Bullying na escola e suas implicações na aprendizagem

Thaiane Goulart dos Santos

Graduada em Pedagogia (UNIRIO)

Rosiane de Oliveira da Fonseca Santos

Mestranda em Educação, professora (Seeduc/RJ), tutora presencial dos cursos de História e Pedagogia (UNIRIO - polo UAB/Cederj Cantagalo)

Vivemos em uma época em que os valores morais estão em decadência, a intolerância à diferença do outro e a agressividade exacerbada têm nos levado a falhar como seres humanos. Não satisfeitos, transmitimos a nossas crianças e adolescentes essa forma de agir e pensar; elas, por sua vez, repetem no âmbito escolar. 

Apesar disso, nos espantamos e comovemos todas as vezes que a mídia noticia alunos invadindo escolas e cometendo assassinatos ou jovens que chegam ao limite e dão fim a suas vidas, fatos que podem estar associados a uma prática antiga nas escolas, mas que nos últimos anos vem ganhando força e visibilidade: o bullying. É com urgência que precisamos agir frente a esse fenômeno que expõe o indivíduo a situações extremas de humilhação e violência.

A. Silva (2015, p. 79) traz em sua obra uma carta de Cho Seung-Hui, aluno que, após sofrer bullying, invadiu a universidade onde estudava e abriu fogo contra várias pessoas. Em um dos seus desabafos, ele diz: "Vocês tiveram uma centena de bilhões de formas de evitar esse momento. Mas decidiram derramar meu sangue. [...] Vocês destruíram o meu coração, violentaram a minha alma, queimaram a minha consciência".

São situações como essas que motivaram a escolha do tema, visto que a escola e a sociedade não podem esperar mais tragédias acontecerem para que medidas sejam tomadas; a violência escolar é um problema grave, que abala expressivamente a vida da pessoa. Nesse sentido, pretendemos investigar o bullying no espaço escolar, analisando as implicações dessas ações para o processo de ensino-aprendizagem. Acredita-se não ser utópico uma escola e uma sociedade livres da prática do bullying, em que prevaleça a afetividade, o amor, o respeito às diferenças e que, consequentemente, tais valores sejam transmitidos para todos os educandos para que eles possam exercer plena cidadania. O presente artigo se faz necessário, pois colabora para a reflexão e a conscientização dos membros do meio acadêmico acerca do tema, levando-os a ter um olhar mais atento para as relações interpessoais desenvolvidas no espaço pedagógico, estimulando-os a inibir e criar estratégias, junto à família e a alunos, para combater a violência escolar.

Conceituando o bullying

Atualmente, alunos têm sido bombardeados por uma sucessão de ataques extremamente maldosos, agressivos e danosos para a vida da vítima, em que aquele que assume o papel de agressor tem como único objetivo submeter seu colega ao sofrimento, magoando-o das maneiras mais perversas possíveis. Infelizmente, é uma prática inerente a todas as escolas que, quando apresentada de maneira intencional e frequente, pode ser caracterizada e tratada como bullying. De acordo Fante (2018, p. 29),

podemos considerar o bullying como um fenômeno bastante antigo, por se tratar de uma forma de violência que sempre existiu nas escolas – em que os "valentões" continuam oprimindo e ameaçando suas vítimas, por motivos banais – e que até hoje ocorre despercebida da maioria dos profissionais da educação.

Nesse sentido, é imprescindível compreender do que se trata essa violência, cada dia mais presente nas interações aluno-aluno, a fim de buscar meios para sanar essa problemática no meio escolar.

Conforme pesquisadores da área, o termo bullying é utilizado em diversos países para nomear ações agressivas, sejam elas físicas, verbais ou psicológicas, que ocorrem de maneira contínua e proposital de um indivíduo contra outro. O educando, quando exposto a essas situações, não consegue apresentar reação diante dos cruéis ataques, impossibilitando-o de pedir ajuda ou se defender. Como reitera Fante (2018, p. 49),

os atos de bullying entre os alunos apresentam determinadas características comuns: são comportamentos produzidos de forma repetitiva num período prolongado de tempo contra uma mesma vítima; apresentam uma relação de desequilíbrio de poder, o que dificulta a defesa da vítima; ocorrem sem motivações evidentes; são comportamentos deliberados e danosos.

