O processo de adaptação da criança na Educação Infantil: a importância do acolhimento

Biébele Abreu Corrêa

Pedagoga (UENF/Cederj)

Edimilson Antônio Mota

Professor universitário (UFF/Campos)

A criança é um ser que precisa de atenção, amor e estímulos para se desenvolver de forma satisfatória. Dessa forma, elas estabelecem seus primeiros contatos com a família. Ao serem inseridas em um novo ambiente, podem manifestar insegurança, medo e desconforto. A adaptação da criança no ambiente escolar é um processo difícil, pois muitas são as dificuldades encontradas não só pelas crianças, mas também pela família e pelo educador.

O projeto teve por objetivo geral verificar as dificuldades de adaptação e a importância do acolhimento para o aluno na Educação Infantil (EI) de acordo com os educadores e os familiares, bem como as relações interpessoais entre docentes, pais, escola e alunos. Já os objetivos específicos buscam apresentar um breve contexto histórico da EI, mostrando o seu valor para o desenvolvimento pleno da criança, analisando os documentos legais que garantem os direitos educacionais e de aprendizagem dos pequenos. Compreender o processo de adaptação na EI como um mecanismo de crescimento da criança, analisando como ocorre o processo e como o acolhimento pode influenciar na qualidade da adaptação, evidencia a importância da família e o papel do educador junto a criança no ambiente escolar.

O tema proposto é discutido por vários autores e cercado por inúmeros paradigmas e posicionamentos ideológicos. Para contribuir teoricamente ao projeto, foram pesquisadas obras de autores como Balaban (1988), mostrando que a separação não afeta só as crianças, mas também os pais. Ortiz (2000) aponta que a adaptação está vinculada ao acolhimento. Desse modo, estarão referenciados conteúdos de Reda e Ujiie (2009), Rapoport (2005), dentre outros autores fundamentais para a construção desse projeto. Além disso, foram consultadas as legislações educacionais vigentes, que estabelecem normas para o sistema educacional de ensino.

A temática proposta é de grande relevância para a educação escolar e para os pais e responsáveis, visto tratar-se de um processo doloroso que implica em mudanças emocionais e comportamentais no aluno. Nessa perspectiva, o trabalho pretende mostrar como ocorre a adaptação do educando, quais as dificuldades encontradas pelas crianças, pelos familiares e pelos professores e como os acolhimentos estrategicamente pedagógicos podem facilitar na adaptação da criança no ambiente escolar.

Este trabalho justifica-se pelas diversas experiências pessoais vivenciadas como educadora na etapa da EI e por reconhecimento sobre a importância da adaptação e do acolhimento da criança nessa primeira etapa de ensino da Educação Básica, levando-se em consideração aspectos políticos e sociais pertinentes, tais como, a precoce inclusão do aluno no ambiente escolar.

A origem da creche no Brasil

No decorrer da história, a concepção de infância que é reconhecida atualmente passou por inúmeras fases ganhando novas definições ao longo tempo. O conceito de infância veio evoluindo e passando a desenvolver uma visão significativa relacionada à criança. Foram muitas as dificuldades enfrentadas pelas crianças até conseguirem alcançar seus direitos na sociedade.

De acordo com Ahmad (2009), a definição de infância é resultado de uma construção social de vários anos, quando foram necessárias que ocorressem inúmeras vivências e modificações sociais. Por sua vez, ao se transformar, a sociedade passou a ver a infância de outra maneira, alterando a perspectiva que tinha dos pequenos. Assim, eles acabaram ganhando mais importância na sociedade e consequentemente maior atenção em relação ao seu desenvolvimento.

Segundo Kishimoto (1988, p. 24), “o Brasil dá início à organização das primeiras creches no começo deste século [século XX]”. O surgimento das creches estava vinculado às transformações urbanas, políticas e econômicas provocadas na sociedade, provenientes do nascimento das atividades industriais nascidas e desenvolvidas no Brasil. Diante disso, foram produzidas diversas mudanças significativas no contexto social, econômico, na organização das famílias e principalmente na inserção da mulher no mercado de trabalho. Para Paschoal e Machado (2009),

O nascimento da indústria moderna alterou profundamente a estrutura social vigente, modificando os hábitos e costumes das famílias. As mães operárias que não tinham com quem deixar seus filhos utilizavam o trabalho das conhecidas mães mercenárias. Essas, ao optarem pelo não trabalho nas fábricas vendiam seus serviços para abrigarem e cuidarem dos filhos de outras mulheres (Paschoal; Machado, 2009, p. 3).

