A inclusão no ensino e na aprendizagem em Matemática

Renata de Souza Carvalho

Licenciada em Matemática (CEAD/UFOP)

Claudiney Nunes de Lima

Orientador no CEAD/UFOP, professor universitário (UFSJ)

O ensino da Matemática vem sofrendo diversas modificações ao longo do tempo, como também ocorre com todo o ensino regular e suas metodologias de ensino-aprendizagem de conteúdo. Com isso, muitas possibilidades e até desafios vêm surgindo com as novas normas e formas de pensar e reagir ao processo educativo. Entre os temas que vêm ganhando destaque e servindo de campo para os professores está a inclusão nas salas de aula de alunos com alguma deficiência, sendo este um campo novo e de muitas descobertas para o novo professor e até para aquele que já se encontra há anos em sala de aula, mas ainda não teve oportunidade de trabalhar tal aspecto educacional.

Na Matemática e em outras ciências, esse tema vem sendo alvo de debates, com o objetivo de tornar o ensino dessas disciplinas mais inclusivo; por conseguinte, a partir de tal ação, se busca também tornar a nossa sociedade mais inclusiva para pessoas com deficiência, desenvolvendo sua autonomia, sua criticidade e sua reflexão e possibilitando a esse aluno uma aprendizagem real dos conteúdos, buscando seu desenvolvimento global.

De acordo com a Lei Brasileira de Inclusão (LBI), de julho de 2015, deve-se garantir às pessoas com deficiência, a inclusão, a garantia, a promoção em condições de igualdade, que elas tenham seus direitos e liberdades assegurados, buscando sempre sua inclusão na sociedade e sua cidadania (Brasil, 2015).

Entre as instituições que têm este papel e aparato para a função de incluir esses alunos está a escola. Esta, podendo oferecer profissionais qualificados e de apoio, salas de recursos multifuncionais, materiais adequados, ensino de Libras para alunos surdos, e adoção do Braile como aporte a sua aprendizagem e ao seu desenvolvimento como aluno e como cidadão.

Assim, o presente trabalho surgiu da necessidade de compreender o percurso do ensino da Matemática para alunos surdos nos últimos anos e quais as práticas pedagógicas inclusivas de ensino-aprendizagem que foram debatidas e ganharam destaque em estudos atuais.

Pretende-se, portanto, mapear como o tema inclusão e o ensino da Matemática vêm sendo debatido e estudado nos últimos anos e quais foram as consequências desses relatos para os professores, visando dar suporte para o dia a dia da prática docente, visto que muito professores não se sentem qualificados ou têm receio de trabalhar com alunos surdos, pois desconhecem meios de fazê-lo ou não se sentem capacitados a realizar tais ações por não terem tido contato nos seus cursos de formação com esse tema e com esses alunos.

Assim, o presente trabalho se apresentará como relato de experiência de ações voltadas para o ensino da Matemática para alunos surdos utilizando estratégias já efetivadas e que deram resultados satisfatórios e relato de metodologias que não deram tão certo, mas que são portas de entrada para novas formas de ensinar a disciplina de acordo com a necessidade e com a característica de cada ambiente no qual o professor se insere naquele momento.

Em pesquisas realizadas nos bancos de dados, em periódicos, revistas e anais de eventos, foram encontrados cerca de 20 artigos que debatiam o tema, tanto em português como em espanhol, datados de no máximo 10 anos; após leitura e análise deles, foram escolhidos cinco que melhor se encaixavam na metodologia exposta. Serão utilizados como base para este estudo os trabalhos de Alves (2014); Teixeira, Paiva e Moreira (2018); Fraz (2018); Silva, Viginheski e Shimazaki (2018); e Antunes (2020).

Cabe salientar que, mesmo um desses artigos não sendo datado dos últimos cinco anos, ele se mostrou indispensável para a realização deste estudo, sendo então utilizado como referencial para a sua composição.

