Resenha do livro Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire

Fernanda Ferreira Barreto

Graduada em Letras - Português/Espanhol (UFRPE)

Ensinar requer uma série de quesitos para haver reciprocidade de sucesso. Nos cursos de licenciaturas, é comum ver, durante as aulas, vários comentários sobre a relação professor/aluno e como ela é realizada nas escolas do Brasil. Também são considerados fatores histórico-sociais da educação para se chegar às concepções do conteúdo programático das licenciaturas e da formação continuada de professores. A educação brasileira passou (e ainda passa) por várias mudanças principalmente no ensino básico, o que envolve não apenas o alunado, mas também o profissional da educação, pois é através dele que os caminhos da vida são traçados pelo conhecimento que proporciona na sala de aula.

Paulo Freire, através do que viu e vivenciou nas escolas, escreve este livro de análises para ajudar na orientação dos (futuros) professores sobre como lecionar e haver resultados positivos de todos que compõem a escola, principalmente os alunos. Essas análises e sugestões são seguidas por muitos professores e até mesmo por escolas de todo o Brasil, mas ainda não são a maioria quantitativa. No livro, todo capítulo possui “subcapítulos” nos quais todos são intitulados inicialmente por “ensinar exige...”, pois ensinar não é apenas compartilhar conhecimentos, é muito além disso, como será visto a seguir.

Desenvolvimento

A autonomia dos alunos é tema central do livro, em que isso será fornecido através da formação docente conjunta a uma reflexão sobre a prática educativo-progressiva. Freire enfatiza a ética universal humana e que ela deve ser seguida por todos, pois um indivíduo não pode se assumir como sujeito histórico e transformador sem ter ética, e sua transgressão é inaceitável. O autor também esclarece que os saberes da prática docente são voltados aos professores progressistas, mas que é necessário que alguns conservadores possuam esses saberes. Os (futuros) professores devem saber que ensinar não é sinônimo de transferência de conhecimento, e sim da criação de possibilidades para a sua construção, ou seja, ensinar abre a mente do aluno para que ele veja a diversidade de certezas e incertezas do que está sendo ensinado. Não existe professor sem aluno e nem aluno sem professor, pois “quem forma se forma e reforma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado.” (Freire, 1996). Através dessa reciprocidade, o professor, ao ensinar, também aprende, e o aluno ao aprender, também será capaz de ensinar. O processo de aprender desperta a curiosidade no aluno e isso pode torná-lo mais criativo, Freire nomeou de “curiosidade epistemológica”, e a falta dela acarreta o chamado ensino bancário, que é o mais utilizado nas escolas, também conhecido como ensino conteudista.

O educador progressista deve reforçar a capacidade crítica do aluno, sua curiosidade e sua insubmissão. Para isso, o docente e o discente devem ser curiosos, criadores, indivíduos humildes e persistentes; e o educador também faz o seu papel de ensinar seus alunos a pensarem certo, e não conteúdos. Para que o ato de pensar certo ocorra, o indivíduo deve ter a mente aberta, não achar que está certo de suas certezas, e, consequentemente, um conhecimento novo será bem-vindo e o conhecimento existente continuará absolvido, além de pensar em um conhecimento ainda não existente, ou seja, em possibilidades (ciclo gnosiológico). Esse ciclo, junto com a curiosidade epistemológica, gera no educador e no educando o interesse em pesquisar; não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino; ao pesquisar algo, obterá novas informações e serão compartilhadas.

O educador deve considerar todo o aprendizado obtido pelo aluno em sua prática comunitária e utilizar essas informações para auxiliar o processo de ensino/aprendizagem, para que assim o aluno se sinta mais próximo do professor e mais acolhido, o trazendo mais autoconfiança.

