Análise de desempenho em teste de agilidade: educação física escolar x iniciação esportiva em futsal

Alan Ricardo Raimundo

Graduado (FEUC)

Carlos Henrique Prevital Fileni

Docente (FEUC), especialista (Unimep)

Adriana Nascimento de Souza

Docente, especialista (FEUC)

Evandro Ossain Almeida

Docente, especialista (FEUC)

Fernanda Turrioni Costa

Docente do Núcleo de Pesquisas em Biomecânica Ocupacional e Qualidade de Vida, mestra (Unimep)

Guanis de Barros Vilela Junior

Docente do Núcleo de Pesquisas em Biomecânica Ocupacional e Qualidade de Vida, doutor (Unimep)

Leandro Borelli de Camargo

Docente do Núcleo de Pesquisas em Biomecânica Ocupacional e Qualidade de Vida, mestre (Unimep)

Gustavo Celestino Martins

Docente (FEUC), doutor (Unimep)

A Educação Física escolar passou por várias mudanças tanto pelo viés gímnico formativo quanto pelo viés esportivo, necessitando assim de um currículo mais crítico-reprodutivista e pautado pelo fundamento das ciências humanas. Essa necessidade dentro da escola leva professores a atuar de forma diferenciada, procurando modificar estratégias de aula, conteúdos específicos, formas e critérios de avaliações, entre outras diversas ações pedagógicas que sempre buscam a melhora da qualidade do ensino.

As metodologias criadas pelos jogos e esportes tradicionais, além da dança e da ginástica formativa, são elementos indispensáveis no trabalho de qualquer professor de educação física de qualquer nível escolar (da Educação Infantil ao Ensino Médio) e deverão compor constantemente os conteúdos dos anos letivos para que se atinjam os objetivos gerais da disciplina (Goulart, 2017).

A ginástica formativa, assim chamada por autores como Bregolato (2008) e Gallardo et al. (2005), é composta de exercícios generalizados e naturais, como correr, caminhar, saltar, saltitar, galopar etc., dentre outros que compõem a natureza humana, sem a necessidade de serem construídos ou sistematizados, esses exercícios auxiliam no desenvolvimento das capacidades físicas básicas. Hildebrandt-Stramann (2009) salienta que a Educação Física deve desenvolver a análise de movimento para tornar a situação importante e benéfica e, portanto, ser capaz de orientar a prática do ensino fundamentado na pedagogia do movimento.

A agilidade é uma capacidade que envolve a resistência anaeróbica alática e distingue-se da velocidade de descolamento justamente pela mudança de direção ao se deslocar, o que não faz parte do conceito da velocidade (Tubino; Tubino; Garrido, 2007). Assim, se um atleta corre em linha reta o mais rápido possível, isso se denominará velocidade de deslocamento, mas se houver a necessidade de mudança de direção em função de um objeto ou barreira, essa ação dependerá da junção de duas capacidades físicas, velocidade e agilidade (Perez, 2018). Segundo esse autor, a agilidade está associada aos gestos técnicos. Por isso, uma atenção especial ao treinar a agilidade, observando se os estímulos e suas respostas permitem aplicação correta técnica em velocidade com desvio do corpo.

Para Souza (2015), conforme se tem a prática continua de uma capacidade motora, o indivíduo torna-se mais hábil, com mais padrões de movimento e do corpo.

É comum observar estudos que investigam o nível de agilidade de praticantes de modalidade esportiva no ambiente escolar, porém deve-se entender que a atividade esportiva no ambiente escolar deve ter o intuito exclusivamente voltado para a iniciação e orientação esportiva, deixando de lado a ideia de especialização e treinamento. Ao usar as aulas de educação física escolar como meio de preparação esportiva, professores passam a ser treinadores e alunos passam a ser atletas, tendo como resultado a marginalização dos alunos menos habilidosos tecnicamente em beneficio dos mais habilidosos (Santi Maria; Almeida; Arruda, 2009).

Conforme Torres (2007), tratando-se de treinamento de futsal para crianças e jovens, pode ser considerado como um dos melhores laboratórios no processo de ensino-aprendizagem e desenvolvimento da capacidade motora agilidade. O autor reforça que para a prática de futsal não são necessários muitos materiais, apenas força de vontade, algumas bolas e cones sinalizadores para atingir os objetivos propostos.

