (Rodrigues, 2002, p. 11).

Essa variação nos leva a refletir o quanto a língua é rica e rebuscada, pois a linguagem se diferencia em épocas (o português falado hoje é diferente do português de 50 anos atrás), regionalidade (diferentes lugares, diferentes falas), grupo social (uso de “etiqueta”, assim como de gírias por determinadas “tribos”) e ainda as diferentes situações (fala formal e informal).

Há ainda outras variações, como, modo de falar de diferentes profissionais (linguagem técnica da área), as gírias das diferentes faixas etárias, a língua escrita e oral, nos oferecendo um cartel de possibilidades para seu estudo, compreensão e ampliação. Diante de tantas variantes linguísticas, é comum perguntar-se qual a forma mais correta. Porém não existe forma mais correta, existe sim a forma mais adequada de se expressar de acordo com a situação social, histórica e cultural a qual o indivíduo está inserido, assim todas elas devem ser respeitadas e exploradas em função de sua razão primordial: a comunicação entre os sujeitos que a utilizam.

Manifestação dialógica no 1º ano do ciclo de alfabetização: o diálogo no cotidiano das crianças

A linguagem oral, o diálogo e a interação entre professores e alunos é o componente principal do cotidiano das salas de aula. Assim, entender como funcionam essas trocas comunicativas e como, nelas, as crianças vão construindo sua linguagem e seu conhecimento linguístico, é uma das competências necessárias a qualquer professor, principalmente aos que lecionam no primeiro ano do ciclo de alfabetização.

A linguagem origina-se em primeiro lugar como meio de comunicação entre a criança e as pessoas que a rodeiam. Só depois, convertido em linguagem interna, transforma-se em função mental interna que fornece os meios fundamentais ao pensamento da criança. Como linguagem interior o pensamento nasce do complexo de inter-relações entre a criança e as pessoas que a rodeiam, assim estas mesmas são também a origem dos processos volitivos da criança (Vygotsky, 2007, p. 114).

Dessa forma, entendemos que é através das relações estabelecidas pelo meio social que a criança está inserida, onde inicia-se a internalização de conceitos, que permitem a formação de seu pensamento e por consequência o desenvolvimento da oralidade. As crianças estão evidenciadas à linguagem, porém o desenvolvimento linguístico de cada uma, com maiores ou menores capacidades de comunicação e uso eficiente da linguagem sofrem mediações da constituição psíquica, física e de possibilidades de interação social que a criança possui.

É de fundamental importância que o professor do primeiro ano do ciclo de alfabetização esteja atento ao acolhimento que deve ser disponibilizado ao aluno, pois é através de uma relação de carinho e cumplicidade, que o aluno se sentirá seguro e poderá se expor de forma dialógica.

O intercâmbio verbal da criança com o adulto favorece tanto seu desenvolvimento linguístico como o cognitivo, e as diferenças ambientais explicam, pelo menos em parte, as diferenças linguísticas. Esta interação inicia em casa e se prolonga na vida escolar, no contato da criança com seus pares e outros adultos (Wolff; Nazari, 2009, p. 154).

Esse diálogo necessita ser construído inicialmente de forma descontraída, em rodas de conversa informais ou sobre determinados assuntos do interesse dos alunos, onde não só a fala deve ser explorada, mas também a escuta atenta da fala de seus pares e da professora. Com o acolhimento efetuado e o aluno sentindo-se seguro para expor sua fala e suas ideias o professor não só pode como deve interferir nesta oralidade, questionando sobre determinado acontecimento, propondo aprofundamento e detalhes daquela situação a qual o aluno está narrando, de modo que o professor possa observar atentamente quais variantes linguísticas o aluno traz de sua cultura, o quanto narra fatos com ordem cronológica de acontecimentos, até onde observa atentamente e escuta a fala do outro, o quanto essa fala pode ser utilizada como conhecimento prévio para a introdução de novas habilidades e principalmente a exploração desse momento de diálogo para a construção de situações de comunicação ativa entre os alunos e entre o professor e seus alunos.

