Educação Ambiental no Ensino Fundamental: dificuldades, desafios, recursos didáticos e percepções

Suzany Evelyn de Souza Gama

Licenciada em Ciências Biológicas (IFES – Câmpus Santa Teresa)

Veronica Loureiro Bridi

Licenciada em Ciências Biológicas (IFES – Câmpus Santa Teresa)

A população conhece o que é asfalto e lixo, mas quando se pensa na questão ambiental mais ampla, boa parte das pessoas não compreende do que se trata. A expressão “meio ambiente” é quase ignorada pela população, havendo a necessidade de uma pedagogia para o desenvolvimento sustentável (Gadotti, 2001).

Dias (2010) aponta em seu livro que a “Educação e a Gestão Ambiental” são consideradas agentes potencializadores de questões reflexivas: a Educação Ambiental (EA) atua no processo formativo. Sendo assim, a EA é um instrumento importante no processo de formação de cidadãos, com o intuito de que considerem o meio ambiente como um bem coletivo (Guimarães, 2006).

Segundo o Tratado Internacional para a Construção de Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global (1992), a EA foi proposta para atingir todos os cidadãos por meio de atos participativos e permanentes, a fim de que possam desenvolver uma consciência crítica, após entenderem a problemática ambiental. Pessoas de todas as partes do mundo que se comprometem com a proteção da vida na Terra reconhecem na educação o papel central na formação de valores; é a partir dela que se forma uma coletividade socialmente justa e ecologicamente equilibrada.

Guimarães (2006) afirma que mesmo que a Educação Ambiental seja reconhecida como ferramenta formadora da consciência ecológica, a temática é pouco explorada no meio escolar. Percebe-se que, nas escolas, a abordagem da Educação Ambiental é feita em campanhas isoladas, de forma esporádica ou em datas comemorativas, além de não serem baseadas na realidade local dos estudantes.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) formam um documento que tem por objetivo auxiliar os professores na execução de seus trabalhos. De acordo com eles,

os conteúdos de Meio Ambiente serão integrados ao currículo através da transversalidade, pois serão tratadas nas diversas áreas de conhecimento, de modo a impregnar toda a prática educativa e, ao mesmo tempo, criar uma visão global e abrangente da questão ambiental (Brasil, 1997, p. 36).

A Base Nacional Comum Curricular é um documento que norteia os currículos dos sistemas de ensino de todo o Brasil, para que todo aluno tenha assegurado seu direito de aprendizagem e desenvolvimento. Na versão final desse documento, a EA é citada uma única vez, junto a outros temas transversais, conforme mostrado a seguir (Brasil, 2017).

Por fim, cabe aos sistemas e rede de ensino, assim como ás escolas, em suas respectivas esferas de autonomia e competência, incorporar aos currículos e às propostas pedagógicas a abordagem de temas contemporâneos que afetam a vida humana em escala local, regional e global, preferencialmente de forma transversal e integradora. Entre esses temas destacam-se: diretos da criança e do adolescente, educação para o trânsito, Educação Ambiental, educação alimentar e nutricional.

Tomando-se a ilha de Guriri, no município de São Mateus/ES, como exemplo de um meio que sofre impacto ambiental em decorrência da ação humana, remete-se aqui ao estudo realizado por Teixeira et al. (2015) a respeito da ilha. O estudo mostra aspectos da história ambiental local e conta relatos de moradores, enfatizando a pesca como fonte de renda e de alimentação de muitas pessoas. Com o crescimento populacional, cresceram também os problemas ambientais, como a pesca predatória de tartarugas marinhas; o aumento de lixo ao longo da praia e dos mangues; o lançamento de peixes na praia pela Capitania dos Portos de Conceição da Barra, o que aumentou ainda mais a poluição. O turismo e a indústria petrolífera também promoveram grandes mudanças na natureza nativa. Teixeira et al. concluem seu trabalho informando que, para a ampliação do balneário, ocorre um acelerado processo de redução da cobertura vegetal.

