A ilustração em duas obras da literatura infantil e juvenil produzida por Neusa Jordem Possatti

Lucecléia Francisco da Silva

Mestra em Educação (PPGE/UFES) e graduada em Pedagogia (UFES), professora e pedagoga no município de Serra/ES e integrante dos grupos de pesquisa Literatura e Educação (PPGL/PPGE/UFES)

Roney Jesus Ribeiro

Doutorando em História Social (PPGHis/UFES), mestre em Teoria e História da Arte (PPGA/UFES) e em Educação (PPGCE/UA), graduado em Letras, História e Artes Visuais, professor de Língua, Literatura e Artes na educação pública, membro dos grupos de pesquisa Crítica e Experiência Estética (PPGA/UFES) e Literatura e Educação (PPGL/PPGE/UFES)

Para início de conversa

A produção literária direcionada ao público infantil e juvenil foi por muito tempo tratada com preconceito, o que a tornou de certa forma marginalizada. Em função do pouco interesse por parte dos espaços acadêmicos em produzir pesquisas sobre a literatura infantil e juvenil, a indústria cultural também não dava muita credibilidade à sua grande importância. Isso fez com que os livros direcionados a crianças e jovens leitores demorassem muitos anos para ser estudados. É difícil saber ao certo o momento em que as pesquisas sobre literatura direcionada ao público infantil e juvenil passaram a circular nos meios acadêmicos. Mas sabemos que esse tipo de preocupação surgiu de forma tímida nos departamentos de Educação das universidades, se expandindo a seguir para a área de Letras e depois alcançando outras áreas como Artes Visuais, História e Ciências Sociais, entre outras.

Compreendendo os avanços e o aumento das pesquisas sobre a produção literária, Kommers (2011, p. 12) explica que têm surgido muitos autores e pesquisadores interessados na área de literatura infantojuvenil. O disposto revela que o Brasil e outros países do mundo têm dado maior importância à formação do leitor infantil e juvenil. Certamente essa preocupação é oriunda da qualidade da leitura produzida pelos sujeitos em processo de formação escolar. Conforme debatido em outros estudos, pesquisadores de áreas distintas passaram a direcionar seus olhares à importância da formação leitora de crianças e jovens. Isso propiciou o aumento de pesquisas acerca da formação leitora, tendo o livro e a literatura como ponto de partida. Foi assim que as pesquisas científicas acerca do ensino de leitura literária e ensino de literatura ganharam maiores proporções (Ribeiro, 2019, p. 259).

Em compreensão à grande importância de debater o papel da leitura literária na formação de leitores críticos e conscientes de sua função social, propomos neste artigo algumas reflexões acerca da ilustração e seu papel nas obras Ciça e Ciça e a Rainha, da autora capixaba Neusa Jordem Possatti. Dada a indiscutível contribuição literária de muitas escritoras talentosas Brasil afora, ao pensar neste estudo nos preocupamos em duas questões cruciais: a primeira foi selecionar obras de autoria feminina; e a segunda dá ênfase a obras protagonizadas por personagem do gênero feminino. Assim então chegamos até Cecília (Ciça), uma menina pobre que luta com persistência em prol da realização de seus sonhos.

A linguagem visual no livro de literatura infantil e juvenil, além de grande importância, é fundamental para a complementaridade da narrativa verbal do autor. Quando relacionados de forma adequada, textos e ilustrações se fundem completando o sentido da obra. É essa fusão intersemiótica que torna a obra mais atraente aos leitores. As ilustrações têm papel social importante em obras direcionadas ao público infantil e juvenil. Elas facilitam a compreensão de um livro, principalmente quando os sujeitos leitores ainda não dominam com fluência o código verbal. Por esse motivo, é fundamental que, na elaboração de livros para crianças e jovens, é fundamental que haja diálogo entre o ilustrador e o autor. A unidade de sentido de uma obra literária destinada a crianças e jovens depende de vários fatores. Conforme coloca Turchi, é valido se atentar ao fato de que a produção de sentido de um texto lido se constitui de muitos modos. Esse sentido surge da interpretação acerca da “convergência da ilustração, do texto e do projeto gráfico que constrói a unidade e os sentidos da obra de literatura infantil” (Turchi, 2002, p. 27).

