Proposta de ensino de gramática com o uso do método Sala de Aula Invertida mediado pelas TDIC e pela internet

Cleiliane Sisi Peixoto

Graduada em Letras - Língua Portuguesa (UFG), doutora em Estudos Linguísticos (Unesp), professora de Linguística e Língua Portuguesa (IFG – câmpus Goiânia)

As políticas pedagógicas das instituições escolares devem-se respaldar fundamentalmente no propósito de atender às necessidades educacionais dos alunos, contribuindo para a formação de cidadãos críticos, responsáveis e conscientes do seu papel no desenvolvimento da sociedade.

As instituições federais de ciência, educação e tecnologia, muito além dessa incumbência, justificam-se pelo objetivo primordial de favorecer o progresso da comunidade nos âmbitos educacional, científico, tecnológico e profissional. Assim, em tais instituições, é imperativa a aliança entre as atividades de ensino, pesquisa e extensão – envolvendo necessariamente a comunidade extrainstitucional –, em prol da consolidação de políticas pedagógicas efetivamente condizentes com o propósito a que se destinam.

Uma vez que é o aluno a interface entre dois universos, a instituição educacional e a comunidade, cuja inter-relação somente é possibilitada pela mediação discente, ele torna-se a instância viabilizadora do pretendido progresso da comunidade, à medida que, ao agregar conhecimentos e práticas educacionais, científicas, tecnológicas e profissionais adquiridos no ambiente escolar, transfere-os e aplica-os na sua comunidade, configurando-se agente transformador do meio em que vive.

Por isso, com o intuito de favorecer o progresso da sociedade, as políticas pedagógicas das instituições federais de ciência, educação e tecnologia devem-se concentrar no suprimento das necessidades educacionais, científicas, tecnológicas e profissionais dos alunos, suscitando-lhes o senso de comprometimento com o progresso da comunidade mediante práticas enaltecedoras do exercício da cidadania, como as atividades de extensão.

Com base nessa premissa, instaurou-se em fevereiro de 2020 o Grupo de Pesquisa em Gramática Funcional (GPGF) em um câmpus de uma instituição federal de educação básica, técnica e superior do estado de Goiás, com o intuito de incentivar os graduandos do curso de Licenciatura em Letras - Português do câmpus a desenvolverem estudos nessa área de pesquisa, gramática funcional da língua portuguesa, e aplicá-los mediante a prática docente em outras instituições educacionais públicas, consolidando o consórcio entre pesquisa, ensino e extensão e, por isso, cumprindo com as políticas pedagógicas das instituições federais quanto ao favorecimento das necessidades educacionais dos alunos e ao exercício da cidadania.

Após cinco meses de desenvolvimento de estudos sobre diversas categorias gramaticais da língua portuguesa, sob a orientação da professora coordenadora do GPGF, os sete integrantes do grupo de pesquisa, graduandos do curso de Licenciatura em Letras - Português, realizaram uma entrevista com alunos do 3º ano do Ensino Médio de uma escola pública de Goiás (onde alguns cumpriam os requisitos do Programa de Residência Pedagógica e outros, o Estágio obrigatório), com o intuito de identificar as suas necessidades educacionais mais prementes. Dos 36 alunos entrevistados, 66% afirmaram a necessidade de consecução de uma média alta no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) para ingressarem no curso superior público pretendido.

A obtenção de um bom desempenho no Enem é de suma importância para os alunos, haja vista que constitui o ingresso para um curso superior em alguma instituição pública. No entanto, de um modo geral, nem todos os discentes alcançam a pontuação mínima exigida para ingressar no curso almejado da instituição pretendida. Carece-lhes devida preparação educacional, haja vista que a muitos, por serem provenientes de famílias de baixa renda econômica, não foi oportunizada uma formação de excelência, consolidando um cenário de competitividade injusto e incoerente.

Assim, visando a colaborar com os objetivos educacionais dos alunos do 3º ano e a reforçar o senso de responsabilidade com o progresso da sociedade nos graduandos integrantes do GPGF, surgiu no Grupo a necessidade de se definir um programa de ensino de gramática baseado na oferta de subsídios educativos convenientes e adequados ao fim almejado, contribuir para os alunos obterem um bom desempenho nas provas de língua portuguesa e redação do Enem.