No Brasil, de acordo com Kishimoto (1988), a creche originou-se como asilos infantis que acolhiam as crianças que estavam desamparadas e privadas de cuidados familiares. O atendimento era feito em extrema miséria, com expansão da área urbana, em consequência do deslocamento das comunidades menos favorecidas que lutavam por condições dignas de vida.

Devido às péssimas condições econômicas vividas pelos pequenos nas instituições, o “trabalho com as crianças nas creches tinha um caráter assistencial-protetor. A preocupação era alimentar, cuidar da higiene e da segurança física” (Oliveira, 2008, p. 100-101). Assim, a instituição do EI era exclusivamente assistencialista cujo intuito era suprir a insuficiência de cuidados básicos, sem preocupar-se com os aspectos pedagógicos, fundamentais à educação das crianças em relação ao desenvolvimento integral.

De acordo com Merisse (1997), o surgimento de movimentos sociais como o Movimento de Luta por Creche, de 1970, foi responsável por reivindicar do poder público o atendimento, o cuidado, os direitos sociais, bem como melhorias estruturais das creches em um ambiente saudável, para o propício desenvolvimento dos pequenos.

Desse modo, por meio do contexto brasileiro apresentado em relação ao surgimento da creche, reconhecemos a importância do papel dos movimentos sociais em prol das reivindicações e do atendimento à infância. Compreende-se que o direito da criança à creche é consequência de uma concepção histórica, social, política e econômica.

Documentos legais que asseguram a Educação Infantil

A creche vivenciou distintas mudanças ao longo de décadas até conquistar um lugar significativo na sociedade. Com a promulgação da Constituição Federal (CF), no final da década de 80, a EI obteve conquistas determinantes relacionadas às creches e pré-escolas, ou seja, passou a ser direito de toda criança de 0 a 5 anos a assistência por amparo legal. A Constituição Federal, de 1988, em seu art. 208, inciso IV, afirma que “dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de: educação infantil, em creche e pré-escola, às crianças até 05 (cinco) anos de idade”. Diante disso, observa-se que a CF foi pioneira em assegurar legalmente os direitos das crianças.  

Após a Constituição supracitada, teve origem o Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei nº 8.069/90 (ECA), que reafirma os direitos fundamentais das crianças e dos adolescentes. No Capítulo IV, refere-se, por exemplo, ao direito à Educação, à Cultura, ao Esporte e ao Lazer, assegurando, no Art. 54, inciso IV, que “é dever do Estado assegurar […] IV – atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a cinco anos de idade”.

No ano de 1996, a EI somou mais conquistas com a promulgação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), n° 9.394/96, que a define como etapa inicial da Educação Básica, promovendo um desenvolvimento integral da criança pequena de forma que, futuramente, venha a ser um indivíduo participativo na sociedade. Tais mudanças estão expostas no Art. 29:

A Educação Infantil, primeira etapa da Educação Básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança de até 5 (cinco) anos, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade (Brasil, 1996).

Com a implantação da LDBEN, nº 9.394/96, a EI passou a promover a inclusão da proposta pedagógica planejada a fim de promover o crescimento social, físico, psicológico e cognitivo da criança, procurando eliminar o caráter puramente assistencialista da creche e enquadrando uma assistência educacional importante para o desenvolvimento integral dos pequenos.

A Base Nacional Curricular Comum (BNCC) é outro documento que rege toda a Educação Básica, sendo obrigatória para todas as instituições escolares públicas e privadas de todo o país. A BNCC pretende assegurar dez competências gerais para toda a Educação Básica dentro dos direitos de aprendizagem já garantidos. Ela foi homologada em 2017 e atribuída especificamente à educação, de acordo com os objetivos definidos na LDBEN, n° 9.394/96. Sua estrutura corresponde aos mesmos padrões e princípios estabelecidos nas Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica (DCN).

Segundo a BNCC, “a entrada na creche ou na pré-escola significa, na maioria das vezes, a primeira separação das crianças dos seus vínculos afetivos familiares para se incorporarem a uma situação de socialização estruturada” (Brasil, 2018, p. 36). Dessa forma, ao ser inserida na escola, a criança começa o seu processo de socialização e adaptação escolar, expandindo sua visão de mundo através de trocas de experiência e convívio diário com outros indivíduos. É por meio desse novo espaço que o aluno cria a capacidade de desenvolver-se e de adquirir conhecimentos fundamentais para a vida.

