A formação docente e a agressividade infantil

Maria Saúde da Silva Oliveira

Graduanda em Pedagogia (UFAL – Câmpus do Sertão)

Adriana Deodato Costa

Docente na UFAL – Câmpus do Sertão

Esta pesquisa tem como tema a formação docente e a agressividade infantil; foi motivada por uma leitura feita na disciplina Fundamentos Psicopedagógicos da Educação. O texto tratava da avaliação da agressividade na família e numa escola de Ensino Fundamental. Na disciplina houve a curiosidade de saber e pesquisar sobre a agressividade em crianças que estão na Educação Infantil. Posteriormente, durante o curso, o assunto não foi mais discutido, e essa ausência de conhecimento e da metodologia a ser usada para lidar com essas crianças afetou a prática no estágio supervisionado obrigatório na Educação Infantil, pois, numa discussão sobre as experiências no estágio, foi apontado por vários estagiários como problema em comum a agressividade das crianças. Percebeu-se a dificuldade dos estagiários, assim como dos professores que já estavam atuando em sala de aula, em lidar com essa agressividade.

As discussões e reflexões apresentadas aqui se deram por meio de pesquisa bibliográfica a partir da qual nos apoiamos em fundamentos teóricos relevantes para a questão abordada. Buscando desenvolver este texto, chegamos, assim, aos seguintes questionamentos: de que forma se expressa o comportamento agressivo nas crianças na Educação Infantil? Como os professores lidam com essas condutas?

A partir dessas indagações, objetivamos compreender as metodologias e a forma como os professores lidam com a agressividade da criança, chegando, com isso, à importância de pensar uma formação docente de qualidade.

De acordo com López (2004), a agressividade acontece entre pessoas que desempenham papéis diferentes, entre agressor e vítima.

Geralmente, são papéis que perduram no tempo e que tendem a produzir uma forma de relação em que o agressor se comporta como dominador, recorrendo a uma ou a várias formas de agressão (insultos, ameaça, mentira de mau gosto ou violência física) para submeter sua vítima. Muitas vezes, não se constatam outras motivações que não seja o afã de dominar, de chamar a atenção, de desfrutar da própria conduta de hostilidade e da resposta de submissão (López, 2004, p. 124).

No exemplo dado na citação, é mostrado o perfil dos chamados valentões. Na educação podem existir crianças com esse tipo de perfil, por isso a importância de serem trabalhadas em sala de aula a interatividade social e as variadas formas de resolver os conflitos, sem deixar passar despercebida a forma comportamental da criança.

Para que isso seja possível, deve-se analisar o contexto da situação conflituosa, na tentativa de descobrir o que a criança que é agressiva está passando dentro e fora da escola. Nesse sentido, a relação entre escola e família se mostra muito importante, pois auxilia a encontrar a melhor forma de ajudar a criança que está precisando de apoio, uma vez que “a agressividade só deve ser tratada como um desvio de conduta quando ela aparecer por um longo período de tempo e, também, se não houver fatos transitórios que possam causar comportamentos agressivos” (Pietro; Jaeger, 2008, p. 232).

O professor precisa ter visão ampla ao lidar com a criança agressiva, procurando analisar o porquê de tal comportamento, sempre observando se tal atitude foi intencional. Portanto, é de grande importância que em sala de aula sejam sempre realizadas atividades que possam ter a interação das crianças, no intuito de desenvolver boa convivência entre elas, para que saibam lidar com as diferenças, tenham controle emocional e, assim, não causem danos psicológicos umas às outras.

As condutas agressivas são um dos problemas sociais mais preocupantes, principalmente no âmbito escolar, entre os alunos. É necessária uma metodologia adequada às análises pretendidas, para que, na hora de resolver o problema, não haja conflito de superioridade diante da criança, levando a ridicularizá-la. Esse modo de agir pode abolir de vez toda a violência gratuita que acaba deixando marcas em ambas as partes: tanto no agressor, que poderá ter problemas sociais, quanto na vítima, que terá o seu psicológico afetado, podendo levar as impressões negativas da violência sofrida para toda a vida. 

É essa complexidade que o professor precisa entender quando a agressividade está prejudicando a vida social da criança, uma vez que “o universo conceitual da agressividade é amplo e vasto, possui contribuições de diversas concepções teóricas […]. Todavia, essa diversidade levanta uma questão: considerando a agressividade como algo inato, será possível prevenir esses comportamentos?” (Pietro; Jaeger, 2008, p. 234). Algumas respostas estão no próprio desenvolvimento da criança, que deve se dar de forma completa para uma melhor aprendizagem.

A agressividade infantil

Buscamos apresentar, a princípio, o conceito de agressividade em Wallon e Piaget. Partimos da premissa de que esse conceito é muito vasto e tem formas diferentes, a depender do olhar teórico que busca sua explicação.

Iniciemos pelo conceito mais simples exposto em um dicionário da língua portuguesa: agressividade é definida como “característica de quem é agressivo, violento; violência” (Scottini, 2009, p. 48). A agressão, assim, é um comportamento cujo objetivo é causar o mal a outros seres ou a um objeto.

Continuando nossa discussão, podemos encontrar uma relação entre a Psicologia e a Educação. A Psicologia, com os seus estudos, observações e experimentos, causou grande impacto na Educação, dando-lhe valiosas contribuições pelo estudo do conhecimento, do comportamento e o do desenvolvimento da criança.

