A interdisciplinaridade como facilitadora da inclusão e enriquecimento da aprendizagem: um estudo de caso

Karina Fideles Filgueiras

Doutora em Educação (FaE/UFMG), psicóloga clínica e educacional, professora no curso de Ciências Biológicas da PUC-MG (unidade Coração Eucarístico), coordenadora do projeto de extensão Enriquecimento da Aprendizagem para o Desenvolvimento de Habilidades

Sônia Firmato Fortes

Graduanda em Psicologia (PUC-MG), monitora voluntária do projeto de extensão Enriquecimento da Aprendizagem para o Desenvolvimento de Habilidades

O presente artigo tem como objetivo encontrar formas de aprimorar atividades e explorar diversas áreas do conhecimento para abarcar inteligências variadas a partir da Teoria de Inteligências Múltiplas, de Howard Gardner. As experiências vividas em grupos de enriquecimento de aprendizagem, propõem-se delimitar novos horizontes de pesquisa sobre a temática da interdisciplinaridade como possibilidade de enriquecimento de práticas educativas direcionadas a indivíduos com altas habilidades/superdotação.

Portanto, o projeto de extensão Enriquecimento da Aprendizagem para Desenvolvimento de Habilidades (HEAD), tem como principal objetivo enriquecer a construção do entendimento de crianças com altas habilidades/superdotação (AH/SD), bem como articular as habilidades sociais e intrapessoais do público envolvido, ampliando e diversificando os campos de compreensão.

No que diz respeito à faixa etária dos participantes, estas correspondem a indivíduos de 6 a 13 anos, sendo uma maioria de 6 a 11 anos, faixa considerada como terceira infância ou período no qual desenvolve-se a atenção seletiva, capacidade de filtrar as informações desnecessárias (Papalia; Feldman, 2013, p. 329).

Perpassando o conceito referenciado sobre altas habilidades/superdotação, é relevante trazer como base de sustentação a Teoria dos Três Anéis, proposta por Joseph Renzulli (2004, apud Suhr; Zago, 2020), cuja influência está na concepção sobre as inteligências múltiplas, de Gardner. De acordo com o psicólogo norte-americano, a superdotação é percebida a partir de três aspectos básicos: a habilidade acima da média em alguma área do conhecimento, o envolvimento com a tarefa e a criatividade.

Dentro desse campo específico de atuação, trabalha-se um planejamento de atividades semanais definidas a partir do modelo triádico de enriquecimento, proposto por Renzulli e Reis (1997, apud Chagas; Maia-Pinto; Pereira, 2007). O modelo consiste em três tipos básicos de atividades com propostas: (a) explanatórias gerais, (b) de treinamento em grupo e (c) investigações individuais ou em pequenos grupos de problemas reais.

Desse modo, ao mesmo tempo que crianças com possuem uma facilidade de absorver certos conteúdos ou dominar habilidades, a proposta exige que se compreenda que o grupo em questão ainda se encontra em processo de formação, por isso, está longe de ser visto como um grupo maduro ou de “miniadultos”. A utilização de enriquecimento das propostas oferecidas traz, ao grupo, oportunidades de explorar saberes que não são levados às escolas, ao mesmo tempo que são pensadas formas particulares de interação com este público, a partir de uma linguagem mais acessível e direta (Minello, 2017; Avelar; Filgueiras; Nogueira, 2021).

Considerações sobre interdisciplinaridade

É de grande importância, nos dias atuais, pensar sobre o tema deste trabalho, posto que é parte do processo pedagógico abordar a questão da interdisciplinaridade como partícipe do processo de enriquecimento de aprendizagem e da inclusão. Observa-se que o significado da interdisciplinaridade sob a perspectiva escolar, liga-se a uma troca de experiências entre os diversos sujeitos das mais diversificadas áreas, afetando não só quem está na posição de aprendiz, mas também àqueles que são educadores (Minello, 2017). 

A inclusão não cabe no paradigma tradicional da educação, requer um modelo diferente das propostas existentes. Essa proposta diferenciada parte dos conhecimentos, experiências e práticas pedagógicas desses profissionais. Dos professores interagirem com seus colegas, formarem grupos de estudos nas escolas para discussão e compreensão dos problemas educacionais sob a luz do conhecimento científico e da interdisciplinaridade (Barba, 2003, apud Chesani et al., 2007).

Importante dizer quão significativo é o envolvimento do professor e da equipe educadora em relação ao compromisso constante em avaliar seus desempenhos frente a árdua tarefa de motivarem seus alunos (Delors, 2000, apud Minello, 2017). Tendo isso em vista, é possível compreender o envolvimento de uma equipe bem integrada, articulando suas redes de saber com o fito em trazer, para o processo pedagógico, uma maior relevância sobre os temas tratados.

