"É tudo pra ontem": reflexões acerca do processo de ensino-aprendizagem em tempos de pandemia

Hugo Carvalho Villa Maior

Professor da Faetec e da rede municipal do Rio de Janeiro, licenciado em Letras (UFRJ), mestrando no Programa de Pós-Graduação em Culturas e Territorialidades (UFF)

À professora Adriana Cardoso (in memoriam)

Naquela sexta-feira, 13 de março, o governo sinalizou que as escolas públicas e particulares deveriam ser fechadas, talvez por uns quinze dias; era o máximo de prognóstico que tínhamos até ali; eu jamais imaginei que teríamos que a partir disso literalmente nos reinventar como profissionais do ensino, como profissionais da educação. "Não apareçam aqui na segunda e na terça-feira, aguardem um posicionamento com relação a quarta-feira…"; confesso que um, dois dias pra dar uma respirada, uma descansada, poderia ser bom; não seria nada mal, aliás.

Naquela mesma sexta-feira, 13, eu recebi um e-mail-bomba de uma de minhas escolas no final da tarde; esses e-mails sempre chegam ao apagar das luzes. Deveria me apresentar na reitoria da Faetec dali a uns dias pra escolher minha nova lotação; tinha "sobrado" na escola; como costumávamos falar entre nós, professores, são as fragilidades do trabalho docente, a chamada uberização da docência que nos fragiliza e nos divide, mesmo com uma matrícula, em duas, três em quatro escolas, se der. É como as salas de aulas lotadas: sempre cabe mais um aluno, sempre cabe mais uma escola no que diz respeito à lotação do docente, ou melhor, do professor; tenho implicância com a palavra docente, mas talvez esse seja um assunto para outro texto, para um artigo. A princípio, este é, ou pelo menos deveria ser, apenas um relato de experiência.

Na segunda-feira seguinte, estava na minha unidade escolar para tentar, de alguma forma, resolver a questão da lotação. Aliás, eu e uma competente colega, representante do conselho escolar da instituição. Nessa altura, com as aulas já suspensas, a gestão da unidade me disse para não me preocupar, provavelmente a reitoria também deveria fechar por causa da tal pandemia. Recordo então de uma conversa nos corredores da minha escola do município, em Botafogo, ainda no meio da tarde daquela sexta-feira, 13, com um guarda municipal que estava dando uma palestra para os alunos naquela semana sobre violência: “o próximo passo é fazer um trabalho com os pais, mas, como a escola deve fechar, não sabemos quando vai ser…” Fechar?, pensei. Que exagero! Sim, eu mesmo subestimei o potencial do vírus, jamais imaginei que teríamos tantas mortes.

Em um primeiro momento, o que mais me espantou foi que, de uma hora para outra, a página do Sepe, nosso sindicato, em determinada rede social havia se transformado em um verdadeiro obituário. Curiosamente, ainda em março, uma amiga professora, jornalista, relativamente próxima, companheira de muitas lutas, inaugurou essa listagem. De início, houve muitas dúvidas com relação à morte da professora, especulou-se um problema renal, e eu nunca soube a confirmação da causa mortis de fato; mais tarde, foi a vez de uma colega de Artes com quem eu havia tomado café um mês antes, “Professor quando adoece morre de uma vez…”, lembro de ter escutado naquela altura.

E assim se iniciou o debate em torno do chamado ensino remoto, que, naquele momento, chamávamos apenas de EaD, envolto em muitas perdas, muitos lutos, tanto nas famílias dos alunos quanto nas famílias do corpo docente e dos funcionários das escolas; o discurso forjado e engendrado pela mídia hegemônica era um discurso muito parecido com o que é veiculado nas redes e na imprensa sempre que iniciamos uma greve: “Os alunos estão perdendo aula...". A escola particular, naquele momento, já tinha conseguido se organizar de alguma forma, mas sem debater a questão, com medo inclusive das demissões que isso poderia gerar no mercado. Mais uma vez a discussão girava em torno de "os alunos da escola pública estão sempre perdendo…", e o senso comum reforçando, mais uma vez também, que a escola pública é ruim. Lembro de uma discussão que tive com os jovens, meus alunos, no meio da minha pesquisa de mestrado. Alguém da própria escola tinha dito para eles que escola pública era ruim e que determinados assuntos deveriam ser dados, ser vistos de determinada forma, porque é dessa forma que eles eram vistos na escola particular. Mais uma vez a escola particular que atende a um mercado pautava a discussão sobre a qualidade no ensino; por que motivo não poderia pautar também a discussão do ensino remoto na pandemia? O que está em jogo nessa discussão é apenas acesso, a inclusão digital desses jovens?