Vitor et al. (2008) reforçam que estudos com crianças são de grande importância para a ciência do esporte, desde que o objetivo seja compreender as alterações físicas e motoras, e relacionar com o processo de desenvolvimento e crescimento.

Portanto, este estudo visa comparar a agilidade de crianças praticantes somente de Educação Física Escolar com praticantes de Educação Física Escolar e iniciação esportiva em futsal.

Amostra

Foram selecionados 28 meninos com idade entre 10 a 12 anos, sendo 14 praticantes apenas das aulas de Educação Física na escola E. E. P. G. Professor Antônio Dias Paschoal, na cidade de Tambaú/SP, e 14 praticantes de Educação Física escolar e iniciação esportiva em futsal no Ginásio Municipal de Esportes Teté Uliana, na mesma cidade. Foram critérios de inclusão:

a) estar devidamente matriculado em uma instituição de ensino;

b) ter idade entre 10 a 12 anos;

c) estar apto a realizar os testes.

Os critérios de exclusão foram:

a) não completar os testes propostos;

b) não ter assinado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido;

c) possuir alguma restrição médica para realização dos testes.

Todos os indivíduos tiveram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) assinado pelos pais ou responsáveis.

Delineamento experimental

O estudo iniciou com um reconhecimento da estrutura física da unidade escolar, passando depois a um contato inicial com a direção da escola para a apresentação do objetivo do estudo e autorização dele. Foi feita uma avaliação do ginásio de esportes; após análise foi feito um contato inicial com o técnico da escolinha de futsal para a explicação do objetivo do estudo e sua autorização.

Foi entregue e explicado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) para os alunos, para que fosse preenchido pelos pais ou responsáveis e após a devolução com data marcada iniciaram as sessões de trabalho, com a avaliação da agilidade através do teste Shuttle Run (Johnson; Nelson, 1979).

Procedimentos metodológicos

A aplicação do teste foi realizada durante o período de dois dias, sendo o primeiro dia no ambiente escolar e o segundo dia no ginásio de esportes. Cada aluno realizou três vezes o teste, com intervalo de dois minutos entre cada realização.

Primeiro foi feito um alongamento, seguido de aquecimento. A condução e a aplicação dos testes foram de responsabilidade do pesquisador, bem como a coordenação.

O teste Shuttle Run ou corrida de ida e volta tem como objetivo avaliar a agilidade corporal. Foi feito em local plano e demarcado com duas linhas paralelas traçadas no solo, distantes 9,14m, medidas de suas bordas externas. Dois blocos de madeira, com dimensões de 5cm x 5cm x 10cm, colocados a 10cm da linha externa e separados entre si por um espaço de 30cm (Johnson; Nelson, 1979).

Para iniciar o teste, o avaliado coloca-se em afastamento anteroposterior das pernas, com o anterior mais próximo possível da linha de saída. Com a voz de comando “Atenção, já!”, o avaliador aciona o cronômetro e o avaliado inicia a corrida em velocidade máxima até os blocos, pega um deles e retorna ao ponto do qual partiu, depositando o bloco atrás da linha de partida. Em seguida, corre em busca do segundo bloco, procedendo da mesma forma. Quando depositar os blocos no solo, o avaliado deverá transpor ao menos um dos pés das linhas que delimitam o percurso, e não poderá arremessar os blocos, mas sim colocá-los no solo. O cronômetro é parado quando o avaliado colocar o último bloco no solo e ultrapassar com pelo menos um dos pés a linha final. O tempo do desempenho do teste deve ser anotado em segundos e centésimos de segundos (duas casas).

Figura 1: Teste Shuttle Run

Foram observadas todas as condições de execução a partir do primeiro teste, a fim de obter o maior grau de fidedignidade possível entre as baterias de testes. Para este estudo foi considerado o menor tempo dentre os testes.

Tratamento estatístico

Foi realizada a estatística descritiva dos resultados obtidos. O Teste de Levene foi utilizado para verificar a homogeneidade das variâncias. Foi utilizado o Teste t para comparar as médias de duas amostras independentes. Para isso foi utilizado o software SPSS 24 para Windows.

 Resultados

Na Tabela 1 estão os resultados descritivos do Grupo 1 (Educação Física escolar) e do Grupo 2 (iniciação esportiva em futsal) quanto à média de tempo e desvio padrão.

