Práticas de leitura na Educação Infantil e séries iniciais do Ensino Fundamental

Eunice Mendes Straioto

Pedagoga (Ulbra), pós-graduada em Psicopedagogia e Neuropsicopedagogia, professora especialista em Educação Especial e Inclusão da rede pública municipal de Americana/SP

As experiências obtidas durante o estágio do curso de Pedagogia em escolas públicas municipais da minha cidade, levou-me a observar que além da falta de interesse, da dificuldade de alguns alunos nas práticas de leitura, escrita e interpretação de textos, estas dificuldades não se davam apenas com textos didáticos, mas também com diferentes tipos de textos.

Nesse período de estágio, observei que desde a Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental o hábito de ler precisava ser cultivado em diferentes ambientes em que vivem as crianças e principalmente nos contextos escolares.

Atualmente encontramos muitos hábitos e valores na sociedade, principalmente aqueles que dispersam a preocupação para o hábito da leitura cotidiana, como os programas de TV, a internet, os celulares que as crianças adquirem desde a mais tenra idade, o videogame e os brinquedos eletrônicos. Outrora os pais eram mais presentes na educação dos filhos, sempre acompanhavam os deveres escolares, as tarefas, e atualmente no mundo mais competitivo onde até mesmo as crianças são mais exigentes, temos muitas “babás eletrônicas”, pais que trabalham muito e pais que não têm interesse no dia a dia escolar de seus filhos.

Acredito muito na contribuição de um professor comprometido com a qualidade da Educação e que busca caminhos para o desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem de seus alunos. Durante todo o meu estágio, busquei contribuir mesmo que minimamente com as práticas de leitura na sala de aula contribuindo assim com a aprendizagem dos alunos.O ser humano vive uma busca contante pelo conhecimento e busquei compreender a leitura como um dos caminhos possíveis para se chegar ao conhecimento. Tem como ponto de partida para a busca dessa compreensão o pressuposto freireano de que "a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele" (Freire, 1994, p. 20).

Não é importante apenas conhecer uma língua e seus códigos de registro escrito; é de grande relevância compreender o contexto sociocultural, e antes de qualquer coisa a leitura é um processo em que o leitor interage com o texto, visando obter uma informação determinada para satisfazer os objetivos que o levaram ao ato da leitura.

Para ler e compreender um texto é necessário criar uma relação entre o leitor e o texto. E essa relação é prazerosa se for estimulada desde a mais tenra idade, numa interação produtiva, com processos lúdicos, criativos e voltados para o mundo do leitor em questão.

Dentro dessa perspectiva freireana, aprendemos a ler o mundo antes mesmo de decodificar os sinais gráficos das letras, “ler o mundo é tão importante quanto ler a palavra, pois um não está dissociado do outro” (Freire, 1994).

O Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil – RCNEI (1998) também mostra que a leitura não é a pura decifração das palavras, como já citado, mas é um processo em que o leitor constrói o significado do que está lendo.

O que é ler?

Etimologicamente, ler deriva do latim "lego/legere", que significa recolher, apanhar, escolher, captar com os olhos.

O Minidicionário Aurélio registra o conceito de ler: “percorrer com a vista (o que está escrito), proferindo ou não as palavras, mas conhecendo-as (e interpretando-as); decifrar e interpretar o sentido de; perceber (sinais, mensagens)” (Ferreira, 2008).

Durante anos os estudiosos procuram definir o que é o ato de ler, e há alguns anos, para muitos pais e professores, ler era tão somente decodificar as letras a fim de formar palavras e, a partir daí, formaria frases, sem que para isso houvesse um entendimento global do texto. Atualmente, sabe-se que ler é muito mais que a decodificação da escrita ou reproduzir na fala o que está escrito. A leitura é parte integrante do indivíduo. A leitura desenvolve a imaginação; amplia conhecimentos, enriquece o vocabulário; enfim, é a base para o aprendizado e para o entendimento de qualquer outra ciência.Ler é um ato de compreensão em todos os sentidos.