Motivados pelo interesse de estudar a ilustração em dois livros de literatura infantojuvenil, propomos um estudo acerca das obras Ciça e Ciça e a Rainha, de Neusa Jordem Possatti. Este estudo se desenvolve tendo por base as contribuições teórico-críticas de autores como Roger Chartier e Guglielmo Cavallo (1998), Maria Amélia Dalvi (2013), Flávia Brocchetto Ramos e Marília Forgearini Nunes (2013) e Wolfgang Iser (1976). Os estudos realizados por tais autores auxiliarão em nossas reflexões acerca da função da ilustração para entendimento do texto literário, diálogos entre ilustrações e textos literários, a importância da leitura literária e, por fim, a valorização do protagonismo feminino em textos para crianças e jovens leitores.

Conhecendo Neusa Jordem Possatti

Neusa Jordem Possatti é uma autora de grande criatividade e sensibilidade, que deu vida à personagem Cecília, comumente chamada de Ciça nas obras Ciça e Ciça e a Rainha. Neusa nasceu em 10 de novembro de 1958 no distrito de Muniz Freire, uma pequena cidade localizada na região sul do Estado do Espírito Santo. Apaixonada por literatura, a autora se graduou em Letras - Português e Inglês na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Alegre/ES (Ribeiro, 2019, p. 261).

Neusa especializou-se em Língua e Literatura pela Faculdade Saberes. Além de ter seu nome vinculado a diversos eventos literários no Espírito Santo, a autora também é membro da Academia Feminina Espírito-Santense de Letras, da Academia Cachoeirense de Letras e fundadora da Academia Iunense de Letras; entre os anos de 2004 a 2006 foi Secretária de Cultura no Município de Iúna (Ribeiro, 2019, p. 261).

A riqueza literária de Neusa é composta por livros de variados gêneros literários, entre eles poesia, contos e crônicas. Observamos que, entre as produções literárias direcionadas ao público infantil e juvenil, as obras de maior destaque são Ciça e Ciça e a Rainha. Além de cuidar das vendas e distribuições de seus livros, a autora atua em atividades culturais sendo oficineira e contadora de histórias. Geralmente suas contações de histórias se pautam nas obras de sua autoria (Ribeiro, 2019). Em reconhecimento ao engajamento literário, Neusa recebeu diversos prêmios, homenagens, menção honrosa e comendas.

Um rápido passeio por Ciça e Ciça e a Rainha

A obra Ciça (2012) teve sua primeira edição publicada em 2008 pelas Paulinas. A narrativa protagoniza a história de uma garota negra, pobre e filha de pais que trabalham como boias-frias nas lavouras cafeeiras para garantir os meios básicos para a sobrevivência da família. Apesar de viver em estado de miséria, Ciça é uma garota alegre, valente e cheia de sonhos. Ao lado de sua mãe, do meio-irmão Macalé e do padrasto, Ciça leva uma vida muito difícil e precária. Ela representa a realidade de muitas garotas mundo afora. Mesmo passando por muitas dificuldades, ela é uma menina otimista e cultiva um olhar positivo diante do mundo. Seu otimismo vem da esperança de poder realizar seus sonhos e poder oferecer uma vida mais digna à sua família. É seu infindável otimismo que torna Ciça uma criança muito especial.

Os pais de Ciça não puderam frequentar a escola; por isso, eles não têm profissão definida. Trabalhavam como diaristas e, em períodos de colheita, nas lavouras de café. Sempre que terminava o período de colheita em algumas lavouras, Ciça e sua família precisavam migrar para outros lugares em busca de moradia e trabalho. Por isso, eles dificilmente fixavam residência por muito tempo nos lugares por onde passavam. A instabilidade com moradia e a frequência com que migravam de um lugar a outro impossibilitavam Ciça de se matricular na escola e se manter frequente nas aulas.

A personagem Ciça tinha que dividir sua rotina entre a escola e o trabalho na lavoura. Às vezes, quando não estava na escola, a menina estava nos cafezais ajudando seus pais. No decorrer da narrativa, Ciça relata várias situações engraçadas, divertidas e tristes. Seu discurso é capaz de conquistar a atenção de leitores de qualquer idade. Um dos fatos mais tristes que a protagonista vivenciou foi um acidente envolvendo de caminhão que transportava os trabalhadores, que custou uma das suas pernas. A garota se recuperou do acidente e se adaptou à vida com apenas uma perna. Mesmo pulando em uma perna só, Ciça tornou-se a jogadora mais habilidosa do time da escola e era destaque nas brincadeiras de corrida. Mesmo vivendo com tão pouco, Cecília era uma cidadã que acreditava na sorte de um dia ter direito a um futuro diferente de muitas meninas iguais a ela. Outro fato triste que a menina apresenta é o falecimento de sua mãe, que adoece e, por falta de recursos e cuidados médicos, acaba falecendo repentinamente. Agora sem sua mãe, a menina não tinha alternativa a não ser permanecer na companhia de seu meio-irmão e de seu padrasto.