Observa-se então que essa violência possui especificidades que a distinguem das demais, o que pode vir a contribuir para que haja diferenciação na hora de intervir e buscar medidas próprias para condutas em que a agressividade se faça presente. Oweus, por exemplo, salienta que as agressões só devem ser consideradas bullying quando "um estudante é exposto repetidamente, por um tempo prolongado, há ações negativas por um ou mais estudantes" (Oweus, apud Xavier, 2015, p. 14).

Posto isso, Pereira (2009, p. 42) ressalta a importância de investigar as manifestações de agressividade nas relações escolares, haja vista que nem todas podem ser tachadas como bullying. Segundo a autora, há agressões que são comuns da idade, comportamentos que fazem parte do desenvolvimento da criança e por isso não têm intenção de ferir ou humilhar o outro.

Constantini (2004, p. 62, apud Pereira, 2009, p. 31), por sua vez, relata que esse fenômeno não se trata de conflitos normais da idade, mas de atos de intimidação, ameaças que intencionalmente são impostas aos indivíduos mais vulneráveis, causando sofrimento psicológico, isolamento social e marginalização.

Assim, pode-se afirmar que o bullying se manifesta por meio de ações sutis e veladas que acabam sendo compreendidas como brincadeiras entre alunos. Logo, essa visão deturpada a respeito dos comportamentos deliberadamente nocivos leva a família, os profissionais da Educação e demais áreas a banalizar essas práticas e as consequências advindas delas. Assumir uma postura falha frente a essa situação, acreditando ser uma forma de os pares brincarem entre si, pode resultar em intervenções rasas e, por esse motivo, agravar o quadro de violência e dos seus impactos. Por isso, é importante destacar a diferença entre brincadeira e bullying, pois

as brincadeiras acontecem de maneira natural entre as pessoas. Elas brincam, "zoam", colocam apelidos umas nas outras, dão risadas e se divertem. Porém, quando essas brincadeiras ganham requintes de crueldade, de perversidade, de "segundas intenções" e extrapolam os limites suportáveis […], quando uns poucos se divertem à custa de outros, que sofrem, não se trata de mais de simples brincadeira e sim de um ato de violência (Fante; Pedra, 2008, apud Xavier, 2015, p. 14).

Os impactos desse fenômeno ferem direitos básicos assegurados pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), pela Constituição de 1988 e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), entre outros documentos legais que versam sobre a educação e o bem-estar de crianças e adolescentes. Nesse sentido, pais e comunidade escolar devem estar atentos aos comportamentos desenvolvidos por crianças e adolescentes, visto que nem tudo é brincadeira, frescura ou está relacionado ao desenvolvimento do indivíduo.

Quais os tipos de bullying?

Dado o contexto dessa problemática, é pertinente destacar que o aluno agressor pode escolher qual agressão vai usar para agir contra a sua vítima, porque o bullying se manifesta por meio das violências diretas e indiretas. A primeira refere-se a todo ataque físico ou verbal; a segunda refere-se às ações vexatórias, em que o indivíduo é excluído da sociedade, levando-o a um estado de sofrimento psíquico. De acordo com C. Silva (2015, p. 119), a violência indireta é mais perigosa; por ser velada e sutil, se torna mais difícil de ser percebida e de calcular os impactos.

A Lei n° 13.185/15, voltada para a contenção do bullying no território nacional, menciona no Art. 3º que a violência tratada nesta pesquisa pode ser classificada como:

  1. verbal: insultar, xingar e apelidar pejorativamente;
  2. moral: difamar, caluniar, disseminar rumores;
  3. sexual: assediar, induzir e/ou abusar;
  4. social: ignorar, isolar e excluir;
  5. psicológica: perseguir, aterrorizar, intimidar, chantagear e infernizar;
  6. física: socar, chutar, bater;
  7. material: furtar, roubar, destruir pertences de outrem;
  8. virtual: depreciar, enviar mensagens intrusivas da intimidade, enviar ou adulterar fotos e dados pessoais que resultem em sofrimento ou com o intuito de criar meios de constrangimento psicológico e social.

