O Brasil do século XIX através do samba-enredo: levantamento inicial de possibilidades ligadas ao ensino culturalmente relevante

João Gabriel Costa de França Souza

Pós-graduando em Gestão e Design em Carnaval (Censupeg), licenciado em Física (UFRJ/CEDERJ)

Aline Ramos Leal

Especialista em Biologia Marinha (Famath), licenciada em Biologia (UCB), bacharel em Biologia (UnB)

O ensino culturalmente relevante vale-se de aspectos culturais e perspectivas étnicas para o aumento da efetividade nos processos de ensino-aprendizagem (Gay, 2002). Sendo o carnaval umas das mais importantes manifestações culturais brasileiras e o samba-enredo uma de suas grandes potencialidades musicais, surgem interessantes interseções entre os campos da educação e da cultura. As obras do gênero abordam amplamente importantes marcos e vultos históricos nacionais, religiosidade (com enfoque às práticas de matriz africana), literatura, lendas, manifestações culturais, localidades e a afirmação e celebração da negritude.

O presente trabalho objetiva a criação de quadros referenciais capazes de correlacionar sambas-enredo de diferentes décadas ao fluxo histórico brasileiro do século XIX. Tal material servirá como fonte de consulta primária a professores de diferentes disciplinas interessados em trabalhar conceitos ligados ao recorte histórico estudado, com possibilidade de desenvolvimento de atividades, avaliações e abordagens que utilizem diferentes perspectivas pedagógicas, como interdisciplinaridade, transversalidade e, sobretudo, prática culturalmente relevante.

Referencial teórico

Pode-se definir o ensino culturalmente relevante como a prática pedagógica de “teorias desenvolvidas para a afirmação cultural de alunos marginalizados, que pertencem a grupos minoritários étnicos e sociais” (Oliveira; Rosa; Viana, 2015, p. 338).O sucesso da prática requer significação para a realidade dos estudantes (Howard, 2003), ou seja, eles devem ser capazes de relacionar conteúdos e conceitos abordados a seus próprios contextos culturais. Segundo Ladson-Billings (2008), a aproximação à realidade da comunidade estudantil contextualiza e dinamiza as aulas. Uma das “razões por que as crianças experimentam dificuldades nas escolas é que, tradicionalmente, os educadores tentam inserir a cultura na educação ao invés de inserir a educação na cultura” (Ladson-Billings, 1995b, p. 159).

Dessa maneira, apresenta-se o gênero musical samba-enredo, subgênero do samba ligado indissociavelmente ao carnaval. Suas origens africanas e seu desenvolvimento em solo brasileiro, nos morros e localidades carentes (Freitas, 2020) tornaram-no não só uma potência musical do país como também uma interessante ferramenta pedagógica em muito ligada à realidade de diversos estudantes.

É interessante depreender que as pessoas aprendem na vida social, e não apenas na escola, mas também em outros espaços socioculturais, como nas escolas de samba. Na festa do carnaval carioca, as escolas de samba nos interpelam com suas pedagogias culturais e potencializam o seu poder educativo na mídia, que faz a cobertura e publiciza esse grande espetáculo, tanto no contexto nacional como internacional (Silva; Santana; Silveira, 2019, p. 63).

Não apenas as origens do gênero são capazes de promover significação. Seus temas, mensagens, letras e poética são valiosos aliados para o ensino culturalmente relevante, assim como o contexto geral das apresentações das escolas de samba e seus aspectos visuais.