Após a execução do programa de ensino durante quatro meses, com três horas semanais de estudo (constituídas de uma hora de aula síncrona e duas horas de atividades assíncronas), percebeu-se o melhoramento no desempenho linguístico dos onze alunos do 3º ano que se dispuseram a participar do programa. Todos demonstraram progresso na produção de textos dissertativos-argumentativos segundo os critérios do Enem e na compreensão dos textos e das assertivas de diversas questões de língua portuguesa das provas anteriores do exame.

Desse modo, com base no programa de ensino aplicado, propõe-se o presente trabalho, que tem o objetivo de apresentar uma proposta de ensino de gramática com o método Sala de Aula Invertida mediado pelas Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC) e pela internet.

Trata-se de uma proposta de ensino de gramática baseada no uso, em contextos reais de interação social, porque a língua é um instrumento de interação social utilizado para atender às necessidades comunicativas dos falantes. Logo, a gramática, o modo como os falantes organizam os elementos linguísticos na interação verbal, explica-se pela sua funcionalidade, pelos propósitos comunicativos dos falantes, devendo, por isso, ser analisada em situações reais de uso, considerando-se todos os elementos constituintes do seu contexto de enunciação. Por isso, este trabalho adota a perspectiva funcionalista da linguagem, baseando-se em autores como Dik (1989; 1997), Hengeveld e Mackenzie (2008; 2020), Neves (2001), entre outros.

A proposta de ensino apoia-se no uso do método Sala de Aula Invertida por se tratar de uma metodologia ativa que torna a aula um momento de aprendizagem dinâmico e interativo e atribui ao aluno o protagonismo da sua própria aprendizagem, abandonando o papel passivo desempenhado nas aulas com metodologias tradicionais e assumindo uma postura ativa e autônoma frente à construção do seu próprio conhecimento.

Não obstante essa metodologia se caracterize por se basear no ensino híbrido, que combina momentos de aulas presenciais com momentos de aulas ou atividades on-line, a proposta de ensino apresentada neste trabalho baseia-se integralmente no uso das TDIC e da internet, devido ao isolamento social imposto pela pandemia de covid-19 (SARS-CoV-2).

Mais especificamente, este trabalho se objetiva a orientar os professores de língua portuguesa e graduandos do curso de Licenciatura em Letras quanto a:

  • o ensino de gramática baseado em contextos reais de uso,diferentemente da prática educativa tradicionalista, que se apoia em nomenclaturas gramaticais descontextualizadas;
  • o uso do método Sala de Aula Invertida no ensino de gramática, apresentando exemplos claros e práticos; e
  • a relevância do uso de diversas TDIC e da internet no ensino de gramática.

Assim, espera-se que este trabalho contribua para a consolidação de uma prática docente mais coerente e significativa para os alunos, porque condizente com as suas necessidades educativas, ampliando a visão do professor conservador, tradicionalista, para a percepção de um ensino de gramática apoiado em situações reais de interação verbal, com metodologia ativa que preza pela consolidação de aulas mais dinâmicas e concebe o aluno como centro de toda a aprendizagem, conferindo-lhe autonomia e protagonismo diante da construção do seu próprio conhecimento. 

Além disso, espera-se que a mediação do ensino pelas TDIC e pela internet instigue os professores a refletirem sobre a importância dos recursos e das ferramentas digitais para a viabilização do processo de ensinar e aprender, o que está em consonância com as necessidades educacionais contemporâneas dos alunos, principalmente devido ao contexto de Ensino Remoto Emergencial imposto pela pandemia de covid-19.

O texto deste artigo se apresenta constituído de três seções, das considerações finais e das referências bibliográficas. Na primeira seção, intitulada “Ensino de gramática baseado no uso. Por quê?”, apresentam-se o conceito de gramática, com base na perspectiva funcionalista da linguagem, e os fundamentos para o ensino de gramática apoiado no uso, em contextos reais de interação social. Na segunda seção, com o título “O método Sala de Aula Invertida”, discute-se essa metodologia ativa, abordando o seu funcionamento e as suas vantagens na prática educativa.

Na última seção, intitulada “Proposta de ensino de gramática com o uso do método Sala de Aula Invertida mediado pelas TDIC e pela internet”, propõe-se um modelo de ensino de gramática baseado nas características desse método e no uso de recursos e ferramentas digitais. Nas “Considerações Finais”, apresentam-se as discussões finais após todo o desenvolvimento do trabalho.

Ensino de gramática baseado no uso. Por quê?