Esta última, também conhecida como cyberbullying, é inerente à cibercultura, pois os haters, nome dado aos agressores na internet, fazem uso da tecnologia, em especial as redes sociais, para promover discursos e ataques de ódio contra outra pessoa.

Com o advento das novas tecnologias surgiu uma nova possibilidade de agredir o outro, denominada cyberbullying. (...); o anonimato e a massiva distribuição da informação que esses meios eletrônicos permitem dão uma vantagem muito maior do autor sobre seu alvo e o transformam numa situação mais danosa ainda para quem a sofre, isto porque as agressões podem chegar a número incalculável de espectadores e o autor das agressões pode permanecer por muito tempo no anonimato (Dell Barrio, 2013, apud Frick, 2016, p. 50).

Apesar de essa violência se apresentar de inúmeras maneiras, A. Silva (2015, p. 21) esclarece que o agressor nunca comete apenas uma delas, fazendo uso de todas as formas de agressão para aterrorizar sua vítima.

Quem são as pessoas envolvidas nesse problema?

As pessoas envolvidas nessa problemática desenvolvem características e papéis próprios que devem ser entendidos pela equipe pedagógica, pais, responsáveis e sociedade para que no dia a dia esses educandos recebam a ajuda necessária. Nos estudos sobre a temática, é possível encontrar múltiplas nomenclaturas para os personagens de bullying; este artigo irá considerar as denominações dadas por Fante (2018) e A. Silva (2015), pois se adequam melhor à proposta do trabalho.

O primeiro personagem a ser abordado é a vítima; são alunos que são oprimidos pelo agressor, aqueles que estão sujeitos a agressões de diversos tipos dos seus colegas, como moral, social, verbal, psicológica, material e virtual. Baseando-se nas explicações de Fante (2018), Grillo e Santos (2015) e A. Silva (2015), esse grupo pode ser dividido em:

  • Vitima típica: são os alunos mais retraídos, sofrem as agressões calados; em outras palavras, pode-se dizer que eles não revidam ou buscam ajuda. Esse aluno sente dificuldade de impor-se ao grupo tanto física como verbalmente e tem conduta habitual não agressiva, motivo pelo qual parece denunciar ao agressor que não irá revidar se atacada e que é "presa fácil" para os seus abusos (Fante, 2018, p. 72).
  • Vítima provocadora: se coloca na situação de conflito com o outro, isto é, age de maneira que desperta a agressividade das pessoas à sua volta.
  • Vítima agressora: como explicitam Grillo e Santos (2015, p. 67), esse personagem é o indivíduo que, após sofrer agressões, busca transferir para o outro esse transtorno, ou seja, passa a violentar pessoas mais fracas que ele. Para A. Silva (2015, p. 40), essa figura ativa um círculo vicioso, uma vez que fica mais difícil controlar essas situações, o que acarreta danos em proporções infelizes.
  • Agressor: pode ser descrito como o aluno que age de forma agressiva contra outras pessoas; "ele sente necessidade imperiosa de julgar os outros, de se impor mediante o poder e a ameaça e de conseguir aquilo que se propõe" (Fante, 2018, p. 73). O autor de bullying é tipicamente popular; tende a envolver-se em uma variedade de comportamentos antissociais; pode mostrar-se agressivo inclusive com os adultos; é impulsivo; vê sua agressividade como qualidade; tem opiniões positivas sobre si mesmo; é geralmente mais forte que seu alvo; sente prazer e satisfação em dominar, controlar e causar danos e sofrimentos a outros. Além disso, pode existir um "componente benefício" em sua conduta, como ganhos sociais e materiais. São menos satisfeitos com a escola e a família, mais propensos ao absenteísmo e à evasão escolar e têm tendência maior para apresentar comportamentos de risco (consumir tabaco, álcool ou outras drogas, portar armas, brigar etc.) (Lopes Neto, 2005, p. 167).