A obra Ciça e a Rainha (2012) é uma continuidade da primeira narrativa. Nesta obra a protagonista relata a viagem de ida junto com Macalé e seu padrasto para o interior de São Paulo em busca de trabalho, moradia e melhores condições de vida. Chegando à capital paulista, os planos sofrem uma mudança inesperada. Macalé acorda Ciça e lhe dá a notícia de que ela seria levada para um abrigo de meninas. No abrigo, a menina poderia retomar seus estudos, enquanto seu padrasto e Macalé seguiriam até Marília, no interior de São Paulo, sob a promessa de que voltariam para buscá-la assim que se estabelecessem bem na cidade. Contra sua vontade, Ciça foi levada para o abrigo, mas ao chegar ao local ela foi bem recepcionada, recebeu os devidos cuidados e foi bem alimentada. Na sua primeira noite naquele abrigo, ela recebeu a ilustre visita de Sílvia, a rainha da Suécia. Ciça e a rainha dialogaram como duas amigas de longa data. A visita de Silvia foi de grande relevância para que a chama da esperança voltasse a se acender dentro de Cecília.

Com forte senso de justiça e igualdade, Neusa avança nos temas de cunho social já abordados inicialmente na obra Ciça (Figura 1). Em Ciça e a Rainha, a autora abre possibilidades de novos desfechos para sua protagonista. Ainda que a narrativa de Neusa abarque questões de grande densidade, ela desperta a atenção do leitor por meio de uma linguagem engraçada e carregada dos fortes traços da protagonista.

Entre texto e imagem: a literatura infantil e juvenil

Como já discutido, a literatura é um instrumento imprescindível para a formação cognitiva das crianças e jovens. A literatura possibilita o enriquecimento do acervo intelectual e contribui para o desenvolvimento do senso crítico e emocional dos leitores, servindo como alimento necessário para uma formação mais justa e humanística. Maria Amélia Dalvi é uma pesquisadora que tem se dedicado a estudar a educação literária e a formação do leitor. Segundo Dalvi, a literatura é uma representação social

próxima, real, democratizada, efetivamente lida e discutida, visceral, aberta, sujeita à crítica, à invenção, ao diálogo, ao pastiche, à leitura irônica e humorada, com manejo dos recursos – verbais, visuais, materiais e imateriais –, inserida no mundo da vida e em conjunto com as práticas culturais e comunitárias, sem medo dos julgamentos (Dalvi, 2013, p. 77).

A leitura literária contribui para uma formação sensível do sujeito; além disso, coloca-o em sintonia com os acontecimentos e no mundo (Ribeiro, 2019). Esse é o real papel e a função social da leitura e da literatura. Em contato com a literatura, tanto as crianças quanto os jovens leitores terão maiores oportunidades de expandir suas percepções acerca do contexto onde estão inseridos. Antonio Candido (1995) diz que, quando a leitura literária se faz presente na vida das pessoas, elas passam a enxergar o mundo de forma mais realística e não romantizada. Descortinar a realidade do mundo para as crianças a partir da literatura não corromperá suas percepções de mundo. O que não podemos é omitir e nem negligenciar o direito à formação crítica (Candido, 1995).

As narrativas Ciça (Figura 1) e Ciça e a Rainha (Figura 2), protagonizadas por Cecília, uma garota de uma família menos abastada, que mesmo passando por diversos contratempos ainda sonha superar a pobreza, são exemplos de textos literários que podem contribuir com a formação de leitores mais sensíveis e atentos às questões sociais. Aproximar as crianças e os jovens de narrativas como essas contribuirá significativamente para que eles conheçam a realidade de muitas Ciças pelo Brasil.

Uma das características da leitura é permitir-nos o acesso a mundos fisicamente distantes, possibilitando a presentificação de informações e conhecimentos não inseridos em nosso contexto mais imediato. Ler também significa viajar por universos infinitos, percebendo realidades que o homem foi desvendando no decorrer de sua história (Quevedo, 2005, p. 44).

