Reflexões sobre a prática educacional no século XXI em tempos de pandemia

Rosiane de Oliveira da Fonseca Santos

Mestranda em Educação, professora (Seeduc/RJ), tutora presencial dos cursos de História e Pedagogia (UNIRIO) no polo UAB/Cederj Cantagalo

No primeiro semestre do ano de 2020, diante da pandemia mundial causada pelo novo coronavírus (SARS-Cov-2) e a iminência de um contágio coletivo em nosso país, surgiram recomendações de isolamento social pelas autoridades de saúde e orientações expressas em decretos. As escolas suspenderam as atividades presenciais de ensino e precisaram adaptar-se a uma nova realidade, em que não haveria atividades presenciais, implementando gradualmente o ensino remoto emergencial.

Nesse novo contexto, professores se viram diante da necessidade repentina de mudanças na instituição escolar e reelaborar suas práticas pedagógicas. Emergiu com mais força um tema já bastante conhecido na área da Educação: o uso de tecnologias integrado ao processo de ensino-aprendizagem, temática que não é nova, já bem trabalhada por autores como Manuel Castells, Pierre Lévy, José Manuel Moran, Vani Moreira Kenski e outros.

Os profissionais da Educação, diante da ausência da presença física, sem o costumeiro quadro e giz e sem os limites de espaço geográfico delimitados de uma sala de aula, precisaram em curto espaço de tempo descobrir e aprender a manusear ferramentas digitais; para alguns foi um processo fácil, pois já conheciam várias alternativas, enquanto para outros, isso demandou mais trabalho e novas aprendizagens.

Conforme António Nóvoa (2020), vivenciamos um momento em que devemos refletir acerca das mudanças que se fazem necessárias e urgentes na atuação dos professores. Na sociedade contemporânea, diante da pandemia e olhando também para a ampliação ao acesso às tecnologias digitais da informação e comunicação (TDIC), percebemos que grandes mudanças foram provocadas em nossa vida social e na educação, gerando novos desafios e a necessidade de superar paradigmas.

Na educação, em meio à pandemia, não existem receitas ou fórmulas prontas a serem seguidas; como afirma Nóvoa (2020), a função docente não é de simplesmente colocar em prática algo pronto elaborado por outras pessoas. Pelo contrário; o docente precisa atuar com liberdade e autonomia, pois somente ele conhece seus discentes e suas realidades.

A educação formal pode ser compreendida como um desafio constante e prazeroso, que se desenvolve cotidianamente no ofício dos professores e de seus alunos. Para vencer os novos desafios emergidos, tornaram-se necessárias as capacidades citadas por Nóvoa (2020): iniciativa, experimentação e inovação. Assim, em busca de continuar com o processo de ensino-aprendizagem de forma remota, várias plataformas digitais e aplicativos já existentes passaram a ser utilizados em diversos níveis de ensino; até as redes sociais foram inseridas nos processos pedagógicos com mais assiduidade.

Os professores, dentro de suas casas e mesmo com baixa remuneração, e muitos até em precariedade psíquica, tiveram que rapidamente desenvolver novas práticas pedagógicas e integrar tecnologias, além de investir na compra de equipamentos tecnológicos para prosseguir seu trabalho docente. Do outro lado estavam muitos alunos em vulnerabilidade social, sem as condições materiais mínimas de acesso às tecnologias para acompanhar as aulas, tendo que estudar sozinhos um material impresso enquanto perdurasse o ensino remoto.

Um vento impetuoso de mudanças fez com que algumas famílias passassem a acompanhar de mais perto o processo de aprendizagem dos seus estudantes. Outro imapcto foi a maior precarização do trabalho docente, assim como a maior evidência da necessidade de  pensar e fazer uma educação verdadeiramente inclusiva para todos. É extremamente importante promover o adequado e especializado atendimento aos alunos com dificuldades de aprendizagem e aos portadores de necessidades especiais, com seu direito expresso na Constituição Federal de 1988, Art. 208, o inciso III. Nesse sentido, a tecnologia pode ser um importante recurso pedagógico integrado a metodologias que promovem a acessibilidade.

A Educação, direito fundamental, é de grande importância para cada indivíduo e para a sociedade, impulsiona o desenvolvimento social, econômico e científico, a busca por soluções dos problemas cotidianos e inovações, melhorando nossa qualidade de vida. Dessa forma, fica evidente a importância do estímulo às pesquisas e ao desenvolvimento das ciências em nosso país.

As instituições educacionais precisam estar atentas às mudanças que ocorrem na sociedade; Lévy (2007) já alertou, há mais de uma década, que estamos vivendo a abertura de um novo espaço de comunicação para a vida social e cultural, estamos diante de um constante avanço tecnológico que impulsiona mudanças em todos os aspectos de nossas vidas – e uma das áreas mais reconfiguradas pela inserção das tecnologias digitais em rede é a Educação.

No entanto, algumas considerações se fazem necessárias acerca da nova forma de atuação docente e da inserção das novas tecnologias nas práticas pedagógicas. Primeiramente, não basta mudar os recursos didáticos se as metodologias de ensino permanecerem, de forma tradicional, com o aluno como mero receptor do conhecimento.

O educador Paulo Freire (1998) ressalta a importância da reflexão crítica sobre a prática docente cotidiana; compreendemos a necessidade de uma autoanálise e autoavaliação, assim como uma relação indissociável entre teoria e prática, para além da construção de saberes, uma transformação da realidade. Freire (1987, p. 38) defende que “a práxis, porém, é reflexão e ação dos homens sobre o mundo para transformá-lo. Sem ela, é impossível a superação da contradição opressor-oprimido”.

