Os dois Joões

Esteban Lopez Moreno

Doutor, professor associado da Fundação Cecierj

Vou direto ao ponto: um João era chato e o outro não; simples assim. Sinceramente, não conhecia muito bem o “outro”, ao menos não tanto quanto gostaria, porém o “chato”... bem, deste sabíamos de tudo; sofria há tempos de incontinência verborrágica tagarela. Vivia reclamando de qualquer coisa; do aluguel que não pagavam, do gato que miava, até da nuvem que cobria o sol. Era aquele típico sujeito que, ao se ver caminhando em sua direção na mesma calçada, muda-se para a outra, por uma desculpa qualquer. Esse sujeito feio e ranzinza entrou nesta história provavelmente por ter o mesmo nome do outro João, além da mesma idade, ou próxima, e conviverem na mesma rua, ao final dela; uma rua sem saída onde eu também morava. Era, sob qualquer perspectiva, não custa frisar, um chato; por isso é melhor tirá-lo logo desta história.

Quanto ao “outro” João, este sim era um personagem admirável, e é sobre ele que quero falar. Um homem retinto, cabelo grisalho, jeito simples, parecia um preto velho daqueles narrados pelos contos de Monteiro Lobato. Vivia bem, em uma casa modesta, pintada de azul celeste, com varandinha e algumas plantas penduradas aqui e acolá. Convivia em paz com a sua amável esposa, dava gosto de ver. O outro João era em todos os aspectos um cara bacana, gentil, apesar de suas poucas palavras. Em uma noite clara e serena, quase sem querer, disse-me, quebrando o jejum de silêncio: “A lua está linda hoje”. “Está mesmo!”, respondi-lhe. Aquilo bastou para me afeiçoar ainda mais a ele.

As luas foram passando e comecei a notar que o outro João, o não chato, estava ficando mais ausente. Por vezes sentava-se à soleira de sua casa, em silêncio, sempre a meditar, calado, pensativo. Aos poucos soube, por vias indiretas, do segredo de seu desgosto. Tinha sido caseiro por muitos anos de um rico empresário, dono de uma grande rede de combustíveis e tintas; seu casarão ficava ali perto, na rua ao lado. O barão pediu-lhe que testemunhasse falsamente em um processo judicial para aquilatar uma fatia ainda maior de um terreno que ocupava clandestinamente, abocanhando uma boa fatia da Mata Atlântica (“Gentalha!”, pensei, invertendo o sentido original da palavra...). Para convencer o juiz a dar posse por “usucapião”, João, o outro, prestou um falso testemunho, disse ao juiz que o empresário estava ali há muito tempo, mais do que 30 anos. Era pura mentira.

João tinha feição nobre, suas cicatrizes aumentavam-lhe ainda mais a dignidade, certamente foi peça importante no convencimento do juiz. Este deu a desejada posse ao ex-patrão e, em troca, secretamente, o João, que não era chato, ganhou sua casa modesta azul, com esposa, quintal e duas ou três rugas a mais.

Preciso confessar que me senti decepcionado com o João, o outro, mas ainda assim o admirava. Para a maioria das pessoas, incluindo naturalmente o primeiro João, o chato, um falso testemunho passaria fácil; entretanto, para o “meu” João foi um duro golpe. A vida toda levara uma vida simples e honesta, nunca teve que mentir, porém aquela contenda provocou-lhe uma cicatriz diferente, que não corria por fora, mas por dentro. Pudesse, voltaria no tempo, viveria da forma ainda mais pacata do que sempre vivera, sem a casinha azul, mas com sua honra e sua dignidade preservadas.

Imaginava que em seus pensamentos tentava dirimir seu erro, afinal era apenas um pedaço de mata, ninguém mais o ocupava senão passarinhos retintos e macacos tagarelas. Entretanto, em seu íntimo – e é onde tocam as feridas que não saram fácil –, João não se convencia. Aos poucos se tornou uma pessoa amargurada, distante, sua mulher não sabia mais o que fazer para consolá-lo. Pobre João. Foi-se calando, calando… até que um dia sumiu da casa, da rua, sumiu do mundo.