Espectadores ou testemunhas são os discentes que participam indiretamente das práticas de bullying, presenciam as agressões contra a vítima, mas não tomam nenhuma atitude; A. Silva (2015, p. 44-45) divide esse grupo em espectadores passivos, ativos e neutros.

  • Espectadores passivos: os discentes que assumem esse papel se abstêm de qualquer situação relacionada ao bullying, pois sentem medo de virar a próxima vítima.
  • Espectadores ativos: de acordo com A. Silva (2015, p. 45), estes não participam diretamente das agressões, mas manifestam apoio aos agressores, com risadas e palavras de incentivo.
  • Espectadores neutros: por uma questão sociocultural, não demonstram qualquer sensibilidade diante das violências, como assinala A. Silva (2015, p. 32). Entre eles, podemos perceber os alunos que, por uma questão sociocultural (originários de lares desestruturados ou de comunidades em que a violência faz parte do cotidiano), não demonstram sensibilidade pelas situações de bullying que presenciam. São acometidos por uma anestesia emocional, em função do próprio contexto social no qual estão inseridos (Silva, A., 2015, p. 32).

Para Fante (2005), os espectadores do bullying,

mesmo não sofrendo as agressões diretamente, podem se sentir inseguros e incomodados. Alguns espectadores reagem negativamente, uma vez que seu direito de aprender em um ambiente seguro e solidário foi violado, o que pode influenciar sua capacidade e seu progresso acadêmico e social (Fante, 2005, p. 73-74).

Possíveis causas do bullying

As causas desse fenômeno no ambiente escolar podem ser observadas também na sociedade, ou seja, o aluno absorve problemas sociais como, por exemplo, o preconceito, a dificuldade de lidar com as diferenças, a desigualdade social, a cultura da violência; e leva isso para dentro das escolas.

No mundo atual, a incapacidade de lidar com a diferença do outro tem se tornado cada vez mais frequente, ao passo que discursos de ódio vêm sendo exaltados e disseminados sem nenhum pudor, gerando a perseguições, violências físicas e verbais dentro e fora dos muros escolares. Perante esse ponto de vista, fica evidente a necessidade de conscientizar e desenvolver nos alunos o respeito ao próximo, ensinando o multiculturalismo da sociedade, pois, como indicado por Pedra e Fante (2008), "o bullying nasce da recusa a uma diferença, da intolerância, do desrespeito ao outro" (Pedra; Fante, 2008, p. 41, apud Silva; Rosa, 2013, p. 330). Vale ressaltar que, por mais que haja essa aversão ao diferente, ela não pode ser confundida com racismo, por exemplo.

Em concordância com essa ideia, Xavier (2015, p. 16) aponta a questão do estigma como um dos motivos para tanta hostilidade nas relações entre pares, visto que o indivíduo passa a ser julgado de maneira indevida pelos demais, que anulam suas qualidades em razão de alguma diferença física ou moral para o meio em que ele se faz presente. Nesse caso, o julgamento e o preconceito das pessoas fazem com que o aluno estigmatizado vire alvo das manifestações de bullying.

Para Grillo e Santos (2015, p. 66), "o principal objetivo de quem pratica bullying é a qualquer custo prejudicar sua vítima escolhida, sendo que há um desejo de querer se exibir o mais forte humilhando o próximo". Compreende-se, dessa maneira, que o agressor causa sofrimento na vítima por necessidade de subjugá-la, colocá-la numa posição inferior a ele para que os outros possam perceber que ele é superior.

De acordo com Pereira (2009, p. 21), a violência doméstica também pode vir a ser um forte prenúncio da violência escolar. A convivência diária com agressões no âmbito familiar pode influenciar o educando a reproduzir tais comportamentos na escola. Contudo, é conveniente enfatizar que nem todo discente que vive em ambiente familiar desestruturado irá se tornar um agressor, como indica Ristum (2010, p. 114): "cada leitor deste texto consegue se lembrar de pelo menos um adolescente que, apesar de viver em condições familiares adversas, é um bom aluno e não se envolve em bullying".

