A formação inicial e continuada de professores das classes multisseriadas no sudeste do Tocantins

Luzani Cardoso Barros

Pedagoga, licenciada nas Matérias Pedagógicas do Ensino Médio (UNEB), mestra em Desenvolvimento Regional (UFT), especialista em Conselhos Escolares (UFC)

Considerando a importância dos processos de formação continuada para a qualificação do trabalho docente, este artigo discute a concepção de formação continuada para aqueles que muitas vezes são desconsiderados durante a concepção dos programas, mas para os quais se voltam as ações e projetos implantados nas escolas públicas: os professores.

No que concerne à formação dos professores em atuação nas escolas rurais, as ações governamentais sempre tiveram a conotação de campanha para “erradicação” dos problemas dessa área e aconteceram por razão diversa à vontade política. Isto é, o governo agia motivado por razões externas, a exemplo da década de 1930, quando foram iniciadas no País ações voltadas para a educação no meio rural, com a finalidade de inserir o Brasil, conforme se propagava, no cenário das nações consideradas desenvolvidas. Isso era feito sem que se analisassem questões infraestruturais subjacentes à educação oferecida.

Esses aspectos dizem respeito, dentre outras questões, à situação dos prédios escolares, aos materiais disponibilizados para o trabalho docente, às condições para o desenvolvimento do trabalho pedagógico e à formação dos professores.

Difundiam-se, na década de 1930, as ideias iniciadas na década de 1920, frutos do entusiasmo pela educação e do otimismo pedagógico, com ênfase na concepção de que o acesso à escola e a adoção de técnicas consideradas progressistas à época seriam suficientes para sanar os problemas da escolarização (Nagle, 2001).

Por isso a importância desta análise acerca da concepção dos professores em relação à formação continuada, considerando os efeitos dos processos formativos de que participam em suas práticas e quais medidas são consideradas eficazes no sentido de contribuir para melhorar essa ação e assim elevar a qualidade do ensino e da aprendizagem.

A formação inicial e continuada dos professores das classes multisseriadas

O processo educacional, essencialmente formativo, “mais do que poder, [...] atribui compromissos entre as pessoas” (Brandão, 1995, p. 47); esses acordos se expressam nos sujeitos que ensinam – professores – e naqueles em formação – estudantes. Para tanto, na formação inicial e nos processos de formação continuada deve-se trabalhar conteúdos de caráter conceitual, de fundamentação pedagógica, além dos saberes voltados ao planejamento e à gestão educacional.

Observa-se que a concepção de currículo trabalhado nas escolas do campo compreende-o de forma simplificada, ideia presente inclusive em materiais produzidos e distribuídos no âmbito governamental. O manual de estudo do Programa Escola Ativa é exemplo disso; ele expressa, em relação aos conteúdos dos guias de aprendizagem, a seguinte concepção: “podem ser facilmente ensinados por professores de pouca formação e ampliados e melhorados por professores mais qualificados” (Brasil, 1999, p. 90).

Tal afirmação suscita alguns questionamentos: para trabalhar no contexto campesino pode-se prescindir de formação? Em que consiste a “facilidade” no ensino de conteúdos por professores com formação mínima? Qual o interesse de que escolas e professores permaneçam em situação de desvalorização, considerando as condições objetivas e esquecimento no contexto do campo?

Depreende-se, portanto, intencionalidade naquela afirmação, uma vez que as consequências de pouca exigência na formação dos professores incidem diretamente sobre o ensino oferecido à população do campo que, reconhecidamente, possibilita o acesso a conteúdos reduzidos, tanto do ponto de vista quantitativo quanto no que concerne à profundidade.

Metodologia

Partindo do objetivo deste trabalho, foram definidas as estratégias metodológicas descritas a seguir, a fim de possibilitar a manifestação dos docentes das classes multisseriadas em situações inerentes à sua rotina, tornando assim a pesquisa o registro de momentos do cotidiano analisado.

Foram realizadas entrevistas, gravadas e ou escritas, com os doze professores em exercício nas classes multisseriadas. Outra ação foi a observação de atividades realizadas pelos professores junto aos alunos nas salas de aula das sete escolas multisseriadas de Dianópolis/TO. Houve ainda a participação em encontros de formação continuada na condição de formadora e em reuniões pedagógicas como observadora.

