Relato de caso: acolhimento de criança autista e sua mediadora no Infantil II do CEI São Gabriel

Francisca Heleara Cavalcante Felix

Médica veterinária, analista de comportamento aplicado, psicopedagoga e mediadora

A escola é o lugar ideal para se trabalhar o faz de conta e a abstração por meio das brincadeiras. Assim, o aluno é estimulado a explorar o mundo, interagindo e expondo suas opiniões e desejos, desenvolvendo uma melhor percepção do outro e uma correta compreensão das instruções verbais recebidas pela equipe pedagógica. Para tanto, alunos autistas necessitam de uma atenção individualizada, a fim de aprenderem determinados registros de comportamentos.

De acordo com Carlo Schmidt (2014), os transtornos do espectro do autismo (TEA) geram prejuízo na qualidade da comunicação social. A criança com TEA é descrita com dificuldades em socialização e com comprometimento na sua comunicação devido aos padrões de interesses restritos.

A palavra mediação vem do latim mediatio, ou entremeio. Segundo Desvallées e Mairesse (2013, p. 52), o termo consiste em um terceiro elemento, que se localiza entre dois polos e atua como um intermediário. Davallon, em 2007, afirma que o mediador promove uma modificação da situação sob a forma de dispositivo humano produzindo um efeito no destinatário da comunicação, valorizando e respeitando o sujeito, sem instrumentalizá-lo. O mediador promove a ponte entre aluno e professor, verificando a eficácia da linguagem receptiva e quando ocorre deficiência no contato entre as partes, cabe ao mediador fazer o link da comunicação professor-aluno.

A mediação tem por meta conhecer as habilidades do aluno, verificar o seu melhor modo de aprendizagem, buscar a interação professor-aluno e permitir que o educando reconheça o ambiente como acolhedor para que possa realizar as atividades propostas pelo currículo escolar. Muito importante é permitir ao aluno autista um tempo maior de adaptação, não exigindo igualdade, mas equidade.

Para alcançar o objetivo de registrar a inclusão de uma criança autista, descrevendo suas facilidades e dificuldades na Educação Infantil da cidade de Fortaleza, Ceará, a metodologia utilizada construiu-se como uma pesquisa qualitativa básica, descritiva de campo, utilizando o método de estudo de caso. Foi realizada, portanto, por meio da anotação de dados, verificando a espontaneidade das ações nos registros obtidos, intermediada pelo princípio da naturalidade, estudando os fatos em seu modo natural, utilizando-se da pesquisa descritiva documental e tendo, como ferramenta de coleta, a observação sistemática da equipe e dos alunos, assim como a análise das técnicas pedagógicas e das abordagens de campo.

O acolhimento inclusivo

A. H. F. N., dois anos de idade, autista não verbal, foi matriculado no CEI São Gabriel, em Fortaleza, Ceará, no ano de 2017. Contando com uma equipe concursada e de profissionais experientes, o Centro Educacional Infantil São Gabriel demonstrou preparo à inclusão ao receber o aluno especial em suas instalações, desde o momento inicial da entrega da documentação para a matrícula até a apresentação do aluno em sala de aula.

O CEI São Gabriel localiza-se na zona urbana, distrito 2 da Prefeitura de Fortaleza, e funciona em período integral, com horários para banhos, refeições, descanso e brincadeiras. Quanto à estrutura física da escola, esta é parcialmente insuficiente, pois necessita de reformas tanto dentro das salas como nas áreas externas.

As crianças do CEI recebem cinco refeições diárias: desjejum, colação, almoço, lanche e refeição da tarde. Quanto à alimentação, o aluno A. H. F. N. é alérgico a leite, ovo e soja, tornando-se necessário um cardápio adaptado. A opção da família foi levar a alimentação ao invés de receber alimentação adaptada. O motivo seria a existência de uma grande seletividade alimentar por parte do aluno, tornando difícil sua adaptação às mudanças no cardápio, assim como as mudanças nas formas e nas cores dos alimentos.

Essa medida foi tomada visando evitar uma dificuldade na adaptação da criança ao novo ambiente. O foco da família era a adaptação de A. H. F. N. à escola e a sua socialização. Do mesmo modo, buscou-se manter como mediadora, a profissional que já acompanhava A. H. F. N., externamente, e que já conhecia suas facilidades e fraquezas a fim de evitar quaisquer obstáculos na mediação adaptativa do aluno no CEI, na Educação Infantil II.

A ida à escola não apresentou grandes problemas, porém muitas vezes o aluno chegava somente usando uma fralda, pois nos anos iniciais, A. H. F. N. demonstrava sensibilidade sensorial ao se vestir e ao se despir, tornando as tarefas bastante difíceis. Deste modo, ainda dentro do carro, a mediadora o vestia, conseguindo entrar na escola da mesma forma que os demais alunos. No momento do asseio, A. H. F. N. recusava-se ao banho, porém, após a adaptação realizada pela mediadora e utilizando-se de banheira própria, acondicionada no próprio CEI, com o tempo, passou a aceitar o banho.