Quando o aluno adentra o Ensino Fundamental, traz consigo inúmeras maneiras de dialogar, as quais desenvolveu ao longo de sua vida. Entretanto é a partir dessa fala oriunda, exclusiva e particular de cada criança, que trabalharemos para a ampliação desta e desenvolvimento da língua padrão, de modo que ao ampliar seu vocabulário, tanto com as intervenções da escola e juntamente com as da vida cotidiana, respeitando a cultura que o aluno traz consigo, possa-se desenvolver e utilizar a língua padrão, pois é ela que nos leva a comunicação através da norma culta, nas diferentes situações sociais as quais ela se aplica.

O domínio da língua tem estreita relação com a possibilidade de plena participação social, pois é por meio dela que o homem se comunica, tem acesso à informação, expressa e defende pontos de vista, partilha ou constrói visões de mundo, produz conhecimento. Assim, um projeto educativo comprometido com a democratização social e cultural atribui à escola a função e a responsabilidade de garantir a todos os seus alunos o acesso aos saberes linguísticos necessários para o exercício da cidadania, direito inalienável de todos (Brasil, 1997, p. 21).

Dessa forma, sob a luz dos Parâmetros Curriculares Nacionais (Brasil, 1997), ao tratar do primeiro ano do ciclo de alfabetização, salienta a importância da prática de linguagem pela criança, sentindo-a como algo real, que precisa ter definição em função de seus conhecimentos. Desta forma, as atividades que envolvem as mais diversas formas de linguagem, são as que mais oportunizam a oralidade, pois participar de conversas, folhear livros e ouvir histórias, proporcionam atividades culturais desigualmente distribuídas socialmente, pois baseiam-se nas atividades de letramentos diversos do contexto histórico, social e cultural ao qual estão anexados. Incomensuráveis famílias não têm condições ou mesmo o hábito de inserir práticas de leitura em sua vida cotidiana, e dessa forma as crianças provenientes destes grupos familiares também não adquirem o hábito da leitura e das diferentes formas de linguagem, que podem desenvolver a expansão do vocabulário necessário, para que o diálogo, e consequentemente a oralidade, precedem a linguagem escrita. Grande é o número de crianças que frequentam o ciclo de alfabetização que ficam diante da televisão, nesse caso, ouvem muita linguagem, mas não podem interagir, falar com a televisão e sua programação. Em muitas famílias, a criança não tem voz ativa e sua fala é pouco absorvida pela família. Assim, podemos refletir sobre a importância da barganha verbal da criança com o adulto, no intuito de beneficiar seu desenvolvimento linguístico e cognitivo. Esta interação começa no seio familiar e aumenta na vida escolar, na relação da criança com seus sujeitos e outros adultos.

A Base Nacional Curricular Comum (Brasil, 2018), ao tratar da oralidade como eixo do ensino da Língua Portuguesa, define-a como

as práticas de linguagem que ocorrem em situação oral com ou sem contato face a face, como aula dialogada, webconferência, mensagem gravada, spot de campanha, jingle, seminário, debate, programa de rádio, entrevista, declamação de poemas (com ou sem efeitos sonoros), peça teatral, apresentação de cantigas e canções, playlist comentada de músicas, vlog de game, contação de histórias, diferentes tipos de podcasts e vídeos, dentre outras. Envolve também a oralização de textos em situações socialmente significativas e interações e discussões envolvendo temáticas e outras dimensões linguísticas do trabalho nos diferentes campos de atuação (Brasil, 2018).

O documento, ao tratar das habilidades orais, descreve que grande maioria daquelas descritas no eixo ‘leitura e produção de textos’ relaciona-se com o eixo oralidade e, elenca as habilidades que se relacionam mais especificamente com a modalidade oral, como segue no quadro.

Tabela 1: Habilidades relacionadas com gêneros e aspectos mais específicos da modalidade oral

Consideração e reflexão sobre as condições de produção dos textos orais que regem a circulação de diferentes gêneros nas diferentes mídias e campos de atividade humana

  • Refletir sobre diferentes contextos e situações sociais em que se produzem textos orais e sobre as diferenças em termos formais, estilísticos e linguísticos que esses contextos determinam, incluindo-se aí a multimodalidade e a multissemiose.
  • Conhecer e refletir sobre as tradições orais e seus gêneros, considerando-se as práticas sociais em que tais textos surgem e se perpetuam, bem como os sentidos que geram.