Pretendeu-se analisar, portanto, como o assunto Educação Ambiental é ministrado no bairro de Guriri, isto é, analisar quais são os materiais didáticos utilizados, bem como as dificuldades encontradas pelos professores; tendo como fonte duas escolas locais.

Objetivos

São objetivos deste trabalho:

  • analisar como a Educação Ambiental é trabalhada no Ensino Fundamental;
  • levantar as dificuldades encontradas pelos professores ao trabalhar Educação Ambiental;
  • examinar os recursos didáticos utilizados pelos professores;  
  • verificar se existe suporte aos educadores por parte do corpo pedagógico da escola;
  • propor sugestões de ensino.

Histórico da Educação Ambiental

A EA é uma das ferramentas existentes para a sensibilização e capacitação da população em geral sobre os problemas ambientais. Com ela, busca-se desenvolver técnicas e métodos que facilitem o processo de tomada de consciência sobre a gravidade dos problemas ambientais e a necessidade urgente de nos debruçarmos seriamente sobre eles (Marcatto, 2002).

Existem várias definições para a Educação Ambiental. Marcatto definiu a Educação Ambiental como sendo o processo que visa

formar uma população mundial consciente e preocupada com o ambiente e com os problemas que lhe dizem respeito, uma população que tenha os conhecimentos, as competências, o estado de espírito, as motivações e o sentido de participação e engajamento que lhe permita trabalhar individualmente e coletivamente para resolver os problemas atuais e impedir que se repitam (Marcatto, 2002, p. 14).

A Conferência das Nações Unidas pelo Meio Ambiente (1972), que aconteceu em Estocolmo, na Suécia, resultou no documento chamado Agenda 21, assinado por 179 países. Esse documento pode ser definido como um “instrumento de planejamento participativo visando o desenvolvimento sustentável” (p. 14). No capítulo 36 da Agenda 21, a EA é definida como o processo que busca

desenvolver uma população que seja consciente e preocupada com o meio ambiente e com os problemas que lhes são associados. Uma população que tenha conhecimentos, habilidades, atitudes, motivações e compromissos para trabalhar, individual e coletivamente, na busca de soluções para os problemas existentes e para a prevenção dos novos.

Em 1977, ocorreu a Conferência de Tbilisi na ex-União Soviética, considerada um dos principais eventos sobre Educação Ambiental do planeta. Ela traz algumas finalidades da Educação Ambiental, como: fazer com que as pessoas entendam a importância da interdependência econômica, política, social e ecológica; dar oportunidade às pessoas de conhecerem sobre os valores e as atitudes necessárias para protegerem e melhorarem o meio ambiente; aplicar às pessoas novas formas de pensar, viver e agir sobre o meio ambiente.

A conferência ainda recomenda que a Educação Ambiental

tenha por finalidade criar uma consciência, comportamentos e valores com vistas a conservar a biosfera, melhorar a qualidade de vida em todas as partes e salvaguardar os valores éticos, assim como o patrimônio cultural e natural, compreendendo os sítios históricos, as obras de arte, os monumentos e lugares de interesse artístico e arqueológico, o meio natural e humano, incluindo sua fauna e flora, e os assentamentos humanos. Que as autoridades competentes estabeleçam uma unidade especializada, encarregada de prestar serviços à educação ambiental (Tbilisi, 1977).

Educação Ambiental e metodologias diferenciadas

Marcatto (2002) divide didaticamente a Educação Ambiental em duas categorias básicas, que são a “educação formal e a informal”. A formal envolve qualquer tipo de estudante, desde a educação infantil até a universitária, ou até mesmo profissionais envolvidos em cursos em Educação Ambiental. Já a educação informal envolve todos os segmentos da população, e não só estudantes. A EA não formal deve despertar o pensamento crítico das pessoas com relação aos problemas socioambientais, mostrando como nós, seres humanos, somos e fazemos parte do mundo como um todo; pressupondo, assim, que o homem é um sujeito construtor da própria história, capaz de problematizar suas relações com o mundo.