Formar um leitor competente supõe formar alguém que compreenda o que lê; que possa aprender a ler também o que não está escrito, identificando elementos implícitos; que estabeleça relações entre o texto que lê e outros textos já lidos; que saiba que vários sentidos podem ser atribuídos a um texto; que consiga justificar e validar a sua leitura a partir da localização de elementos discursivos (Brasil, 1997, p. 54).

O comportamento leitor inicia-se desde a primeira infância , mesmo antes do contato com textos e vai além dele. A criança pré-leitora participa do processo com sua experiência de vida e de linguagem, num contexto determinado com intenções e expectativas específicas de formar um cidadão leitor.

Acima de tudo, é importante que o trabalho de leitura seja incorporado às práticas diárias de sala de aula de forma a proporcionar à criança uma aprendizagem contínua, desde a Educação Infantil, para isso é relevante que as escolas proporcionem condições de leitura participativa e prazerosa fazendo uso de atividades de leitura compartilhada sob uma perspectiva lúdica. Acredita-se que o aprendizado da leitura e o hábito de ler são uma tarefa para toda a vida.

Apesar de a Internet e as tecnologias digitais estarem inseridas no cotidiano estudantil, a mídia impressa ainda é a fonte mais utilizada para leitura. O uso do computador pelos alunos, na maior parte do tempo, é destinado primeiramente ao entretenimento.

O papel da leitura na construção do conhecimento é inegável. Podemos dizer que ela é uma fonte inesgotável de conhecimento, pois consideramos que não lemos apenas as palavras, frases isoladas, textos e livros; lemos o mundo.

A leitura é algo crucial para a aprendizagem do ser humano, pois é através dela que enriquecemos nosso vocabulário, obtemos conhecimento, dinamizamos o raciocínio e a interação, enfim através da leitura que somos inseridos na sociedade. Muitas adultos dizem não ter paciência em ler um livro; no entanto, isso acontece por falta de hábito, pois se a leitura se tornasse hábito rotineiro, as pessoas saberiam apreciar uma boa leitura.

Sabemos que toda pessoa que possui o hábito de ler adquire mais facilidade na interpretação de textos, desenvolve melhor sua aprendizagem, viaja pelo mundo, por lugares onde talvez nunca tenha condições de estar pessoalmente, transformando-se em cidadãos conscientes de seu papel na sociedade.

Nas práticas de leitura, conhecemos o mundo e, conhecendo-o, reconstruimos a realidade, confrontamos verdades e reinventamos o mundo. Somente transformando a humanidade que criamos, e da qual fazemos parte, é possível conhecê-la com profundidade.

Ler por prazer, para estudar e para se informar

Na Educação Infantil percebi a importância de a criança ter contato livre com livros de historias infantis, imagens coloridas, textos diversificados, gibis, etc., numa condição sem cobranças, para que ela comece a desfrutar com autonomia do seu caminho literário e usufrua daquilo que venha ao encontro de suas buscas e de seus anseios.

Porém é essencial que sejam oferecidos livros próximos de sua realidade, leituras que levantem questões significativas para a criança.  Nessa condição, a compreensão da leitura passa a constituir um processo estratégico individual daquele leitor, com um controle cada vez mais hábil, à medida que ele faz uso das práticas de leitura.

De acordo com Koch (1993, p. 160), “ao professor cabe a tarefa de despertar no educando uma atitude crítica diante da realidade em que se encontra inserido, preparando-o para ‘ler o mundo’”.

Nas atividades de leitura e escrita realizadas com as crianças do ensino fundamental do ciclo I, constatei também a importância da leitura de diferentes páginas de jornais.