Além dos fatores relacionados ao preconceito, à necessidade de chamar a atenção e a problemas familiares, o comportamento do professor diante de situações de bullying também pode se tornar a causa desses assédios, pois, conforme Alves (2016, p. 600), "importa sublinhar que as ações e opções dos professores e de outros atores das escolas são fundamentais para potenciar ou limitar a ocorrência daquele tipo de situações".

Dentre os motivos apontados por Avilés (2007; 2013) que podem explicar o bullying no ambiente escolar estão:

culturais: cultura à violência e ao uso da força, pensamentos de determinados grupos (homofóbicos, neonazistas, racistas); sociais: violência estrutural, preconceitos, valores (não morais) socialmente aceitos, como o status social, a individualidade, o culto ao corpo; familiares: modelos de educação autoritária, permissiva ou negligente, formas agressivas, falta de diálogo, valores e vínculos estabelecidos; escolares: tolerância às agressões (mesmo que não diretamente), valores cultivados, tipo de relações estabelecidas (se de cooperação ou de competição, se baseadas no respeito mútuo ou unilateral), vínculos de apego, falta de sistemas de apoio e de canais de comunicação, tipo de normas existente e a forma como são construídas, tipo de relação estabelecida com as famílias e os demais membros da comunidade educativa (Avilés, 2007; 2013, apud Frick, 2016, p. 45).

Portanto, "trata-se de uma questão multicausal e complexa e demanda ainda análises e estudos mais aprofundados" (Rosa, 2010, p. 148). Para Frick (2016, p. 44), "mesmo que se apontem fatores de risco [...], não se pode usar isso como uma justificativa para esse tipo de agressão, muito menos como sua causa". Desse modo, as causas aqui apresentadas não podem ser tomadas como absolutas; o bullying e os possíveis motivos que levam um discente a cometer essa agressão são complexos, cabe a cada comunidade escolar analisar minuciosamente os fatores responsáveis por determinar o desenvolvimento dessa problemática em seu espaço.

O bullying e o processo de aprendizagem

Há concordância entre os autores pesquisados de que o bullying causa danos gravíssimos na vida dos envolvidos neste fenômeno, principalmente das vítimas; "acarreta sofrimento psíquico, diminuição da autoestima, isolamento, prejuízos no aprendizado e no desempenho acadêmico" (Mario et al., 2011, apud Trevol; Urberti, 2015, p. 170).

Ana Beatriz Barbosa Silva, médica psiquiatra, descreve na cartilha Bullying, organizada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que

as consequências do bullying escolar são as mais variadas possíveis e dependem muito de cada indivíduo, da sua estrutura, de suas vivências, da predisposição genética, da forma e da intensidade das agressões. No entanto, o bullying causa sofrimento a todas as vítimas, em maior ou menor proporção. Muitas

delas levarão marcas profundas provenientes das agressões para a vida adulta e necessitarão de apoio psicológico e ou psiquiátrico para superá-los (Silva, 2010).

Para A. Silva (2015, p. 24-31), o bullying pode acarretar: sintomas psicossomáticos, transtorno do pânico, fobia escolar, fobia social (timidez patológica), transtorno de ansiedade generalizada, depressão, anorexia e bulimia, transtornos obsessivo-compulsivos, transtorno de estresse pós-traumático. Entre os impactos menos frequentes, a autora aponta a esquizofrenia, suicídio e homicídio. Compreende-se que a violência aqui tratada prejudica a saúde da criança e do adolescente em seus aspectos físicos, psicológicos e sociais, podendo influenciar negativamente a vida acadêmica do estudante. Com isso, ajudar os educandos expostos a esse fenômeno é algo fundamental no espaço pedagógico, para que eles voltem a ter aprendizagem plena.

O aluno vítima de bullying pode vir a desenvolver fobia escolar, transtorno que causa evasão e fracasso escolar, porque o trauma pelo qual ele passou dentro desse local o impede de frequentar as aulas.