Corroborando nossa discussão, Kommers (2011, p. 74) diz que a literatura direcionada ao público infantil e juvenil, estando em linguagem verbal, em linguagem visual ou com a presença do diálogo dos dois elementos textuais, é importante para a expressão verbal, o lúdico, a imaginação e a abstração. A relação entre os elementos verbais e os visuais na constituição da obra literária cria mecanismos para que os leitores realizem suas interpretações e completem o sentido dela.

Em sua função formativa, a literatura acaba tendo inúmeros papéis no contexto social. Cademartori defende que um dos papéis que cabe à literatura é o de colocar as crianças e os jovens leitores em sintonia com a vida e os acontecimentos sociais. Para a autora, a leitura literária “é fundamental para que se processe uma relação ativa entre falante e língua” (Cademartori, 2006, p. 74). Mas, para que a literatura cumpra seu papel social, ela precisa antes ser vista como um dos pilares na formação leitora de crianças e jovens. Sendo tratada com a devida seriedade e respeito, a literatura operará no processo de maturação do senso crítico das pessoas, tornando-as mais humanas e sensíveis.

Sabemos que a presença do texto literário na vida e na formação dos leitores é fator positivo para o processo cognitivo das crianças. Mais importante ainda é criar estratégias para tornar esses textos atraentes ao público leitor. Esse é um grande desafio, que exige muitas reflexões. Uma alternativa que pode tornar o texto literário atraente aos leitores é pensar em detalhes que complementem o sentido do texto. Nesse caso, diríamos que, além de um projeto gráfico que valorize o texto literário, é importante pensar em elementos visuais, como ilustrações que proponham uma tradução semiótica (Ribeiro, 2019).

De acordo com Ramos e Penozo, o livro de literatura infantil e/ou juvenil é um suporte de leitura que se constitui com base na confluência entre mais de uma linguagem, geralmente “por palavra e ilustração” (Ramos; Penozo, 2011, p. 12). As autoras defendem que as ilustrações, quando escolhidas de forma adequada, tornam-se fator preponderante para aproximar o leitor de muitos livros. Em reflexões anteriores, concluímos que a presença das ilustrações em livros direcionados ao público jovem e infantil contribui significativamente para que o sujeito desperte o interesse por determinado livro. Quando texto e ilustrações confluem significativamente na obra literária, as possibilidades de chamar a atenção do leitor são maiores (Ribeiro, 2019). Kraiczek reflete que, ao lado das ilustrações, o texto verbal ganha novo e amplo sentido. Para a autora, “a imagem dentro de um livro tem muita importância, às vezes até maior do que o texto verbal. Um autor que se compromete a escrever um texto e, posteriormente, submetê-lo a ilustrações deve se conscientizar de que sua obra sofrerá interferências por meio da imagem” (Kraiczek, 2010, p. 3).

As ilustrações não aparecem por acaso nos livros. Sua presença tem função formativa. Por isso, as ilustrações e os textos precisam manter uma relação de complementaridade. Essas linguagens não precisam exercer função de dependência, mas sim linguagens que se fundem no conjunto da obra. Reforçamos ainda que ilustração e texto literário precisam adequar-se uma ao outro de forma harmônica no livro. Vale ressaltar ainda que, “dadas as peculiaridades do púbico leitor ao quais os livros de literatura infantil e juvenil se direcionam, a presença das ilustrações é uma das principais características” (Ribeiro, 2019, p. 264). Azeredo reitera que “é impossível negar que todo texto ilustrado vai, necessariamente, receber interferência de suas ilustrações. A energia, a linguagem, as cores, o clima, a técnica, o imaginário, tudo o que o ilustrador fizer vai alterar e interferir na leitura (e no significado) do texto” (Azeredo, 1998, p. 108).

As ilustrações, em seu aspecto formador, contribuem para que as crianças criem suas possibilidades interpretativas. As ilustrações acabam sendo suporte para que as crianças que ainda não dominam a leitura fluente consigam compreender o sentido do texto. A linguagem visual, em complementaridade aos textos literários, é o elemento que favorecerá a compreensão da criança de determinado livro. As crianças são sensíveis às imagens mesmo antes de se exprimirem por palavras (Wernek, 1998). Conforme reitera Vasconcelos, as crianças “têm um modo próprio de se relacionar com o mundo e de compreendê-lo, daí a necessidade de os livros a ela dirigidos investirem nas imagens, linguagem mais facilmente apreensível nessa etapa da vida” (Vasconcelos, 2018, p. 2). As ilustrações também atraem os leitores que já dominam o código verbal. Geralmente as escolhas por livros ilustrados ocorrem em virtude da confluência entre ilustrações e narrativa. Isso também pode acontecer dada a “contribuição das imagens no processo de interpretação e compreensão da narrativa” (Ribeiro, 2019, p. 265).