É lógico que passa por aí, mas talvez não seja só isso. Se assim fosse, eu não teria perdido algumas aulas do doutorado por não ter conseguido me logar ou não teria entrado atrasado na aula por ter levado tempo demais tentando me logar; me lembro inclusive de um dia eu ter simplesmente esquecido de assistir à aula, talvez porque ela ainda não estivesse introjetada o suficiente na minha rotina na pandemia. E eu estou falando a respeito de uma pessoa que tem internet, celular e laptop a qualquer momento à sua disposição. E viver a outra ponta desse iceberg foi fundamental para eu repensar várias questões.

Eu me recordo de que ainda durante minha pesquisa de mestrado, que foi sobre a nem sempre amistosa relação entre a escola e o cinema, os jovens se aglomeravam durante as minhas aulas para jogar em forma de cooperação um jogo no celular chamado Free Fire. Um deles disponibilizava, roteava a internet para que todos pudessem jogar o bendito Free Fire. Logo, esta discussão não é só sobre acesso, mas também sobre determinadas gambiarras que podem ser feitas, construídas quando há o desejo de aprender ou o desejo de aprender a aprender, de aprender a apreender, ah esse "infinito delírio chamado desejo…", onde reside a ambivalência do sujeito que aprende e, ao mesmo tempo, não quer aprender, escamoteia, falseia, engana seus próprios desejos, "onde queres descanso, sou desejo/onde sou só desejo queres não", dizia Caetano na figura do cancioneiro popular já em uma outra canção.

O desejo de aprender a jogar o tal Free Fire levou a garotada a aprender a usar o roteador, a partilhar a internet com os colegas, o que levou todos eles a aprender a jogar por sistema de cooperação; tudo isso envolve ensino, tudo isso envolve a vontade, o desejo de aprender; não acredito muito nesse discurso pronto que diz que essa nova geração XYZ, e não sei mais que letra, já nasceu com a internet na ponta da língua, ou melhor, na ponta do dedo; algum aprendizado houve, ainda que ele tenha começado muito cedo, esse tal de "já nasceu sabendo" seria maravilhoso se existisse. Já pensou que beleza? Talvez a discussão sobre EaD, ensino remoto ou qualquer outra etiqueta que queiram botar nesse processo de ensino-aprendizagem durante a pandemia envolva tudo isso.

Finalmente, jogamos nossas velhas teorias fora ou, pelo menos, as tenhamos deixado um pouco de lado, e o aluno, como num passe de mágica, passou a nos auxiliar, a usar seus conhecimentos cibernéticos, internéticos para conectar seu professor ao universo virtual e ao maravilhoso mundo das aulas on-line? Lógico que não. Teve muita resistência de ambos os lados. O aluno também foi pego de surpresa, também esteve alheio ao processo em algum momento, de câmera fechada, em muitos momentos estava na verdade ali, em pé de igualdade, pela primeira vez, com seu professor. Aluno e professor aprendendo junto, coisa que eu só tinha visto com o cinema na sala de aula. Por falar em cinema na sala de aula, na segunda-feira seguinte à tal sexta-feira fatídica, eu havia combinado com uma de minhas turmas de Ensino Médio, a pedido dos próprios jovens, de assistir a Cinema Paradiso junto com eles; já tinha combinado tudo com a professora que dava aula antes de mim, com a professora que dava depois, o professor que trabalha com cinema precisa fazer essas combinações, o filme já tinha sido gentilmente baixado pelo Marquinhos, o profissional do TI – apesar de trabalhar com cinema na escola ainda estou aprendendo a manejar essas mídias –, e tudo isso ficou em suspenso, no ar, como um sonho interrompido.