Entre as novas tendências educacionais que vêm surgindo estão as metodologias ativas, em que percebemos maior destaque ao discente e o processo de aprendizagem ocorre com o aluno exercendo papel mais autonomo e crítico, como defende Freire.

Entre as metodologias ativas podemos citar a educação híbrida, tão falada duante a pandemia. À primeira vista, embora seja comum associar o ensino híbrido ao uso de momentos de aula presencial mesclados com atividades na modalidade a distância, sendo essas atividades aplicadas a todos os alunos de cada turma, é preciso ressaltar que o conceito não se resume a tal afirmação, sendo algo bem mais complexo, relacionado ao ensino personalizado, flexível, e a inclusão de tecnologias na educação favorece a  aprendizagem, com foco no aluno e suas particularidades.

Nesse sentido, percebemos o resgate de ideias tradicionais de pedagogias crítico-reflexivas, como Freire (1987), que propõe uma prática docente com enfoque no aluno e em sua realidade, em que, pela comunicação e interação, promove-se uma educação como prática da liberdade. Sílvio Gallo (2007), estudioso do pensamento freiriano, na mesma esteira, concebe a educação como construção da liberdade; concordamos que a educação deve transformar vidas no sentido de promover no discente capacidades de compreender o mundo à sua volta de forma crítica e agir sobre ele; a escola deve ser um espaço de construção da cidadania.

A escola tem diante de si o desafio de integrar as tecnologias, tornando-se um interessante e verdadeiro espaço de construção de conhecimento de forma ativa pelo aluno. Diante de um mundo globalizado, os processos de aprendizagem devem ocorrer de forma interdisciplinar e articulada, aproximando ensino, ciências e tecnologias.

Compreendemos, através de Pereira (2008), que a fragmentação de conhecimentos, oposto à interdisciplinaridade, não permite uma compreensão verdadeira e crítica do mundo. Morin propõe a (re)ligação de saberes que estão fragmentados em diferentes áreas do conhecimento, e assim dificultam a aprendizagem e uma visão do todo;   o autor ressalta a importância de contextualizar e globalizar.

A interdisciplinaridade, como proposta por Fazenda (1979) e Japiassu (1976), por meio da integração/interação, dá sentido aos conteúdos estudados, podendo ser pensada como uma atitude frente ao conhecimento que produz um saber amplo, mais voltado à realidade. A interação dialógica e a parceria também são importantes entre os docentes, formam uma rede de compartilhamentos de experiências pedagógicas e conhecimentos advindos de capacitações na área de ensino e tecnologias.

Se graças a pesquisas científicas e ao desenvolvimento de vacinas contra a covid-19 estamos, após a imunização da população, saindo do confinamento e voltando gradualmente às atividades presenciais, não podemos pensar em uma volta ao normal. A escola padronizada que tínhamos antes da pandemia não atende a todos de forma igualitária; portanto, não podemos voltar a ela. Boaventura de Sousa Santos (2020) e Nóvoa (2020) fazem críticas a um retorno à situação educacional anterior, que já mostrava necessidade de reformulação; o transcurso da pandemia impôs novas rotinas e abriu novas possibilidades de aprendizagem, como flexibilidade, personalização, comunicação interativa e inovações. Nóvoa (2020, p. 9-10) ressalta que capacidades docentes que se manifestaram durante a prática docente no período da pandemia devem ser alargadas e aprofundadas no futuro.

Conforme Moran (2006), com a internet e a ampla divulgação de conhecimento, não temos um modelo prévio bem-sucedido para a educação. Face à análise realizada, constatamos que estamos diante de uma situação complexa, em que não se encontram respostas simples; precisamos de alterações estruturais e da experimentação/implementação de propostas inovadoras de forma coletiva.

São relevantes ações conjuntas intersetoriais nas áreas de políticas públicas, saúde  e educação. A inclusão digital precisa acontecer, são necessários mais investimentos em tecnologia educacional, com bons equipamentos para as escolas, assim como sua constante atualização e em quantidade suficiente para todos os alunos.

Não podemos exercer uma profissão tão complexa e intensa sem o preparo necessário; a formação de professores para o trabalho docente em todos os níveis escolares precisa contemplar o uso de tecnologias digitais na Educação e metodologias mais ativas centradas no aluno; além de uma sólida formação inicial, é necessário haver formação continuada que acompanhe as constantes mudanças tecnológicas e sociais. É preciso também haver maior valorização profissional e cuidados com a saúde do docente; Moran (2015) enfatiza que não se preparam bons alunos com professores com baixa remuneração e desmotivados.

Compreendemos que o papel docente nesse novo contexto, inerente aos avanços tecnológicos do século XXI, é de ser mediador, afinal o aluno detém o papel principal do/no processo de construção do conhecimento.

Tornou-se ainda mais evidente a necessidade de um trabalho coletivo de professores, de articulação entre comunidade e escola em prol da educação de qualidade dos educandos, com escuta atenta como base para tomada de decisões educacionais. Nessa perspectiva, Vitor Henrique Paro (2012) mostra a importância da gestão democrática da educação e do papel familiar ao estimular nos estudantes o interesse pela aprendizagem.

A Educação é um processo de transformação que forma as bases do futuro; deve construída em conjunto, com espaço para a autonomia, de forma interdisciplinar, articulando teoria e prática, formando cidadãos críticos em prol de uma sociedade democrática, como propunha Gramsci (1991), e leitores de mundo em constante mudança.

Referências

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Publicado em 21 de dezembro de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

SANTOS, Rosiane de Oliveira da Fonseca. Reflexões sobre a prática educacional no século XXI em tempos de pandemia. Revista Educação Pública, v. 21, nº 46, 21 de dezembro de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/46/reflexoes-sobre-a-pratica-educacional-no-seculo-xxi-em-tempos-de-pandemia