Para Freire, não há ruptura entre o saber de pura experiência e o saber metodicamente rigoroso, o que há é uma superação, dada quando a curiosidade ingênua se criticiza, tornando-se uma curiosidade epistemológica. Essa ingenuidade se dá pelo desenvolvimento da curiosidade crítica e insatisfeita. A tecnologia e a ciência são necessárias, mas não devem ser utilizadas sempre, e sim de forma criticamente curiosa.

O professor progressista sempre ignora a frase “faça o que eu mando, não o que eu faço”, a substituindo pela concepção de que pensar certo é fazer certo. Pensar certo implica a existência de dois sujeitos mediados por objetos ou objetos sobre que incide o pensar dos sujeitos. A tarefa do educador que pensa certo é exercer prática do inteligir, desafiar o educando a produzir sua compreensão do que vem sendo comunicado. A comunicabilidade deve ser praticada constantemente. Esse educador também nega a prática de discriminação, pois ela nega a democracia; o pensar certo é diálogo. Não é o “pensar certo” que forma a prática docente crítica, mas a existência de um docente que se baseie nessas concepções. A prática docente crítica envolve o movimento dinâmico, dialético, entre o fazer e o pensar sobre fazer, a reflexão.

Paulo Freire comenta que condições materiais econômicas, sociais, políticas e ideológicas são quase sempre barreiras difíceis de superar na transformação do mundo; ele nomeou essas barreiras de “conscientização”, o esforço de conhecimento crítico dos obstáculos. A conscientização é uma exigência humana e um dos caminhos para a prática da curiosidade epistemológica, ela é natural ao homem inacabado que sabe que é inacabado. A consciência do inacabamento fez os indivíduos responsáveis, compromissados com a ética, a qual pode ser traída nesse mundo de opção, decisão e possibilidades. Devido a isso, o ensino de saberes instrumentais jamais dispensa a formação ética. O ser consciente de sua inconclusão se funda com a educação como processo permanente.

O respeito à autonomia e à dignidade do aluno é um caráter ético, não um favor. O educador que humilha o aluno de alguma forma, seja criticando o modo de falar, de vestir, religião, o que for, é um transgressor da ética. Essa transgressão não é uma virtude, e sim uma ruptura com a decência. Qualquer tipo de discriminação é imoral. O uso do bom senso é de grande importância na prática docente e na sua avaliação; de nada serve o professor falar sobre democracia e liberdade em sua aula se o mesmo proíbe isso dos alunos. A luta dos professores contra os diversos problemas existentes deve ser visto como momento importante na prática docente; os educadores sofrem bastante com sua desvalorização, seja pelo governo ou pela sociedade, com salários baixos, más condições de trabalho e humilhação de diretores, alunos e pais de alunos. A luta deve ser reinventada de forma histórica.

O ato de aprender é construir e reconstruir; toda prática educativa demanda a existência de sujeitos que ensinando, aprendem e os que aprendem, ensinam. O professor deve estar atento no quanto seu trabalho influencia na passagem da heteronomia para a autonomia da criança. O educador progressista leciona com esperança, para que ele e seus alunos possam passar por obstáculos que impedem a alegria; essa esperança é histórica, com tantos problemas que a classe dos professores vem sofrendo até hoje, tantas perseguições, censuras nas informações, entre outros, o professor não desistiu do seu papel de abrir portas e mentes. Foram através dessas lutas que muitas mudanças aconteceram na educação brasileira, mudanças que tiveram seus lados positivos e negativos, mas que os educadores progressistas tentam fazê-las da melhor forma possível. O bom clima pedagógico-democrático é o que o aluno vai aprendendo na prática que sua curiosidade e liberdade devem estar sujeitas a limites, mas em permanente exercício. A curiosidade domesticada leva a memorização mecânica do objeto, mas não ao aprendizado real. A postura do docente e dos discentes deve ser dialógica, aberta, curiosa e que se assumam epistemologicamente curiosos. Outra função importante do educador é lidar com a relação de autoridade/liberdade, havendo um equilíbrio necessário.