Compreensão de textos orais

  • Proceder a uma escuta ativa, voltada para questões relativas ao contexto de produção dos textos, para o conteúdo em questão, para a observação de estratégias discursivas e dos recursos linguísticos e multissemióticos mobilizados, bem como dos elementos paralinguísticos e cinésicos.

Produção de textos orais

  • Produzir textos pertencentes a gêneros orais diversos, considerando-se aspectos relativos ao planejamento, à produção, ao redesign, à avaliação das práticas realizadas em situações de interação social específicas.

Compreensão dos efeitos de sentidos provocados pelos usos de recursos linguísticos e multissemióticos em textos pertencentes a gêneros diversos

  • Identificar e analisar efeitos de sentido decorrentes de escolhas de volume, timbre, intensidade, pausas, ritmo, efeitos sonoros, sincronização, expressividade, gestualidade, etc. e produzir textos levando em conta efeitos possíveis.

Relação entre fala e escrita

  • Estabelecer relação entre fala e escrita, levando-se em conta o modo como as duas modalidades se articulam em diferentes gêneros e práticas de linguagem (como jornal de TV, programa de rádio, apresentação de seminário, mensagem instantânea, etc.), as semelhanças e as diferenças entre modos de falar e de registrar o escrito e os aspectos sociodiscursivos, composicionais e linguísticos de cada modalidade sempre relacionados com os gêneros em questão.
  • Oralizar o texto escrito, considerando-se as situações sociais em que tal tipo de atividade acontece, seus elementos paralinguísticos e cinésicos, dentre outros.
  • Refletir sobre as variedades linguísticas, adequando sua produção a esse contexto.

 Fonte: BNCC (2018, grifos do próprio documento).

Levando em consideração esses aspectos, nota-se a importância do diálogo no ciclo de alfabetização, como um dos fatores primordiais para a integração, acolhimento e desenvolvimento cognitivo dos alunos no processo de aquisição da leitura e escrita convencionais.

Interações orais para a construção e ampliação da escrita: um caminho partilhado

É inegável que o propósito do professor alfabetizador é acarrear o aluno do controle do código oral para o domínio do código escrito, devendo-se esperar deste profissional um arraigado conhecimento dos mecanismos de funcionamento da linguagem infantil e de seu desdobramento para auxiliá-lo apropriadamente no processo de alfabetização. Deste modo, ainda nos convém lembrar que a fala é o primeiro banho da língua e a alfabetização o encontro direto com ela; assim, entendemos que para o processo de alfabetização ser realizado com sucesso, necessita-se da junção da oralidade com a escrita.

O que diferencia a língua oral da escrita são principalmente as circunstâncias de uso. Utilizamos a língua oral, sobretudo, para a comunicação imediata, cara a cara, e a língua escrita, para nos comunicarmos através do tempo e do espaço (Wolff; Nazari, 2009, p. 155).

Além disso, entendemos que a linguagem oral é o que baseia os sistemas de escrita, de modos diversos e não exatos, mas trazem pressuposições significativas em seu desenvolvimento. Desta forma, a escrita é um registro visível do conhecimento humano que permite a reflexão sobre a linguagem.

Ao adentrar o primeiro ano do ciclo de alfabetização, o aluno já rompeu a hábil trajetória de ouvir, entender e falar, construída pela criança na conquista da linguagem oral e a partir dessa conquista, que o professor deve iniciar o processo. O encadeamento da leitura e da escrita convencionais necessita de uma base de consciência fonológica, sintática e semântica, uma linguagem ativa e o desenvolvimento de uma habilidade linguística geral viabilizarão empregar as palavras em contextos adequados reconhecendo diferenças e semelhanças em categorias verbais, manejar relações gramaticais, codificar foneticamente a informação gráfica, entre outras habilidades, uma delas seria a apropriação das práticas de letramento e este está incluso no processo de alfabetização. Para afirmar que alfabetização e letramento são dois fenômenos atrelados é preciso, em um primeiro momento, conceituá-los. “Alfabetização é o processo sistemático de aquisição do sistema alfabético e o letramento refere-se às práticas sociais de leitura e escrita nos diferentes contextos e com finalidades específicas” (Morais, 2009, p.3).

