Atividade experimental no ensino e aprendizagem de Botânica: relato de experiência no Curso Técnico Integrado em Meio Ambiente

Carla Regina Oliveira Raggi

Licenciada em Ciências Biológicas (Cederj/UFRJ), assistente de alunos do IFF - Câmpus Bom Jesus do Itabapoana/RJ, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação Profissional e Tecnológica

Adelson Siqueira Carvalho

Doutor em Informática na Educação (UFRGS), docente do Curso de Engenharia em Controle e Automação do IFF - Câmpus Campos-Centro, do mestrado profissional em Ensino e suas Tecnologias e no mestrado profissional em Educação Profissional e Tecnológica

Entre as modalidades didáticas no ensino, diversos estudos apontam que as atividades ou práticas experimentais contribuem significativamente na apreensão de conceitos e sua aplicação na resolução de problemas. Nesse contexto se insere o ensino de Botânica na Educação Básica, caracterizado por práticas fragmentadas, com extenso conteúdo acompanhado de ampla nomenclatura que, para o aluno, muitas vezes, não representa significado algum ou que esteja relacionado a algum aspecto do seu cotidiano (Freitas et al., 2012; Krasilchic, 2019).

Na disciplina de Biologia, a abordagem da Botânica é conhecida por ser conteudista, enfadonha, de difícil compreensão, geralmente deixada como último conteúdo a ser tratado na ementa escolar, sendo observado distanciamento até mesmo dos professores em relação à temática. Com efeito, isso resulta em pouca apreciação pelos alunos, que, em grande parte, só recorrem ao conteúdo de forma específica quando necessitam se preparar para provas e exames como o vestibular.

Desenvolvimento de atividade experimental: proposta de ensino em tempos de pandemia

Pesquisas desenvolvidas por Moul e Silva (2017), Lemos (2016), Matos et al. (2015) sobre o ensino de Botânica reforçam que uma abordagem conteudista é pouco atrativa aos estudantes. Dificuldades na compreensão dos conteúdos resultam em desinteresse pelo estudo e estão associadas a muitos fatores, como densidade conceitual e dificuldades em associar os termos botânicos aos processos vitais, sem haver articulação com situações do cotidiano.

Quanto à prática docente, pode-se destacar a pouca disponibilidade de tempo em trabalhar a gama de conteúdo programático, somada a condições materiais inadequadas ou insuficientes, com destaque para a ausência de estratégias didáticas que possibilitem uma aproximação da teoria com a realidade, sobretudo que façam sentido para a vida do aluno (Matos et al., 2015; Silva et al., 2012).

Além disso, a vasta terminologia científica representa muitas vezes um interminável glossário conceitual, é ministrada em aulas expositivas sem produzir significado; consequentemente, aprofunda incompreensões que vão reproduzindo atuações negativas nos processos educativos, resultando em uma aprendizagem mecânica, altamente memorística e desvinculada da realidade, tornando o ensino e o aprendizado desinteressantes e sem sentido (Moul; Silva, 2017).

Vale salientar que muitos aspectos ligados à aprendizagem envolvem dificuldades dos educandos para estabelecer ligações entre o objeto de estudo e sua aplicação prática. Do mesmo modo, isso é identificado entre o conteúdo de morfologia vegetal e as finalidades ecológicas ou para a manutenção dos processos vitais.

Nesse contexto, infere-se que o estudo da morfologia floral possui papel relevante como subsídio para a compreensão de conteúdos mais específicos ou que abordem áreas correlatas à Botânica.

Desenvolver atividades experimentais demonstra ser um elemento de estímulo e engajamento dos alunos, sendo também uma estratégia diferenciada para estabelecer conexão com outras temáticas que tratam assuntos de Botânica em geral.

Com efeito, estudos demonstram que a adoção de uma abordagem interdisciplinar torna o ensino e a aprendizagem mais significativos, estendendo-se não somente aos alunos como também para melhorias no trabalho docente (Freitas et al., 2012).

Com base no exposto, foi elaborada e implementada uma atividade prática simples que promovesse maior aproximação dos estudantes com os conceitos abordados durante o estudo do Reino Plantae, particularizando a morfologia floral.

Metodologia

A atividade prática de dissecação da unidade reprodutiva foi desenvolvida de forma remota com dezesseis alunos do 3º ano do Ensino Médio Integrado em Meio Ambiente do Instituto Federal Fluminense - Câmpus Bom Jesus do Itabapoana/RJ, público-alvo da pesquisa.

Para essa prática foi utilizada a flor Hibiscus,da família botânica Malvaceae, popularmente conhecida como brinco-de-princesa ou graxa; essa seleção ocorreu por ser um material biológico de fácil aquisição, como também pela presença de floração constante ao longo do ano, podendo ser encontrada em diversos espaços, como jardins, quintais, praças públicas, áreas urbanas e rurais.

A presente pesquisa apresenta abordagem qualitativa e descritiva; a natureza qualitativa, conforme Marconi e Lakatos (2010, p. 171), permite formular questões que proporcionem maior familiaridade com um fato ou fenômeno, além de compreender aspectos da realidade que necessitem maior reflexão. 

O desenvolvimento do experimento seguido da elaboração do glossário pode refletir alguns desses aspectos, ampliando novas compreensões.

No processo de implementação da atividade prática, foi construído um grupo no aplicativo WhatsApp para acompanhar as fases de execução do experimento pelos alunos do 3º ano. Nesse grupo foram enviados vídeos explicativos curtos feitos no celular sobre os materiais a serem utilizados e os procedimentos adotados durante o processo de dissecação da flor; além disso, foram postadas orientações de segurança na obtenção do recurso escolhido, que, caso não fosse encontrado, o aluno poderia substituir, reproduzindo a prática utilizando recursos alternativos, construindo o glossário a partir de desenhos, recorte de figuras de revistas, jornais ou reprodução da flor em material colorido, como o EVA.