Com o intuito de aprofundar a concepção acerca da vivência da formação continuada dos docentes, foram consultados os registros elaborados pelo grupo em cadernos utilizados nos encontros de formação. Para a interpretação dos dados, buscou-se a técnica de análise de conteúdo, conforme definido por Bardin:

A análise de conteúdo (seria melhor falar de análises de conteúdo) é um método muito empírico, dependente do tipo de ‘fala’ a que se dedica e do tipo de interpretação que se pretende como objetivo. Não existe o pronto-a-vestir em análise de conteúdo, mas somente algumas regras de base por vezes dificilmente transponíveis. A técnica de análise de conteúdo adequada ao domínio e ao objetivo pretendidos tem que ser reinventada a cada momento, exceto para usos simples e generalizados, como é o caso do escrutínio próximo da decodificação e de respostas a perguntas abertas de questionários cujo conteúdo é avaliado rapidamente por temas (2009, p. 22).

É importante salientar que o presente exercício de análise utilizou alguns elementos que compõem o conjunto das técnicas de análise de conteúdo, enfatizando principalmente o âmbito dos significados. Outra escolha metodológica do trabalho se referiu à quantidade de entrevistas. Segundo Duarte (2002), o quantitativo indicado como ideal para o total de entrevistas é vinte. No trabalho em questão, por se tratar de um universo relativamente pequeno, a opção adotada foi a participação de todos os professores. Acredita-se que os objetivos foram atingidos, pois, segundo ela,

quando já é possível identificar padrões simbólicos, práticas, sistemas classificatórios, categorias de análise da realidade e visões de mundo do universo em questão, e as recorrências atingem o que se convencionou chamar de “ponto de saturação”, dá-se por finalizado o trabalho de campo (Duarte, 2002, p. 144).

Os demais procedimentos adotados na pesquisa tiveram o intuito de contribuir para a análise e interpretação das informações, a fim de “abranger a máxima amplitude na descrição, explicação e compreensão do foco em estudo” (Triviños, 2011, p. 138), de modo a permitir a manifestação dos sujeitos da pesquisa em questão em momentos diferentes da sua ação pedagógica.

Resultados e discussão

Conforme as informações coletadas, do universo de doze professores que trabalham em classes multisseriadas em Dianópolis/TO, dez são do sexo feminino e dois do sexo masculino. Esse é um aspecto comum ao contexto da educação brasileira, especificamente em relação aos anos iniciais do Ensino Fundamental.

Entre os doze professores entrevistados, identificou-se que sua faixa etária varia de 33 a 52 anos, e o tempo de experiência em docência se situa entre 5 e 30 anos. Do total, seis possuem, como formação inicial, a graduação, sendo cinco habilitados em Pedagogia – Séries Iniciais do Ensino Fundamental e um habilitado em Curso Normal Superior. Os outros seis professores têm como formação inicial o Ensino Médio, por meio do Projeto Educação em Ação – Curso Normal Magistério, uma das ações do Programa de Formação de Professores em Exercício (Proformação), criado para oferecer habilitação em nível de magistério para professores leigos já em exercício docente (Shiroma; Moraes; Evangelista, 2002).

No município de Dianópolis/TO, esse curso foi oferecido pela Prefeitura Municipal de janeiro de 1999 a julho de 2000; o reconhecimento do curso ocorreu por meio da Resolução nº 104/98, pelo Parecer nº 153/98 do Conselho Estadual de Educação do Tocantins (CEE/TO), de 17 de novembro de 1998. O curso trabalhava em seu currículo disciplinas de caráter geral e matérias de formação pedagógica.

Segundo Hage (2010, p. 61), “no Brasil, a oferta escolar no campo caracterizou-se por um modelo subordinado aos conteúdos ministrados e aprendidos nas cidades, tendo como princípio o atraso das culturas e a falta de perspectivas desse meio”, concepção ainda encontrada entre alguns profissionais formadores de professores e mesmo entre docentes do campo.

As evidências expressas por meio de relatos dos docentes indicam que, de modo geral, no processo de formação inicial só são levantadas questões inerentes ao contexto urbano. Segundo Arroyo (2003, p. 30),

os cursos de formação dos profissionais da Educação têm ocupado seu tempo em repassar as teorias didáticas e psicopedagógicas. Pouco tempo tem sido ocupado em explicitar e aprofundar teoricamente as diversas concepções subjacentes de sociedade, de cidadão, de trabalhador, do processo produtivo e das forças sociais que tecem as formações sociais.