O samba-enredo e a História do Brasil

A temática nacional é, até os dias de hoje, uma constante nos desfiles das escolas de samba. Muito dessa característica deve-se ao caráter nacionalista do governo Vargas e sua aproximação com os dirigentes das agremiações à época. As escolas de samba disputavam espaço e popularidade com outras manifestações carnavalescas e, pela imposição regulamentar de obrigatoriedade da temática nacional nos enredos, aproximaram-se dos ideais governistas, sobrepondo-se aos blocos, ranchos e sociedades (Guaral, 2012). O jornalista Nonnato Masson, em reportagem do Jornal do Brasil em fevereiro de 1964, abordou essa temática de maneira bem humorada:

Um dia, por decreto, as escolas deixaram praticamente de ser de samba para serem rebolantes batalhões patriótico-carnavalescos. Foi-lhes imposto o enredo histórico para os desfiles. O samba se transformou em Voluntários da Pátria e desceu para a avenida para dar combate a Solano López. Os tamborins viraram tambores da Guerra de Canudos e os reco-recos foram outros tantos bacamartes de Borba Gato e Anhanguera. [...] Dura lex, e tome D. Pedro I todo ano, ali, firme, na avenida, de mestre-sala ou fantasia de destaque. Muito D. João VI desfilou vestido de mosqueteiro e muita Princesa Isabel arrastou as sandálias na avenida vestida de Maria Antonieta (Masson, 1964, Caderno B, p. 6).

As escolas de samba buscavam não somente apoio governamental, mas também legitimação social. Desse modo, apesar de serem manifestações majoritariamente negras, vislumbravam e representavam a história de marcos e figuras brancas. O negro, até meados da década de 1960, era retratado exclusivamente por sua dor, seu banzo e sua escravização ou através de outras figuras, como a princesa Isabel e o 13 de Maio (Perigo, 2020).

Tal situação começou a modificar-se a partir do carnaval do Acadêmicos do Salgueiro de 1960, intitulado Zumbi dos Palmares. Inicialmente visto com grande desconfiança pela comunidade da escola e por críticos, jornalistas e foliões, é hoje considerado o rompimento definitivo acerca da retratação negra no carnaval.

Como nas congadas e maracatus, que são embaixadas de recoroação de um rei negro e como esse rei reinaria somente nas festas da sua nação escrava, os brancos dominantes as consentiam. O negro, então, para dar maior valor ao poder “de ocasião”, vestia-se, ele e sua corte, como D. João VI ou Pedro I ou II e suas cortes. Daí... As escolas de samba seguiram a mesma história. Seria a primeira vez [1960] que uma manifestação negra exibir-se-ia vestida de negro e com orgulho! (Pamplona, 2013, p. 58-59).

A mudança principal, no entanto, se dava no aspecto temático do desfile, no enredo escolhido. Fernando Pamplona, ao ser convidado pelo Salgueiro, sugeriu a homenagem a Zumbi dos Palmares, e o desfile de 1960 se constituiu em um momento importante do processo de construção, visibilidade e de ocupação do espaço público por uma cultura negra brasileira (Silva Júnior, 2020, p. 51).

A significativa guinada reflete até os momentos atuais como a maneira de enxergar e retratar a diversidade brasileira nos enredos e sambas das agremiações de todo o Brasil. A seguir apresentam-se dois trechos de sambas-enredo de diferentes períodos temporais e abordagens opostas. A primeira obra, da Unidos da Tijuca de 1961, aborda o trabalho braçal, o sofrimento e a questão da venda de escravizados. A segunda composição, da Estação Primeira de Mangueira de 1988, inicia um apelo de reinterpretação da realidade social visto até os dias de hoje no samba-enredo. Trata da importância do negro para a construção identitária do Brasil e questiona se a Lei Áurea de fato pôs fim à escravidão.

Ao senhor era entregue
Para qualquer obrigação
Trabalhava no engenho da cana
Plantava café e colhia algodão
Enquanto isso
Na casa grande, o feitor
Ouvia as ordens
De um ambicioso senhor
Tenha pena de mim, meu senhor
Tenha por favor (Affonso; Castro; Cici, 1960).

Será ... Que a Lei Áurea tão sonhada
Há tanto tempo assinada
Não foi o fim da escravidão
Hoje dentro da realidade
Onde está a liberdade
Onde está que ninguém viu
Moço, não se esqueça que o negro também construiu
As riquezas de nosso Brasil
Pergunte ao Criador
Quem pintou esta aquarela
Livre do açoite da senzala
Preso na miséria da favela (Turco; Jurandir; Alvinho, 1987).