O estudo da língua deve-se respaldar fundamentalmente na consideração do contexto de interação comunicativa, em todos os fatores envolvidos na enunciação, semânticos e pragmático-discursivos. Essa premissa se explica pelo fato de que, enquanto instrumento de interação entre os indivíduos cuja função é atender aos seus propósitos comunicativos, o sistema linguístico não é arbitrário; ao contrário, é fortemente influenciado por fatores externos ao uso, de modo tal que as intenções comunicativas dos falantes determinam, em grande parte, a sua constituição.

Desse modo, uma vez concebida a não autonomia da língua, é em situações de uso que ela deve ser considerada, e a análise dos elementos linguísticos deve-se basear no modo como eles são usados, em termos das funções que desempenham no contexto de interação verbal, o que pressupõe, obviamente, a existência de uma integração entre função e expressão linguística.

Assim, a gramática de uma língua, o modo como os falantes organizam os elementos linguísticos para alcançar seus propósitos comunicativos, explica-se em termos funcionais, em termos da integração de todos os componentes que fazem parte da situação comunicativa, tanto no plano linguístico quanto no extralinguístico. Como afirma Neves (2001, p. 37), o componente sintático-semântico pode ser mais bem explicado dentro de um esquema que leve em conta a interação de forças internas e externas ao sistema.

Nesse sentido, existe uma interdependência entre os componentes formais, isto é, fonético/fonológicos, morfológicos e sintáticos, e os componentes semânticos e pragmático-discursivos, que se integram no processo de interação verbal para o cumprimento da função que a língua tem que desempenhar.

A integração entre os componentes linguísticos é a base de todas as abordagens funcionalistas, e a gramática funcional constitui-se uma teoria da organização gramatical das línguas naturais que procura se integrar a uma teoria global da interação social, concebendo o sistema gramatical como sensível às pressões do uso.

Assim, uma teoria funcionalista da gramática tem por objetivo fornecer mecanismos e princípios mediante os quais seja possível desenvolver gramáticas funcionais de línguas particulares, especificando todas as expressões linguísticas com base num sistema de regras que incorpore as generalizações mais significativas (Pezatti, 2005, p. 171).

Como exemplos de teorias funcionalistas da gramática, é possível citar a teoria da Gramática Funcional (Functional Grammar) de Dik (1989; 1997) e sua versão revisada, a Gramática Discursivo Funcional (Functional Discourse Grammar), proposta por Hengeveld e Mackenzie (2008; 2020). Elas configuram-se teorias linguísticas gerais que, concernentes à organização gramatical, ao funcionamento das línguas, com base na consideração das circunstâncias de uso, apresentam adequação pragmática, psicológica e tipológica.

A Gramática Funcional (GF) de Dik objetiva fornecer meios mediante os quais seja possível desenvolver gramáticas funcionais de línguas particulares. Trata-se de uma teoria que procura se integrar a uma teoria pragmática mais ampla da interação verbal, porque parte do pressuposto de que a língua deve ser estudada dentro de um quadro de regras, princípios e estratégias que governam o seu uso comunicativo natural, porque, para Dik (1989, p.6), a questão de como uma língua é organizada não pode ser estudada em abstração da questão de por que ela é organizada do jeito que é em relação às funções comunicativas que exerce.

Desse modo, segundo Dik (1989, p. 7), existe uma relação entre a pragmática, a semântica e a sintaxe. A semântica é dependente da pragmática, e a sintaxe é dependente da semântica. A partir dessa perspectiva, não há sintaxe autônoma; ela existe para as pessoas serem capazes de formar expressões complexas, a fim de veicularem significados complexos.

Uma vez que a GF é uma teoria geral da organização gramatical, do funcionamento das línguas, seu propósito é explicar as regras semânticas, sintáticas, morfológicas e fonológicas (regras das expressões linguísticas), assim como as regras pragmáticas (regras da interação verbal), em termos do modo como são usadas, considerando a integração desses componentes linguísticos.

O modelo de análise linguística proposto pela GF parte de um esquema abstrato de descrição que busca se adequar tanto às propriedades formais quanto às propriedades semânticas da oração. Assim, a oração (clause) deve ser descrita em termos de uma estrutura abstrata subjacente (abstract underlying clause structure), que, para Dik, é representada na expressão linguística através de um sistema de regras de expressão (expression rules) que determina a forma, a ordem e o padrão de entonação dos constituintes presentes na estrutura subjacente.