Fundamentação teórica

A inclusão nos espaços escolares tem como foco a garantia de acesso e permanência das pessoas com deficiência nos espaços escolares, bem como a equidade de oportunidades para que o aluno aprenda (Muniz et al., 2018). Tal ato pode ser realizado com a introdução de diversas ações no ambiente escolar, porém tais ações devem ser realizadas por todos os atores envolvidos: professores, alunos, corpo administrativo e a direção escolar, bem como a família e os responsáveis pelo aluno. Porém um dos principais atores nesse processo é o professor, o que mais está diretamente propiciando ao aluno adaptações e metodologias que o auxiliem no processo de aprendizagem. Para isso, os professores devem estar preparados para trabalhar com alunos surdos, investindo em sua formação e capacitação, bem como atentar a pesquisas que debatam o tema atualmente, buscando sempre suporte para suas práticas em sala de aula.

Segundo as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Básica (DCN), que orientam sobre o planejamento escolar e o ensino, cabe aos professores e a toda a comunidade escolar:

a Educação Básica deve ser inclusiva, no sentido de atender a uma política de integração dos alunos com necessidades educacionais especiais nas classes comuns dos sistemas de ensino. Isso exige que a formação dos professores das diferentes etapas da Educação Básica inclua conhecimentos relativos à educação desses alunos (Brasil, 2001, p. 25-26).

Assim, cada vez mais pesquisas sobre o ensino da Matemática para alunos surdos vêm surgindo, porém tiveram aumento significativo a partir de 2014. Mas ainda pouco vem sendo modificado na formação desses profissionais para que se sintam aptos a realizar esse trabalho; ainda é escasso também o número de pesquisas sobre o tema que debatam sobre a utilização de metodologias que dão resultados satisfatórios; portanto, mais pesquisas devem ser realizadas sobre o tema, bem como deve ser repensada a formação inicial e continuada dos professores, a fim de terem subsídios para sua prática.

Desse modo, o presente trabalho se torna relevante como uma forma de aporte a esse debate e à formação continuada desses profissionais. Para isso, iniciou com levantamento de trabalhos mais relevantes que abordam o tema ensino e inclusão de alunos surdos nas aulas de Matemática.

De acordo com o mapeamento realizado por Muniz et al. (2018) nos anais dos Fóruns Nacionais de Licenciatura em Matemática, encontram-se argumentações sobre o tema apenas a partir do ano de 2014; o enfoque maior de pesquisas é a partir de 2017, pontuando principalmente a formação dos professores de Matemática de forma deficitária com enfoque na inclusão. Tal fato ocorreu por conta de, em 2014, ter ocorrido o V Fórum Nacional de Licenciatura em Matemática, que teve como temática de discussão tal aspecto da formação dos profissionais.

Assim, o estudo que se mostrou como aquele que mais abrangia tal temática foi o de Migliorini et al. (2014), que discorria sobre o ensino da Matemática com enfoque na inclusão, que buscava discutir ações para estudantes com deficiência, a partir de figuras planas e não planas trabalhadas em oficinas. Porém esse estudo não encontrou os objetivos propostos, apenas melhorou o aspecto de interação dos participantes, como relatado pelo autor.

Outro trabalho encontrado no mesmo ano foi o de Andrade e Pereira (2014), que teve como foco a extensão universitária e suas experiências em Matemática, que pontuou sobre a interação entre universidade e comunidade, permitindo a vivência de estudantes de Matemática com os professores e a ação de inclusão, o que muitas vezes não é visto durante a graduação desses alunos, permitindo assim uma aproximação desses futuros professores com os alunos e com a vivência dos professores que trabalham tais aspectos diariamente dentro da sala de aula.

Após essa época, outro marco foi pontuado por Muniz et al. (2018), pois ocorreu a promulgação da Lei nº 10.436, de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais (Libras), e o Decreto nº 5.626, de dezembro de 2005, que regulamenta tal lei, entrou em debate, pois tais pontuações abriram portas para as novas pesquisas sobre a aprendizagem dessa população. Entre elas pode-se destacar as pesquisas de Muniz et al. (2018), que tinham como foco as possibilidades para o professor atuar com os alunos surdos por meio de metodologias como o aprender a se comunicar por meio da Libras; o desenvolvimento de atividades com temas transversais; a aproximação com a realidade de cada aluno; a elaboração de planos de aulas que tenham como foco a aprendizagem de todos os alunos igualmente; o desenvolvimento da Matemática por meio de trabalhos visuais; e, por fim, a contextualização e a resolução de problemas.