Metodologia

Por meio de análises das discografias carnavalescas de diferentes cidades brasileiras, foram selecionados sambas-enredo que versam direta ou indiretamente a respeito de fatos e personalidades ligados ao século XIX brasileiro. A partir da seleção inicial foram elencadas em quadros as obras do gênero capazes de contribuir para atividades, avaliações e demais práticas pedagógicas voltadas ao ensino culturalmente relevante. Foi escolhido como recorte o período entre a vinda da Família Real Portuguesa ao Brasil (1808) e o fim da monarquia (1889).

Fatos marcantes, como o casamento entre D. Pedro e D. Leopoldina, Dia do Fico, Independência, golpe da maioridade, Guerra do Paraguai, escravidão, Abolição da Escravatura, baile da Ilha Fiscal e a Proclamação da República foram utilizados como subdivisões para os quadros, assim como personalidades do período, como D. João VI, D. Pedro I, D. Pedro II, D. Leopoldina, D. Amélia e Domitila de Castro Canto e Melo. Os quadros foram subdivididos em: nome da agremiação, ano do samba-enredo em questão, enredo e cidade na qual houve o desfile, com o intuito de facilitar a localização das obras e suas posteriores utilizações.

Resultados e discussão

Ao todo foram selecionados 65 sambas-enredo de sete diferentes cidades do país, subdivididos em dezesseis tópicos. Mesmo em casos de não abordagem direta das temáticas em questão, as obras estão presentes no grupo ao qual fazem menção, ainda que em parte. Interessantemente, os principais marcos históricos e nomes do período estudado foram contemplados pelo carnaval e, consequentemente, pelo samba-enredo, por vezes em diferentes momentos históricos específicos ou de maneira constante com o decorrer das décadas. Os resultados obtidos estão dispostos a seguir.

1. Vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil e D. João VI

Agremiação

Ano

Enredo

Cidade

São Clemente

2008

O Clemente João VI no Rio

Rio de Janeiro/RJ

Imperatriz Leopoldinense

2008

João e Marias

Rio de Janeiro/RJ

Águia de Ouro

2008

A epopeia de D. João, o rei glutão

Juiz de Fora/MG

Caprichoso de Pilares

1966

A transmigração da Família Real

Rio de Janeiro/RJ

Unidos do Viradouro

1962

A chegada da Família Real

Niterói/RJ

Portela

1957

Legados de d. João VI

Rio de Janeiro/RJ

União de Jacarepaguá

1961

D. João VI no Brasil

Rio de Janeiro/RJ

União de Jacarepaguá

1975

Reais pessoas - Chegada de D. João VI

Rio de Janeiro/RJ

Império Serrano

1957

D. João VI ou Brasil Império

Rio de Janeiro/RJ

Unidos de Padre Miguel

2016

O quinto dos infernos

Rio de Janeiro/RJ

Interessante notar nos sambas acima elencados a importância dada à mudança da Família Real para o Brasil. Algumas obras abordam tal fato histórico como o início do processo de independência nacional e concedem a d. João, então príncipe regente, grande reconhecimento por suas contribuições à evolução e desenvolvimento do país, principalmente em relação à cidade do Rio de Janeiro. Por outro lado, obras como as da Unidos de Padre Miguel em 2016 e da Águia de Ouro em 2008 satirizam a figura do monarca como glutão, bonachão e até mesmo medroso. Há obras que retratam a vinda da Família Real como uma fuga das invasões napoleônicas, ao passo que outras caracterizam-na como um preciso movimento estratégico, digno de um grandioso e inteligente monarca. Tal dicotomia evidencia os processos narrativos como frutos do entendimento próprio do autor e de seu momento histórico ou das proposições enredísticas inerentes à temática abordada pela agremiação em seu desfile, possibilitando atividades sob diferentes óticas em sala de aula – como debates.