Como define Parreira (2009, p. 88) as ilustrações são parte que contribui para a composição do todo no livro. O livro, nesse sentido, é um produto cultural que se “constitui de texto, ilustrações e projeto gráfico” O projeto gráfico do livro é um processo de grande relevância na constituição do suporte de leitura. É por meio desse processo que a junção entre texto e imagem se concretizará. A diagramação, a paginação, a capa, a contracapa, o tamanho das imagens e disposição delas nas páginas são elementos a serem levados em conta no projeto gráfico da obra literária. O projeto gráfico é passo que propiciará maior legibilidade aos livros de literatura infantil e juvenil (Corsino, 2010).

Um olhar acerca das ilustrações em Ciça e em Ciça e a Rainha

As obras Ciça (Figura 1) e Ciça e a Rainha (Figura 2) foram publicadas em períodos distintos. Inicialmente, Neusa Jordem Possatti apresentou ao seu público a obra Ciça. Anos depois, a autora presenteou crianças e jovens leitores com Ciça e a Rainha, uma continuação da primeira. As narrativas, como já discutido, protagonizam a vida de Cecília (Ciça), que tenta superar a pobreza e as intempéries da vida. Com otimismo, Ciça luta para realizar o sonho de poder levar uma vida mais justa e digna ao lado de sua família. Ao protagonizar a história de uma garota que se confunde com a de muitas outras no Brasil e em outros países, Neusa Jordem não só valoriza o sujeito do gênero feminino como também dá visibilidade à realidade social de muitas crianças. As intempéries da vida impedem Ciça de exercitar sua cidadania, já que, para trabalhar nos cafezais, fica impossibilitada de frequentar a escola (Ribeiro, 2019).

No decorrer da narrativa das obras em estudo, a protagonista relata alguns fatos de sua vida, incluindo um acidente envolvendo o caminhão que os transportava até a lavoura de café, que acabou lhe custando uma das pernas (Ribeiro, 2019, p. 267). Mesmo não tendo passado pelas situações as quais Ciça passou, a autora teve oportunidade de presenciar situações semelhantes na cidade onde nasceu, com o dia a dia das famílias de coletores de café. Com relação ao conteúdo das obras em análise, acreditamos que as obras Ciça e Ciça e a Rainha têm grande facilidade de atrair o olhar de crianças e jovens leitores, já que apresentam boa composição ilustrativa e bom projeto gráfico. A primeira obra tem 32 páginas; como conquistou sucesso de vendas, alcançou a 8ª edição, publicada em 2012. Já Ciça e a Rainha tem 40 páginas e sua primeira edição foi publicada no mesmo ano. Ambas as obras foram publicadas pelas Paulinas (Ribeiro, 2019, p. 267).

 Figura 1: Capa de Ciça

Figura 2: Capa de Ciça e a Rainha

As capas trazem as informações básicas que podem contribuir para o leitor identificar narrativa, personagem e autor, entre elas, o título da obra, nome da autora, identificação da editora, créditos do ilustrador e ilustração da protagonista. As informações postas em evidência servem de estratégia para que os leitores possam acessá-las com maior facilidade. Conforme Ramos e Nunes (2013, p. 255), “a capa é a embalagem do livro e tem como função apresentar o leitor ao objeto de leitura, seduzindo-o para voltar o seu olhar a esse objeto”. Tomando por base o disposto, acreditamos que a forma como as informações necessárias foram organizadas nas capas dos livros revela que o editor tem consciência da importância do projeto gráfico para a composição de uma obra literária. Embora as informações nas capas facilitem o contato do leitor com o texto literário, chamamos a atenção para os traços característicos com os quais é Ciça ilustrada em cada livro (Ribeiro, 2019).