Essas metodologias estão presentes nos estudos atuais que compõem este referencial, como Alves (2014); Teixeira; Paiva e Moreira (2018); Fraz (2018); Silva, Viginheski e Shimazaki (2018) e Antunes (2020); porém pode-se perceber que quantitativamente o número de estudos sobre o tema ainda é primário e há necessidade de mais estudos e de mais relatos sobre metodologias que são aplicadas cotidianamente. Além disso, vê-se também a necessidade de profissionais, de formação, de preparação, de desenvolvimento profissional, de diálogo com a Educação Especial e a valorização das diferenças, como citado por Muniz et al. (2018).

Mesmo não havendo muitos trabalhos sobre tal temática, pode-se utilizar por ora também as orientações em documentos, como os Parâmetros Curriculares Nacionais, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a Lei Brasileira de Inclusão, a Base Nacional Comum Curricular, e mesmo os pareceres do Conselho Nacional de Educação, sendo essas formas de sustentação das ações pedagógicas inclusivas realizadas pelos professores, além de pontuar com outros colegas de profissão, com professores de outras disciplinas e na instituição onde trabalha sobre tais práticas.

Entretanto, mesmo com esse pequeno aporte de relatos, cabe pontuar os marcos encontrados nesses estudos. Alves (2014), que dispõe sobre ensinar a Matemática a partir de um olhar etnomatemático com enfoque na Matemática Financeira, utiliza para isso a realidade na qual cada aluno está inserido, as situações diárias vivenciadas e as práticas sociais, empregando concepções antropológicas e culturais. Tal estudo mostrou-se eficaz pois utilizou a Língua Brasileira de Sinais nas aulas e nas demais atividades propostas, bem como aspectos da realidade dos alunos, entre elas a dificuldade em finanças, manipulação de dinheiro e a realização de cálculos matemáticos para intervir. Como resultado, percebeu-se que os alunos desenvolveram autonomia para realizar compras e para ir sozinhos à escola e outros locais, o que antes não era realizado pois os alunos eram dependentes de seus pais ou responsáveis.

Outra metodologia utilizada na mesma pesquisa foi a introdução de imagens com o uso de projetores multimídia, visando melhorar a habilidade visual desses alunos, além de gravuras, textos curtos e dinâmicas coletivas. Segundo o autor, “a associação do ensino de Matemática com a utilização da língua de sinais proporcionou o desenvolvimento da autoestima dos participantes, pois valorizou a cultura surda e promoveu o desenvolvimento de seu conhecimento matemático e financeiro” (Alves, 2014, p. 6).

Tal metodologia se mostrou eficaz a partir dos resultados encontrados; dentre eles pode-se pontuar: aquisição e utilização da comunicação, desenvolvimento de visão crítica da realidade dos alunos, desenvolvimento de habilidades que os auxilie nas atividades diárias, desenvolvimento da cidadania, da reflexão, criação e tomada de decisões e autonomia; e por fim, mas não menos importante, consciência de que a Matemática está presente no dia a dia de todos.

Para os professores, o autor alerta que “é importante ressaltar a importância da utilização de uma metodologia de ensino que valorize e respeite a cultura surda associada à elaboração de atividades matemáticas fundamentadas” (Alves, 2014, p. 9).

O estudo de Teixeira; Paiva e Moreira (2018) demonstra como utilizar uma abordagem formativa com contação de histórias, manipulação de materiais concretos juntamente com jogos que favorecem a aprendizagem da Matemática para os alunos surdos e para estudantes com necessidades educacionais especiais. Segundo os autores, os alunos, quando realizam avaliações internas e externas, apresentam dificuldades gerais de aprendizagem, como mostram os dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) (Brasil, 2015). De acordo com dados estatísticos, cerca de 7,3%, dos estudantes alcançaram o nível básico de aprendizagem em Matemática ao concluir o Ensino Médio em 2015, segundo Teixeira; Paiva e Moreira (2018, apud Brasil, 2015, p. 391).

O trabalho visou ainda promover a formação intelectual e social dos alunos, pautando sua metodologia na aprendizagem formativa, construindo conhecimentos matemáticos por meio de recursos didáticos – num primeiro momento a contação de histórias com enfoque nos conteúdos de Matemática e no raciocínio lógico para alunos do 5º ano do Ensino Fundamental, contextualizando as passagens do livros, instigando-os a formar as imagens mentalmente e, posteriormente, por meio de desenhos a representar a história. Como conclusão, o ensino da Matemática se tornou mais atrativo e prazeroso, cativando os alunos, deixando-os mais atentos e concentrados e realizando mais ativamente as atividades propostas.