Por isso, ao se deparar com uma realidade diferente da que estudaram, os docentes participantes da pesquisa afirmaram se sentir despreparados para o desafio a enfrentar, e as práticas observadas em sala de aula evidenciaram esse aspecto. Todos foram unânimes em afirmar a importância da formação inicial, justificando essa postura pela compreensão de tal processo como subsídio no conhecimento acerca do ensino e da aprendizagem.

Os entrevistados compreendem a formação continuada como o momento de esclarecer dúvidas inerentes ao processo de ensino, isto é, um espaço para atualização e aperfeiçoamento do professor. É importante observar que somente um docente abordou a questão da autoformação. Em contrapartida, a maioria dos investigados mencionou a formação continuada como necessária para o bom desenvolvimento do trabalho, evidenciando a realização dessa atividade sob encargo do órgão de educação responsável. Sob a ótica dos professores, a política de formação continuada consiste nas atividades realizadas com o intuito de solucionar questões presentes na sala de aula. Os docentes afirmaram que o município atende às necessidades de formação do professor do campo, destacando como exemplo os encontros oferecidos.  

Segundo um dos entrevistados, além de aspectos relacionados à formação dos professores, outros interferem na prática pedagógica, vinculados à estrutura física das escolas e aos recursos materiais existentes, além da valorização profissional.

No texto da Lei nº 1.132/09, que dispõe sobre o Plano de Cargos, Carreiras e Remuneração dos Profissionais da Educação Básica do Município de Dianópolis/TO (PCCR), aprovado em 30 de dezembro de 2009, só há uma referência aos docentes das classes multisseriadas. Encontra-se no Art. 9º, § 1º, o qual estabelece que “os docentes lotados para trabalharem em escolas da zona rural com modalidade multisseriada terão que cumprir carga horária determinada pela Semed, adequando-se às necessidades.

Para Nascimento (2003), os profissionais do campo são vitimados pela desvalorização salarial, o que seria melhorado por meio da organização da classe docente. No caso de Dianópolis/TO, não se iniciou o processo de organização dos profissionais da educação, ação necessária à reivindicação de políticas públicas para o campo. Segundo Arroyo (2007, p. 1), “a história nos mostra que não temos uma tradição nem na formulação de políticas públicas, nem no pensamento e na prática de formação de profissionais da Educação que focalize a educação do Campo e a formação de educadores do campo como preocupação legítima”.

No município pesquisado, as iniciativas de formação continuada voltadas para o docente que atua no campo são incipientes. Dois docentes indicaram a questão do pouco tempo de duração da formação e apontaram como proposta aumentar a carga horária. Outro abordou a dificuldade em aplicar o conteúdo trabalhado na formação, pela falta de condições materiais na escola, as quais precisam ser melhoradas. De acordo com outro professor, há a necessidade de construção de um espaço para a realização dos encontros de formação continuada; para outro, não há nada a alterar, pois os aspectos necessários a essa melhoria já foram alterados.

Em relação a transporte, alimentação e alojamento no período da formação, os professores sugeriram uma alternativa para o município solucionar essa questão: a concessão de ajuda de custo para os participantes dos encontros, o que não está previsto no PCCR dos servidores da Educação, mas consta na Lei Municipal nº 989/06.

Outra questão relevante se refere à relação entre a formação continuada e a prática de sala de aula. Os professores buscam na formação elementos necessários à aplicação dos estudos. O município carece de políticas públicas elaboradas com base nas necessidades locais e com a participação dos professores do campo.

Esse posicionamento dos professores é coerente com a afirmação de Nascimento (2003), ao se reportar à ausência de políticas direcionadas para a formação de professores, mas, ao mesmo tempo, evidencia a importância da consciência dos profissionais da Educação do Campo em relação à exigência por uma formação ampla, estruturada a partir das demandas do espaço em que atuam.

Dentre os professores pesquisados, 50% residem no meio rural. Dentre estes, três lecionam próximo à residência, e outros três fazem deslocamento intracampo. Os demais residem na área urbana do município e se deslocam no período letivo para o campo. A carga horária desses docentes oscila de 20h a 40h/aula semanais.