A professora da classe acolheu A. H. F. N. de forma bastante profissional, fazendo o mesmo com a sua mediadora. Em sala de aula, a professora promovia as tarefas com adaptações para A. H. F. N. quando necessário. Como parte do processo, o aluno A. H. F. N. saía e entrava em outras turmas do Infantil I e Infantil III. As educadoras, nessas salas, realizavam excelentes recepções a A. H. F. N., pois, ao invés de vê-lo como um empecilho à continuidade das aulas, acolhiam-no nas tarefas de forma a incluí-lo. Assim, os outros alunos o recebiam pelo nome e com sorrisos, pois compreendiam e aceitavam o comportamento diferenciado de A. H. F. N. Observava-se, portanto, uma recepção positiva, pois todos tentavam auxiliá-lo, mostrando boa socialização.

Importante relatar que a professora titular da turma afirmava não possuir curso de especialização ou treinamento para atuar com crianças especiais, porém sua motivação e dedicação ao ensino, assim como seus valores pessoais, a fizeram obter sucesso como professora de criança com TEA. Chiavenato (2000, p. 302) afirma que

a motivação representa a ação de forças ativas e impulsionadoras: as necessidades humanas. As pessoas são diferentes entre si no que tange à motivação. As necessidades humanas que motivam o comportamento humano produzem padrões de comportamento que variam de indivíduo para indivíduo.

Após o almoço, todas as crianças dormiam em colchonetes e lençóis fornecidos pela Prefeitura de Fortaleza. O fato de A. H. F. N. não conseguir dormir atrapalhava o descanso das outras crianças. Desse modo, após horários de almoço, a mediadora resolveu levar A. H. F. N. de volta para a sua casa. Nesse caso, as atividades que seriam realizadas nos horários da tarde com A. H. F. N. eram adaptadas para que fossem feitas com a turma toda pela manhã, evitando assim que A. H. F. N. perdesse qualquer atividade.

A ida ao pátio externo para brincar e praticar atividades físicas com a turma não gerava em A. H. F. N. interesse, pois tinha um problema relacionado à função real. Durante as festividades da escola, A. H. F. N. preferia ficar dentro da sala de aula vazia, para evitar os barulhos da festa e o excesso de pessoas andando. Entretanto, participava das festividades, só seguindo para a sala de aula com a mediadora após sentir necessidade do silêncio e da quietude.

Importante mencionar que A. H. F. N. não demonstrou nenhum distúrbio comportamental após o horário escolar, o que comprova a sua excelente adaptação no CEI São Gabriel.

Considerações finais

O trato pedagógico da diversidade exige o reconhecimento da diferença. Um olhar diagnóstico buscando avançar na construção de práticas educativas que englobe todas as crianças com o desafio da mudança, educando para a diversidade e inclusão é fundamental para celebrar os avanços, reconhecendo e respeitando os limites do outro.

A equipe do CEI São Gabriel, ainda que tenha dificuldade nas formações dos professores, se esforça na promoção da inclusão de alunos com deficiência, buscando promover atendimentos de qualidade a partir das especificidades de cada criança, como no caso de A. H. F. N.

Sendo assim, a meta em buscar a inclusão ao invés de somente um agrupamento de alunos realizou-se com sucesso, respeitando e valorizando a todos de forma equânime, independentemente de suas características individuais. No caso de A. H. F. N., a mediadora obteve sucesso em sua atuação, promovendo a ponte entre o aluno e o professor, assim como entre o aluno e seus demais colegas.

A inclusão requer mudança de paradigma, com contribuições trazidas pela pesquisa em conjunto. O relato de acompanhamento de A. H. F. N. deixa claro o empenho da equipe escolar, assim como demonstra que mesmo a falta de preparo especializado não impede que os profissionais atuem de forma eficaz, transformando a experiência escolar em um processo inclusivo eficiente.

Isso posto, um acolhimento excelente mediado com efetividade para A. H. F. N., com o auxílio da equipe do CEI São Gabriel, gerou boas perspectivas para a inclusão de novas crianças com TEA na Educação Pública Infantil da cidade de Fortaleza, Ceará, comprovando que uma escola pública, gratuita, universal e de qualidade pode ser alcançada.

Referências

CHIAVENATO, Idalberto. Recursos humanos. 3ª ed. São Paulo: Atlas, 2000.

DAVALLON, J. A mediação: a comunicação em processo? Prisma: Revista de Ciências e Tecnologias de Informação e Comunicação, Porto, nº 4, p. 3-36, jun. de 2007. Disponível em: https://ojs.letras.up.pt/index.php/prismacom/article/view/2100/3046. Acesso em: 05 ago. 2021.

DESVALLÉES, A.; MAIRESSE, F. (Eds.). Conceitos-chave de museologia. São Paulo: Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Museus; Conselho Internacional de Museus; Pinacoteca do Estado de São Paulo; Secretaria do Estado de Cultura, 2013. Disponível em: https://www.academia.edu/20560151/Conceitos_chave_de_museologia_Sob_a_dire%C3%A7%C3%A3o_de_Andr%C3%A9_Desvall%C3%A9es_e_Fran%C3%A7ois_Mairesse. Acesso em: 05 ago. 2021.

SCHMIDT, CARLO (Org.). Autismo, educação e transdisciplinaridade. Campinas: Papirus, 2014. (Série Educação Especial).

Publicado em 26 de abril de 2022

Como citar este artigo (ABNT)

FELIX, Francisca Heleara Cavalcante. Relato de caso: acolhimento de criança autista e sua mediadora no Infantil II do CEI São Gabriel. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 22, nº 15, 26 de abril de 2022. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/22/15/relato-de-caso-acolhimento-de-crianca-autista-e-sua-mediadora-no-infantil-ii-do-cei-sao-gabriel