Adaptação da criança na Educação Infantil e a importância do acolhimento

A Educação Infantil sofreu um grande avanço ao longo dos anos, passando a ser a primeira etapa da Educação Básica, junto ao Ensino Fundamental e Ensino Médio. Essa fase de ensino é muito importante para a criança, pois fornece o embasamento necessário para a construção do processo de aprendizagem que o educando vai adquirir para os próximos segmentos de ensino.

De acordo com Reda e Ujiie (2009, p. 10.083), “o ingresso na Educação Infantil e na vida escolar representa um passo muito grande em direção à independência”. Nessas condições, vale ressaltar que a criança, ao ingressar na escola, inevitavelmente terá que habituar-se ao meio escolar. Consequentemente, o educando criará autonomia para realizar as atividades importantes para seu desenvolvimento.

Esse início de escolarização nem sempre é fácil para todos os alunos, pois cada educando tem um ritmo próprio, possuindo características psíquicas e físicas que podem comprometer a adaptação. Para Reda e Ujiie (2009, p. 10.092), “a adaptação varia muito de criança para criança, segundo suas características afetivo-emocionais e bastante em relação à idade da criança de ingresso na instituição educacional. Não havendo uma solução única para todos os casos”. Além disso, podem ocorrer variações no tempo do aprendizado de criança para criança, ou seja, cada uma delas pode apresentar um período específico e particular de adaptação. De acordo com Rapoport e Piccinini (2001),

A adaptação à creche é um processo gradual em que cada criança precisa de um período de tempo diferente para se adaptar, sendo importante respeitar o ritmo da própria criança e não impor um período pré-determinado para a adaptação. O período de adaptação pode ser mais longo para bebês recebendo cuidados alternativos de má qualidade ou vindo de famílias com problemas. Além disso, faltas frequentes ou irregularidades nos horários de entrada e saída dificultam a adaptação, que pode se estender por mais tempo (Rapport; Piccinini, 2001, p. 93).

De acordo com Balaban (1988), ao separar a criança de seu ambiente familiar, todos os envolvidos são afetados, não só as crianças, mas também os pais e professores. É um começo revelador para os envolvidos, podendo ser uma situação animadora ou desanimadora para os pequenos, fazendo manifestar choros e outros inúmeros sentimentos como medo, ansiedade e tristeza.

Para Rapoport e Piccinini (2001), essas reações não são consideradas as únicas formas de expressão por parte das crianças como indícios de dificuldades de adaptação. Para os autores, podem surgir outras atitudes como “gritos, mau humor, bater, deitar-se no chão, passividade, apatia, resistência à alimentação ou ao sono, comportamentos regressivos e a ocorrência de doenças” (Rapoport; Piccinini, 2001, p. 93). Assim, tais mudanças influenciam no comportamento social e emocional dos pequenos levando-os a apresentar diversas reações físicas e psicológicas em decorrência desse processo. Ortiz (2000) complementa que

grande parte das crianças costuma reagir fortemente à separação de diferentes maneiras, [...] é preciso acolher essas manifestações e conhecer a forma de cada um reagir considerando como natural dentro desse processo, sem rotular a criança a partir disso (Ortiz, 2000, p. 8).

Dessa forma, nesse tempo em que a criança está atravessando uma fase de transição entre o seu meio familiar e a instituição escolar, ou seja, entre o conhecido e o desconhecido, cabe às creches e às pré-escolas, respeitarem o período de adaptação da criança, oferecendo assistência acolhedora aos alunos e a seus familiares. Desse modo, “situações estressantes entre o bebê e o ambiente podem ocorrer se os pais e as educadoras não permitirem ao bebê se adaptar às novas situações em seu próprio ritmo” (Rapoport, 2005, p. 23).

A forma como as crianças são acolhidas ao chegarem à escola é fundamental para sua adaptação. Em outras palavras, quando os pequenos são recebidos pelos educadores, gestores e auxiliares de turma com carinho e atenção, em um ambiente escolar preparado para o acolhimento, com calor humano, transmitindo conforto e segurança física e emocional ao aluno, isso favorece a obtenção de resultados positivos no processo adaptativo.