Como salienta A. Silva (2015, p. 18), a fobia escolar

caracteriza-se pelo medo intenso de frequentar a escola, ocasionando repetência por faltas, problemas de aprendizagem e/ou evasão escolar. Quem sofre de fobia escolar passa a apresentar diversos sintomas psicossomáticos e todas as reações do transtorno do pânico dentro da própria escola. Isto é, a pessoa não consegue permanecer no ambiente onde as lembranças são traumatizantes.

Recorremos como exemplo à artista Demi Lovato, que, no documentário Demi Lovato: Simply Complicated, lançado em 2017 no YouTube, traz um relato marcante sobre situações desumanas vivenciadas como estudante. Segundo ela, as ações de seus colegas eram tão impiedosas que ela chegou ao seu limite e, consequentemente, deixou a escola onde estudava. Assim como a cantora, diversos alunos passam por uma rotina escolar marcada pela brutalidade de outros discentes e, em virtude disso, passam a não frequentar as aulas, desenvolvem sintomas que os afastam das atividades pedagógicas ou abandonam os estudos por completo.

A escola caracteriza-se por ser um local acolhedor, de troca de conhecimento, de socialização, de formação de laços de amizade. É uma instituição capaz de marcar a vida do educando para sempre. Todavia, a violência transforma esse ambiente em um espaço inadequado para ensinar e aprender, pois o aluno "não terá a escola como um ambiente seguro e propício à aprendizagem, mas sim um ambiente de medo e desconforto" (Silva, C., 2015, p. 130).

De acordo com Fante (2018),

o medo constante e repetitivo bloqueia a agressividade e o bom funcionamento mental, prejudicando as funções de raciocínio, abstração, interesse por si mesmo e pelo aprendizado, além de estender-se a outras faculdades mentais ligadas a autopercepção, concentração, autoestima e capacidade de interiorização (Fante, 2018, p. 24).

Observa-se que o medo vivenciado por esse aluno não afeta apenas sua relação com a comunidade escolar e sua maneira de enxergar a escola, mas também influencia seu aprendizado, posto que as funções mentais prejudicadas citadas pela autora são de suma importância para a aquisição dos conteúdos propostos em sala de aula.

Diante dessa perspectiva, é possível identificar que a escola é responsável por possibilitar o desenvolvimento integral dos seus alunos; entretanto, os comportamentos agressivos fazem com que ela vá na contramão a esse dever, pois, como pontuado anteriormente, a vítima manifesta problemas relacionados aos aspectos físicos, psicológicos, cognitivos e sociais.

Além disso, a deterioração da autoestima é um dos efeitos colaterais mais citados pelos pesquisadores da área. Sublinha-se que, com a perda da confiança e do amor por si mesma, "a criança não se sente segura quanto à sua capacidade de aprender e interagir com o próximo e resolver problemas; dentre esses fatores acaba havendo um bloqueio no seu processo de aprendizagem" (Alves et al., 2018, p. 9).

O bloqueio citado desencadeia outro malefício: a dificuldade de aprendizagem. O discente torna-se apático em relação às aulas, deixando de contribuir com suas dúvidas e opiniões para não chamar a atenção dos seus agressores, como reafirma Santos (2016):

Só acontece o bullying quando o agressor comete atos de forma intencional, repetitiva, intimidando a vítima, deixando-a abalada e com diversos tipos de problemas. A dificuldade de aprendizagem é um deles, muitas vezes as vítimas deixam de questionar quando têm dúvidas, por medo de ser ridicularizadas; acontecem casos em que querem trocar de escola ou até mesmo abandonar o ambiente escolar por não suportar a zombaria (Santos, 2016, p. 8).

Alinhando-se às ideias de Paulo Freire, Vygotsky e Piaget, que defendem a importância da interação social para o desenvolvimento e a aprendizagem da criança, constata-se que, ao se afastar dos colegas e professores, o aluno perde um fator essencial para seu aprendizado, que é o diálogo.