Analisando os conceitos de alfabetização e letramento, podemos afirmar que um indivíduo letrado não precisa ser necessariamente alfabetizado, isto é, dominar o código alfabético. Daí, temos a oralidade como fator indissociável da aquisição da leitura e escrita convencionais, pois através das práticas orais de letramento conseguimos levar o aluno a refletir sobre a linguagem escrita.

Uma última inferência que se pode tirar do conceito de letramento é que um indivíduo pode não saber ler e escrever, isto é, ser analfabeto, mas ser, de certa forma, letrado (atribuindo a este adjetivo sentido vinculado a letramento). Assim, um adulto pode ser analfabeto, porque marginalizado social e economicamente, mas, se vive em um meio em que a leitura e a escrita têm presença forte, se se interessa em ouvir a leitura de jornais feita por um alfabetizado, se recebe cartas que outros leem para ele, se dita cartas para que um alfabetizado as escreva (e é significativo que, em geral, dita usando vocabulário e estruturas próprias da língua escrita), se pede a alguém que lhe leia avisos ou indicações afixados em algum lugar, esse analfabeto é, de certa forma, letrado, porque faz uso da escrita, envolve-se em práticas sociais de leitura e de escrita (Soares, 2004, p. 24).

Desta forma, ser letrado representa utilizar a escrita de forma ativa no cotidiano, sendo um usuário da escrita e não apenas um decodificador de símbolos fonéticos. O desenvolvimento da oralidade contribui inevitavelmente para que esse letramento/ aquisição da escrita aconteçam simultaneamente, assim ao ouvirem outras pessoas lendo notícias de jornais, anúncios, receitas culinárias, textos literários e toda uma variedade de suportes e gêneros textuais, etc. Aumentará a capacidade de compreender as mensagens expressas, compreendê-las, interessar-se por elas, significá-las e principalmente dar novo significado a elas.

Nas turmas do primeiro ano do ciclo de alfabetização, é crucial que as práticas de letramento estejam inseridas, de modo que ao perceber o valor social da leitura e da escrita os alunos possam ser capazes de refletir sobre a língua falada por eles e a sua importância como veículo de disseminação da informação. Cabe ao professor estar atento aos gêneros textuais que leva para suas leituras compartilhadas, pois sem diminuir a importância dos textos literários, os quais engrandecem nosso vocabulário, faz-se necessário que a diversidade de gêneros que o aluno tem contato no seu dia a dia mostre realmente a importância e a diferença entre o falado e o escrito, pois a percepção de que a fala representa a escrita na ordem em que se fala é o primeiro passo para a escrita convencional e conscientizar o aluno de que a escrita de um bilhete tem tão ou maior importância, que uma história de contos de fadas ou uma poesia é o que realmente fará a diferença em todo processo de alfabetização inicial.

A aquisição da leitura e da escrita implica, portanto, uma questão de cidadania, ao tempo que se revela como uma forma de inclusão social, ao possibilitar-nos a capacidade criadora e o posicionamento crítico do mundo no qual estamos inseridos. Desse modo, o domínio da língua oral e escrita amplia nossos horizontes, proporcionando-nos, sobretudo o acesso à informação e à produção do conhecimento (Morais, 2009, p. 1).

Portanto, desenvolver a oralidade em prol da reflexão e aquisição da escrita, nos leva a refletir sobre as inúmeras atividades, que se pode realizar em sala de aula para que o aluno, ao expor suas ideias, inicie o processo de construção de sua identidade como cidadão que tem voz, e que essa voz deve ser tanto ativa como respeitada e valorizada, pois é através dela que ele poderá mostrar ao mundo suas opiniões, e estas terem valor de empoderamento com o registro escrito. Dessa maneira, as interações orais para a construção e ampliação da escrita nos levam a um caminho partilhado, onde a fala precede e dá fundamentação à construção, ampliação, entendimento da necessidade do registro escrito e seu valor e função social.