Apesar do avanço em relação a essa percepção, vê-se uma relutância no campo pedagógico em relação às práticas interdisciplinares. Assim, ao experienciar a educação tal como entende-se “tradicional”, a criança passa por uma série de saberes isolados para poder adaptá-los em um contexto. Para garantir e incentivar a adaptação do aluno, é de suma importância que exista um apoio pedagógico que sistematize o conhecimento, visto que as informações obtidas vêm de forma fragmentada e com pouco estímulo à reflexão (Minello, 2017).

A interdisciplinaridade é abrangente em se tratar de propor um ensino menos fragmentário do conhecimento e vai além com os pressupostos de trazer para o campo educacional o peso significativo das relações cotidianas para a aprendizagem de um conhecimento tido como totalidade (Pires; Rodrigues, 2017).

Assim, observa-se uma consequência dessa fragmentação curricular como um prejuízo motivacional a partir da dificuldade do aprendiz em colocar, em perspectiva, práticas das informações obtidas em sala de aula, sendo, portanto, uma necessidade constante, a avaliação sobre o que é planejado e o quanto desse planejamento é efetivamente compreendido.

Isso posto, o caráter rígido e vertical de uma educação tradicional e seccionada, certamente, dificultará no processo de motivação e de estimulação do discente, interferindo de modo central no processo de aprendizagem e de socialização (Adão; Fernandes; Oliveira, 2013). Ao proporcionar a troca de saberes, é possível que diversas inteligências sejam abarcadas e conectadas por meio das interações realizadas pelo aprendiz, cujo papel ultrapassa o de um mero espectador.

Como previsto pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/96), é reconhecido o direito de atendimento educacional especial para alunos com altas habilidades/superdotação (Brasil, 1996). Para o atendimento destas necessidades, o Projeto HEAD trabalha com as potencialidades de cada um, tanto das crianças quanto dos extensionistas envolvidos, de forma a desenvolver atividades enriquecedoras com propósitos claros, fugindo da repetitividade de muitas escolas tradicionais (Alencar; Virgolin, 1999, apud Barbosa; Rangel; Simonetti, 2005).

Nesse sentido, é necessário o estudo contínuo da relação entre a interdisciplinaridade e as altas habilidades, a fim de que a própria estruturação da educação inclusiva possa seguir de forma a enriquecer o processo de ensino-aprendizagem.

Estudo de caso

O projeto de extensão Enriquecimento da Aprendizagem para Desenvolvimento de Habilidades (HEAD) iniciou-se no 1° semestre, de 2021, no dia 15 de março, propondo como primeira atividade um mapeamento com as crianças acerca de seus interesses e como essas crianças poderiam pensar sobre o tema Moda e Sustentabilidade. A partir desse primeiro contato, pode-se delimitar outras temáticas que seriam trabalhadas nos demais encontros.

À medida que assuntos relacionados ao mundo da moda eram trabalhados, as crianças mostravam-se cada vez mais avessas à temática. De acordo com elas próprias, devido a repetitividade das informações.

Os extensionistas, então, após as queixas, propuseram-se a realizar adaptações nas atividades a fim de aproximar e dialogar com o tema “Moda” outras áreas de saber dos alunos envolvidos, tais como assuntos da Química, da Psicologia, da Medicina etc. Alcançando maior abrangência dos interesses das crianças, os próprios extensionistas sentiram-se enriquecidos após o planejamento e na elaboração de cada atividade.

A equipe do projeto HEAD contou com 23 estudantes universitários de diferentes cursos de graduação. A Tabela 1 descreve, em números absolutos, a contribuição percentual das diversas áreas do conhecimento.

Tabela 1: Relação de Extensionistas no Projeto HEAD 1°/2021

Curso

Número absoluto

Porcentagem

Engenharia de Software

1

4,35%

Engenharia Química

1

4,35%

Fonoaudiologia

5

21,73%

Medicina

2

8,69%

Medicina Veterinária

1

4,35%

Psicologia

13

56,52%

Percebe-se uma quantidade bem maior de alunos do curso de Psicologia e de Fonoaudiologia se comparada com outros cursos, destacando-se, assim, uma variedade de saberes que dialogam durante a realização das tarefas. Essa variedade é fundamental para uma visão mais ampla sobre os conhecimentos (Smole; Diniz, 2001, apud Minello, 2017).

Em um dos encontros foi realizado o Dia de Curiosidades e Talentos, um espaço aberto para as crianças colocarem-se no lugar de ensinar algo ou apresentarem-se sobre um assunto que gostassem. A atividade permitiu trazer interesses pessoais de uma forma sistematizada e o resultado mostrou-se bastante positivo, ao passo que abriu um espaço para que a criança se sentisse detentora de um saber, podendo contribuir para o aprendizado de outros.