Além dos impactos citados, as pesquisas de Paredes, Saul e Bianchi (2006, apud Pereira, 2009, p. 64) indicam que "pouco mais da metade dos jovens não consegue se concentrar nos estudos, consequência da violência na escola". Pereira apresenta um estudo feito pela Unesco evidenciando que "a violência [...] afeta de modo significativo o ambiente escolar, pois a deterioração das relações prejudica a qualidade das aulas e o desempenho acadêmico dos alunos" (Unesco, 2003, apud Pereira, 2009, p. 65).

Percebemos que o bullying induz a escola ao fracasso, a falhar em sua missão de formar seres humanos críticos e reflexivos prontos para exercer plena cidadania e sucesso no trabalho; além disso, ações ligadas a esse fenômeno prejudicam o desenvolvimento integral do indivíduo. Por isso, é cada dia mais necessário ofertar um espaço seguro para que o aluno possa aprender de forma significativa e segura.

Família, escola: estratégias de prevenção e contenção do bullying

Nos últimos anos, o combate ao bullying nas escolas brasileiras alcançou novos avanços, visto que leis passaram a vigorar indicando o dever das instituições na elaboração de projetos antibullying. A Lei nº 13.185 determina que "fica instituído o Programa Combate à Intimidação Sistemática (bullying) em todo o território nacional" (Brasil, 2015, Art.1º).

No ano de 2018, acrescentou-se ao Art.12º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional a responsabilidade de assegurar os direitos e deveres da educação brasileira, nos incisos "IX - promover medidas de conscientização, de prevenção e de combate a todos os tipos de violência, especialmente a intimidação sistemática (bullying), no âmbito das escolas; e X - estabelecer ações destinadas a promover a cultura de paz nas escolas" (Brasil, 1996, Art. 12).

Assim, as medidas de conscientização devem ser elaboradas tanto por questões sociais quanto legais, em que todas as instituições devem ser unir objetivando diminuir e/ou cessar ações violentas nas escolas e na sociedade. Na visão de Macedo et al. (2014, p. 19), "para prevenir o bullying, os programas devem envolver toda a comunidade escolar (estudantes, professores, pais e outros elementos que integram direta ou indiretamente a escola)".

A parceria entre família e escola exerce papel fundamental, já que ambas as instituições sociais colaboram para a formação do caráter e para o desenvolvimento do indivíduo como cidadão de direitos e deveres. É preciso que juntas elas fomentem nos alunos o sentimento de tolerância, respeito às diferenças e valorização da paz nas relações com o outro.

Por esse ângulo, pode-se afirmar que práticas dialógicas exercem função essencial nas estratégias de contenção ao bullying, pois, como explana Tognett (2005),

os professores e os pais devem dialogar com eles, buscando saber como eles se sentem, quais as dificuldades que estão enfrentando, pois assim eles, em ocorrendo o bullying, conseguirão ajudá-los a lidar de modo mais satisfatório com a situação (Tognett, 2005, apud Silva; Rosa, 2013, p. 331).

No entanto, apesar de diversos pesquisadores, profissionais da Educação e Saúde recomendarem aos adultos uma postura efetiva, compreensiva e respeitosa frente aos relatos e condutas de bullying, o que podemos notar são atitudes desconsiderando a proporção da situação. Quanto a isso, Medeiros e Ferreira (2015, p. 3) salientam que

é importante que os professores tenham a compreensão de que pedir para que os alunos façam silêncio diante de provocações, humilhações e xingamentos, ou para que parem de bater naquele colega que sempre é agredido, não é suficiente e tampouco fará com que os alunos entendam a gravidade do feito.

Condutas como essa só contribuem para que a violência seja vista e tratada como algo banal. Daí a importância de escolas e famílias elaborarem atividades que abordem a temática de maneira significativa; com projetos dialógicos; com atividades que ampliem o olhar crítico e reflexivo acerca do tipo de "brincadeira" que alunos fazem entre si. Segundo Lopes Neto (2005, p. 169), "as ações são relativamente simples e de baixo custo, podendo ser incluídas no cotidiano das escolas, inserindo-as como temas transversais em todos os momentos da vida escolar".