Segundo Ortiz (2000), durante a adaptação, o acolhimento é muito importante e deve fazer parte do dia a dia da criança, não limitando-se apenas ao início do processo, mas sempre que houver necessidade. É uma etapa que carece de mais atenção. O educador deve aproximar-se do aluno e interagir com ele, de forma a facilitar o convívio dos pequenos com o ambiente educacional. Dessa forma, a acolhida nada mais é do que fazer o educando se sentir bem dentro da instituição escolar.

Para obter sucesso durante esse período, torna-se imprescindível uma acolhida afetuosa na base do respeito, do carinho e do aconchego. A criança precisa sentir-se amparada e confortável, de modo a adaptar-se da melhor forma possível ao novo ambiente. De acordo com Andrade (2016, p. 18), “a maneira como as crianças são acolhidas na Educação Infantil pode ser algo marcante em toda a sua vida”. Assim, a recepção e a atenção que o educando recebe dentro da instituição educacional devem ocorrer do modo mais prazeroso possível, ficando assinalado na memória do aluno e permanecendo no decorrer de sua existência.

O papel do professor e as estratégias para a adaptação da criança

O processo de adaptação é profundamente sensível e demanda atenção, paciência e cuidados específicos, pois é uma fase regada de transições com diversas situações que envolvem o desafio de enfrentamento e amadurecimento do novo, tanto para as crianças quanto para os familiares e educadores. É fundamental que os professores se encontrem capacitados para as dificuldades e imprevistos que possam surgir.

As crianças estão em constante processo de desenvolvimento. Desse modo, “quem trabalha com crianças pequenas sabe o quanto elas mudam e progridem mês a mês e como muitas vezes é difícil adaptar-se a essas mudanças tão rápidas e repentinas” (Oliveira, 2002, p. 38). O educador é figura essencial na adaptação dos pequenos. Ele deve conquistar a confiança dos alunos e dos familiares, receber e assegurar à criança um espaço seguro e tranquilo, propondo atividades dinâmicas para o seu desenvolvimento. Para Reda e Ujiie, "o professor deve ser o mediador principal no contexto da adaptação escolar, não deixando a sala de aula cair na rotina ao mesmo tempo em que ganha a confiança das crianças e familiares” (Reda; Ujiie, 2009, p. 10.058).

Para se obter uma adaptação escolar satisfatória e determinante, torna-se essencial organizar o ambiente educacional e capacitar os professores. Além disso, é preciso atentar-se para o planejamento das atividades para os pequenos e de questionários aos familiares. É fundamental estar em concordância com a realidade vivida pelas crianças que farão parte da instituição escolar. Segundo Reda e Ujiie (2009), “o planejamento, desde o conhecer dessa criança, através de entrevistas e questionários destinados às famílias, à organização de atividades e do próprio espaço pelo qual a criança está inserida ou vai se inserir merece cuidado” (Reda e Ujiie, 2009, p. 10.086).

De acordo com Balaban (1988), o professor pode realizar diversas estratégias didáticas para ajudar as crianças a lidarem com a adaptação, como, por exemplo, atividades lúdicas com tintas e massinha, brincadeiras diversas, rodas de música, teatro, além das tarefas de rotina, como alimentar-se, vestir-se, escolher os brinquedos, entre outras. Estas são algumas ações que promovem ao educando vivenciar conhecimentos e sentir-se especial dentro de um novo espaço.

A influência da família no processo de adaptação da criança na Educação Infantil

A família é o berço de atitudes, comportamentos e valores. Um espaço sociocultural no qual os pequenos são inseridos e acabam absorvendo toda a bagagem de valores sociais, éticos e culturais, influenciando consideravelmente a aprendizagem escolar e socialização dos pequenos. Nessas condições, é fundamental acolher essa diversidade de saberes e singularidades, estendendo essa acolhida não só às crianças, mas aos familiares a fim de estabelecer relações positivas no processo de adaptação.

O desconhecido exige um olhar atento e profundo. Sendo assim, importante entender que os pais também passam por esse período de adaptação, necessitando habituarem-se ao afastamento dos filhos e à atual rotina imposta pela instituição. Os familiares têm que compreender que a separação é importante na vida da criança, pois configura-se como o primeiro passo para a adaptação, a socialização e a autonomia do educando.

