O turismo rural e o uso de fotografia como recurso didático no ensino de Geografia

Rafael Alves de Freitas

Mestrando em Geografia (PPGGEO/UFRRJ), licenciado em Geografia (UERJ)

Nos dias de hoje, é inegável que, com tantos atrativos tecnológicos, o ensino de Geografia ainda se mantenha tradicional em muitas escolas públicas e privadas, tornando o ensino-aprendizagem muitas vezes desmotivante para o aluno, pois ele não encontra sentido na forma como as aulas são expostas, o que o leva à decoreba mecanizada e sem envolvimento com o objeto de estudo. Nesse sentido, segundo Pereira, Alves e Cabral (2013, p. 4),

com a modernização nos meios de comunicação e a consequente expansão da tecnologia, se faz necessária uma modificação no método de ensino-aprendizagem, para que este possa acompanhar o processo evolutivo, adequando-se as novas exigências da sociedade.

Sendo assim, os recursos didáticos são imprescindíveis porque geram no aluno uma curiosidade para além da sala de aula, afinal, a Geografia é muito mais que as quatro paredes de uma escola. Logo, este trabalho teve por objetivo geral e sem a pretensão de encerrá-lo, ministrar uma aula com prática de campo, versando sobre o turismo rural dentro da perspectiva da Geografia. Para Santos e Chiapetti (2011, p. 168),

para a construção do conhecimento, é necessária uma relação do sujeito aprendente com o seu objeto de conhecimento, e, nesse sentido, os professores devem ser os mediadores da aprendizagem. Não existem mais espaços para aulas centradas apenas no quadro-negro (ou branco) e no livro didático. Os professores devem lançar mão de outras ferramentas pedagógicas para tornar o ensino mais atraente e prazeroso e relacioná-lo ao dia a dia dos alunos. Assim, a utilização de recursos didáticos pedagógicos alternativos, como as atividades lúdicas, constitui-se numa poderosa ferramenta, que permite trabalhar os conteúdos geográficos de modo crítico e criativo.

É importante salientar que a Geografia apresenta vários temas e conteúdos relevantes dentro do contexto da Geografia Agrária, em que o turismo rural se faz presente; esse é o objeto de estudo/investigação. Atualmente, o turismo tem ganhado destaque dentro do espaço rural por meio da valorização dos elementos da natureza e das paisagens que remetem a sossego e tranquilidade como opostos ao espaço urbano. Nas aulas anteriores, em sala de aula, foi destacada a diferença entre espaço agrário e espaço rural, pois o primeiro é o espaço de produção de bens primários – agricultura, pecuária e extrativismo, enquanto o segundo é mais amplo e corresponde a toda a área não urbana dos municípios.

Em linhas gerais, o objetivo específico da aula de campo foi fazer com que houvesse uma observação empírica, por meio da metodologia do turismo pedagógico, que é uma metodologia que se baseia no estudo in loco, com fins educativos, em que aproximamos a teoria da sala de aula com a prática de campo, além de servir para iniciar os estudantes na pesquisa científica e com registro fotográfico para sensibilizar os alunos para as modificações que ocorrem no espaço rural pelo turismo, que é considerado uma atividade não agrícola – o que reforça a diferença entre rural e agrícola. As temáticas pertinentes ao turismo rural foram discutidas previamente nas aulas a fim de subsidiar o trajeto e o olhar dos alunos durante o campo, na prática.

 Para Castrogiovanni (2000, p. 13), trabalho de campo é “toda atividade oportunizada fora da sala de aula que busque concretizar etapas do conhecimento e/ou desenvolver habilidades em situações concretas perante a observação e participação”.           Dessa forma, a atividade se deu com uma turma do 7º ano do Ensino Fundamental do Colégio dos Santos Anjos (rede privada), situado no município de Vassouras/RJ, em que o tema da atividade proposta foi turismo rural. A aula foi dividida em três partes: aulas teóricas sobre turismo em áreas rurais; campo, com registro fotográfico; e posterior discussão em sala de aula (pós-campo). A aula aconteceu em novembro de 2019. Basicamente, os alunos – (25, sendo 15 meninos e 10 meninas) precisariam levar para o campo um celular com câmera, o que era realidade para todos, ou uma câmera fotográfica, como desejassem. O município de Vassouras fica no centro–sul fluminense e tem importância histórica e econômica; a sede do município é conhecida como “Princesinha do Café”.