Além dos extensionistas mencionados na tabela, o projeto contou com a parceria de outros cursos de graduação, dentre eles o curso de Física, de Biologia e de Fisioterapia. Cada curso foi convidado a planejar atividades para as crianças. No final do semestre, ao questionar as crianças a respeito da experiência, constatou-se uma resposta positiva, com ênfase na possibilidade de experimentar novas atividades a partir dos interesses despertados com as aulas interdisciplinares pela diversidade de conteúdos trazidos, sem sobrecarregar os alunos com tarefas repetitivas.

Pode-se perceber, que houve uma relação positiva sobre a aprendizagem a partir da interdisciplinaridade, possibilitando uma flexibilidade no processo de motivação das crianças e nas trocas de saberes entre si.

Referências

ADÃO, Jorge Manuel; OLIVEIRA, Rosymari de Souza; FERNANDES, Ivoni de Souza. Altas habilidades/superdotação: enriquecimento escolar como proposta de atendimento.  XI CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO EDUCERE, 2013. Anais... Curitiba, p. 20.660-20.669, 2013.

AVELAR, Mayra Stephanie Santos; FILGUEIRAS, Karina Fideles; NOGUEIRA, Iasmim Faria. Familiares de crianças com altas habilidades/superdotação: anseios e percepções expressos em uma intervenção durante a pandemia. Expressa Extensão, Pelotas, v. 26, nº 1, p. 31-43, jan./abr. 2021.

BARBOSA, Maria Claudia Dutra Lopes; SIMONETTI, Luci Gelabert; RANGEL, Mary. Relato da vida escolar de pessoas com o transtorno obsessivo-compulsivo e altas habilidades: a necessidade de programas de enriquecimento. Revista Brasileira de Educação Especial [online], v. 11, nº 2, p. 201-222, 2005. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S1413-65382005000200004.

BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei nº 9.394. Brasília: MEC, 1996.

CHAGAS, Jane Farias; MAIA-PINTO, Renata Rodrigues; PEREIRA, Vera Lúcia Palmeira. Modelo de enriquecimento escolar. In: FLEITH, Denise de Souza (Org.). A construção de práticas educacionais para alunos com altas habilidades/superdotação. v. 2 - Atividades de estimulação. Brasília: MEC/Seesp, 2007.

CHESANI, Fabíola Hermes et al. Educação Inclusiva: a percepção dos professores do ensino regular sobre a interdisciplinaridade. XI ENCONTRO LATINO-AMERICANO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA; VII ENCONTRO LATINO-AMERICANO DE PÓS-GRADUAÇÃO. Anais... Disponível em: http://www.inicepg.univap.br/cd/INIC_2007/trabalhos/saude/inic/INICG00325_01C.pdf.

MINELLO, Roberto Domingos. Práticas educativas: a interdisciplinaridade como estratégia para a aprendizagem no Ensino Fundamental. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento, ano 2, ed. 1, v. 1, p. 220-239, abr. 2017.

PAPALIA, Diane E.; FELDMAN, Ruth D. Desenvolvimento humano. 12ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.

PIRES, Ennia; RODRIGUES, Andrêssa. Uma análise da interdisciplinaridade na docência universitária: a percepção dos professores da UESB. Revista Triângulo, Uberaba, v. 10, nº 1, p. 3-21, jan./jun. 2017.

RENZULLI, J. S. O que é esta coisa chamada superdotação, e como a desenvolvemos? Uma retrospectiva de vinte e cinco anos. Revista Educação, Porto Alegre, ano XXVII, nº 1, jan./abr. 2004.

______; REIS, S. M. The schoolwide enrichment model: How to guide for educational excellence. 2ª ed. Mansfield Center: Creative Learning Press, 1997.

SUHR, Inge Renate Fröse; ZAGO, Caroline Resende. Altas habilidades/superdotação e ensino médio integrado: reflexões e proposições. Produto educacional (Mestrado Profissional em Educação Profissional e Tecnológica), Instituto Federal Catarinense, Blumenau, 2020.

Publicado em 12 de abril de 2022

Como citar este artigo (ABNT)

FILGUEIRAS, Karina Fideles; FORTES, Sônia Firmato. A interdisciplinaridade como facilitadora da inclusão e enriquecimento da aprendizagem: um estudo de caso. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 22, nº 13, 12 de abril de 2022. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/22/13/a-interdisciplinaridade-como-facilitadora-da-inclusao-e-enriquecimento-da-aprendizagem-um-estudo-de-caso

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