Tabela 1: Estatística de grupo

 

Grupos

N

Média

Desvio padrão

Shuttle Run

Escola

14

11”37

0,86

 

Futsal

14

11”25

0,79

A Tabela 2 apresenta os resultados referentes ao Teste de Levene para igualdade de variâncias (homogeneidade), onde p>0,05 existe igualdade, e P<0,05 não existe igualdade. Analisando a Tabela 2, observa-se que o valor de P é 0,518 e o valor de significância é de 0,478, tornando a hipótese nula, onde suas variâncias são iguais (homogêneas).

Tabela 2: Teste de Levene para igualdade de variâncias

   

F

Sig.

Shuttle Run

Variâncias iguais assumidas

0,518

0,478

Na Tabela 3 observam-se os resultados do Teste t de duas amostras independentes; sendo p>0,05 não possui diferença significativa de médias, e com p<0,05 existe diferença significativa de médias. Nota-se que no resultado do teste o valor de t é 0,381 e siginificância 0,707, concluindo que não possui diferença significativa entre as médias e que, se realizar esse mesmo teste 20 vezes para esse grupo, em 70,7% os resultados serão idênticos.

Tabela 3: Teste t para igualdade de médias 95% intervalo de confiança

 

T

Gl

Sig. (bilateral)

Escola

0,381

26

0,707

Futsal

0,381

25,842

0,707

Discussão

De acordo com os resultados apresentados neste estudo, pode-se constatar que não houve diferença significativa no quesito agilidade entre o Grupo 1 – Educação Física Escolar e o Grupo 2 – Iniciação Esportiva em Futsal.

A agilidade é uma capacidade de grande valia a ser desenvolvida em atletas de futsal; pelo espaço reduzido, é necessária a mudança constante de direção. Bompa (2005) afirma que a agilidade não é uma capacidade independente, estando ligada à potência do jogador. O treinamento de agilidade resulta no aprimoramento de potência, velocidade, aceleração/desaceleração, velocidade de reação e coordenação.

Trabalho realizado por Saraiva et al. (2009) estudou 40 meninos, todos com 12 anos de idade, divididos em dois grupos (Tradicional (GT) e Controle (GC)). Durante 16 semanas o grupo GT passou por formação esportiva tradicional, enquanto o grupo GC não recebeu nenhum tratamento especial. Ao final do período, constatou-se um melhor resultado do grupo GT no quesito agilidade, realizado através do teste Shuttle Run, confrontando com o resultado deste trabalho, sendo a periodização de treino um possível fator para a diferença entre os estudos.

A pesquisa feita por Silva (2019), que comparou níveis de agilidade em crianças em idade escolar praticantes e não praticantes de judô através do teste Shuttle Run,contou com a participação de 77 crianças de ambos os sexos, sendo 47 praticantes de judô com pelo menos um ano de treinamento e 30 não praticantes. Ficou evidenciado o desempenho melhor dos praticantes de judô em relação aos não praticantes, podendo ser o tempo de treinamento o fator predominante para a diferença de desempenho, contrapondo o presente estudo, que não obteve diferença significativa entre praticantes de iniciação esportiva e escolares.

O estudo de Breda (2019) foi feito com 142 crianças de ambos os sexos, sendo 88 alunos de Educação Física escolar e Ginástica Artística (30 horas por semana) e 54 alunos praticantes apenas de Educação Física escolar. Ficou comprovado que praticantes de iniciação esportiva e Educação Física escolar tiveram melhor atuação do que os praticantes apenas de Educação Física escolar quanto à capacidade física e à agilidade, podendo ser o tempo de treinamento e a periodização de treino os fatores que propuseram um melhor rendimento à iniciação esportiva, o que difere deste estudo, em que existe a diferença de resultado do teste, mas estatisticamente não houve diferença significativa.

Segundo estudo para iniciação esportiva em tag rugby feito por Marco, Bim e Pedrozo (2019) com 24 crianças, sendo doze do sexo masculino e doze do sexo feminino e idade média de 10 anos, ao final de uma periodização de 12 semanas de treinamento, observou-se melhora na capacidade física agilidade.

Esses trabalhos evidenciam melhor performance dos praticantes de iniciação esportiva no quesito agilidade em relação aos não praticantes, destacando a periodização de treino e o tempo de treinamento dos indivíduos como possível fator de desequilíbrio nos resultados dos estudos mencionados, contrastando com o resultado obtido neste estudo, em que os resultados da capacidade física agilidade não tiveram diferença estatística significativa.