Considerações finais

A temática da oralidade no ciclo de alfabetização revela o caráter indissociável que estes dois processos possuem. É possível afirmar que muitas práticas alfabetizadoras ainda ignoram os benefícios que o desenvolvimento da oralidade traz aos alunos no processo de aquisição de leitura e escrita convencionais, sem que haja exploração, pode haver prejuízo à formação do alfabetizando. Conforme esta ótica, para se alcançar uma educação de qualidade em que o aluno por meio de suas reflexões construa, amplie e exercite a linguagem oral e escrita com autonomia e entendimento, se faz necessário haver, por parte dos educadores, uma efetiva preocupação em buscar meios para se desenvolver a oralidade, de modo a formar indivíduos pensantes e atuantes, não apenas repetidores de conceitos descontextualizados e predefinidos.

É crucial que a prática educativa saiba diferenciar estes dois processos. Ao longo da pesquisa, foi possível perceber que alfabetização se refere à capacidade que o indivíduo adquire de decodificar e codificar a língua escrita, conseguindo ler e escrever. Portanto, essa capacidade somente é desenvolvida e apropriada quando o sujeito consegue se comunicar, desta forma, compreende-se que para que o processo de alfabetização inicie e se desenvolva, é extremamente necessário que o aluno possua um professor disposto a acolhê-lo, escutá-lo, que respeite sua fala e,  principalmente,  ensine-o a escutar a fala de seus pares, pois a escuta atenta nos leva a recriar as ideias e impressões que temos sobre os mais variados assuntos e do mundo que estamos inseridos.

Assim, acolher o aluno, escutar o que ele tem a dizer sobre si e o mundo que o cerca e ainda ensinar a escuta atenta, nos levam a desenvolver fatores primordiais para a exploração da oralidade como instrumento facilitador, principalmente, no primeiro ano do ciclo de alfabetização.

Conforme os estudos apresentados, é possível também afirmar que alfabetizar letrando se trata de uma prática eficaz, uma vez que possibilita ao discente se tornar um cidadão consciente de seus direitos e deveres. Esta prática é um processo coletivo e social, pois se desenvolve a partir da convivência com outros indivíduos por meio de relações sociais, que se dão inicialmente através da linguagem oral. Desta maneira, fica explícita a relação entre a oralidade, o letramento e a cidadania, já que o indivíduo letrado é capaz de assumir seus papéis sociais de forma satisfatória.

Seguindo essa perspectiva, é notável a necessidade de haver reformulações de práticas ainda existentes em salas de aula, que visam apenas fazer com que os discentes decifrem o código escrito, não existindo a preocupação em desenvolver a capacidade de utilizar e aprimorar a oralidade do aluno para que, ao chegar à apropriação da escrita, compreenda que o falado e o pensado estão intimamente ligados, um pressupondo o outro, proporcionando  assim a  reflexão e o entendimento de que a escrita acontece exatamente na ordem em que se fala, utilizando  esta capacidade para fins efetivos.

Por fim, podemos concluir que havendo o interesse em se alcançar e desenvolver práticas de leitura e escrita onde os alunos sejam sujeitos de suas construções e interpretações é imprescindível investir na prática de alfabetizar visando o desenvolvimento da oralidade dos alunos no ciclo de alfabetização, de modo que ao ouvir a própria voz e de seus pares possam refletir, ampliar e apropriar-se da língua usada, não só para comunicação oral, mas para dar validade a essa voz através da escrita formando indivíduos críticos, capazes de tomar decisões acerca de suas vivências, conseguindo desenvolver-se cognitivamente; enfim, construindo cidadãos atuantes que consigam, já no início de sua vida escolar, exercer sua cidadania com voz ativa, reconhecendo o que lhes traz benefícios ou prejuízos.

Referências                   

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Publicado em 29 de junho de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

ESTRELLA, Mônica Duarte Silva; SOUSA, Rafael Rossi de. Oralidade e alfabetização: implicações dos gêneros orais para o ensino e a aprendizagem. Revista Educação Pública, v. 21, nº 24, 29 de junho de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/24/oralidade-e-alfabetizacao-implicacoes-dos-generos-orais-para-o-ensino-e-a-aprendizagem