Na visão de Carvalho (2008), existem duas perspectivas com as quais os professores se aproximam da Educação Ambiental. Uma é a perspectiva tradicional/convencional e a outra é a crítica/emancipatória. Segundo Guimarães (2010), a educação ambiental tradicional não acrescenta mudanças paradigmáticas significativas às transformações necessárias à sociedade atual. De acordo com Guimarães (2000), é importante que os professores entendam que a educação ambiental deve propor estratégias, após perceber a origem dos problemas. Essas estratégias devem contribuir para a erradicação dos problemas, ou ao menos para a sua mitigação. A educação crítica traz ideias inovadoras e emancipatórias frente aos problemas ambientais (Carvalho, 2008).

Freire (2005) afirma que a educação problematizadora é o ato de conhecimento da realidade visando a educação. Na prática, tanto o educador quanto o educando aprendem juntos, frente aos problemas sociais observados por eles. O educando passa a ser investigador crítico, assim como o educador, pois, para Freire, quanto mais se problematizam, mais se sentirão aptos a solucionar ou ter ideias para a minimização do problema ali observado.

Conforme as palavras de Gadotti (2005, p. 10), “precisamos de uma Pedagogia apropriada para esse momento, uma Pedagogia da Terra, apropriada à cultura da sustentabilidade”.

A Educação Ambiental na prática deve ser integrada às demais disciplinas, usando metodologias que visem o pensamento crítico, a solução de problemas e sempre associada ao cotidiano do aluno, aos problemas regionais e, depois, aos globais.

Área de estudo e participantes

O presente trabalho foi realizado na ilha de Guriri, município de São Mateus, litoral norte do Espírito Santo. Participaram 10 professores das redes pública e privada; quatro mestres, cinco pós-graduados e um graduado; todos atuantes na disciplina de Ciências e com tempo de atuação variando entre 2 e 14 anos. As duas escolas participantes lidam com o Ensino Fundamental e se situam no bairro de Guriri.  

Coleta de dados

Por conta do cenário pandêmico vivenciado no momento da pesquisa, o trabalho foi inteiramente realizado virtualmente. O primeiro contato com os professores, para apresentação da pesquisa e obtenção do seu aceite foi realizado por meio do Formulário Google, que continha os objetivos do trabalho e o termo de consentimento livre e esclarecido.

A pesquisa foi qualitativa, pois a preocupação era a compreensão do tema pelo grupo, além das relações sociais na realidade e tinha o objetivo de gerar conhecimentos a serem aplicados na prática, na solução de problemas; sendo o presente trabalho feito por meio da pesquisa aplicada.  

O questionário utilizado para esse trabalho abordou as seguintes questões: formação, tempo de atuação na área, recursos didáticos utilizados, desafios e dificuldades encontradas ao se abordar o tema de EA, participação em cursos de formação continuada, modo de abordagem da EA em sala de aula, apoio do corpo pedagógico para o ensino da EA e aspectos a serem melhorados.

Análise de dados

Após a aplicação do questionário com os professores, as respostas obtidas foram analisadas usando os métodos de Bardin. As respostas foram organizadas em três etapas: organização, codificação e categorização, agrupando-as pela frequência em que apareciam e pelo grau de importância.

Bardin (1977, p. 42) define a Análise de Conteúdo como

um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição de conteúdo das mensagens, indicadores, que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção dessas mensagens.

A fim de manter em sigilo a sua identidade, os professores foram identificados pelas siglas P1 a P10. O número de participantes envolvidos correspondeu ao número de professores que lecionam Ciências no bairro.

Discussão dos resultados

Os resultados mostraram que metade dos professores nunca participou de algum processo de formação relacionado à Educação Ambiental, e os que participaram, fizeram-no durante a graduação. Os oito professores que atuam na rede pública informaram que a escola não os incentiva a realizarem algum processo de formação para a Educação Ambiental.

Assis e Chaves (2015) relatam que as redes de ensino precisam oferecer a capacitação aos docentes ali inseridos, pois os professores possuem uma carga horária muito desgastante, o que acaba tornando mais difícil sua capacitação em outra instituição de ensino.