Conhecendo e lendo o jornal da cidade, percebi que a criança é capaz de entender a linguagem rápida e concisa acompanhada de símbolos, gráficos, fotografias, ilustrações, manchetes, notícias, porque é um mundo em que ela esta inserida, são fatos reais e muito próximos dela e que instigam crianças de todas as idades. Essa prática aproxima os pequenos do seu mundo cotidiano. Numa cultura onde se desenvolvem hábitos de leitura diária, teremos cidadãos formadores de opinião, com desenvoltura de conversa em qualquer ambiente, sejam eles social/cultural/politico ou religioso. O despertar do aluno para novas e diferentes dimensões de leitura da realidade, a busca do rigor no meio educacional das estratégias e modos de ler e ver essa realidade é um caminho pedagógico para o conhecimento racional e mais amplo das mensagens que massificam a mente e, às vezes, tornam alienado o educando de seu mundo real.

Em uma das minhas experiências em sala de aula, busquei realizar alguns incentivos com o manuseio e leitura de jornais com alunos do terceiro ano do fundamental I para que eles despertassem o hábito de ler por prazer, melhorando o vocabulário e o nível de compreensão do texto , não somente com frase isolada, mas o texto como um todo e, a partir daí, melhorar sua produção oral e escrita.

Certamente, os jornais não substituem os livros e a literatura. Trata-se, porém, de ótimos recursos didáticos que facilitam, inclusive, um trabalho interdisciplinar. Com apenas um texto jornalistico pode-se trabalhar em diferentes aulas e disciplinas. A linguagem jornalística, simples, direta e objetiva pode facilitar, por exemplo, a interpretação de textos e levar o aluno a compreender as formas de comunicação.

Ler não é tarefa fácil, porém é possível explorar na escola e em casa os diferentes tipos de texto que usamos no cotidiano.

A atividade de leitura não deve ser vista como uma simples decodificação de símbolos; precisa ser compreendida como a capacidade de interpretar e compreender o que se lê. Para Kleiman (2004), a leitura precisa permitir ao leitor apreender o sentido do texto, não podendo transformar-se em mera decifração de signos linguísticos sem a compreensão semântica destes

Na Antiguidade, o método usado nas práticas de leitura era a memorização, acreditava-se na veracidade daquilo que estava escrito,a atitude de muitas pessoas era a de total passividade frente ao conteúdo do texto em função dos interesses das classes privilegiadas.

Na sociedade contemporânea, o desenvolvimento da atividade científica exige do leitor uma atitude mais reflexiva e crítica no ato de ler, sendo necessário esforçar-se para compreender, analisar a mensagem do texto e confrontar o conteúdo com diferentes textos. Essa postura necessita ser praticada em qualquer situação de leitura, ela exige um esforço maior da inteligência e não somente da memorização.

Aprender a ler é uma habilidade fundamental para toda a vida, dentro e fora da escola. Ler para estudar é certamente o comportamento mais cobrado pelos professores desde a educação infantil, e nesse sentido o professor precisa criar ambiente favorável com condições de leitura participativa e criativa.

O principal objetivo de qualquer atividade ou de um projeto de leitura por prazer é justamente desenvolver esse comportamento leitor: fazer com que as crianças desde a educação infantil até os alunos maiores se tornem leitores autônomos e busquem novos livros e novas leituras. A magia, a fantasia e imaginação são apenas alguns dos elementos presentes quando lemos para uma criança, e esta vive momentos muitas vezes inesquecíveis. Por qual motivo as escolas ainda formam poucos leitores?

O RCNEI (Brasil, 1998, v. 3) ressalta a importância do manuseio de materiais, de textos (livros, jornais, cartazes, revistas etc.),  pelas crianças, uma vez que, ao observar produções escritas, a criança vai conhecendo de forma gradativa as características formais da linguagem. Isso é visível quando uma criança folheia um livro, emite sons e faz gestos, como se estivessem lendo. Entretanto, nas escolas, isso pode não ocorrer devido ao medo de que os livros sejam estragados. Porém os alunos só aprenderão a ter cuidado com os materiais se tiveram em contato com eles. Desde bem pequena, a criança só construirá  conhecimento acerca da leitura se estiver inserida em um ambiente favorável ao letramento, onde participará de situações de iniciação à leitura.