Após a prática e confecção do glossário floral, foi solicitado aos estudantes que postassem as fotos da atividade no grupo do WhatsApp; ali as imagens foram analisadas, sendo observados aspectos diversos, como organização e escrita, sobretudo a relação das estruturas com sua função.

Resultados e discussão

A prática foi realizada na residência dos estudantes, adaptada para a forma remota em função do período de excepcionalidade (pela covid-19); embora tenha ocorrido nessa modalidade, atendendo aos critérios definidos para as atividades pedagógicas não presenciais (APNP), foi possível desenvolver as fases e os procedimentos da dissecação para a construção do glossário.

Utilizando as peças florais do material biológico obtido em coleta, os alunos relacionaram corretamente as formas e estruturas às respectivas funções que desempenham na unidade reprodutiva. As Figuras 1 e 2 ilustram as fases do experimento realizado.

Figura 1: Separação e colagem de estruturas florais realizada por estudante do 3º MA

As estruturas referentes a pedúnculo (ou pedicelo), receptáculo, sépala, pétala, corola (conjunto das pétalas), partes componentes do gineceu (ovário, estilete, estigma), tubo polínico e estruturas do androceu: estames (filete e antera), foram identificados, descritos e relacionados em todos os glossários, isto é, nos dezesseis relatórios enviados, correspondentes aos dezesseis alunos que participaram da atividade.

Os estudantes separaram e organizaram o material, procederam à colagem e utilizaram as próprias peças florais como estruturas de ligação para os termos botânicos que foram pesquisados.

Figura 2: Separação e colagem das peças florais

Observa-se na atividade experimental uma importante estratégia para o desenvolvimento da alfabetização científica que pode ser vivenciada na prática e com recursos simples disponíveis em ambiente natural, tornando o aprendizado em Botânica mais atrativo e significativo.

Considerações finais

Embora as atividades de natureza experimental sejam pouco utilizadas no ensino de Biologia, particularmente no ensino de Botânica, em função de diversos fatores como amplitude de conteúdo, carga horária insuficiente, possíveis dificuldades na obtenção de recursos, entre outros que tornam esse ensino pouco atrativo, é importante ressaltar que iniciativas pedagógicas desenvolvidas em torno dessa estratégia vêm mostrando contribuições importantes na aprendizagem de temáticas que articulam conteúdos em Botânica (Krasilchic, 2019).

De modo específico, isso foi perceptível na atividade de morfologia floral aplicada à turma do 3º ano em Meio Ambiente, em que, nos glossários, os estudantes associaram corretamente a maior parte das estruturas dissecadas ao seu respectivo conceito e função.

O período de excepcionalidade imposto pela covid-19 exigiu adaptações que possibilitaram refletir sobre o desenvolvimento de atividades diferenciadas na educação. A realização do experimento sobre o estudo da morfologia floral permitiu ampliar o conhecimento para além da possível apreensão de conceitos e construção de habilidades previstas no currículo (Brasil, 2016), proporcionando maior integração dos estudantes ao meio em que se encontram, despertando para a valorização dos recursos naturais disponíveis nos ecossistemas.

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Educação é a base. Versão final. Brasília: MEC, 2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf. Acesso em: 17 jun. 2021.

______. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense câmpus Bom Jesus do Itabapoana. Projeto pedagógico do Curso Técnico em Meio Ambiente Integrado ao Ensino Médio. Bom Jesus do Itabapoana: Instituto Federal Fluminense, 2016.

FREITAS, D. et al. Uma abordagem interdisciplinar da Botânica no Ensino Médio. São Paulo: Moderna, 2012.

KRASILCHIC, M. Prática de ensino de Biologia. 4ª ed. São Paulo: Edusp, 2019.

LEMOS, J. R. (Org.). Botânica na escola: enfoque no processo de ensino e aprendizagem. Curitiba: CRV, 2016.

MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Fundamentos de metodologia científica. 7ª ed. São Paulo: Atlas, 2010.

MATOS, Gilda Maria Amarante et al. Recursos didáticos para o ensino de Botânica: uma avaliação das produções de estudantes em universidade sergipana. Holos, v. 5, p. 213-230, out. 2015. Disponível em: http://www2.ifrn.edu.br/ojs/index.php/HOLOS/article/view/1724/1157. Acesso em: 11 ago. 2019.

MOUL, Renato Araújo Torres de Melo; SILVA, Flávia Carolina Lins da. A Construção de conceitos em Botânica a partir de uma sequência didática interativa: proposições para o ensino de Ciências. Revista Exitus, Santarém, v. 7, n° 2, p. 262-282, maio/ago. 2017.

SILVA, N. R. R.; ALBUQUERQUE, I. C. S.; OLIVEIRA, L. T. Jardim didático como ferramenta educacional para aulas de Botânica no IFRN. Holos, v. 4, p. 242-249, set. 2012. Disponível em http://www2.ifrn.edu.br/ojs/index.php/holos/article/view/539/585. Acesso em: 11 ago. 2019.

Publicado em 17 de maio de 2022

Como citar este artigo (ABNT)

RAGGI, Carla Regina Oliveira; CARVALHO, Adelson Siqueira. Atividade experimental no ensino e aprendizagem de Botânica: relato de experiência no Curso Técnico Integrado em Meio Ambiente. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 22, nº 18, 17 de maio de 2022. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/22/18/atividade-experimental-no-ensino-e-aprendizagem-de-botanica-relato-de-experiencia-no-curso-tecnico-integrado-em-meio-ambiente

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