Na sala de aula, por exemplo, há uma gama de recursos pedagógicos que podem ser adotadas pelo docente a fim de levantar a discussão sobre o bullying e seus efeitos e, consequentemente, contribuir para a reflexão dos alunos acerca dessas agressões, dos seus danos e da importância do respeito às diferenças. Dentre os instrumentos educativos há filmes, peças teatrais, vídeos e livros que tratam da temática.

Não obstante, Gomes, Dybax e Dorneles (2017, p. 55) evidenciam a importância da parceria família-escola e indicam uma série de medidas importantes:

reuniões, roda de conversas, trabalhos em grupo, debates reflexivos, informativos aos pais via agenda, aulas expositivas no laboratório de informática, entrega de materiais sobre o bullying para os docentes com posteriores reflexões, palestras e afinamentos das relações escola-família (Gomes; Dybax; Dorneles, 2017, p. 55).

Enfim, as mudanças podem ser implementadas na rotina escolar, no projeto político-pedagógico e no currículo escolar. Na visão de Pereira (2009, p. 68), há vários exemplos de atividades que mostraram resultados em outras escolas e por isso podem ser utilizadas como inspiração; cabe a cada instituição investigar e adaptar tais propostas à sua realidade.

Apesar das estratégias salientadas, é preciso destacar a importância da formação de profissionais aptos para lidar com essas situações no âmbito pedagógico, pois nem sempre eles conseguem identificar os comportamentos agressivos na sala de aula e, consequentemente, intervir diante da situação.

A. Silva (2015, p. 196) complementa esse pensamento sublinhando que, "para que essa batalha tenha um final feliz, devemos fortalecer nossos educadores, exigindo políticas públicas e privadas que disponibilizem recursos significativos para a sua formação intelectual, técnica, psicológica e pessoal. Portanto, não basta apenas elaborar leis e criar projetos educativos para sanar essa problemática no âmbito pedagógico, é preciso também investir na estreita relação com as famílias e na formação continuada dos profissionais da Educação com o propósito de contar com um corpo docente capaz de elaborar métodos efetivos para a resolução e a conscientização de atitudes cada dia mais prejudiciais para a aprendizagem e para o psiquismo dos alunos.

Considerações finais

Este trabalho revela o bullying como algo complexo que está profundamente relacionado a problemas sociais como o preconceito, a desestrutura familiar, a violência cada dia mais presente em nossa sociedade. É se apoiando nesse ponto de vista que se afirma que essa prática precisa ser vista de forma mais cuidadosa pela comunidade escolar e pelo governo, que deve investir na formação de professores comprometidos com a oferta de uma educação pautada no afeto, no respeito mútuo entre pares e numa sociedade mais justa e tolerante.

Nota-se que as escolas "adoeceram" sem perceber, alunos passam por experiências desumanas, quase sozinhos eles são obrigados a enfrentar agressões físicas, verbais e psicológicas vindas dos seus próprios colegas. Dentre os efeitos causados por essa violência, a aprendizagem é danificada profundamente, acarretando alunos desinteressados pelas atividades pedagógicas; com dificuldades de concentração; tendo funções mentais necessárias para a aquisição de conhecimento abaladas pela prática de bullying. É levando em consideração a gravidade das consequências supracitadas ao longo deste trabalho que se aponta também para a importância da parceria família-escola na elaboração de estratégias antibullying, objetivando a conscientização de toda a comunidade acerca desse problema, pautando-se em práticas pedagógicas dialógicas; inserção do tema nos currículos; atividades que despertem atitudes e valores voltados para uma sociedade onde prevaleça o amor, a paz e o respeito.

Referências

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BRASIL. Lei nº 9. 394, de 20 de dezembro de 1996. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm. Acesso em: 08 maio 2020.

______. Lei nº 13.185, de 6 de novembro de 2015. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13185.htm. Acesso em: 20 mar. 2020.

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Publicado em 07 de dezembro de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

SANTOS, Thaiane Goulart dos; SANTOS, Rosiane de Oliveira da Fonseca. Bullying na escola e suas implicações na aprendizagem. Revista Educação Pública, v. 21, nº 44, 7 de dezembro de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/44/ibullyingi-na-escola-e-suas-implicacoes-na-aprendizagem

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