2. Missão artística francesa

Agremiação

Ano

Enredo

Cidade

União de Jacarepaguá

1961

D. João VI no Brasil

Rio de Janeiro/RJ

Em Cima da Hora

1970

O mundo maravilhoso de Debret

Rio de Janeiro/RJ

Unidos de Lucas

1979

O Rio de Janeiro em tempo de Debret

Rio de Janeiro/RJ

Salgueiro

1959

Viagem pitoresca através do Brasil

Rio de Janeiro/RJ

Rivais da Primavera

2008

Um francês na corte de D. João VI

Juiz de Fora/MG

A missão artística francesa, fundamental para a criação de grandes obras de arte referenciais até os dias de hoje, é retratada em sambas-enredo mais antigos e de maneira bastante poetizada, centralizando nas figuras de D. João e Jean Baptiste Debret. A obra mais moderna é fruto do carnaval temático promovido em 2008 pela escola de samba de Juiz de Fora.

3. Imperatriz D. Leopoldina e o casamento com D. Pedro

Agremiação

Ano

Enredo

Cidade

Imperatriz Leopoldinense

1996

Leopoldina, a imperatriz do Brasil

Rio de Janeiro/RJ

União de Jacarepaguá

1969

Memórias históricas do Primeiro Império

Rio de Janeiro/RJ

D. Leopoldina é geralmente retratada nos desfiles e sambas-enredo sobre os primórdios do império brasileiro de maneira en passant. Destaca-se a composição da União de Jacarepaguá de 1969, por citar diretamente que a princesa assumira a regência no lugar de seu marido quando ele se ausentou do Rio de Janeiro, exercendo papel fundamental no processo de independência. Por sua vez, o samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense de 1996 é inteiramente dedicado à D. Leopoldina, versando ricamente sobre sua educação, processo de casamento, vinda para o Brasil, participação no processo de independência e relação com o Brasil.

4. Dia do Fico

Agremiação

Ano

Enredo

Cidade

Unidos do Cabuçu

1962

A glória e os amores de D. Pedro I

Rio de Janeiro/RJ

União de Jacarepaguá

1969

Memórias históricas do primeiro império

Rio de Janeiro/RJ

Beija Flor

1962

Dia do Fico

Rio de Janeiro/RJ

Real Grandeza

2008

Diga ao povo que fico!

Juiz de Fora/MG

O Dia do Fico é retratado brevemente nos sambas-enredo, uma vez que a independência propriamente dita suscita maior interesse geral. Dessa maneira, poucas escolas trataram diretamente do tema, estando ele majoritariamente presente em composições mais generalistas que abordam o processo de independência como um todo.