Figura 1: Localização do município de Vassouras no Estado do Rio de Janeiro

O município de Vassouras/RJ apresentou expressividade rural na produção do café durante o Império e hoje se tornou um município turístico devido às áreas rurais e suas construções tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

No campo/município, partimos do centro histórico (Figura 2) – mais precisamente, da Praça Barão de Campo Belo – e andamos em direção às áreas mais afastadas, onde há forte presença de sítios, chácaras, resorts, hotéis etc., todos com fins turísticos. Os alunos foram induzidos a tirar fotos desses espaços para posteriormente, em sala de aula, discutir sobre as escolhas das fotografias registradas por eles. Assim, no pós-campo, eles deveriam escolher as fotos mais “típicas do espaço rural” observadas entre todas as registradas. Essa estratégia metodológica foi ao encontro de Santos e Chiapetti (2011, p. 169), quando afirmam que “a fotografia torna-se também uma poderosa ferramenta de auxílio no ensino de Geografia, pois é de fácil manuseio e obtenção. Com ela, podemos trabalhar temas e conceitos importantíssimos para a nossa disciplina, como a paisagem, o território e o espaço geográfico”.

Figura 2: Ponto inicial do trajeto – Praça Barão de Campo Belo, Vassouras/RJ

A Figura 3 mostra um momento em que os alunos estavam em um hotel fazenda e foram recebidos pela administradora, que carinhosamente permitiu a entrada e a liberação de fotografias. Assim, os alunos conseguiram perceber o espaço rural não como aquele onde há apenas a presença da agricultura e/ou pecuária, mas também como espaço plural, em que o turismo tem penetrado com boa aceitação, visto que as pessoas têm fugido das grandes cidades em busca de uma vida mais bucólica, cujo tempo seja comandado apenas pela fluidez da natureza e não do relógio. O turismo rural, percebendo essa necessidade, cria condições favoráveis para isso e serve como fonte de renda para o município.

Figura 3: Alunos visitando o Hotel Fazenda Galo Vermelho – Vassouras/RJ

Logo, os recursos didáticos – prática de campo e fotografia –, quando bem planejados trazem a possibilidade de aproximação entre o aluno e o objeto de estudo; isso fica evidenciado pela atividade lúdica de fotografar elementos de determinado espaço (neste caso, o espaço rural) dentro de uma estratégia pedagógica para esse fim.

Assim, o trabalho de campo é uma proposta de metodologia que pode contribuir para o aluno compreender a organização do espaço geográfico, dando condições para se estabelecerem análises dele, buscando evitar a facilidade de realizar uma pesquisa de observação que se restrinja somente à constatação da paisagem.

Dessa maneira, o trabalho de campo não pode ser encarado pelos alunos como um simples passeio ou como entretenimento; é importante que todos tenham informações preliminares antes de sair a campo e de entender os objetivos propostos de estar realizando um trabalho seja ele onde for – aliás, muitos alunos nem conheciam alguns lugares visitados, embora todos eles residam em Vassouras.

Como resultado final deste trabalho, conseguimos que os alunos respondessem algumas perguntas, tais como: o que é o espaço rural? Quais as atividades realizadas no espaço rural de Vassouras? Como o turismo tem crescido nesse espaço? Qual a importância do turismo para esse município?

Essas e outras perguntas foram feitas ao longo do trajeto em campo e respondidas posteriormente em sala de aula, quando os alunos puderam discutir sobre o que viram e o que sentiram. A fotografia como recurso didático teve a função de trabalhar a linguagem visual e a percepção individual dos alunos.

Figura 4: Lugares turísticos da cidade de Vassouras/RJ fotografados pelos alunos

Ademais, os alunos, que cederam gentilmente as fotos reunidas na Figura 4, conseguiram visualizar na prática os diversos lugares do município (Figura 4) em que o turismo rural avança, transformando-os em simulacros para experiências as mais diversas. O turista que busca a experiência de viver num espaço rural não abre mão do conforto e da tecnologia inerentes às grandes cidades/metrópoles, fazendo com que esse espaço, embora rural, mantenha elementos do urbano – as chamadas urbanidades e suas amenidades –, mostrando assim a pluralidade desse espaço. Em suma, foi possível atribuir significado ao objeto de estudo/investigação por parte dos alunos, dando-lhes autonomia no processo de aprendizagem e da pesquisa.

Referências

CASTROGIOVANNI, A. C. et al. Ensino de Geografia: práticas e textualizações no cotidiano. Porto Alegre: Mediação, 2000.

PEREIRA, Suellen Silva; ALVES, Telma Lúcia Bezerra; CABRAL, Laíse do Nascimento. Recursos midiáticos e Geografia escolar: propostas metodológicas em busca da renovação no ensino. Geo UERJ, Rio de Janeiro, v. 2, nº 24, jun. 2014.

SANTOS, R. C. E.; CHIAPETTI, R. J. N. Geografia - Ensino & Pesquisa, v. 15, nº 3, p. 168-169, set./dez. 2011.

Publicado em 23 de fevereiro de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

FREITAS, Rafael Alves de. O turismo rural e o uso de fotografia como recurso didático no ensino de Geografia. Revista Educação Pública, v. 21, nº 6, 23 de fevereiro de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/6/o-turismo-rural-e-o-uso-de-fotografia-como-recurso-didatico-no-ensino-de-geografia