Conforme a última Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (Lei n° 9.394/96), é de responsabilidade de todas as disciplinas curriculares trabalhar a temática Meio Ambiente. Apesar disso, seis professores afirmaram não ver isso nas escolas em que atuavam e que o tema somente era abordado nas aulas de Ciências. Alguns declararam que costumam abordar a temática por meio dos conteúdos de Zoologia e Ecologia.  

De acordo com Alves (2011), na realidade das escolas brasileiras, o tema Educação Ambiental geralmente fica sendo responsabilidade das disciplinas Geografia, Ciências e Biologia, contrariando o que foi postulado pelos PCN.

Concordando com Coimbra (2005), a interdisciplinaridade é construir diálogos fundamentados nas diferenças. Não é tão fácil, pois não é somente o cruzamento de coisas similares, além disso, ela tenta acabar com a fragmentação do conhecimento.

Quando questionados sobre as principais dificuldades encontradas para abordar a EA em sala (Quadro 1), várias dificuldades foram expostas, dentre elas, a abordagem do tema de forma interdisciplinar. Essa dificuldade surge devido ao currículo existente nas escolas, pois seguindo o currículo já estabelecido, muitos professores informaram que não sobra tempo para se falar em Educação Ambiental. Por isso, quando o tema é abordado, é de forma rápida, para que se dê sequência ao conteúdo curricular, como se vê nas respostas transcritas a seguir.

P 1- A dificuldade é encontrar um momento mais concreto dentro do currículo das escolas. Nas escolas públicas principalmente, os assuntos muitas vezes têm que ser passados de forma mais superficial devido ao tempo.

P 6- Falta tempo para fazer uma abordagem melhor.

Três professores citaram a importância de se fazer parcerias com projetos já existentes, como o Projeto Tamar, o Projeto Baleia Jubarte, dentre outros, que possibilitam executar um ótimo trabalho sobre Educação Ambiental. Duas dessas respostas são transcritas, como se segue:

P 9- Em parceria com o Tamar, não tive dificuldade. Os alunos podiam ver na prática a teoria que era abordada em sala de aula.

P 7- A escola particular em que estou nesse ano já possui um projeto "escola na praia" que seria um ótimo lugar para abordar o tema de forma mais prática, incluindo o aluno na sua realidade local.

Dois professores falaram que o ideal seria levar os alunos ao ambiente apropriado, natural, marinho, porém não existe apoio da escola para fazer atividades em outro ambiente, que não o da sala de aula.

Quadro 1: Respostas dos participantes a respeito das principais dificuldades encontradas na abordagem da EA em sala

Categorias

Discurso

Falta de materiais didáticos

P1- Em todos os temas científicos encontramos dificuldade de materiais didáticos.

P2- Falta material, os próprios livros didáticos não trazem muitas informações.

P3- Pouco material pronto para uso nas escolas.

Falta de tempo

P5- Nas escolas públicas, principalmente, os assuntos, muitas vezes tem que ser passados de forma mais superficial devido ao tempo.

P6- Falta tempo para fazer uma abordagem melhor, temos um currículo a seguir.

Falta de aula de campo

P4- Às vezes planejamos uma aula onde ideal seria levar os alunos até um ambiente apropriado, natural marinho, não ficar somente em sala.

Todos os oito professores de rede pública informaram não terem apoio por parte do corpo pedagógico. Alguns citaram que o apoio até existe, exceto se esse apoio depender de recursos financeiros para aulas de campo ou compra de materiais.

Já os relatos de dois professores de escolas particulares são diferentes, afirmando ter sempre o apoio da escola; bastando o professor sinalizar a vontade de fazer algo.

No que diz respeito à opinião dos professores sobre como a EA pode ser melhorada em sala de aula (Quadro 2), três professores afirmaram que seria ótimo haver investimento em materiais de apoio ao professor. Alguns, inclusive, informaram que as escolas precisam de um projeto interdisciplinar que vise ao menos utilizar o campus da escola como local de estudo, para que saiam um pouco da sala de aula.  

Dois professores enfatizaram que aulas de campo são de muita importância para a abordagem do tema, pois é a partir delas que o aluno consegue visualizar a EA, associando-o à realidade e ao seu dia a dia.