5. A Independência do Brasil

Agremiação

Ano

Enredo

Cidade

Unidos de Manguinhos

1966

Homenagem a D. Pedro I

Rio de Janeiro/RJ

Império Serrano

1961

Independência do Brasil

Rio de Janeiro/RJ

U. de Vila Isabel

1966

Três acontecimentos históricos

Rio de Janeiro/RJ

Imperatriz Leopoldinense

1996

Leopoldina, a imperatriz do Brasil

Rio de Janeiro/RJ

União de Jacarepaguá

1969

Memórias históricas do Primeiro Império

Rio de Janeiro/RJ

União de Jacarepaguá

1972

A festa da Independência

Rio de Janeiro/RJ

Unidos de Bangu

1972

Um dos motivos da Independência

Rio de Janeiro/RJ

Unidos do Cabuçu

1959

Coroação de D. Pedro I

Rio de Janeiro/RJ

Caprichosos de Pilares

1973

Aclamação e coroação de D. Pedro I

Rio de Janeiro/RJ

Como esperado, um fato marcante e de proporções nacionais como a Independência é amplamente abordado e retratado no samba-enredo em diferentes décadas. Importante notar o protagonismo absoluto de d. Pedro e figuras importantes como José Bonifácio e d. Leopoldina em papéis secundários nas letras das composições. O ato em si, às margens do Ipiranga, é retratado de diferentes maneiras em cada samba-enredo: ao passo que uns romantizam a situação, outros, como a Unidos de Manguinhos de 1966, são mais detalhistas, descrevendo até mesmo o encontro do então príncipe com os mensageiros vindos do Rio de Janeiro. Observa-se novamente a dicotomia narrativa, no caso específico extrapolando até mesmo o período abordado e possibilitando debates sobre construções históricas.

6. Imperatriz D. Amélia

Agremiação

Ano

Enredo

Cidade

Portela

1964

O segundo casamento de D. Pedro I

Rio de Janeiro/RJ

A segunda imperatriz do Brasil, Amélia Augusta Eugênia Napoleona, praticamente não é citada nas letras dos sambas-enredo. O único registro é do samba portelense de 1964, que aborda questões diretas acerca de seu casamento com o imperador D. Pedro I, como as tratativas e os festejos.

7. Domitila de Castro Canto e Melo

Agremiação

Ano

Enredo

Cidade

Imperatriz Leopoldinense

1964

A favorita do imperador, Marquesa de Santos

Rio de Janeiro/RJ

Capricho do Centenário

1970

Marquesa de Santos, que reinou pela graça

Rio de Janeiro/RJ

Unidos do Cabuçu

1962

A glória e os amores de D. Pedro I

Rio de Janeiro/RJ

União de Jacarepaguá

1985

Marquesa de Santos

Rio de Janeiro/RJ

Lins Imperial

1969

Imperatriz das Rosas

Rio de Janeiro/RJ

A favorita do imperador, como era conhecida Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos, permeia a discografia dos sambas-enredo mais que as próprias imperatrizes. Um indicativo, talvez, de que o misterioso e o proibido despertam grande interesse do público.

Interessante pontuar que a trajetória da marquesa presente nos versos somente diz respeito ao período em que esteve no Rio de Janeiro, ao lado do imperador. Estão retratados momentos marcantes, como a cerimônia de beija-mão da qual participou a plebeia.

8. Abdicação de D. Pedro I

Agremiação

Ano

Enredo

Cidade

Asa Branca

1977

Imagens remotas do Brasil Império e a Proclamação da República

Natal/RN

Malandros do Samba

1976

História de D. Pedro II

Natal/RN

Apenas o carnaval de Natal, no Rio Grande do Norte, abordou, ainda que indiretamente, a abdicação de D. Pedro I ao trono brasileiro. Trata-se de um episódio bastante específico e sem a glamorização necessária para um enredo de escola de samba.

9. Revoltas do Período Regencial

Agremiação

Ano

Enredo

Cidade

Revolta

Acadêmicos do Grande Rio

2002

Os papagaios amarelos nas terras encantadas do Maranhão

Rio de Janeiro/RJ

Balaiada

Acadêmicos do Tatuapé

2005

Pará, a heroica história de nossa história, berço cultural de nosso povo

São Paulo/SP

Cabanagem

Leandro de Itaquera

2008

Afro Bahia - da Revolta dos Malês ao esplendor de um novo dia - a Roma Negra invade Itaquera neste dia de alegria

São Paulo/SP

Revolta dos Malês

Nota-se claramente o não aparecimento de importantes revoltas, como a Sabinada e a Guerra dos Farrapos. Mesmo as revoltas presentes nas letras dos sambas não são o ponto central dos enredos, sendo abordadas de maneira bastante breve. Destaque para a exceção, Leandro de Itaquera em 2008.