Segundo a professora que relatou trabalhar 40h, essa carga se deve ao desempenho da função de merendeira e auxiliar de serviços gerais que exercia quando aconteceu a pesquisa. Por esse motivo, em sua remuneração estavam incluídos também os valores referentes ao desempenho das outras funções.

De acordo com a coordenadora pedagógica da Secretaria Municipal, essa situação permaneceu até o início do segundo semestre de 2011 e já houve a contratação de um servidor para a escola, a fim de que a professora possa desempenhar exclusivamente a função docente.

A remuneração mensal recebida informada pelos professores fica entre R$ 540,00 (valor do salário mínimo à época, feitos os descontos legais, conforme informação dos entrevistados) a R$ 1.596,43 (o maior valor declarado) no ano de 2011.

Para Calazans (1993), a importância da formação docente reside na apropriação de saberes capazes de qualificar a sua prática. Isso significa que a autora considera que a qualificação para a prática docente precisa acontecer de forma permanente e contínua. Assim, os processos formativos deveriam propiciar aos profissionais:

- Aquisição de conhecimento que possibilitasse ao indivíduo e à comunidade a compreensão do meio em que viviam e os instrumentassem para encontrar a melhor solução para as situações que impediam ou dificultavam o seu desenvolvimento;

- Aquisição de conhecimentos que levavam a um aumento da produtividade e, em consequência, a uma melhoria das condições de vida;

- Participação da comunidade no desenvolvimento, na transformação de estruturas de natureza econômica e social, tais como cooperativas, escolas, programas, pelotões de saúde (Calazans, 1993, p. 34).

Nesse sentido, algumas práticas observadas indicam a tentativa de aplicar em sala de aula os conteúdos trabalhados nos períodos de formação continuada, tais como realização de palestra para os alunos por servidor da área de Saúde do município, com abordagem dos cuidados para preservação da saúde. Uma ação importante, porque estimula a construção de hábitos saudáveis de higiene pelos alunos, especialmente por se tratar de uma comunidade residente em uma localidade sem rede de tratamento de esgoto e onde não há serviço de coleta de lixo. Assim, a formação de conceitos adequados contribui para a manutenção da saúde da população.

Outra ação de uma escola que envolveu alunos e comunidade enfocou os cuidados que se deve ter em relação ao lixo doméstico. Os alunos realizaram uma caminhada pelo espaço da comunidade coletando o lixo e informando aos moradores sobre o correto descarte dos resíduos sólidos.

Observa-se, por meio das ações citadas, a busca pela aplicação dos conteúdos estudados, a fim de que os alunos compreendam e, conforme a coordenadora da Escola Municipal Contagem, “os estudos possibilitem a mudança de comportamento, com a elevação da qualidade de vida, por meio da aquisição de conhecimentos”.

Conforme as observações realizadas nas salas de aula durante as atividades de rotina, observam-se ainda, entre os professores cuja formação se restringe ao Ensino Médio na Modalidade Normal, problemas de planejamento didático, execução do plano e desenvolvimento da rotina de aula, gestão de conflitos e, em algumas situações, dificuldades relacionadas ao trabalho com os conteúdos básicos dos anos iniciais do Ensino Fundamental.

Por outro lado, os professores com formação inicial em nível superior e os docentes atualmente inseridos em processos de graduação apresentam mais facilidade no desempenho das atividades da rotina docente.

Mesmo diante de situações distantes das ideais no que se refere à estrutura física da sala de aula, observa-se o desenvolvimento de práticas criativas para trabalhar os conteúdos. Uma aula que ilustra esse esforço aconteceu na Escola Municipal Assentamento Bela Vista. Essa escola funciona na residência da professora, que, além de docente, também desenvolve atividade na agricultura familiar. Percebeu-se o trabalho com conceitos de Ciências e a motivação dos alunos para registrar o que foi solicitado.

Outra situação de ensino foi realizada na Escola Municipal Contagem. Os alunos têm contato prazeroso com a literatura por meio do teatro. Verificou-se que mesmo alunos caracterizados como tímidos, segundo a professora, na aula planejada com essa metodologia participam e compreendem o que é trabalhado, além de o momento utilizar também do apelo ao lúdico, elemento motivador especialmente para alunos dos anos iniciais do Ensino Fundamental.