Conclusão

Depois de realizado o teste e comparados os resultados, concluiu-se que não houve diferença estatisticamente significativa na capacidade agilidade. Um dos possíveis fatores para que tal resultado seja igual é que o treinamento proposto não seja eficaz no desenvolvimento da capacidade motora agilidade para os praticantes de Educação Física escolar e de iniciação esportiva. Outra vertente pode ser a aula de Educação Física escolar de qualidade, em que o professor possibilite a evolução gradativa da capacidade física agilidade e das demais.

Alguns autores reforçam que a agilidade é estimulada com atividade física, seja no âmbito escolar, seja na iniciação esportiva.

Com isso, seriam interessantes novos estudos sobre agilidade, incluindo outras variáveis, como IMC, periodização de treino e tempo de treinamento dos indivíduos.

Referências

BREDA, Yara Letícia. A importância da iniciação esportiva para a melhora da aptidão física de crianças e adolescentes: um olhar sobre a ginástica artística. Lume, Porto Alegre, 2019.

BREGOLATO, Roseli Aparecida. Cultura corporal da ginástica: livro do professor e do aluno. São Paulo: Ícone, 2008.

BOMPA, T. O. Treinando atletas do desporto coletivo. São Paulo: Phorte, 2005.

GALLARDO, Jorge Sergio Perez et al. Educação Física Escolar: Ensino Fundamental. 2ª ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005.

GOULART, Antonio Roberto. Atividades diversificadas na Educação Física escolar: aulas teóricas e ginástica localizada. São Paulo: Phorte, 2017.

HILDEBRANT-STRAMANN; R. Educação Física aberta à experiência: uma concepção didática em discussão. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2009.

JOHNSON, Barry L.; NELSON, Jack K. Pratical measurements for evaluation in physical education. New York: Burgess, 1979.

MARCO, Jean Carlos Parmigiani de; BIM, Mateus Augusto; PEDROZO, Sandro Claro. Efeitos da prática de tag rugby na aptidão física para o desempenho esportivo em escolares. Vivências, Erechim, v. 15, nº 29, p. 187-197, jul./dez. 2019.

PEREZ, Anselmo José. Treinamento corporal humano: fundamentos para a prática de exercícios e de esportes. Curitiba: Appris, 2018.

ROSÁRIO, Luís Fernando Rocha; DARIDO, Suraya Cristina. A sistematização dos conteúdos da Educação Física na escola: a perspectiva dos professores experientes.  Motriz, Rio Claro, v. 11, nº 3, p. 167-178, 2005.

SANTI MARIA, Thiago; ALMEIDA, Alexandre Gomes de; ARRUDA, Miguel. Futsal: treinamento de alto rendimento. São Paulo: Phorte, 2009.

SARAIVA, A. R. et al. Efeitos da metodologia de formação esportiva tradicional sobre as qualidades físicas escolares de 12 anos. HU Revista, Juiz de Fora, v. 35, nº 4, p. 265-272, out./dez. 2009.

SILVA, Leandro de Lima e. Comparação de níveis de agilidade em crianças em idade escolar praticantes e não praticantes de judô: um estudo seccional. Rev. Ed Física / J Phys Ed, v. 88, nº 3, p 904-910, 2019.

SOUZA, Karla Heloise da Mota de. Níveis de agilidade de meninos e meninas praticantes de futsal de Sombrio/SC. Florianópolis: Unesc, 2015.

TORRES, José. Futebol de canto de olho. São Paulo, 2007.

TUBINO, M. J. G.; TUBINO, F. M.; GARRIDO, F. A. C. Dicionário Enciclopédico do Esporte. São Paulo: Editora Senac, 2007.

VITOR, F. M. et al. Aptidão física de jovens atletas do sexo masculino em relação à idade - cronologia e estágio de maturação sexual. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, São Paulo, v. 22, nº 2, p. 139-148, 2008.

Publicado em 02 de março de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

RAIMUNDO, Alan Ricardo; FILENI, Carlos Henrique Prevital; SOUZA, Adriana Nascimento de; ALMEIDA, Evandro Ossain; COSTA, Fernanda Turrioni; VILELA JUNIOR, Guanis de Barros; MARTINS, Gustavo Celestino. Análise de desempenho em teste de agilidade: educação física escolar x iniciação esportiva em futsal. Revista Educação Pública, v. 21, nº 7, 2 de março de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/7/analise-de-desempenho-em-teste-de-agilidade-educacao-fisica-escolar-x-iniciacao-esportiva-em-futsal

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