10. O golpe da maioridade

Agremiação

Ano

Enredo

Cidade

Malandros do Samba

1976

História de D. Pedro II

Natal/RN

Academia de Samba Praiana

1983

O primeiro baile de máscaras do Brasil

Porto Alegre/RS

Caprichosos de Pilares

1961

Império de D. Pedro II

Rio de Janeiro/RJ

O golpe da maioridade e a posterior entronização do jovem D. Pedro II são retratados nas letras dos sambas com euforia e fervor popular, sem que nenhum deles se atenha a detalhes. Ao passo que as revoltas regenciais são temáticas presentes em desfiles relativamente recentes (início dos anos 2000), fatos marcantes do Império, como abdicação de D. Pedro I e a coroação de D. Pedro II, foram abordados em décadas mais distantes (anos 1960, 1970 e 1980).

11. O imperador D. Pedro II

Agremiação

Ano

Enredo

Cidade

Paraíso do Tuiuti

2000

Um monarca na fuzarca

Rio de Janeiro/RJ

Imperatriz Leopoldinense

1966

Monarquia e esplendor da história

Rio de Janeiro/RJ

Camisa Verde e Branco

2005

Disque camisa, linha direta com o samba

São Paulo/SP

D. Pedro I era retratado como um valente cavaleiro, de espada em punho, pronto para qualquer batalha. Em contrapartida, seu filho, D. Pedro II, é descrito como um grande intelectual, bom governante, mecenas das artes, incentivador das ciências e poliglota. Seu longo reinado, sem grandes demonstrações de bravura, não incentivou muitas escolas de samba a levá-lo para a avenida como protagonista de seus enredos. Fatos marcantes de seu governo foram mais amplamente abordados, como a Guerra do Paraguai, a manutenção e a Abolição da Escravatura, o baile da Ilha Fiscal, a construção da cidade de Petrópolis e a Proclamação da República.

Nota-se que o samba de 2005 da paulista Camisa Verde e Branco não trata sequer do período monárquico brasileiro, porém cita D. Pedro II em um enredo sobre tecnologia e comunicação ao relatar sua relação com a invenção do telefone e sua chegada ao Brasil e posterior popularização.

12. A Guerra do Paraguai

Agremiação

Ano

Enredo

Cidade

Os Rouxinóis

2015

Na batalha do meu país... a retomada me fez feliz... Uruguaiana minha raiz!

Uruguaiana/RS

Império Serrano

1950

Batalha naval do Riachuelo

Rio de Janeiro/RJ

Caprichosos de Pilares

1961

Coroação de D. Pedro II

Rio de Janeiro/RJ

Índios do Acaú

1951

Batalha do Tuiuti

Rio de Janeiro/RJ

Império Serrano

1955

Exaltação a Caxias

Rio de Janeiro/RJ

Império Serrano

1960

Medalhas e brasões

Rio de Janeiro/RJ

Observa-se claramente a tendência de exaltação patriótica com relação às vitórias militares (na Guerra do Paraguai como um todo e em batalhas específicas do conflito), marcante nos carnavais da década de 1950, muito em decorrência da aproximação das escolas de samba ao governo e a obrigatoriedade de temáticas ligadas à exaltação nacional.

Destoam do padrão ufanista apenas Os Rouxinóis de 2015, em razão de sua proximidade física com o local de acontecimentos marcantes da guerra, que abordou o tema de maneira mais poética e condizente com os padrões modernos do gênero samba-enredo.

13. Escravidão

Agremiação

Ano

Enredo

Cidade

Unidos da Tijuca

1961

Leilão de escravos

Rio de Janeiro/RJ

Salgueiro

1960

Zumbi dos Palmares

Rio de Janeiro/RJ

União de Jacarepaguá

1977

Banzo

Rio de Janeiro/RJ

Mangueira

1964

História de um preto velho

Rio de Janeiro/RJ

Unidos da Tijuca

1973

Bom dia, café!

Rio de Janeiro/RJ

Salgueiro

1957

Navio negreiro

Rio de Janeiro/RJ

Com exceção do samba salgueirense de 1960, todos os demais tratam a escravidão sob a ótica do opressor, posicionando o escravizado como mero coadjuvante de um processo que o afeta diretamente. Como citado anteriormente, essa visão se modificou durante as décadas de 1960 e 1970, culminando em uma abordagem moderna completamente diferenciada.

