Breve discussão sobre conceito de translinguagem na educação do Estado de Roraima

Lyjane Queiroz Lucena Chaves

Mestranda em Educação (UERR), especialista no Ensino de Língua Portuguesa e Literatura (UERR) e no Ensino de História e Geografia (Faculdade Claretiano), licenciada em História (UFRR)

Para melhor compreensão do conceito de translinguagem, se faz pertinente refletir sobre o conceito de hibridismo, uma vez que ele foi se ampliando para outras áreas, conforme aponta Stelamaris Coser no artigo “Híbrido, hibridismo e hibridização”, publicado no livro Conceitos de Literatura e Cultura, organizado por Eurídice Figueiredo.

A ideia de hibridismo desenvolvida pela Biologia vai aos poucos migrando para outros campos. Os estudos linguísticos a tomaram emprestado para abordar as misturas entre uma língua europeia e outra língua nativa ou africana que resultaram nas línguas crioulas (Coser, 2005, p. 170).

É indiscutível que o Brasil é um país heterogêneo, rico em diversidade. O problema é onde essa diversidade se inclui, no caso em um ambiente homogêneo, em que ainda predomina o discurso de colonialidade do ser, que possui características de colônia, estrutura eurocêntrica, patriarcal e cristã.

Retomo aqui Canagarajah (2013), quando afirma que o monolinguismo tem um significado acadêmico e ideológico, ou seja, todos nós somos translíngues em diferentes graus, pois todas as comunidades e comunicações são heterogêneas e, assim, se influenciam mutuamente, decorrendo daí que todas as línguas estão em constante processo de mudança e de hibridização, principalmente no complexo mundo atual, em que o translinguismo e o transculturalismo (Makoni; Pennycook, 2007; Moita Lopes, 2013) se mostram em todos os cenários (Santos, 2017, p. 530).

A translinguagem diz respeito à heterogeneidade presente na língua, que, assim como a cultura, está sempre sendo reformulada, se autocriando. O conceito de translinguagem é algo que vai além; deve ser visto como um ato político e humanizador, pois irá viabilizar aquele aluno inviabilizado. Tomemos como exemplo a realidade atual do Estado de Roraima, onde sentimos fortemente a presença de outras culturas, como haitianos, guianeses, venezuelanos e de outras regiões do Brasil. Logo, nosso estado possui essa gama de linguagens. Como trabalhar essas diferenças em salas de aula cuja língua materna é o português?

Não existe sala de aula homogênea, como bem foi afirmado pelo professor Leroy (2020); o cenário educacional de Roraima é de diversidade linguística, e devemos valorizá-la e não buscar apagá-la. Em discussões com colegas que trabalham Língua Portuguesa em sala de aula no município de Boa Vista, eles afirmam que é um trabalho bastante complexo, que na prática apresenta dificuldades, a começar pela fraca formação de docentes na temática e do pouco ou nenhum conhecimento em relação às práticas educativas.

É preciso refletir sobre quais estratégias deverão ser viabilizadas para romper com a colonialidade dentro da sala de aula em nosso estado. Seria pertinente, por meio da língua, trazer aquele aluno que possui rico e diferenciado vocabulário como prática de ensino. E é aqui que a translinguagem entra, como prática e valorização cultural:

Defendem, então, uma pedagogia translíngue, que repousa na compreensão da capacidade dos alunos de usar o próprio repertório linguístico de forma flexível para a construção de significados próprios e fazer sentido de seus mundos (Santos, 2017, p. 534).

Podemos concluir, por leituras e conversas com colegas da especialização de Ensino de Português e Literatura, que os docentes em Roraima estão engajados em trazer aquele aluno inviabilizado pela sua língua para que ele tenha seu lugar de fala, utilizando a própria translinguagem.

O que vivenciamos no cenário educacional de Roraima é consequência do processo de globalização, que promoveu movimentos migratórios. Vivemos em uma nova época, marcada por intercâmbios e pela disseminação de produtos e saberes. Essas complexidades que se apresentam na nossa realidade local não devem ser vistas como perigosas, mas como uma riqueza da translinguagem e da transculturalidade.

Por mais que os professores de Língua Portuguesa estejam interessados em compartilhar conhecimentos e trocas de experiências com alunos que apresentem dificuldades com o português por possuir uma outra língua materna, a situação da educação local ainda é preocupante. O que se percebe são práticas individuais de docentes e ainda estão engessadas às políticas e ações da Secretaria do Estado.

Não existe uma língua mais correta ou mais errada que a outra. Para finalizar, trabalhar com a interculturalidade dialogando com outras disciplinas é uma estratégia positiva para integrar esses alunos até então inviabilizados e fazer com que os alunos que têm como língua materna o português se aproximem do diferente e ampliem seu conhecimento linguístico.

Referências

COSER, Stelamaris. Híbrido, hibridismo e hibridização. In: FIGUEIREDO, Eurídice (Org.). Conceitos de literatura e cultura. Juiz de Fora: Ed. UFJF; Niterói: EdUFF, 2005. p. 162-188.

FIGUEIREDO, Eurídice (Org.). Conceitos de literatura e cultura. Juiz de Fora: Ed. UFJF; Niterói: EdUFF, 2005.

LEROY, Henrique. Desinventando as colonialidades linguísticas: translinguagem, transculturalidade e prática docente. 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=R3_SlL74lk0&feature=youtu.be. Acesso em: 25 jul. 2020.

OLIVEIRA, Denise Pimenta de; NASCIMENTO, André Marques do. Translinguajamento: Pensando entre línguas a partir de práticas e metadiscursos de docentes indígenas em formação superior. Revista Digital dos Programas de Pós-Graduação do Departamento de Letras e Artes da UEFS Feira de Santana, v. 18, nº 3, p. 254-266, set./dez. 2017.

SANTOS, Maria Elena Pires. “Portunhol Selvagem”: translinguagens em cenário translíngue/transcultural de fronteira. Gragoatá, Niterói, v. 22, nº 42, p. 523-539, jan./abr. 2017.

Publicado em 24 de agosto de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

CHAVES, Lyjane Queiroz Lucena. Breve discussão sobre conceito de translinguagem na educação do Estado de Roraima. Revista Educação Pública, v. 21, nº 32, 24 de agosto de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/32/breve-discussao-sobre-conceito-de-translinguagem-na-educacao-do-estado-de-roraima