A análise proposta por Dik parte do nível mais básico da estrutura subjacente, o predicado, passa pela predicação e se expande para alcançar o nível mais alto, mais complexo, o ato de fala, assumindo uma perspectiva de análise ascendente (bottom-up). Ao contrário dessa perspectiva, a Gramática Discursivo Funcional (GDF) de Hengeveld e Mackenzie (2008; 2020) assume a perspectiva descendente (top-down), partindo de níveis e camadas de análise mais altos (moves e atos discursivos) até níveis e camadas mais baixos (nível fonológico).

Para Hengeveld e Mackenzie, essa perspectiva se justifica pelo fato de que a construção de um enunciado se inicia com a intenção comunicativa de uma mensagem no componente conceitual. Ainda na forma pré-linguística, a mensagem passa para o componente gramatical, fase em que é formulada em unidades de conteúdo pragmático e semântico, e, assim, codificada em unidades formais de natureza morfossintática e fonológica. Essa direção descendente é motivada pela suposição de que um modelo de gramática será mais eficaz quanto mais sua organização se assemelhar ao processamento linguístico no indivíduo.

Não obstante os modelos propostos pela GF e pela GDF assumam perspectivas de análise diferentes, ascendente e descendente, respectivamente, a adoção de ambos os modelos para uma análise gramatical se justifica relevante à medida que cada um fornece um aparato teórico particular para fenômenos linguísticos específicos. Enquanto, por exemplo, a GF oferece uma tipologia bastante completa para a análise do componente semântico da predicação, a GDF é muito adequada para a investigação das relações de alinhamento entre os níveis interpessoal (contexto pragmático), representacional (semântico), morfossintático e fonético/fonológico. Assim, ambos os modelos de análise são adequados para uma explicação mais completa e fundamentada dos fenômenos concernentes à estrutura linguística e seu funcionamento.

O conhecimento dos pressupostos teóricos aqui apresentados, norteadores da abordagem funcionalista da linguagem, assim como dos modelos de análise linguística contemporâneos em ciência, justifica-se pertinente para a compreensão mais acurada do funcionamento gramatical de uma língua, de modo tal que conduz o professor à percepção da necessidade de um ensino de gramática baseado nos contextos de enunciação em que ocorrem os usos linguísticos, considerando-se todos os elementos linguísticos e extralinguísticos do ato comunicativo. Além do mais, tais pressupostos contribuem para a desmitificação do uso da gramática tradicional normativa como único parâmetro de análise gramatical possível.

Assim, com o propósito de explicitar o ensino de gramática apoiado em metodologia ativa que contribui para o dinamismo das aulas e para a autonomia dos alunos na construção do seu próprio conhecimento, apresenta-se adiante o método Sala de Aula Invertida.

O método Sala de Aula Invertida

Criado em 2007, a partir de uma reflexão do professor de Ciências no Colorado (Estados Unidos), Aaron Sams, o método Sala de Aula Invertida é uma perspectiva metodológica que possibilita ao estudante aprender por meio da articulação entre espaços e tempos on-line – síncronos e assíncronos – e presenciais. Trata-se de uma metodologia ativa implantada em universidades como Harvard University e Massachusetts Institute of Technology (MIT), com o propósito de explorar os avanços das tecnologias educacionais e minimizar a evasão e o nível de reprovação, conforme asseveram Moran e Bacich (2018).

Ao contrário dos modelos tradicionais de ensino, pouco dinâmicos, em que o professor apresenta o conteúdo e os alunos ouvem, anotam explicações para, somente depois, estudar, fazer exercícios e resolver possíveis situações-problema (Pavanelo; Lima, 2017; Moran, 2015), reduzindo-lhes o interesse e provocando-lhes frustração, o método Sala de Aula Invertida propõe uma inversão dos ambientes do processo de ensino-aprendizagem. O conteúdo passa a ser estudado em casa, mediante o uso das TDIC, e as atividades, realizadas em sala de aula.

Com base na proposta da aprendizagem invertida, o estudante deixa a postura passiva de ouvinte assumida nos métodos tradicionais de ensino-aprendizagem e assume o papel de protagonista do seu aprendizado, adquirindo autonomia diante da construção do seu próprio conhecimento com o apoio de recursos tecnológicos.