Com o 7º ano, foi realizada a construção de jogos manipuláveis, utilizando a informática e revisando os conteúdos curriculares matemáticos. Buscou a construção de jogos, pesquisando, descobrindo e construindo regras e adaptações necessárias para jogar; ao final foi confeccionada uma versão final do jogo. Como resultado, os alunos reconheceram e valorizaram as atividades coletivas e promoveram aprendizagem individual.

Assim, percebeu-se a aquisição de habilidades coletivas e individuais, incluindo esses alunos nas práticas utilizando os recursos alternativos, deixando o ensino mais lúdico, priorizando as potencialidades dos alunos e que se sintam protagonistas do processo de aprendizagem (Teixeira; Paiva; Moreira, 2018).

No estudo de Muniz, Peixoto e Madruga (2018), são pontuados o ensino da Matemática e seus desafios, registrando os desafios vivenciados por professores de Matemática, pelo tradutor-intérprete da língua de sinais (TILS) e por estudantes surdos. Como resultado, demonstrou que utilizar as salas de recursos multifuncionais (SRM) diminui os desafios e aumenta as possibilidades de inclusão desses alunos; são encontrados desafios para todos esses atores e para os professores de Matemática não se sentirem capacitados para trabalhar de forma eficiente a inclusão desses alunos, pois faltam recursos, formação, pesquisas, preparação e diálogo, além de não se encontrarem metodologias específicas para que possam trabalhar. Os TILS demonstraram que sentem dificuldade quando trabalham com professores de Física, Química e Matemática, pois sua atuação está vinculada à sua área de formação, em grande parte apenas a conteúdos de Pedagogia e não específicos. Além disso, registram que têm dificuldade em compreender e assimilar tais conteúdos e repassá-los para os alunos, também em função de não haver planejamento das aulas em conjunto com os professores, pois os TILS devem ter conhecimento adequado dos conteúdos para facilitar a aprendizagem e a troca de informações com os alunos.

Segundo os autores, como resultado, percebe-se que é imprescindível que os professores de Matemática tenham um conhecimento mínimo de Libras, além de aproximação com os intérpretes, compreendam o trabalho deles e o tempo necessário para interpretação das informações passadas pelos professores, a adaptação de práticas pedagógicas adequadas, a construção de novas abordagens, aproximação da Matemática à Libras, facilitando o aprendizado dos alunos surdos e abolindo práticas inadequadas. Como demonstrado pelos autores,

percebemos que o professor reconhece que não está apto a trabalhar com estudantes surdos, mas até o momento da entrevista não havia buscado compreender o contexto desse estudante. O professor não buscou ajuda da SRM e, ao que nos pareceu, também não dialogou com a TILS sobre práticas mais inclusivas (Muniz; Peixoto; Madruga, 2018, p. 22).

Assim, conclui-se que a inclusão se encontra, em alguns casos, em propostas estabelecidas pelos órgãos regulamentadores e pela escola, mas não pelos professores; os estudantes se encontram limitados, buscando serviços de Educação Especial, pois não encontram aporte no ensino regular, pois ainda se encontra isolado dentro da Educação Inclusiva. Dessa forma, percebe-se também a necessidade de aumentar o número de debates sobre esse tema com os futuros professores de Matemática e pensar em novas abordagens que busquem aumentar as possibilidades e diminuir os desafios da Educação Inclusiva.

A pesquisa de Fraz (2018) trata da utilização da tecnologia assistiva (TA) com o uso de tecnologias da informação e da comunicação (TIC) e tecnologias digitais para o ensino da Matemática, promovendo a inovação e o trabalho não só com surdos, mas também com deficientes intelectuais e auditivos.

A tecnologia assistiva aparece como recurso fabricado sob medida para alunos em condições especiais, customizado e fabricado em série com foco em aumentar, manter ou melhorar capacidades funcionais de pessoas com deficiência. Segundo Fraz (2018), esses recursos englobam

suportes como cadeiras de rodas de todos os tipos, uma prótese, uma órtese, uma série infindável de adaptações, aparelhos e equipamentos nas mais diversas necessidades apresentadas: comunicação, alimentação, mobilidade, transporte, educação, lazer, esporte, trabalho e outras.