Nesse âmbito, Balaban (1988) explica que o vínculo afetivo entre os pais e os filhos é, de fato, muito forte. Quando a criança é posta na escola, o processo de separação pode gerar alguns conflitos, tais como, inquietação, choro, dentre outros. A criança, ao separar-se dos pais, sente-se vulnerável. Cabe ao educador, planejar estratégias que visem ao acolhimento e à inserção dos pequenos nessa nova rotina, trabalhando o sentimento de separação dos familiares.

Para o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI), “a maneira como a família vê a entrada da criança na instituição de educação infantil tem uma influência marcante nas reações e emoções da criança durante o processo inicial” (Brasil, 1998, p. 80). Assim, para o RCNEI, estabelecer vínculos entre os pais e responsáveis com a instituição escolar é uma forma de conhecer melhor os hábitos dos novos alunos, sua cultura e suas preferências.

A trajetória escolar marca a vida dos pequenos, pois tudo vivido nesse período influenciará nas etapas seguintes de ensino. Portanto, para se obter êxito na adaptação da criança na escola é primordial construir uma relação pautada no diálogo, no carinho e na segurança junto à família, para que o aluno consiga desenvolver-se de forma satisfatória.

Resultados e discussão

A coleta de dados constituiu-se por meio da realização de um questionário objetivo. Foram escolhidos dez professores e dez familiares dos alunos, de forma aleatória, para responderem às perguntas. A pesquisa foi realizada na Creche Escola Municipal Parque Guarus, localizada no bairro Parque Guarus, no Município de Campos dos Goytacazes, no Estado do Rio de Janeiro. Em decorrência da pandemia da covid-19, as questões foram respondidas online por meio do aplicativo WhatsApp e via e-mail.  

As dez docentes entrevistadas têm entre 7 e 12 anos de experiência docente na EI. No que se refere à pergunta: “Qual o seu nível de escolaridade?” Três professoras responderam que possuem apenas o Ensino Médio, Curso Normal, Formação de Professores; quatro professoras possuem Licenciatura em Pedagogia e três professoras têm curso de pós-graduação (Lato Sensu). Nenhuma professora declarou ter mestrado ou doutorado.

Com relação às perguntas: “Você considera o processo de adaptação um período simples e rápido para as crianças? Para você, existe um tempo definido para que ocorra a adaptação da criança na escola? Você organiza um planejamento específico voltado para a adaptação educando?”, a pesquisa apontou unanimidade: as dez professoras não consideram a adaptação um período fácil e simples; ao contrário disso, responderam que a etapa é complexa e gradual para a criança e não apresenta tempo determinado para acontecer. Além disso, 100% das docentes buscam sempre elaborar um plano de atividades, com rotinas específicas, direcionado a essa fase.

Para Porcinio e Bernardes (2016), o acolhimento é necessário para a adaptação dos pequenos, uma vez que proporciona segurança para as crianças. Assim, o professor deve preparar um espaço educacional convidativo e atrativo.

Diante disso, as professoras foram indagadas com a seguinte questão: “Para você, a maneira como as crianças são acolhidas na sala de aula pode ser um fator de promoção da segurança e, consequentemente, de melhor adaptação?”. Em resposta a essa pergunta, as dez professoras entrevistadas responderam que o acolhimento é um elemento importante para facilitar a adaptação, garantindo assim confiança e proteção aos pequenos.

Questionadas sobre como realizam o acolhimento, a maioria relatou que procura organizar o ambiente para que seja acolhedor à criança, desenvolvendo atividades lúdicas, como jogos, músicas e conversas informais, além de oferecer carinho, atenção e colo, com o intuito de tranquilizar a criança, criando vínculos afetivos fundamentais para uma boa relação professor/aluno.

Abaixo, pode-se observar algumas falas transcritas de algumas das professoras entrevistadas em relação às perguntas: “Você realiza algum tipo de acolhimento para crianças? Como é feito esse acolhimento?”.

Professora 1: Sim. No período de adaptação escolar se faz necessário promover um ambiente prazeroso, de forma que a criança se sinta segura. Portanto, não se pode visar conteúdos nesse momento, mas sim atividades que promovam a socialização e a interação, vislumbrando centros de interesse, como brincadeiras, jogos, músicas, dança etc., contribuindo para criar vínculo afetivo com o ambiente escolar.