Segundo Moran (2015), se o propósito é tornar alunos mais proativos, é preciso adotar metodologias que os envolvam em atividades cada vez mais complexas, que lhes exijam tomar decisões e avaliar os resultados, com o apoio de materiais relevantes. As metodologias ativas são o ponto de partida para avançar para processos mais avançados de reflexão, de integração cognitiva, de generalização e de reelaboração de novas práticas, haja visa que buscam superar a educação bancária e tradicional, com o foco na aprendizagem do aluno, envolvendo-o, motivando-o e dialogando com ele.

Ainda de acordo com Moran (2015), um dos modelos mais interessantes de se ensinar hoje é o de concentrar as informações básicas em um ambiente externo à sala de aula, como o ambiente virtual, e deixar para o momento da sala de aula as atividades mais criativas e supervisionadas que possibilitam uma participação ativa dos alunos.

Assim, ao contrário do que ocorre no método tradicional de ensino-aprendizagem, na aprendizagem invertida, a sala de aula é um ambiente de aprendizagem dinâmico e criativo no qual o professor, antes mero transmissor de conteúdo, assume o papel de orientador, conduzindo os alunos a aplicarem conceitos adquiridos no ambiente extraclasse em atividades práticas, participando ativamente das discussões.

O Quadro 1 explicita a diferença entre o modelo tradicional e a Sala de Aula Invertida:

Quadro 1: Modelo tradicional x Sala de Aula Invertida

 

Sala de aula

Casa e outros

Modelo tradicional

- Transmissão de informação

-Transmissão de conhecimento

- Resolução de exemplos

- Professor palestrante

- Estudante passivo

- Exercícios

- Projetos

- Trabalhos

- Soluções de problemas

Sala de Aula Invertida

- Atividades de simulação

- Atividades de projeto

- Trabalhos em grupo

- Debates

- Professor mentor

- Estudante ativo

- Leituras

- Vídeos

- Pesquisas

- Resolução de exemplos

Fonte: Adaptado de Scheneiders (2018).

Conforme Moran (2015), os métodos tradicionais, que privilegiam a transmissão de informações pelos professores, faziam sentido quando o acesso à informação era difícil. Com a internet, a evolução das TDIC e a divulgação aberta de muitos cursos e materiais, pode-se aprender em qualquer lugar, a qualquer hora e com muitas pessoas diferentes.

Ressalta-se que o método Sala de Aula Invertida, do inglês Flipped Classroom, apoia-se nos quatro pilares fundamentais do acrônimo Flip:

  • Flexible environment (ambiente flexível): criação de espaços flexíveis nos quais o/a estudante tem liberdade de escolher quando e onde querem aprender;
  • Learning culture (cultura de aprendizagem): atribuição aos estudantes do papel de protagonista do seu próprio aprendizado;
  • Intentional content (conteúdo dirigido): definição pelo professor do conteúdo mais pertinente e de como o aprendizado ocorrerá nos momentos síncronos e assíncronos;
  • Professional educator (educador profissional): assumência pelo professor de um papel ativo de interatividade e orientação aos estudantes no desenvolvimento das atividades.

O método Sala de Aula Invertida ocorre em um ciclo de três momentos: antes, durante e depois da aula, conforme exemplifica a Figura 1:

Figura 1: O funcionamento da Sala de Aula Invertida.

Fonte: Adaptado de EdTech (2020).

Cada momento requer que o professor e os estudantes assumam suas devidas funções para o bom desenvolvimento das atividades, que promovem o desenvolvimento de diferentes habilidades cognitivas e socioemocionais. O Quadro 2 resume as atividades que podem ser realizadas nos três momentos:

Quadro 2: Os três momentos da Sala de Aula Invertida

Antes da aula

  • Momento de preparação para as atividades em sala;
  • Os estudantes acessam o conteúdo mediante os recursos disponibilizados pelo professor, como videoaulas, arquivos de texto, discussões em fóruns;
  • É preciso que o professor disponibilize os recursos didáticos com antecedência de três a cinco dias antes da aula, a fim de que os estudantes possam realizar o estudo;
  • O professor solicita aos estudantes que anotem as dúvidas para serem esclarecidas durante a aula, podendo solicitar a realização de alguma atividade, como questionário, fórum, para identificar possíveis dúvidas.