No entanto, trata-se de uma interessante possibilidade motivadora de debates e discussões acerca da evolução do entendimento e do pensamento históricos da sociedade em geral, inclusive a maneira como o próprio negro se retratava e se retrata atualmente, através do samba-enredo ou de diferentes manifestações culturais.

Por representar um tema amplamente explorado e recorrente no universo das escolas de samba, há ainda um grande conjunto de outras composições acerca da mesma temática. Esta é apenas uma seleção voltada à compreensão e motivação de debates acerca da retratação do negro no carnaval em diferentes momentos históricos e do papel de protagonista que ele possui nos dias atuais. Modernamente, a figura do negro tornou-se marco fundamental e prioritário dos enredos e sambas das agremiações ligadas ao carnaval, refletindo enfim suas origens nas passarelas de todo o país.

É fundamental compreender os processos pelos quais passaram as escolas de samba, pois, assim como outras manifestações culturais, são reflexos diretos da sociedade em que estão inseridas, podendo muitas vezes traduzir em forma de arte a cultura e o pensamento de um povo ou grupo social.

14. Abolição da Escravatura

Agremiação

Ano

Enredo

Cidade

Unidos de Lucas

1968

Sublime pergaminho

Rio de Janeiro/RJ

Unidos da Capela

1948

Treze de Maio

Rio de Janeiro/RJ

Salgueiro

1967

História da liberdade no Brasil

Rio de Janeiro/RJ

Acadêmicos do Cubango

2020

A voz da liberdade

Rio de Janeiro/RJ

Mangueira

1988

100 anos de liberdade, realidade ou ilusão?

Rio de Janeiro/RJ

Mangueira

2019

História pra ninar gente grande

Rio de Janeiro/RJ

Inicialmente o processo de abolição da Escravatura era retratado sob a ótica dos não escravizados, elevando a princesa Isabel ao patamar de principal responsável pelo fim da escravidão. Esse entendimento começou a ser revisto em 1988 (centenário da abolição), com o samba da Estação Primeira de Mangueira para o enredo “100 anos de liberdade, realidade ou ilusão?”. O papel de voz e resistência de lideranças negras começou a ser valorizado e explorado nos enredos. Hoje nota-se a predominância de tais abordagens, como são os casos do samba-enredo de 2020 da Acadêmicos do Cubango em homenagem ao abolicionista Luiz Gama e da composição da Estação Primeira de Mangueira de 2019, que evidencia diversas personalidades negras históricas e contemporâneas, como Luíza Mahin e Marielle Franco.

Destaca-se dentre os sambas elencados por sua qualidade musical, assim como pelas possibilidades didáticas que proporciona, a obra da Unidos de Lucas de 1968, “Sublime pergaminho”. O samba-enredo foi composto de maneira a poetizar cronologicamente as leis abolicionistas no Brasil. Estão presentes as Leis do Ventre Livre e dos Sexagenários, além da Lei Áurea.

15. O baile da Ilha Fiscal

Agremiação

Ano

Enredo

Cidade

Unidos de Vila Isabel

1957

O último baile da Ilha Fiscal

Rio de Janeiro/RJ

Caprichosos de Pilares

1964

IV Centenário do Rio de Janeiro

Rio de Janeiro/RJ

Império Serrano

1953

O último baile da corte imperial

Rio de Janeiro/RJ

O último baile do Império, como ficou conhecido o baile da Ilha Fiscal, foi abordado historicamente nos sambas-enredo de maneira bastante pobre. Apesar de breves menções, como no icônico samba de 1965 do Império Serrano (“Cinco bailes da história do Rio”), os sambas que trataram diretamente do assunto limitaram-se ao luxo e à ostentação do evento, não abordando questões como sua importância política ou a situação instável da monarquia no Brasil.