Diante desse contexto, pode-se afirmar que, a formação continuada dos professores em geral, e daqueles que atuam nas classes multisseriadas especificamente, conforme proposto no documento Referências para a Educação do Campo (Brasil, 2004), se constitui como desafio permanente que impõe ações a serem desenvolvidas tanto por parte do poder público como das instituições privadas, de maneira articulada:

Promover cursos de formação em serviço para educadoras e educadores não habilitados. Considerar os interesses e necessidades do campo, podendo utilizar a pedagogia da alternância como metodologia para o desenvolvimento das práticas e da pesquisa em Educação do Campo; promover cursos de formação continuada para educadoras e educadores do nível fundamental, médio e superior (Brasil, 2004, p. 42-43).

Concomitante às observações, no intuito de saber a compreensão dos professores com relação à formação continuada da qual participam, inicialmente foi levantada a questão: como você compreende a formação continuada para os professores do campo?

As respostas revelam o ponto de vista desses professores, que concebem a formação como um recurso com o qual poderão solucionar questões inerentes ao trabalho de sala de aula. Inclusive, conforme afirmado, acreditam que esse processo possa resolver as dificuldades que possuem em relação aos conteúdos (“tirar dúvidas”) a serem ministrados nas aulas, uma questão relativa à formação inicial. Os professores pensam ainda que, caso haja falhas na formação continuada, o processo de ensino pode ser comprometido (“é complicado”).

Outro conjunto de respostas demonstra a compreensão da formação continuada como processo complementar, que deve se constituir como espaço para discussão de temas que vão além da prática pedagógica.

É interessante observar que, apesar de ter sido realizada apenas por um dos professores, a questão da autoformação foi destacada como elemento importante e necessário para a qualificação profissional. Essa convicção demonstra o início da construção da consciência relativa ao papel do docente como profissional responsável pela aquisição de conhecimentos fundamentais ao exercício da função de ensinar.

Houve ainda a crítica, de um dos professores, em relação aos profissionais da Secretaria Municipal de Educação de Dianópolis/TO responsáveis pelas atividades de acompanhamento, supervisão e formação continuada dos docentes: “Deveria ter vivência dos formadores”.

Quando questionada sobre essa afirmação, a professora justificou pelo fato de alguns técnicos, segundo a docente, tecerem afirmações e proporem ações para as escolas somente a partir de concepções teóricas, destituídas da vivência da sala de aula, principalmente no contexto de turmas multisseriadas.

Em todos os momentos realizados na fase empírica da pesquisa, essa docente abordou a necessidade de a Secretaria Municipal de Educação de Dianópolis/TO considerar a Educação do Campo como relevante e destacou como imprescindível para o formador a experiência prática desse processo. Dessa forma, os encontros de formação continuada seriam, em sua concepção, momentos não somente teóricos e sim de troca de experiências a partir de situações que tivessem sido vivenciadas tanto pelos professores participantes quanto pelos formadores responsáveis pela organização do momento de estudo.

No intuito de conhecer a percepção dos professores em relação ao processo ora desenvolvido em Dianópolis/TO foi questionado: no município, qual o tipo de formação que você recebe? As respostas emitidas permitem observar que os professores concebem os encontros de formação continuada realizados atualmente como oportunidades de atualização, por meio do acesso a novos conhecimentos. Há também a expectativa de inserir nas escolas onde atuam tudo o que aprendem e/ou discutem. Entretanto, os profissionais se ressentem da inexistência de condições materiais nas escolas para a aplicação das inovações discutidas nos encontros.

Segundo os professores, a adesão ao Programa Escola Ativa, estratégia metodológica para classes com organização multisseriada, fez com que a formação continuada fosse específica, fato visto como positivo. Os depoimentos demonstram que os docentes reconhecem o seu contexto de trabalho nas discussões, porém, criticam a impossibilidade de colocar em prática, em suas salas, o que é discutido, por falta de algumas condições básicas, tais como: carga horária suficiente para planejamento das aulas; inexistência de recursos tecnológicos nas escolas; espaço físico inadequado.

Observaram-se alguns momentos do encontro de formação continuada realizado com os professores das classes multisseriadas em setembro de 2011; o tema trabalhado foi “Tecnologia na Educação do Campo”. Houve empolgação por parte dos participantes desde a apresentação da temática do encontro. A participação dos docentes foi ativa durante a realização de todas as atividades propostas. Entretanto, o fato de nenhuma das escolas possuir laboratório de informática (nem possuem computador) é motivo de insatisfação e crítica. O questionamento ao final do encontro foi: aprendemos muito, porém, como vamos aplicar em nossas escolas?