Parecia que eu estava adivinhando, intuindo quando ainda naquela sexta-feira 13, no final do dia, o pequeno J adentra a minha sala para mostrar um vídeo, uma história em quadrinhos que ele mesmo tinha produzido com imagem e som; o guri fez várias vozes diferentes, pôs voz em todos os personagens. E a minha intuição dizia que não nos veríamos mais assim tão próximos tão cedo. Por isso, a necessidade de parar para ouvi-lo, escutá-lo, exatamente naquele momento. E J foi desses meninos de quem eu tive poucas notícias durante toda essa "primeira onda" de aulas on-line. O mais curioso é que durante o processo de pesquisa da dissertação era meu desejo começar a pensar o processo de produção de vídeos com eles, um processo que eu queria que tivesse sido exatamente como foi, natural, espontâneo, que partisse mesmo deles, mas que eu não imaginava, naquela altura, que teria que ser interrompido de repente por causa, até então, dessa tal pandemia. Não imaginei que esse vínculo seria cortado assim por uma epidemia que assolou o mundo inteiro, uma pandemia.

E é preciso ressaltar aqui que o sucesso do processo educacional se dá, sobretudo, pelo vínculo estabelecido entre os agentes educativos: alunos, professores e demais educadores. Se o sucesso de um processo de análise se dá pela transferência entre analista e analisando, no processo educativo é o vínculo que importa. No município do Rio de Janeiro, tivemos uma liberdade incrível; a coordenadora pedagógica foi maravilhosa, nos deixando à vontade em todo o processo, o que me levou a construir um trabalho só com curtas-metragens que poderia ser bem interessante se não tivesse sido tão pouco prestigiado pelos alunos, que, por sua vez, preferiram fazer as apostilas da prefeitura. Não os culpo; esse sistema neoliberal, se não ficarmos atentos, nos engole, é perverso. Por isso, indico a leitura de um texto muito bacana que andou circulando pela internet por estes dias, publicado originalmente na revista Piauí agora, em janeiro de 2021, cuja autoria estava sob o pseudônimo Benemê Kame Almudras: "Parece revolução, mas é só o neoliberalismo". Acho que ele aprofunda muito bem a discussão sobre a educação em tempos neoliberais (obrigado, Mônica Buarque, pela indicação do texto).

Por outro lado, em outra rede, fizemos o tal do "trabalho amarradinho", que muitos colegas adoram por ser muitas vezes sinônimo de trabalho organizado, com pouca liberdade, várias reuniões por semana, burocráticas e exaustivas, mas no final conseguimos fazer um sarau em homenagem a Clarice Lispector com toda a comunidade escolar que valeu todo esse esforço. Não estou dizendo que esta ou aquela é a melhor forma de fazer, nem que foi o tal do trabalho "amarradinho" que garantiu o sucesso ou o fracasso dessa empreitada, dessa aventura. É justamente o contrário, o que eu estou dizendo é que não existe receita, não há uma fórmula a ser seguida, não há um passo a passo.

Nas duas escolas em que atuo como professor, resistimos com muita luta a aplicar avaliações durante o período da pandemia, o que parece um sonho. Pela primeira vez na vida vivendo uma escola sem avaliações, mas tenho consciência de que essa realidade não se aplica a todos os lugares. De repente, percebemos que precisamos refletir sobre as diferenças de EaD e ensino remoto, desses processos de ensino-aprendizagem, com maior qualidade; deveria ser anterior à discussão sobre a eficácia de qualquer vacina, porque, parafraseando o Emicida em um documentário – que, por sinal, eu ainda não vi, mas espero ter tempo de ver nessas férias, “É tudo pra ontem”.

Referências

ALMUDRAS, Kame Benemê. Parece revolução, mas é só neoliberalismo. Piauí, São Paulo, jan. 2021.

BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz? São Paulo: Parábola, 2015.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. São Paulo: Paz & Terra, 2005.

GERALDY, João Wanderley. O texto na sala de aula. São Paulo: Ática, 2001.

HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: Martins Fontes, 2017.

Publicado em 26 de janeiro de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

MAIOR, Hugo Carvalho Villa. "É tudo pra ontem": reflexões acerca do processo de ensino-aprendizagem em tempos de pandemia. Revista Educação Pública, v. 21, nº 3, 26 de janeiro de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/3/e-tudo-pra-ontem-reflexoes-acerca-do-processo-de-ensino-aprendizagem-em-tempos-de-pandemia

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