Um milhão de pipas no céu

Daihana Maria dos Santos Costa

Mestranda do Programa de Pós-graduação em Educação e Cultura (UFPA), especialista em Psicopedagogia, licenciada em Pedagogia, professora na rede pública municipal e na rede privada, bolsista Capes

O dia nem bem amanheceu e Carlinhos já tinha saltado da cama, não podia perder um minuto sequer dos ventos fortes que sopravam, era o dia perfeito para soltar pipa no céu.

Mas antes ele tinha que confeccionar a pipa e, para isso, contava com a ajuda de seu avozinho, seu Carlotas. Juntos, eles saíram a caçar sacolas grandes pela casa, pois era com elas e com alguns outros materiais que faziam suas lindas, majestosas e coloridas pipas.

A caçada das sacolas já era uma brincadeira à parte, mas o momento mais aguardado era mesmo a hora de soltar as pipas pelo céu. E lá foram eles...

O vento estava animado e as nuvens faziam sombra. O menino pegou sua pipa e começou a empinar, desenrolando e soltando devagarinho a linha do carretel. A pipa foi pegando altitude e dançando com o vento. Seu Carlotas tratou logo de empinar a sua pipa também. Os dois, agora ambos meninos, conversavam entre si coisas que nem as pipas podiam mais ouvir, pois elas já estavam muito longe no azul infinito do céu.

Carlinhos e Seu Carlotas aproveitaram todos os dias de vento forte durante aquele ano para brincar e se divertir, como se não houvesse hora para partir.

Mas havia...

Um dia o menino acordou – como sempre muito disposto a brincar – e foi procurar seu avô pela casa, mas não o encontrou. Depois sua mãe explicou que Seu Carlotas teve um pequeno probleminha de saúde na noite passada e teve que ser levado ao hospital. A mãe do garoto garantiu que até à noitinha o avô do menino retornaria para casa.

Carlinhos esperou.

Passou toda a manhã. Passou toda a tarde. Chegou a noite. E seu Carlotas não voltou.

Durante a noite, Carlinhos sonhou que seu avô o convidava para irem soltar pipa, e tudo acontecia como sempre acontece na vida real: procuravam as sacolas e confeccionavam as pipas. Mas a última parte, aquela em que eles se divertiam soltando as pipas até que elas sumissem na altitude do céu, estava diferente. De repente, um milhão de pipas atravessaram abruptamente na frente das pipas dele e de seu avô, arrancando-as de suas mãos. O menino ficava assustado e choroso, gritando para o avô fazer as pipas pararem. Mas, ao olhar para o lado, viu que seu avô não estava mais ali. Ele gritava pelo avô, mas ele não respondia.

Carlinhos acordou assustado e implorou para a mãe o levar até o hospital, pois desejava inadiavelmente ver seu avô.

Quando o menino chegou ao hospital, seu Carlotas estava acordado, como se já o estivesse esperando e disse:

– Fiquei com medo que você não viesse!

Seu Carlotas partiu naquele mesmo dia...

Carlinhos se tornou um empinador de pipas solitário. Mas continuou a fazê-lo, pois guardou as palavras do avô, de que ele estaria lá cada vez que Carlinhos soltasse uma pipa no céu. Ele seria o vento; seria o céu; seria a própria pipa; ou o sentimento saudoso e bom que surgisse no peito de Carlinhos.

Muitos anos se passaram...

O dia nem bem amanheceu e Carla e Carlos já tinham saltado da cama, não podiam perder um minuto sequer dos ventos fortes que sopravam, era o dia perfeito para soltar pipa no céu.

Mas antes eles tinham que confeccionar as pipas e, para isso, contavam com a ajuda de seu avozinho, seu Carlinhos.

Publicado em 31 de agosto de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

COSTA, Daihana Maria dos Santos. Um milhão de pipas no céu. Revista Educação Pública, v. 21, nº 33, 31 de agosto de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/33/um-milhao-de-pipas-no-ceu