Portanto, pode-se visualizar que tal recurso abrange diversos alunos e propicia aprendizagem significativa a eles, incluindo-os no processo de construção e assimilação dos conhecimentos em Matemática. Como resultado, percebeu-se que o ensino ficou mais integrado, melhorou a inserção social dos alunos e deu acesso a conhecimentos matemáticos de forma mais eficaz, significativa e prazerosa. Ainda é possível contribuir para que a Matemática possibilite despertar novas metodologias e práticas pedagógicas escolares a partir de tais recursos, proporcionando o desenvolvimento de talentos e habilidades diversas com resultados positivos.

A pesquisa de Silva, Viginheski e Shimazaki (2018) também nos remete à formação dos professores de Matemática e ao processo de inclusão, porém com enfoque no Ensino Superior. Percebeu-se que nesse nível de ensino as metodologias aplicadas foram o braile, o soroban e a adaptação de materiais didáticos; a preocupação dos professores em lecionar para esses alunos, foi pontuado nesse estudo.

Pois, como é indicado pelos autores, o aluno com deficiência se insere na escola primeiramente para depois pensar em treinar os professores para lidar com essa realidade, o que acaba gerando desconforto nos professores. Assim, como resultado, foi mostrada a necessidade de o professor já ter esse conhecimento prévio para que a inclusão seja eficaz, o que mostrou a necessidade de pesquisas não apenas no ensino regular sobre o tema, mas também no Ensino Superior, além, claro, da formação de professores para esse nicho do ensino para o Ensino Fundamental e o Médio.

Por último, foi analisada a pesquisa de Antunes (2020), cujo objetivo é estudar a Matemática e os surdos usando o software GeoGebra como recurso didático para auxiliar o ensino de Geometria nas aulas de Ensino Médio, em formação continuada, na cidade de Colíder/MT no ano de 2019. Os professores participantes demonstraram interesse na formação e rapidamente reconheceram o potencial de visualização que o GeoGebra proporciona (Antunes, 2020, p. 8).

As atividades realizadas utilizaram o manuseio do GeoGebra com ferramentas de Geometria Plana Espacial; é um software intuitivo, de fácil manuseio e instalação, acessível e gratuito, o que motivou os professores a utilizá-lo. Como resultado, percebeu-se que os professores ficaram mais motivados, a interação e a comunicação entre os professores e seus alunos surdos melhoraram – o que foi exposto por eles como desafio anteriormente –, além de demonstrar, como iniciativa, que utilizaram o software não apenas com os estudantes surdos, mas também com os demais, pois após a intervenção o aplicativo se mostrou uma ferramenta eficaz, diferenciada e como componente didático corriqueiro para esses profissionais.

Metodologia

A pesquisa bibliográfica foi realizada em bancos de dados, periódicos e revistas, entre eles o Google Acadêmico, SciELO, Portal de Periódicos da Capes, Anais do Fórum Nacional das Licenciaturas de Matemática. Objetivava a busca de estudos dos últimos cinco anos (entre 2017 e 2021) que tratam do tema educação Matemática para alunos surdos.

Foram utilizados os descritores: educação Matemática, ensino da Matemática, educação de surdos, ensino da Matemática para alunos surdos, ensino da Matemática para deficientes e metodologias de ensino para alunos surdos. Foram encontrados diversos artigos, porém, após análise e leitura, foram selecionados cinco que compõem nosso referencial teórico.

Resultados, discussão e recomendações

Em pesquisas realizadas nos bancos de dados, em periódicos, revistas e anais de eventos, foram encontrados cerca de 20 artigos que debatiam o tema, tanto em português como em espanhol, datados de no máximo dez anos; após leitura e análise deles, foram escolhidos cinco que melhor se encaixavam na metodologia exposta. A relação desses artigos está no Quadro 1.