O professor deve ter segurança de si mesmo, crer que possui total capacidade de estar na sala de aula e fazer o que planejou e de improvisar, se for o caso. Um profissional inseguro demonstra desleixo em seu serviço, sendo perceptível pelos outros e alguns podem se aproveitar da situação para fazer algo indecente. No caso do professor, sua insegurança fará com que os alunos não prestem atenção na aula e não o obedeçam, por exemplo; sua incompetência profissional desqualifica sua autoridade. A presença do professor não pode passar despercebida pelos alunos, pois é uma presença política. A educação é uma intervenção, é através dela que o mundo muda, com novas ideias, novos pensamentos, novas concepções e descobertas; por conta disso, a educação nunca foi e jamais será neutra.

Freire afirma que a liberdade não está acima de qualquer limite, mas que sua existência é necessária. Liberdade não deve ser confundida com vagabundagem, pois liberdade sem limite é tão negativa e negadora quanto a liberdade asfixiada. O desafio então é trabalhar o limite da liberdade. Ela amadurece no confronto com outras liberdades. Deve ser trabalhada não apenas pelo professor, mas também pelos pais ou responsáveis do aluno, através do diálogo e compreensão.

A educação é ideológica; ideologia tem a ver com a ocultação da verdade dos fatos, usando a linguagem para ocultar a realidade. Todo professor deve estar atento ao discurso ideológico que proclama a “morte às ideologias”. O melhor caminho para despertar a capacidade de pensar certo é ver com acuidade, ouvir com respeito, respeitar as diferenças, recusar posições dogmáticas, perguntar e responder, concordar e discordar, estar sempre disponível para a vida. O diálogo é um fator fundamental para tais atos, pois é através dele que há a relação professor-aluno. Um exemplo para o sucesso dessa relação é o debate nas aulas, onde os alunos expõem suas opiniões e todos se respeitam. Toda comunicação docente/discente é válida e importante, junto com a afetividade, que não significa apenas desejar o bem dos alunos, mas não ter medo de demonstrar esse sentimento e que ele não afeta o educador.

Prática educativa é: afetividade, alegria, capacidade científica, domínio técnico a serviço da mudança ou da manutenção do hoje. O educador progressista precisa estar convencido de que seu trabalho é uma especificidade humana, realizado com pessoas em constante processo de busca, se formando, mudando, crescendo, melhorando e se reorientando.

Conclusão

Através da leitura desse livro, pode-se confirmar que o ato de ensinar abarca vários conceitos, a fim de haver sucesso em sua feição tanto para o professor quanto para os alunos, pois eles dependem um do outro para que a escola exista. O professor possui papéis fundamentais no ensino, tendo principalmente a ética; é através dela que os bons resultados dos educandos são extraídos, pois é através da ética que o professor tem bom diálogo, respeito, é a favor da democracia em sala de aula, entre outros fatores que auxiliam em classe. Mas, além dos educadores, os pais e responsáveis dos alunos também devem ajudar na vida acadêmica, não só auxiliando no estudo de disciplinas, mas na questão ética do aluno: ensiná-lo a respeitar, a obedecer, a tolerar, a dialogar, entre outros.

Atualmente, há (poucas) escolas que utilizam métodos freirianos em sua didática, mas sabe-se que não é fácil aplicá-los devido a uma séria de fatores histórico-sociais; porém, muitos profissionais da educação lutam para melhorar a qualidade de ensino em conjunto com o bem-estar do alunado, pois a escola só existe por causa do discente. A luta docente nunca deve ser ignorada, porque é a educação que transforma os jovens, e os jovens que transformam o mundo.

Referências

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 25ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

Publicado em 06 de julho de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

BARRETO, Fernanda Ferreira. Resenha do livro Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire. Revista Educação Pública, v. 21, nº 25, 6 de julho de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/25/resenha-do-livro-ipedagogia-da-autonomiai-de-paulo-freire