Professora 2:  Sim. A adaptação na Educação Infantil é um processo difícil para a criança, afinal é um ambiente completamente novo, com adultos que ela desconhece e outras crianças que estão passando pelo mesmo processo. É quase um sentimento de luto, perda de senso de pertencimento que tem com seu lar, é um desejo de regressar para sua casa, com pessoas que ela tem como referência. O nosso papel enquanto professores é aliviar esse pequeno trauma e dar a ela a segurança de que ali é um lugar onde ela vai ser cuidada, amparada e educada, onde ela fará amizades e brincará, assim, sempre procuro atividades que promovem a socialização, além de oferecer brinquedos diversificados, contar histórias, entre outras.

Professora 3: Sim. As primeiras semanas são voltadas às atividades lúdicas, em que a criança possa me conhecer e eu também estou conhecendo essa criança. Tento estimular a autoconfiança nessa criança, promovendo um ambiente acolhedor. Além disso, procuro arrumar uma sala bem alegre e aconchegante para receber os alunos, sempre oferecendo carinho, amor, atenção e tendo muita paciência com eles.

Nessas condições, verifica-se que os professores consideram que o brincar é fundamental para proporcionar a interação dos pequenos com outros indivíduos, estabelecendo comunicação e expressão. Afinal, “o brincar facilita o crescimento e, portanto, a saúde; o brincar conduz aos relacionamentos grupais” (Winnicott, 1975, p. 63). Intermediados por brincadeiras, cria-se a formação de vínculos afetivos entre docentes e alunos, favorecendo a confiança entre as partes.

A pesquisa também apontou sobre a importância que os docentes veem na atuação dos familiares nesse período de adaptação. Assim, foram questionados com a pergunta: “Você acha importante a participação dos pais/responsáveis no processo de adaptação da criança?”. 100% dos professores acreditam que a participação ativa dos familiares é muito importante para o período de adaptação da criança, sendo fundamental estabelecer uma parceria entre família e escola. Dessa forma, os docentes acreditam que os familiares precisam estar presentes nesse momento para que o sucesso da adaptação do aluno seja garantido, compreendendo que esse período é conturbado para todos os envolvidos. Segundo Oliveira et al. (2001), a colaboração e o diálogo entre a instituição e os familiares contribuem muito para a criança sentir-se mais tranquila e confiante no novo espaço. Esses laços permitem que um trabalho mais eficiente seja desenvolvido, visando ao bem-estar do educando.

A coleta de dados também permitiu analisar a adaptação da criança no EI, além de verificar o relacionamento estabelecido entre professor e aluno, a participação e o acolhimento dos familiares durante o processo de adaptação.

Nem sempre o ingresso da criança na creche é fácil. Na verdade, implica em um processo sofrido para o aluno, requerendo muita paciência dos envolvidos. Diante disso, os familiares foram indagados sobre: “Como foi o período de adaptação das crianças?” Em resposta, seis familiares disseram que foi um período difícil, três responderam que o período de adaptação da criança foi regular e apenas um familiar afirmou que foi um período bom. Percebe-se que a maioria dos familiares entrevistados relatou que o período de adaptação da criança foi um tanto complexo, com muitos desafios vividos pelos pequenos. O novo ambiente proporcionou trocas de experiências e novas aprendizagens entre os pequenos, no entanto, muitos alunos tiveram dificuldades de adaptarem-se a esse espaço, demonstrando medo, insegurança e certas atitudes que acabaram dificultando o processo de adaptação. Nessas condições, para Perissé (2007),

a adaptação da criança ao novo ambiente é um momento complicado, não só para a própria criança, que precisa enfrentar múltiplos desafios, mas também para a mãe, que sofre psicologicamente a angústia da perda, da incerteza se o filho será bem cuidado e, muitas vezes, a culpa de abandoná-lo nas mãos de estranhos (Perissé, 2007, p. 41).

Em relação à pergunta “Você participou ativamente do processo de adaptação da criança?”, os dez familiares entrevistados responderam que participaram ativamente desse processo, trabalhando de forma conjunta com a instituição a fim de colaborar para que a etapa fosse a menos traumática possível ao educando. Além disso, todos relataram que se sentiram acolhidos pela unidade escolar e que os professores foram de grande importância, favorecendo o convívio das crianças ao demonstrarem afeto, atenção e segurança aos alunos.