Lima (2014) mostra em seu trabalho que, por meio das aulas de campo, é possível criar formas para que os alunos entendam a relação entre o assunto abordado em sala e o que se vive fora dela. Com isso, eles podem associar melhor tudo que foi dito em sala.

Quadro 2: Ideias sugeridas pelos participantes para melhorar o ensino da EA em sala

Categoria

Discurso

Parceria com projetos já existentes

P2 - Um projeto interdisciplinar que vise pelo menos utilizar o próprio local como lugar de estudo.

P3 - Mais parcerias. Os meus alunos tiveram palestras com veterinários e biólogos do Ibama, com o corpo de bombeiros, com estagiários que preservam ninhos de tartarugas... Seria excelente se todas as escolas tivessem essa oportunidade.

P7 - Projetos de Educação Ambiental para todas as turmas.

Ser inserida em todas as disciplinas

P1 - Ser inserido nas disciplinas e não somente como projetos.

P5 - Relacionar a EA com outras disciplinas.

Mais materiais pedagógicos

P6- Investir em materiais de apoio para o professor.

P9- O professor precisa de materiais pedagógicos além do livro.

Quando perguntados a respeito de como o tema vem sendo abordado nos livros didáticos, cinco dos professores de escolas públicas afirmaram que o tema é abordado de forma superficial e pouca importância é dada a sua ligação com as ações do homem (Quadro 3).

Um afirmou que o tema é extremamente raso nos livros didáticos porque muitos não conseguem fazer a associação das atividades diárias e os impactos ocorridos no ambiente marinho; e como o município recebe o mesmo livro didático que outros municípios distantes do litoral, o tema não é muito falado.

Três professores informaram que não possuem material didático e que os livros não trazem muitas informações sobre o ambiente marinho.

Quadro 3: Opinião dos professores a respeito da Educação Ambiental abordada nos livros didáticos

Categoria

Discurso

Superficial

P1 - Vem muito solto e isso faz com que a maioria nem trabalhe o assunto.

P3 - Muito superficial. O ideal mesmo é, além de ter essa visão geral dos livros, adentrar o conhecimento para a realidade do município que vivemos.

P4 - Praticamente em grande parte dos livros de Ciências o tema EA é tratado de forma superficial, pouca importância é dada a sua ligação com as ações do homem.

P7 - Os livros, de modo geral, trazem pouca ou nenhuma informação sobre o tema, tendo muitas vezes o professor que complementar ou abordar o assunto por meio de outros recursos.

P8 - Muito superficial. Quase sempre traz a educação ambiental pragmática. Cuidar, não jogar lixo no chão, plantar árvores, fechar as torneiras.

Bem detalhado

P2 - Os livros da escola particular, o conteúdo sempre que possível traz um texto ou vídeo complementar para buscar assuntos atuais sobre o tema e isso em diversos conteúdos. Dessa forma, estimula ainda mais o professor trazer o tema à tona.

P5 - Nos livros e apostilas que utilizo eu não tenho do que reclamar.

Todos os professores citaram que o principal tema abordado na Educação Ambiental Marinha é o lixo. Muitos deles enfatizaram que o tema deveria ser tratado de forma mais complexa, não somente esse “mantra de reciclagem”.   

Percebeu-se que a Educação Ambiental nas escolas públicas pesquisadas não tem contextualização, nem problematização e que as escolas quase sempre não combatem o desperdício de recursos naturais. Contudo, a Educação Ambiental agora deve ensinar o indivíduo a contestar, a protestar, agir coletivamente em prol do meio em que se vive.

No regime político sob o qual nos encontramos hoje, declaradamente pautado pelo antiecologismo, a EA está inserida de forma conservadora. Layrarques (2020) nos mostra em seu trabalho que esse modelo de Educação Ambiental tem objetivo de formar um sujeito ecológico ingenuamente manipulado, pensando só nos comportamentos individuais. Mas precisamos de mudanças até mesmo políticas e econômicas, com seres atuantes que denunciem o combate à insustentabilidade.