Durante a aula

  • Momento de realização das atividades práticas relacionadas ao conteúdo aprendido no momento antes da aula;
  • O professor questiona aos alunos sobre a devida realização do estudo proposto;
  • Realização das atividades práticas mediante metodologias ativas diversas, como aprendizagem baseada em projetos, aprendizagem baseada em problemas, dinâmicas em grupos, entre outras;
  • O professor assume o papel de mediador, auxiliando no desenvolvimento das atividades e auxiliando nas dúvidas e questionamentos pertinentes ao conteúdo abordado;
  • Momento para o professor acompanhar o desenvolvimento dos estudantes e identificar as suas dificuldades.

Depois da aula

  • Momento de revisão do conteúdo pelos estudantes e extensão do seu aprendizado;
  • Realização de pesquisas, relatórios de atividades práticas desenvolvidas pelos estudantes no momento durante a aula;
  • A partir do feedback das atividades realizadas nesse momento, o professor pode analisar e decidir sobre a próxima aula, assim como o novo conteúdo a ser abordado.

De uma perspectiva científica, não é possível afirmar a ocorrência de mais aprendizado com o uso do método Sala de Aula Invertida, porém é perceptível mais envolvimento dos estudantes com o aprendizado, uma vez comparado com o método Sala de Aula Tradicional, além do desenvolvimento da postura ativa e dinâmica dos alunos.

Assim, é possível resumir as vantagens desse método do seguinte modo:

Quadro 3: Vantagens do método Sala de Aula Invertida

Professor

  • Assume o papel de mentor, deixando de ser o centro das atenções e passando a auxiliar os estudantes no processo de aprendizagem;
  • Adquire mais liberdade para desenvolver e utilizar recursos didáticos diferenciados para o aprendizado do estudante;
  • Desenvolve mais interação com os estudantes;
  • Identifica com mais acuidade as dificuldades dos alunos e as necessidades específicas do ensino.

Estudante

  • Assume uma postura ativa e autônoma diante da sua própria aprendizagem, assumindo o protagonismo dela;
  • Adquire mais liberdade para programar os seus estudos;
  • Desenvolve a aprendizagem ao seu tempo para melhor compreender o conteúdo, “pausando” o professor diante das suas dificuldades ou “acelerando-o” diante de conteúdo que lhes é fácil;
  • Intensifica a interação estudante-professor e estudante-estudante, promovendo o trabalho em equipe, que contribui para a assumência de papéis e atitudes imprescindíveis para uma boa atuação como profissionais do futuro.

Assim, diante das muitas vantagens do uso da Sala de Aula Invertida, a seção seguinte apresenta uma proposta de ensino de gramática com o uso dessa metodologia ativa mediado pelas TDIC e pela internet.

Proposta de ensino de gramática com o uso do método Sala de Aula Invertida mediado pelas TDIC e pela internet

Uma proposta de ensino de gramática com o método Sala de Aula Invertida pressupõe necessariamente a mediação pelas TDIC e pela internet e prevê a realização dos três momentos apresentados na seção anterior: antes da aula, durante a aula e depois da aula.

Assim, uma vez definido o conteúdo programático e averiguados os possíveis recursos e ferramentas digitais a serem utilizados, o professor poderá elaborar o plano de aula do seguinte modo:

  • Antes da aula: como se trata de um momento de preparação para as atividades a serem realizadas durante a aula, no momento antes da aula, o professor poderá disponibilizar aos alunos o conteúdo a ser trabalhado mediante recursos digitais variados (vídeos, arquivos de texto etc.), por e-mail, WhatsApp, Facebook e/ou pelas plataformas de ensino e aprendizagem, como o Google Classroom, o Moodle, entre outras, com antecedência de ao menos três dias. É muito pertinente que o conteúdo abranja a explicação teórica e as ocorrências do fenômeno gramatical estudado em uso, ou seja, em contextos reais de interação comunicativa. Assim, muito além de enviar somente o conteúdo explicativo com frases descontextualizadas, é de suma importância que o professor disponibilize exemplos do fenômeno gramatical estudado e os contextualize, abrangendo todos os fatores envolvidos nos usos, linguísticos e extralinguísticos, a fim de que os alunos tenham uma percepção e um entendimento mais completo do conteúdo estudado. Após o envio do material, o professor poderá solucionar as dúvidas dos alunos por WhatsApp, e-mail, chats, Facebook, fóruns de discussões nas plataformas de ensino e aprendizagem, entre outras ferramentas.
  • Durante a aula: para o momento de realização das atividades práticas relacionadas ao conteúdo previamente enviado, o professor poderá utilizar ferramentas de interação síncronas, como o Google Meet, o Zoom, entre outras. Inicialmente, o docente poderá questionar os alunos sobre o conteúdo estudado mediante a técnica brainstorm e apresentar as ocorrências do fenômeno gramatical estudado, a fim de verificar a aprendizagem pelos alunos. Em seguida, poder-se-á disponibilizar exercícios variados para a resolução pelos alunos usando a metodologia ativa mais adequada, como aprendizagem baseada em projetos, aprendizagem baseada em problemas, dinâmicas em grupos, entre outras. Assim, o docente acompanhará a resolução dos exercícios pelos alunos, auxiliando-os no desenvolvimento das atividades e sanando suas dúvidas e questionamentos. Nesse momento, será possível identificar as dificuldades dos alunos quanto ao conteúdo gramatical trabalhado e planejar meios de solucioná-las.
  • Após a aula: por ser o momento de revisão do conteúdo pelos estudantes e também extensão do seu aprendizado, após a aula, o professor poderá solicitar aos alunos uma produção textual em que eles tenham que usar o fenômeno gramatical estudado antes da aula e praticado durante ela, com o propósito de verificar se, além de compreenderem o conteúdo trabalhado, os alunos sabem utilizá-lo adequadamente. Após o recebimento das produções textuais dos alunos por e-mail, WhatsApp ou outra ferramenta, o professor fará as devidas correções e devolverá os textos corrigidos aos alunos. Assim, o docente poderá analisar a aprendizagem do conteúdo pelos alunos de modo a planejar a próxima aula.

Abaixo, apresenta-se um quadro resumitivo do ensino de gramática com o método Sala de Aula Invertida mediado pelas TDIC e pela internet:

Quadro 4: Resumo da proposta de ensino de gramática com o método Sala de Aula Invertida e as TDIC

 

Atividades

Recursos digitais

Ferramentas digitais

Antes da aula

  • Envio do conteúdo gramatical para os alunos com ao menos três dias de antecedência; 
  • Resolução de dúvidas.

1. Arquivo de texto, vídeos etc.

2. Arquivo de texto, mensagens.

1. E-mail, WhatsApp, etc.

2. E-mail, WhatsApp, chat, fórum etc.

Durante a aula

3. Uso da técnica brainstorm para verificação da aprendizagem do conteúdo estudado em casa;

4. Resolução de exercícios pelos alunos mediante metodologia ativa (aprendizagem baseada em projetos, aprendizagem baseada em problemas, dinâmicas em grupos, entre outras);

5. Acompanhamento pelo professor da realização das atividades. Momento de sanar dúvidas e identificar as dificuldades dos alunos.

3. Aula síncrona on-line;

4. Aula síncrona on-line;

5. Aula síncrona on-line.

3. Google Meet, Zoom, entre outras;

4.Google Meet, Zoom, entre outras;

5. Google Meet, Zoom, entre outras.

Depois da aula

6. Solicitação de produção textual aos alunos para a verificação da efetiva aprendizagem;

7. Correção das produções textuais dos alunos. Análise da aprendizagem do conteúdo para o planejamento da próxima aula;

8. Devolução dos textos corrigidos.

6. Arquivo de texto;

7. A critério do professor;

8. Arquivo de texto.

6. E-mail, WhatsApp etc.;

7. A critério do professor;

8. E-mail, WhatsApp etc.

O Quadro 5ilustra uma proposta de ensino sobre o uso de conectivos com o método Sala de Aula Invertida mediado pelas TDIC e pela internet.

Quadro 5: Proposta de ensino sobre o uso de conectivos com o método Sala de Aula Invertida e as TDIC

 

Atividades

Recursos digitais

Ferramentas digitais

Antes da aula

1. Envio do conteúdo a ser estudado pelos alunos (5 dias antes da aula síncrona), abordando o conceito, a tipologia e os usos dos conectivos extraídos de propagandas, charges, entrevistas, artigos científicos, dentre outros;

2. Resolução de dúvidas.

1. Arquivo de texto e vídeos;

2. Arquivo de texto e mensagens.

1. E-mail, WhatsApp etc.;

2. E-mail, WhatsApp, fórum, chats etc.

Durante a aula

3. Uso da técnica Brainstorm para identificar a aprendizagem do conteúdo pelos alunos (10 minutos);

4. Resolução de exercícios em duplas com o propósito de levar os alunos a definirem a relação semântica entre as orações e os conectivos mais adequados para cada relação (20 minutos);

5. Acompanhamento pelo professor da realização das atividades. Momento de sanar dúvidas e identificar as dificuldades dos alunos;

6. Construção conjunta entre o professor e os alunos de mapa mental referente ao conteúdo estudado, visando explicitar as relações semânticas entre as orações apresentadas nos exercícios (20 minutos).