Nessas condições, observamos que a instituição Creche Escola Parque Guarus realiza o acolhimento dos pais e responsáveis, respeitando suas diversidades culturais e procurando estabelecer uma boa relação entre ambos. Segundo o RCNEI (1998), é fundamental que a escola receba os pais abraçando suas angústias e suas incertezas, proporcionando tranquilidade e confiança a cada um deles, uma vez que a atenção oferecida aos familiares pode refletir no comportamento das crianças, deixando-as mais seguras ou não.

Indagados se o relacionamento entre professor e aluno, o acolhimento e a organização do espaço podem favorecer a adaptação do educando, os 10 familiares entrevistados consideram que a relação professor e aluno é fundamental para que a criança se sinta acolhida na sala de aula. O docente ao planejar o ambiente deve procurar proporcionar um espaço aconchegante, alegre e prazeroso, onde a criança possa sentir-se confortável em permanecer. Dessa forma, a existência de um espaço acolhedor e de um relacionamento adequado entre docente e aluno baseado no afeto facilita o processo de adaptação da criança, permitindo um melhor desenvolvimento.

Questionados se foi realizada alguma entrevista prévia antes da criança ingressar na instituição, 100% dos pais disseram que passaram por uma entrevista antes do ingresso das crianças na creche. O RCNEI (1998) ressalta que essa entrevista na hora da matrícula do aluno é muito importante para a instituição, pois ela é uma forma da unidade conhecer os hábitos e as preferências dos educandos. Esse diálogo entre instituição e família é o primeiro passo para uma parceria entre ambos.

Considerações finais

Este estudo possibilitou mostrar que a adaptação na EI é um processo desafiador, doloroso, particular, cercado por diversas reações por parte dos alunos, ocasionando muitos conflitos, insegurança e dificuldades não só para as crianças, mas também para pais, responsáveis e docentes. Além disso, o projeto também confirmou que o acolhimento é parte fundamental para garantir o sucesso da adaptação. Assim, é essencial que os profissionais respeitem o espaço e o tempo da criança, transmitindo segurança, confiança e afeto. Ou seja, é importante que realizem o acolhimento a todos de forma especial e sem discriminação.

Diante disso, os objetivos propostos neste trabalho foram atingidos. Após a apresentação de um breve histórico do contexto social da EI e das inúmeras mudanças ocorridas ao longo do tempo. Diante de tais mudanças, o direito à educação em creches e pré-escolas garantidas em leis é uma das mais importantes conquistas da Educação Básica. Além disso, evidenciou-se como ocorre o processo de adaptação do educando no EI e a importância do acolhimento das crianças nesse período, assim como enfatizou-se a importância do papel da família e dos docentes, estabelecendo vínculos afetivos a fim de garantir uma adaptação tranquila aos pequenos.

É imprescindível que se estabeleça uma relação satisfatória baseada no diálogo entre família e escola. A importância da participação dos familiares no período de adaptação dos pequenos é fundamental para estabelecer o processo de socialização da criança com vistas à sua autonomia, visto que quando os pais estão presentes nessa fase de adaptação, a criança sente-se mais confiante em permanecer no novo ambiente. 

Nessas condições, a pesquisa mostrou que os professores organizam um planejamento direcionado a esse período, com atividades voltadas para o lúdico, buscando assim, tornar o ambiente mais dinâmico, alegre e aconchegante, reconhecendo o acolhimento como um fator essencial para promover uma adaptação de qualidade.

Por fim, espera-se contribuir de forma significativa para a melhoria da adaptação da criança no EI, levando os familiares e os professores a refletirem sobre este período tão crucial para o desenvolvimento do educando. É fundamental que a instituição escolar firme uma parceria com a família, não só durante o processo adaptativo da criança na EI, mas também nas próximas etapas de ensino vividas pelos alunos. Além disso, os educadores devem proporcionar o acolhimento aos pequenos, estabelecendo um elo afetivo, elemento chave para facilitar na adaptação da criança à nova rotina, possibilitando a sua socialização, a sua aprendizagem e a sua formação como um ser humano responsável e consciente de seus direitos e deveres. 

Referências

AHMAD, L. A. S. Um breve Histórico da Infância e da Instituição de Educação Infantil. São Paulo: p. eletrônica, 2009. Disponível em: https://monografias.ufrn.br/jspui/bitstream/123456789/2569/6/OProcessoDeAdapta%C3%A7%C3%A3oEAcolhimento_Artigo_2016.pdf. Acesso em: 15 jul. 2020.