Quadro 1: Artigos selecionados

Título

Autores

Local

Ano

As contribuições da Etnomatemática e da perspectiva sociocultural da história da Matemática para a formação da cidadania dos alunos de uma turma do 8.º ano do Ensino Fundamental por meio do ensino e aprendizagem de conteúdos da educação financeira

Gelindo Martineli Alves

Repositório da UFOP

2014

Matemática e inclusão: para além dos resultados

Cristina de Jesus Teixeira; Thiago Ferreira de Paiva; Geraldo Eustáquio Moreira

Revista de Educação Matemática

2018

Tecnologia assistiva e Educação Matemática: experiências de inclusão no ensino e aprendizagem da Matemática nas deficiências visual, intelectual e auditiva

Joeanne NevesFraz

Revista de Educação Matemática

2018

La inclusión en la formación inicial de profesores de matemáticas

Sani de Carvalho Rutz da Silva;  Lúcia Virginia Mamcasz-Viginheski; Elsa Midori Shimazaki

Revista Acta Scientiarum  Education

2018

Matemática e surdos: o software GeoGebra como recurso para auxiliar o ensino de Geometria

Maria de Fátima Nunes Antunes

Repositório Univates

2020

No Quadro 1 pode-se notar que os temas encontrados são integrados ao objetivo desta pesquisa, utilizando metodologias distintas e análises da formação dos professores de Matemática e de práticas pedagógicas já investigadas e aplicadas tanto na Educação Básica como no Ensino Superior, o que ajuda a visualizar as lacunas que persistem na Educação Matemática e na inclusão de alunos surdos atualmente.

Assim pode-se visualizar que falta muito ainda para que a inclusão se efetive na educação, analisando os dados levantados e em todos os níveis de ensino, o que demonstra que na realidade o que falta é a preparação sistemática dos professores de Matemática para que possam trabalhar de forma a incluir esses alunos em suas práticas. Faltam também a inserção de recursos didáticos e de outros materiais que oportunizem uma prática integrada e profissionais de apoio, de intérpretes de Libras, do conhecimento mínimo de Libras pelos professores, amparo dos outros atores da escola, bem como um amplo espaço de debate sobre o tema em cada ambiente onde a escola se insere e na formação continuada desses profissionais, como é pontuado em todos os artigos.

Além do mais, recomendam-se novas pesquisas e a implementação de mais metodologias distintas em todos os níveis do ensino para explorar mais os campos de atuação dos professores e a inclusão desses alunos nas diversas escolas, pois cada qual está inserido em um local específico; sendo assim, terão vivências diferentes, culturas distintas e necessidades também diferentes. Busca-se, por fim, dar uma visão mais geral do processo de inclusão desses alunos em diversas localidades do país.

Considerações finais

Os resultados obtidos neste estudo demonstram a necessidade de replicar esta investigação para mais áreas da Educação, englobando outras disciplinas, para ver se o que foi encontrado corrobora os demais conteúdos do ensino básico e superior além da Matemática, a fim de oportunizar solucionar desafios aqui relatados, além de proporcionar uma perspectiva mais ampla e discussões atuais em Educação Matemática e em metodologias que possibilitem a inclusão.

Com esta abordagem, pode-se destacar que a utilização das tecnologias assistivas, de Libras, do intérprete, de recursos tecnológicos, de jogos e da contação de histórias, dentre outros, se mostrou eficiente quando bem fundamentada, mostrando ainda a possibilidade de utilizar tais metodologias no dia a dia das salas de aula, bem como modificá-las para melhor efetivar o ensino de acordo com as características de cada local, bem como a possibilidade de os alunos compreenderem a utilização da Matemática no seu cotidiano, despertando o prazer e o interesse por essa disciplina, deixando-a mais agradável, prazerosa e interessante para os alunos.

Assim, mostra-se que não existe um método pronto e 100% eficaz para o ensino da Matemática, ficando como objetivo primordial do professor encontrar maneiras eficientes e que melhor se adaptem ao seu cotidiano e dos alunos atendidos; que, por fim, possibilitem realmente a inclusão desses alunos na escola e na sociedade em que vivem.

Referências

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TEIXEIRA, J. C.; PAIVA, F. T.; MOREIRA, E. G. Matemática e inclusão: para além dos resultados. Revista de Educação Matemática, São Paulo, v. 15, nº 20, p. 389-408, set./dez. 2018.

Publicado em 11 de janeiro de 2022

Como citar este artigo (ABNT)

CARVALHO, Renata de Souza; LIMA, Claudiney Nunes de. A inclusão no ensino e na aprendizagem em Matemática. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 22, nº 1, 11 de janeiro de 2022. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/22/1/a-inclusao-no-ensino-e-na-aprendizagem-em-matematica