16. A Proclamação da República

Agremiação

Ano

Enredo

Cidade

Imperatriz Leopoldinense

1989

Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós

Rio de Janeiro/RJ

Unidos da Tijuca

1949

Proclamação da República

Rio de Janeiro/RJ

Acadêmicos de Santa Cruz

1965

Rio, quatro séculos de glórias

Rio de Janeiro/RJ

Imperador do Ipiranga

2000

Imperador na República Velha

São Paulo/SP

Os sambas acima dispostos versam sobre a Proclamação da República como um ato de libertação do povo da monarquia. Não abordam o evento como um golpe militar ou movimento conspiratório, limitando-se a exaltar os feitos republicanos e a queda de d. Pedro II. Trata-se de material interessante para a exploração de ideias pouco debatidas, como a participação popular no 15 de Novembro, as mudanças que efetivamente ocorreram após a implantação da República e as reais deficiências do período final de governo do imperador.

De maneira geral, a análise dos sambas-enredo através das décadas, assim como demais vertentes da música popular brasileira, deve pautar-se pela compreensão do contexto histórico no qual estavam inseridos os artistas que os conceberam (Napolitano, 2016). Dessa forma, pode-se subdividir o gênero de modo a ilustrar mudanças e manutenções do modo de ver o mundo de diferentes épocas e grupos sociais.

As temáticas diversificadas, especialmente as ligadas à afirmação social, são capazes de proporcionar aos educadores interessados possibilidades culturalmente relevantes. Cabe ressaltar que o cenário não se limita a tais práticas, havendo perspectivas para a interdisciplinaridade e outras abordagens pedagógicas.

Considerações finais

Observou-se a intensa presença da História do Brasil nos sambas-enredo das últimas décadas. Importante notar que o discurso presente nas letras condiz com o pensamento popular e o posicionamento da sociedade ante fatos específicos. Compreender o compositor em diferentes momentos históricos abre um leque de possibilidades interessante, capaz de gerar debates enriquecedores.

O material apresentado, subdividido em dezesseis tópicos, serve como fonte primária de pesquisa para professores de História, Geografia e demais disciplinas interessados em práticas culturalmente relevantes em sala de aula. As obras elencadas possuem variadas possibilidades de utilização, como motivadoras de debates, texto-base para elaboração de questões e trabalhos ou como síntese de determinados tópicos.

Referências

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CEM ANOS DE LIBERDADE, realidade ou ilusão?. Intérprete: José Bispo Clementino dos Santos. Compositores: TURCO, Hélio; JURANDIR; ALVINHO. In: Sambas-enredo das escolas de samba do grupo 1-A. Rio de Janeiro: RCA, 1987.

FREITAS, Risoleta Viana de; SOUZA, Rayron Lennon Costa. Diáspora e os espaços mnemônicos em "Saga de Agotime, Maria Mineira Naê". Revista de Letras - Juçara, v. 4, nº 1, p. 390-405, 2020.

GAY, Geneva. Preparing for culturally responsive teaching. Journal of Teacher Education, v. 53, nº 2, p. 106-116, 2002.

GUARAL, Guilherme. O Estado Novo da Portela. Jundiaí: Paco, 2012.

HOWARD, Tyrone C. Culturally relevant pedagogy: Ingredients for critical teacher reflection. Theory into Practice, v. 42, nº 3, p. 195-202, 2003.

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Publicado em 11 de janeiro de 2022

Como citar este artigo (ABNT)

SOUZA, João Gabriel Costa de França; LEAL, Aline Ramos. O Brasil do século XIX através do samba-enredo: levantamento inicial de possibilidades ligadas ao ensino culturalmente relevante. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 22, nº 1, 11 de janeiro de 2022. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/22/1/o-brasil-do-seculo-xix-atraves-do-samba-enredo-levantamento-inicial-de-possibilidades-ligadas-ao-ensino-culturalmente-relevante