Pinto e Cruz (2014) afirmam que ser apenas cidadão não basta mais, cabe a cada um o dever de policiar outras pessoas com as quais temos contato diário; com a ecopolítica, cada pessoa tem o dever de se envolver de forma ativa em questões ambientais.

Considerações finais

Os livros didáticos utilizados nas escolas públicas abordam o tema de forma muito superficial. O tema que mais é abordado com relação a EA é o descarte correto do lixo. As maiores dificuldades em trabalhar o assunto são a falta de materiais didáticos e a falta de tempo, já que os professores têm um currículo a seguir.

Os professores de rede pública não possuem apoio do corpo pedagógico para o trabalho de EA. Já os de escolas particulares afirmaram que sempre são apoiados em quaisquer atividades.

Na opinião dos professores entrevistados, para a melhoria da EA, é necessário fazer parcerias com projetos já existentes fora da escola, produção de mais materiais pedagógicos e que a EA seja inserida em todas as disciplinas, não só nos conteúdos de Ciências.

Diante de tudo isso, surgiu a ideia de elaboração de uma cartilha de orientação que ajudasse os professores a trabalharem o assunto de forma interdisciplinar e transversal. Essa cartilha seria apresentada aos professores no início do ano, para que, por meio dela, o professor tenha uma ideia base de como abordar o tema em suas aulas; salientando que a Educação Ambiental não deve ser abordada somente pelas orientações da cartilha, que serve apenas como apoio para que busquem, em conjunto, a maneira mais eficaz de inserir a EA na escola como um todo.

Cartilha de orientação para o trabalho de Educação Ambiental em escolas de Ensino Fundamental II

Português

Ler um artigo publicado recentemente sobre temas que envolvam problemas ambientais regionais. Em seguida, pedir que os alunos produzam um texto com sugestões de soluções para o problema ali mostrado.   

Matemática

Após uma breve explicação sobre a destinação correta do lixo, o professor dará os números da área de aterro sanitário existente em sua cidade (ou na cidade mais próxima) e os alunos terão que calcular a quantidade de lixo que o aterro suporta. Essa atividade pode ser ainda mais dificultada dependendo de em que turma será aplicada. É de vital importância que o professor utilize as informações da cidade em que está inserida a escola.  

Outra ideia é trabalhar o crescimento da população e produção de alimentos por meio de cálculos e abordando a temática EA.  

Ciências

Nas aulas de Ciências, mais do que em qualquer outra área, é de vital importância que o professor aborde a educação ambiental crítica, sempre que possível e fazendo a associação com os problemas ambientais enfrentados na cidade em que está inserida a escola. Algumas sugestões são: consumismo, aquecimento global, efeito estufa, desequilíbrio ambiental, agrotóxicos, relação entre lixo/capitalismo, introdução a espécies exóticas, sustentabilidade, uso racional da água, tipos diversos de poluição etc.

Geografia

Quando abordadas as questões políticas e geopolíticas, o professor deverá dar um enfoque inicial nas problemáticas do local em que a escola está inserida, citando aquelas relacionadas à preservação do meio ambiente, para despois contextualizar as problemáticas globais.  

Utilizar mapas referentes à preservação da natureza, realizando debates e aulas dialogadas.  

Educação Física

As aulas de Educação Física, em sua maioria são realizadas fora da sala de aula. Sendo assim, é interessante que o professor aproveite todo o campus da escola, desenvolvendo atividades de plantio e cultivo de árvores e/ou hortas, correções de solo para germinação, finalizando as aulas com reflexões sobre a importância de cuidar desses espaços; aproximando o aluno do meio ambiente.

História

O professor deve abordar as relações homem/natureza em todo o processo histórico. Executar pesquisas da História Ambiental para depois discutir em sala de aula.

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Publicado em 20 de julho de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

GAMA, Suzany Evelyn de Souza; BRIDI, Veronica Loureiro. Educação Ambiental no Ensino Fundamental: dificuldades, desafios, recursos didáticos e percepções. Revista Educação Pública, v. 21, nº 27, 20 de julho de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/27/educacao-ambiental-no-ensino-fundamental-dificuldades-desafios-recursos-didaticos-e-percepcoes