Projetos e atividades de leitura por prazer devem prever situações de leitura em voz alta pelo professor e pelos alunos, ser um convite à imaginação, desenvolver a escuta atenta, propor leituras para estimular preferências e dessa maneira formar leitores autônomos.

Ademais, a prática da leitura busca satisfazer curiosidades, informar-se sobre o que acontece no mundo, divertir-se, viajar sem sair de casa, aprender, relacionar-se com as pessoas, fazer amigos, considerando ainda a importância da leitura nesse processo de transformar o aluno leitor passivo em leitor sujeito, pois, só através dessa ação, ele se tornará capaz de construir sua própria leitura e analisar sua visão de mundo. Portanto ler é o único jeito de se comunicar de igual para igual com o restante da humanidade.

Um bom leitor sabe e tem domínio da língua padrão, e é estimulado a ler mais ainda pelo conhecimento já adquirido. Quem lê está sempre em contato com o autor e com as ideias de uma ou de várias pessoas. Quanto maior for seu hábito de leitura, maior será sua capacidade de aprimoramento. Ler, além de ser uma forma de lazer, faz a pessoa viajar pela imaginação em notórias descobertas conformorme seu ego. E isto não ocorre apenas com textos literários, mas com todo material escrito.

Para Vygotsky, se uma pessoa participa ativamente de uma comunidade de leitores e escritores, e se ela lê e escreve regularmente e se sua leitura e escrita a colocam em contato com outras pessoas, ela tem uma chance razoavelmente boa de formar noções de gêneros e estilos (Vygotsky, 1988, p. 81).

Considerações finais

O conhecimento é o produto de um processo de reflexão, resultado de muitas leituras, exigindo curiosidade e ação transformadora sobre a realidade do cotidiano escolar.

Não nascemos leitores. Precisamos de estímulos para que o leitor floresça dentro de cada um, desde os mais pequeninos. Segundo Ana Teberosky, acreditar que o aluno pode aprender é a melhor atitude de um professor para chegar a um resultado positivo.

O professor, além de formador de opiniões, mediador e articulador da aprendizagem, necessita estar apto a lidar com todos os processos de ensino e aprendizagem; e é de fundamental importância que ele também desperte e motive seus alunos para as práticas de leitura, contribuindo para a formação de sujeitos éticos e críticos em todos os contextos sociais.

Mesmo com toda a modernidade do mundo ao nosso redor, a leitura ainda é fundamental a todo cidadão.

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Parâmetros Curriculares Nacionais: Língua Portuguesa (PCN). Brasília: MEC/SEF, 1997.

______. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI). Brasília: MEC/SEF, 1998.

FERREIRA, A. B. H. Minidicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Curitiba: Positivo, 2008.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 23ª ed. São Paulo: Cortez, 1994.

KLEIMAN, A. Texto e leitor: aspectos cognitivos da leitura. 9ª ed. Campinas: Pontes, 2004.

KOCH, Ingedore. A argumentação e linguagem. São Paulo: Cortez, 1993.

TEBEROSKY, Ana. Debater e opinar estimulam a leitura e a escrita. Revista Nova Escola, ano XX, nº 187, p. 26, nov. 2005.

VIGOTSKY, Lev Semonovich. A formação social da mente. O desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 6ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

Publicado em 29 de junho de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

STRAIOTO, Eunice Mendes. Práticas de leitura na Educação Infantil e séries iniciais do Ensino Fundamental. Revista Educação Pública, v. 21, nº 24, 29 de junho de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/24/praticas-de-leitura-na-educacao-infantil-e-series-iniciais-do-ensino-fundamental