Permaneceu na rua apenas o João chato, e, para fazer ainda mais jus à sua chatice, ele me obriga a contar agora a sua história. Foi trabalhador, por quase toda a vida, para um homem rico, não tanto quanto o outro, mas tinha lá suas posses; uma delas era um prédio residencial inteiro em nossa rua, de três andares. Todos os seus apartamentos estavam alugados e o nosso chato tinha com o patrão uma posição privilegiada: era ao mesmo tempo porteiro, síndico, faxineiro e, é claro, fofoqueiro oficial do prédio e da rua. Ademais, sempre que atrasavam, ele fazia pessoalmente as cobranças dos aluguéis. Por isso, acrescente-se aos tributos lícitos cobrados a rudeza ilícita. Era muito esforço para um único João. Não obstante o seu esmerado sacrifício para agradar ao seu patrão, sua remuneração era minguada, abaixo do mínimo; e ainda vivia em um quartinho chinfrim, de fundos e, não havia como disfarçar, malcheiroso.

Esse João até aqui não tinha nada a se admirar; no entanto, ele tinha uma coisa que me fascinava – ressalte-se, apenas uma! –: sua fé em que o seu patrão, pelo menos como herança, doasse-lhe um de seus vários apartamentos em função dos seus inúmeros préstimos. Era uma promessa antiga, reiterada ao longo das décadas. Seu patrão estava agora muito velho e o momento da realização da promessa tornava-se cada vez mais próximo. Todos da vizinhança soubemos quando finalmente o patrão se internou em estado grave na UTI; era urgente pleitear a merecida herança. E lá foi João, o chato, de rara roupa limpa e banho tomado ao hospital; todos nós passamos naquele momento a torcer por ele.

Esta história não termina como deveria. É uma pena. Este João, quase ex-chato, não ganhou o apartamento, foi traído, o ex-patrão deixou para seus próprios filhos; para ele nada coube, apenas resignação e o direito de continuar a administrar os imóveis, agora em nome dos filhos. Uma vez que ficou claro o seu infortúnio, passou a esbravejar mais ainda, maldizer a tudo e a todos, até do nome de minha filha reclamou (no dia em que quase pulei em seu pescoço... velho chato!).

Não obstante a imensa decepção com o seu falecido patrão, este João não se intimidara, tomou outro rumo. Uma de “suas” velhas inquilinas estava há muito tempo viúva e ele, por conta de algum acordo secreto insólito, decidiu que deveria morar com ela. Era difícil aceitar tal proposta – impossível! –; quem viveria sob o mesmo teto com o tal João?! Mas ele, além de chato, era tinhoso e esperto; entre seus diversos argumentos, soube convencê-la de que antes mal acompanhado do que só – conforme defendido pela canção do Erasmo. Tamanha foi a insistência que a velha afinal aceitou e, após um inverno cor de chumbo, até passaram a lembrar um casal. E assim ficaram meio casados, meio separados, ao menos sob o mesmo teto. Ele parecia, afinal, mais feliz – e a velha viúva também. Um dia desses, este João também sumiu; soube que foi levado pela Samu, nunca mais voltou.

Hoje, refazendo os passos na rua, faz muito tempo que eu não vejo os dois Joões, uns 15 anos ou mais; o que se passou com eles aos poucos vai se apagando, como é o destino das histórias. Mesmo esta, que parece inventada – mas não foi! –, um dia sumirá. Ficou o local onde viveram os dois Joões: a bela casa azul com seu jardim e o pequeno apartamento da viúva, agora ocupados por outros enredos. Mas um pensamento ficou cá comigo: não é a nossa natureza a mesma dos dois Joões? De um lado, buscamos avidamente levar uma vida honesta e algum tropeço – inevitável até mesmo entre os mais probos – faz-nos mergulhar nas chamas de culpa ou amargura; de outro, assumimos nossa rabugice, mas, ainda assim, capazes, uma vez ou várias, surpreender-nos a todos.

Que seres dignos de apreço foram esses dois Joões!

Publicado em 16 de novembro de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

MORENO, Esteban Lopez. Os dois Joões. Revista Educação Pública, v. 21, nº 41, 16 de novembro de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/41/os-dois-jooes