O próximo aspecto a ser questionado foi quanto ao atendimento das necessidades de qualificação. Foi perguntado aos professores: explique se a política de formação de professores atende às necessidades do campo.

Segundo nove professores, a formação continuada realizada pelo município atende às necessidades formativas. Entretanto, eles ainda não sentem reconhecimento e/ou valorização profissional por parte do poder público municipal.

De acordo com dois professores, a formação continuada ainda precisa melhorar, sendo apontada por um deles a questão de os professores do campo almejarem trabalhar em escolas urbanas, no intuito de ter acesso a melhores condições de atuação. Conforme outro professor, há a expectativa de que a formação continuada futuramente atenderá às necessidades formativas dos professores e, consequentemente, dos alunos.

Outra questão colocada para os professores procurou levantar informações acerca da prática desenvolvida em sala de aula: como os conteúdos abordados na formação continuada se relacionam com a prática desenvolvida na escola? Os professores analisaram essa relação conforme descrito a seguir.

De acordo com as respostas, há posturas diferentes docentes; vão desde a transposição dos conteúdos trabalhados nos encontros para a prática em sala de aula, quando se enfatizam as trocas de experiências com os colegas, ao trabalho com temas importantes para a realidade do campo. Entretanto, os docentes reiteram a questão da falta de tempo para o planejamento didático de modo a colocar em prática o que foi aprendido.

Algumas situações didáticas vivenciadas pelos alunos e professores elaboradas a partir de discussões realizadas em encontros de formação continuada se mostraram muito significativas para estudantes e professores.

A turma da Educação Infantil da Escola Municipal Contagem realizou uma aula de campo na qual os alunos entrevistam um morador idoso da comunidade. Outra atividade foi desenvolvida em uma visita ao laboratório de Ciências de uma escola da rede estadual de ensino situada na área urbana do município.

Nessas duas situações, os professores procuraram aplicar ao planejamento de ensino aprendizagens construídas nos encontros de formação continuada. Somente reclamam, por exemplo, em relação à escassez dos recursos didáticos das escolas e quanto à dificuldade, por exemplo, de deslocamento para ter acesso a esses recursos, como a um laboratório de Ciências, uma vez que a escola não possui esse espaço.

Todas as práticas desenvolvidas na rotina da sala de aula para trabalhar conteúdos de ensino demonstram o esforço dos professores em inserir inovações, de modo a tornar o processo de ensino mais dinâmico, criativo e atraente, resultando assim em mais aprendizagem para os alunos.

A análise dos professores possibilita a conclusão de que o trabalho de formação continuada realizado pelo município tem evoluído especialmente nos últimos dois anos (o que coincide com a adesão ao Programa Escola Ativa) pelo fato de inserir o contexto do campo nas discussões, considerando esse espaço não como local menos importante, e sim como contexto em que a escola e as situações de ensino devem se caracterizar pela qualidade, a fim de possibilitar aos alunos aprendizagem efetiva.

Quanto à carga horária anual trabalhada pela Secretaria Municipal de Dianópolis/TO na formação continuada foi questionado: a formação prevista no calendário escolar é suficiente para a melhoria da prática pedagógica? Foram obtidas as seguintes afirmações: na avaliação de três professores, a carga horária é suficiente, porque possibilita trabalhar tudo o que é planejado. Na opinião de quatro docentes, deveria ser dedicado mais tempo para essa formação.

Outro questionamento diz respeito à utilização do dia de sábado para a realização da formação, justificando que, quando estão nas escolas, os dias letivos se encerram na sexta-feira. Afirmou-se que o encontro realizado nesse dia foi cansativo, e deixou todos descontentes.

Consoante as respostas apresentadas, todos os professores afirmaram a inexistência de carga horária na escola para estudo. Por outro lado, consideraram que essa é uma necessidade, pois todos trabalham com classes multisseriadas e somente na Escola Municipal Contagem há a disponibilidade de quatro horas semanais para planejamento. Nas outras seis escolas, os professores não realizam o planejamento semanal em seu local de trabalho, pois atendem aos alunos de segunda a sexta-feira. Os docentes são unânimes em afirmar que, se o município possibilitasse a carga horária para planejamento, os resultados se evidenciariam em aprendizagem mais significativa para os alunos.