ANDRADE, M. I. F. O processo de adaptação e a importância do acolhimento na Educação Infantil. Trabalho de conclusão de curso (Licenciatura em Pedagogia), Centro de Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2016.

BALABAN, N. O início da vida escolar: da separação à independência. Porto Alegre: Artes Médicas, 1988.

BRASIL. Ministério da Educação. Subsecretaria de Educação Básica. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC/SEB, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf. Acesso em: 15 abr. 2020.

______. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 18 jul. 2020.

______. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Disponível em: https://www.gov.br/mdh/pt-br/centrais-de-conteudo/crianca-e-adolescente/estatuto-da-crianca-e-do-adolescente-versao-2019.pdf. Acesso em: 18 jul. 2020.

______. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Brasília: Subsecretaria de Edições Técnicas, 1996. Disponível em:  http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm. Acesso em: 19 abr. 2020.

______. Referencial curricular nacional para a Educação Infantil. Brasília: MEC/SEF, 1998. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/rcnei_vol1.pdf. Acesso em: 10 ago. 2020.

KISHIMOTO, T. M. A pré-escola em São Paulo (1877 a 1940). São Paulo: Loyola, 1988.

MERISSE, A. As origens das instituições de atendimento à criança: o caso das creches. In: MERISSE, A. et. al. Lugares da infância: reflexões sobre a história da criança na fábrica, creche e orfanato. São Paulo: Arte & Ciência, 1997.

OLIVEIRA, Z. M. R. de. Educação infantil: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2002.

______. Educação Infantil: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2008.

______ et al. Creches: crianças, faz-de-conta e cia. Petrópolis: Vozes, 2001.

ORTIZ, C. A diferença entre adaptar-se e ser acolhido. Revista Avisa Lá, São Paulo, v. 2(40), p. 4-8, jan. 2000. Disponível em: https://grupoinfoc.com.br/publicacoes/monografias/BOLSI_Carolina_A_acolhida_inicial_na_educacao_infantil_Pre_Textuais.pdf. Acesso em: 12 ago. 2020.

PASCHOAL, J. D.; MACHADO, M. C. G. A história da Educação Infantil no Brasil: avanços, retrocessos e desafios dessa modalidade educacional. Revista Histedbr On-line, Campinas, nº 33, 2009.

PERISSÉ, P. M. Os desafios da adaptação. Pátio - Educação Infantil, Porto Alegre, n° 13, p. 41-43, mar./jun. 2007.

PORCINO, A. P. C.; BERNARDES, R. S. Para além do cuidar: adaptação e acolhimento na creche. Revista Eletrônica SIMTEC, Campinas, nº 6, p. 207, set. 2016. Disponível em: https://www.riuni.unisul.br/bitstream/handle/12345/5623/gisele_processos_investigativos_final_28_11_2017.pdf?sequence=1&isAllowed. Acesso em: 02 out. 2020.

RAPOPORT, A. Adaptação de bebês à creche: a importância da atenção de pais e educadoras. Porto Alegre: Mediação, 2005.

______; PICCININI, C. O ingresso e adaptação de bebês e crianças pequenas à creche: alguns aspectos críticos. Psicologia, Reflexão e Crítica, 2001. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/prc/v14n1/5209.pdf. Acesso em: 28 ago. 2020.

REDA, M. G.; UJIIE, N. T. A Educação Infantil e o processo de adaptação: as concepções de educadoras da infância. IX CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO – EDUCERE. III ENCONTRO SUL BRASILEIRO DE PSICOPEDAGOGIA, 2009. Disponível em: https://educere.bruc.com.br/arquivo/pdf2009/2496_1090.pdf. Acesso em: 15 maio 2020.

WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Trad. José Octávio de Aguiar Abreu e Vanede Nobre. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

Publicado em 05 de abril de 2022

Como citar este artigo (ABNT)

CORRÊA, Biébele Abreu; MOTA, Edimilson Antônio. O processo de adaptação da criança na Educação Infantil: a importância do acolhimento. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 22, nº 12, 5 de abril de 2022. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/22/12/o-processo-de-adaptacao-da-crianca-na-educacao-infantil-a-importancia-do-acolhimento

Este artigo ainda não recebeu nenhum comentário

Deixe seu comentário

Este artigo e os seus comentários não refletem necessariamente a opinião da revista Educação Pública ou da Fundação Cecierj.