A Ciça da primeira capa não se parece com a da segunda. A forma como a protagonista foi ilustrada criou detalhes que tornaram a protagonista muito diferente nas duas obras. As características que fazem destoar uma capa da outra podem trazer prejuízo à interpretação do leitor, que geralmente identifica as personagens pelos traços artísticos com os quais elas são criadas. Como já discutido, as crianças que ainda não dominam o código verbal se orientam pela narrativa visual do livro. O distanciamento aparente nas ilustrações de Ciça e de Ciça e a Rainha pode comprometer a produção de sentido proveniente das leituras que as crianças fazem das obras. Por outro lado, as crianças que dominam a leitura com fluência não terão problema em ler a narrativa e compreendê-la. Entretanto, perceberão as mudanças (a descaracterização) pelas quais as ilustrações da personagem passaram (Ribeiro, 2019).

A ideia de temporalidade explorada por Neusa Possatti na narrativa verbal de suas obras permite perceber a relação de tempo e espaço onde as ações se passam. A fluidez com que uma obra acompanha a outra contribui para a compreensão do sujeito leitor. O mesmo não se passa com a narrativa visual. Não só nas capas das obras literárias em questão apresentam distinção nos aspectos característicos de Ciça. No interior das obras, a personagem apresenta traços artísticos muito diferentes. Na primeira obra, ela parece uma garotinha; na segunda ela já transmite certa jovialidade.

Como identificado em outro estudo, o avanço na narrativa das ilustrações em Ciça e a Rainha demonstra que o profissional encarregado dessa função não se preocupou em recuperar seus arquivos e ilustrações elaboradas na obra anterior. Manter as características das ilustrações nas duas obras teria garantido maior fidelidade para o público leitor que tanto se identifica com a personagem Ciça. Segundo Chartier e Cavallo (1998), a leitura é uma prática social que vai além da decodificação das palavras. Conforme os autores, “a leitura não é apenas uma operação intelectual abstrata: ela é uso do corpo, inscrição de um espaço, relação consigo mesma ou com os outros” (Chartier; Cavallo, 1998, p. 8). Nesse sentido, as imagens contribuem para a compreensão da obra como um todo. O rigor na elaboração de ilustrações para compor uma obra literária deve ser constante. Elas são elementos que se complementam para dar sentido do texto e possibilitar mais oportunidade de interação entre o leitor, o livro e a literatura (Ribeiro, 2019).

Figura 3: Ciça em tons pastéis 

Figura 4: Ciça pré-adolescente

Na ilustração em tom pastel, Ciça (Figura 3) aparece trabalhando nas lavouras em época de colheita de café. Seus cabelos estão arrumados em muitas tranças. Esse traço característico confere maior infantilidade à protagonista. A coloração utilizada na ilustração intensifica o aspecto lúdico da imagem e a torna menos realista. Na outra imagem, os tons coloridos de Ciça (Figura 4) conferem traços mais realistas e a percepção de que ela seja uma jovem pré-adolescente. As narrativas apresentam requinte e primor; além disso, mantêm sintonia com a narrativa de Neusa Jordem Possatti. Mas o distanciamento temporal entre as ilustrações das duas obras é o que nos parece criar uma lacuna. A temporalidade é fluida nas duas narrativas; mas nas ilustrações observamos certo distanciamento.

Utilizando as palavras de Ramos e Nunes (2013, p. 253-254), reforçamos que “não identificamos semelhança na maneira com que esse diálogo se dá em cada um dos exemplares, pois há diferença na forma e no conteúdo das ilustrações, o que altera o processo de leitura – interação do leitor com o texto ilustrado”. As ilustrações das obras dialogam com o texto de cada obra, mas não poderíamos deixar de apontar pequenas falhas. Nossa discussão se baseia em colocar em contexto questões como a relação de interação que o leitor estabelece com as ilustrações e os textos das obras literárias. Não ansiamos com tal estudo desmerecer a produção artística do ilustrador das obras em questão. Reflexões como estas surgem da necessidade de colocar em debate a relevância da ilustração em livros de literatura infantil e juvenil.

Retomando as discussões acerca das ilustrações das obras Ciça e Ciça e a Rainha, podemos dizer que o distanciamento encontrado nas ilustrações também está presente nas que debateremos na sequência.  