Com relação a propostas para aperfeiçoar o processo, foi perguntado: o que pode ser feito para aprimorar a formação continuada dos professores do campo no município de Dianópolis/TO? Nas respostas foram indicadas ações para possíveis medidas de melhoria a serem inseridas no processo de formação continuada. Somente quatro das respostas apresentadas pelos professores referem-se especificamente à formação continuada.

Quanto à logística do encontro, os professores que trabalham no campo e residem na área urbana abordam a questão de não serem incluídos nas refeições servidas no momento de almoço. Isso, segundo os docentes, prejudica a sua participação no encontro, pois chegam atrasados e cansados no período vespertino, pois precisam preparar sua refeição. Consideram que a assistência ao professor precisa melhorar de modo geral durante os encontros, além da valorização profissional e da remuneração.

Ainda como proposta para melhoria, foi citada a realização de oficinas para planejamento em classes multisseriadas e a disponibilização de materiais de apoio didático, pois no campo não há bibliotecas.

A insatisfação é geral quanto ao espaço físico das escolas. Alguns espaços escolares apresentam condições distantes do ideal, e nos encontros de formação os docentes afirmam que deveria ser possibilitado o acesso a recursos tecnológicos, material impresso e tudo o que viabilizasse o aperfeiçoamento docente.

É preciso que sejam efetivamente colocadas em prática as Diretrizes Operacionais para a Educação do Campo, Resolução nº 1, de 3 de abril de 2002, pois estabelecem condições essenciais para o funcionamento da escola do campo. Logo, como afirma Munarim (2005, p. 3),

as diretrizes operacionais significam um ponto de inflexão na relação Estado-sociedade na medida em que consolidam e materializam direitos. A resolução faz indicações concretas de responsabilidade dos entes estatais e de como se deve cumprir o direito à educação em se tratando de populações socialmente desiguais e culturalmente diversas. Mais que um eventual ponto de encontro entre Estado e sociedade, que neste caso implicaria uma visão dicotômica dessa relação, as diretrizes operacionais têm o significado do Estado como espaço, por excelência, da política.

Assim, o conhecimento dos documentos legais que instituem os direitos e obrigações dos docentes e do poder público, bem como a compreensão e reflexão acerca das concepções dos professores, são passos necessários à melhoria da formação continuada.

Considerações finais

A análise da compreensão dos professores que atuam nas classes multisseriadas em relação ao processo de sua formação inicial indica que os professores possuem posicionamento crítico e refletem acerca de sua vivência. Em todas as respostas, os professores se posicionaram, apresentando propostas para a melhoria do contexto formativo.

Observa-se, assim, consoante os posicionamentos docentes, críticas voltadas a questões inerentes à logística dos encontros e à não concessão de auxílio para deslocamento, alimentação e transporte no período dos encontros de formação continuada.

Dentre as propostas apresentadas pelos professores, foi citada a construção de um espaço para a realização dos encontros de formação continuada equipado com recursos tecnológicos e a organização dos serviços de alimentação e transporte durante esses períodos, além do acesso a conteúdos atualizados, um indício de que os professores almejam condições de estudo e formação em serviço.

Outro aspecto importante é a construção da identidade dos professores como profissionais das escolas do campo; eles reclamam tratamento digno para todos por parte do órgão gestor. Reivindicam que as características culturais, históricas e do trabalho do campo sejam consideradas na organização dos tempos e espaços escolares.

Para os professores, portanto, a Educação do Campo de qualidade se realiza com ações de formação, valorização dos profissionais, remuneração digna e condições de trabalho, de modo que o município de Dianópolis/TO, principalmente nos últimos dois anos, tem passado por modificações significativas, mas ainda necessita de ampliação dessas mudanças, no intuito de alcançar uma Educação no e do campo com qualidade.

Nesse sentido, a formação continuada planejada e executada com base nas demandas locais poderá contribuir para que os estudos e reflexões resultem em transformações capazes de aprimorar a prática educativa dos professores do campo e, consequentemente, a formação dos alunos oriundos desse contexto.

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Publicado em 06 de julho de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

BARROS, Luzani Cardoso. A formação inicial e continuada de professores das classes multisseriadas no sudeste do Tocantins. Revista Educação Pública, v. 21, nº 25, 6 de julho de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/20/23/a-formacao-inicial-e-continuada-de-professores-das-classes-multisseriadas-no-sudeste-do-tocantins