3. Aula síncrona on-line;

4. Aula síncrona on-line;

5. Aula síncrona on-line;

6. Aula síncrona on-line.

3. Google Meet, Zoom, entre outras;

4. Google Meet, Zoom, entre outras;

5. Google Meet, Zoom, entre outras;

6. Canva, Google Meet, Zoom, entre outras.

Depois da aula

7. Solicitação de produção de texto dissertativo-argumentativo aos alunos com o uso diversificado de conectivos, visando à verificação da efetiva aprendizagem;

8. Correção das produções textuais dos alunos. Análise da aprendizagem do conteúdo para o planejamento da próxima aula;

9. Devolução dos textos corrigidos.

7. Arquivo de texto;

8. A critério do professor;

9. Arquivo de texto.

7. E-mail, WhatsApp etc.

8. A critério do professor;

9. E-mail, WhatsApp etc.

Assim, uma proposta de ensino de gramática com o uso do método Sala de Aula Invertida mediado pelas TDIC e pela internet requer do professor dedicação, organização e comprometimento com a aprendizagem dos alunos. Para tanto, é preciso que o docente abandone o papel de detentor do conhecimento ostentado nas metodologias tradicionalistas e assuma o papel de mediador da aprendizagem dos discentes, fundamento de todo o processo de ensinar.

Considerações finais

Com base em um projeto de extensão realizado com alunos do 3º ano do Ensino Médio de uma escola pública no estado de Goiás, este trabalho teve o propósito de apresentar uma proposta de ensino de gramática com o uso do método Sala de Aula Invertida mediado pelas TDIC e pela internet. A adoção do referido método se justificou por atribuir mais dinamismo às aulas e por conferir aos alunos a autonomia e o protagonismo na construção do seu próprio conhecimento. O uso das TDIC e da internet se fundamentou por ser inerente ao referido método e por possibilitar a execução da proposta apresentada também em contexto de ensino remoto.

O desenvolvimento do trabalho suscitou a importância de um ensino de gramática baseado no uso, em contextos de reais de interação comunicativa, haja vista ser a língua um instrumento de interação social cuja gramática se explica em termos do cumprimento das funções que a língua é incumbida de desempenhar. Daí, a importância de o professor considerar todos os elementos constitutivos do contexto de enunciação, linguísticos e extralinguísticos, na análise do fenômeno gramatical estudado.

O uso do método Sala de Aula Invertida mediado pelos recursos e ferramentas tecnológicas revelou-se bastante adequado para o ensino de gramática, haja vista que confere dinamismo às aulas e exige mais participação ativa dos alunos na construção do seu próprio aprendizado, favorecendo o abandono de práticas pedagógicas tradicionalistas focadas na figura do professor como o detentor do conhecimento.

A mediação do ensino por recursos e ferramentas digitais mostrou-se uma valiosa aliada no processo de ensino-aprendizagem, uma vez que possibilita professores e alunos interagirem em prol da construção do conhecimento.

Todos os benefícios destacados pelo uso do método Sala de Aula Invertida e pela mediação das TDIC e da internet no ensino de gramática requerem do professor organização, dedicação e, acima de tudo, comprometimento com a aprendizagem dos alunos, em favor da consolidação de uma prática pedagógica adequada e coerente com as suas necessidades educacionais e, por isso, condizente com o progresso da sociedade, haja vista serem eles os agentes transformadores dela.

Referências

DIK, S. C. The Theory of Functional Grammar. I – The structure of the clause. Dorderecht/Providence: Foris, 1989.

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Publicado em 14 de setembro de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

PEIXOTO, Cleliane Sisi. Proposta de ensino de gramática com o uso do método Sala de Aula Invertida mediado pelas TDIC e pela internet. Revista Educação Pública, v. 21, nº 34, 14 de setembro de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/34/proposta-de-ensino-de-gramatica-com-o-uso-do-metodo-sala-de-aula-invertida-mediado-pelas-tdic-e-pela-internet