Figura 5: Ilustração de Ciça

Figura 6: Ilustração de Ciça e a Rainha

Conforme afirmam Ramos e Nunes (2013, p. 254), “mesmo que a ilustração seja proveniente da ótica do ilustrador, assim como a palavra é organizada pelo escritor, cada uma das linguagens tem função na construção discursiva, tentando estabelecer um vínculo com o leitor”. O sentido do texto literário surge baseado nas interpretações que os leitores fazem. Esse sentido pode ser construído na leitura das palavras, mas também pode surgir da leitura das imagens. A confluência entre o verbal e o visual pode trazer um sentido ainda maior para as interpretações dos leitores. Entre os variados artifícios de que o artista lança mão para criar suas ilustrações, podemos dizer que “a modalização do texto verbal” serve também “como estratégia para a produção das ilustrações de determinada obra, a modalização para proporcionar uma nova leitura/interação” (Ribeiro, 2019, p. 270).

Seja por meio da modalização ou outros recursos, o importante é que o ilustrador crie formas de elaborar ilustrações que dialoguem com os textos literários. Assim, as possibilidades de interação entre o leitor e o livro serão maiores e significativas. Como bem reflete Iser (1979), no momento da realização da leitura de um livro o leitor carrega consigo alguns repertórios históricos, sociais e culturais. A interpretação dos textos lidos ocorrerá a partir do diálogo e da interação entre o repertório do leitor e o texto lido. As ilustrações, como representações culturais que influenciam as interceptações dos leitores, contribuirão na ampliação dos sentidos do texto lido. No caso das obras em estudo, os leitores poderão agregar sentido e realizar muitas interpretações. Vale asseverar que os leitores de Ciça e Ciça e a Rainha que já dominam a leitura verbal compreenderão as narrativas, mas certamente perceberão o distanciamento entre as lustrações das obras. Outra parcela de leitores que se orienta pela linearidade temporal das ilustrações poderá encontrar dificuldade em associar a personagem em Ciça e em Ciça e a Rainha.

Finalizando nossa conversa

Como discutido na abertura deste estudo, o livro de literatura infantil e juvenil foi ignorado por muito tempo até ganhar a atenção de pesquisadores de variadas áreas. Esse gênero literário, além de ter sido visto como menor, era também tratado com grande descaso e preconceito. Apostando na importância da literatura para formar leitores críticos, alguns pesquisadores começaram a dar ênfase a estudos sobre ensino de leitura literária, ensino de literatura e educação literária de jovens e crianças. Isso abriu possibilidades para o estudo não só da literatura infantil e juvenil, como também a história do livro de literatura direcionado a esse público e os elementos de constituição da obra literária.

O contato com temas sociais atuais é de grande importância para crianças e jovens leitores. Dessa forma, eles poderão exercitar a fruição, conquistar melhor desenvolvimento cognitivo e exercitar seu senso crítico diante das transformações pelas quais o mundo passa. O acesso aos temas sociais poderá ocorrer por meio da leitura literária. Por abordar um tema tão recorrente na sociedade brasileira, Ciça e Ciça e a Rainha, de Neusa Jordem Possatti contribuem para o exercício da cidadania e a manutenção do senso crítico do leitor. As obras que protagonizam o sujeito feminino também oportunizam uma reflexão acerca da sociedade e suas problemáticas. Além disso, propõem uma interação entre leitores, fatos sociais e literatura.

Concluindo nossas reflexões, acrescentamos que é de fundamental importância que o leitor consiga compreender o sentido da obra literária. A partir do que defende Iser (1979), a realização das interpretações ampliará os sentidos do texto lido. Mas para que isso ocorra é necessário que o leitor compreenda a obra como um todo. Se o código verbal ou visual falhar, isso comprometerá a compreensão do leitor. É por isso que deve haver grande sintonia entre cada linguagem que compõe a obra literária. Para que isso ocorra, é necessário que o autor e o ilustrador estejam em intenso diálogo. É exatamente por tal motivo que o planejamento das partes que compõem um todo na obra é de grande importância. Cada detalhe deve ser pensado com muito cuidado e atenção. Acreditamos que as lacunas apresentadas entre as ilustrações das obras estudadas podem ter sido resultado da ausência desse diálogo entre o ilustrador com a autora (Ribeiro, 2019).

Referências

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Publicado em 28 de setembro de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

SILVA, Lucecléia Francisco da; RIBEIRO, Roney Jesus. A ilustração em duas obras da literatura infantil e juvenil produzida por Neusa Jordem Possatti. Revista Educação Pública, v. 21, nº 36, 28 de setembro de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/36/a-ilustracao-em-duas-obras-da-literatura-infantil-e-juvenil-produzida-por-neusa-jordem-possatti