Temos Henri Wallon e Jean Piaget entre alguns autores que trataram do desenvolvimento da criança. As pesquisas de Jean Piaget falam sobre o mecanismo mental da criança, enquanto as de Wallon tratam da afetividade no desenvolvimento dela. Esses dois estudiosos “concordes quanto à utilidade da análise genética para a compreensão dos processos psíquicos, utilizavam-na para projetos teóricos distintos: Wallon pretendia realizar uma psicogênese da pessoa; e Piaget, uma psicogênese da inteligência” (Galvão, 2010, p. 35).

Piaget, pelas observações com seus filhos e outras crianças, desenvolveu a Teoria dos Estágios de Desenvolvimento, que são: estágio de inteligência sensório-motora, estágio pré-operatório, operatório concreto e operatório formal ou abstrato. Todos esses estágios ajudam a compreender o desenvolvimento da criança.

Piaget afirma que a inteligência trará o equilíbrio do comportamento, como uma evolução, na qual é preciso observar o desenvolvimento em qualquer fase.

Ao lado das funções – constantes –, é preciso distinguir as estruturas variáveis, e é precisamente a análise dessas estruturas progressivas ou formas sucessivas de equilíbrio que marca as diferenças ou oposições de um nível da conduta para o outro, desde os comportamentos elementares do lactante até à adolescência (Piaget, 2011, p. 5).

Assim como o desenvolvimento cognitivo da criança é progressivo, o comportamento da criança também é, e deve ser analisado e trabalhado de forma que possa ter mais equilíbrio. “Na realidade, a tendência mais profunda de toda atividade humana é a marcha para o equilíbrio. E a razão – que exprime as formas superiores desse equilíbrio – reúne nela a inteligência e a afetividade” (Piaget, 2011, p. 63). Nesse sentido, quanto mais a pessoa tem equilíbrio e razão, mais fácil é ter convívio afetuoso em sociedade.

Em relação ao convívio da criança com o seu ambiente, Piaget (2011, p. 32) diz que, desde que essa comunicação se torna possível,

um jogo sutil de simpatias e antipatias vai-se desenvolver, completando e diferenciando indefinidamente os sentimentos elementares já observados no decorrer do estágio precedente. Como regra geral, haverá simpatia em relação às pessoas que respondem aos interesses do sujeito e que o valorizam. A simpatia, então, de um lado supõe uma valorização mútua e, de outro, uma escala de valores comum que permita as trocas.

Como já dito, o equilíbrio emocional é evolutivo na inteligência, e a relação que as crianças podem desenvolver se dá pela sua forma de comunicação com o outro, de modo que ela pode desenvolver a simpatia ou não, dependendo da forma de valorização do outro. Até mesmo o cuidado que se tem com a criança deve ser levado em consideração, além da “proximidade das emoções com o sistema fisiológico das atitudes ou posturas; os primeiros medos, por exemplo, podem estar ligados à perda de equilíbrio ou bruscos contrastes entre um acontecimento fortuito e a atitude anterior” (Piaget, 2011, p. 14). A criança tem, assim, os primeiros sentimentos, que estarão de acordo com a troca de experiência e a forma de convivência entre ela e o seu ambiente, no qual pode desenvolver a simpatia, por meio dos reflexos afetivos.

Podemos entender que, para Piaget, nesses estágios a criança vai estruturar sua visão de mundo com base nas adaptações, acomodações e modificações às quais estiver exposta. Em outras palavras, a formação da criança se dará através da absorção e até do reflexo do meio ao qual a criança é exposta.

Wallon divide o desenvolvimento em cinco etapas: Estágio 1 – Impulsivo e emocional; Estágio 2 – Sensório-motor e projetivo; Estágio 3 – Personalismo; Estágio 4 – Categorial; e Estágio 5 – Adolescência. Ao longo desse processo, a afetividade e a inteligência se alternam. Para Wallon, “a passagem de um estágio a outro não é uma simples ampliação, mas uma reformulação. Com frequência, instala-se, nos momentos de passagem, uma crise que pode afetar visivelmente a conduta da criança” (Galvão, 2010, p. 41).

Segundo a perspectiva walloniana, o desenvolvimento infantil é um processo pontuado por conflitos que vai no desencontro entre o meio ambiente, os pais ou adultos e a cultura, desorganizando e influenciando a forma de conduta da criança. Segundo Wallon (2007, p. 29),

para quem, pelo contrário, não separa arbitrariamente o comportamento e as condições de existência próprias de cada época do desenvolvimento, cada fase é um sistema de relações entre as capacidades da criança e do meio que faz com que eles se especifiquem reciprocamente. O meio não pode ser o mesmo em todas as idades. Ele é feito de tudo o que favorece os procedimentos de que a criança dispõe para obter a satisfação de suas necessidades. Mas, por isso mesmo, é o conjunto de estímulos sobre os quais se exerce e se regula sua atividade. Cada etapa é a um só tempo um momento da evolução mental e um tipo de comportamento.

Nesse sentido, um conjunto de fatores pode fazer com que o desenvolvimento da criança seja influenciado pelo comportamento, pois “a determinação recíproca que se estabelece entre as condutas da criança e os recursos de seu meio imprime um caráter de extrema relatividade ao processo de desenvolvimento” (Galvão, 2010, p. 40). Nesse processo, as motivações fazem com que a criança tenha impulsos que variam de acordo com o grau de evolução no qual ela se encontra. Wallon (2007, p. 137) comenta:

Na criança, só entram em jogo simples ejaculações motoras e vocais ou reações parecidas com os gestos espontâneos de agressão, de predação alimentar ou outros, de defesa. Em todos os casos, a ocasião é insignificante. Os impulsos são como o efeito de uma autoativação, de uma incontinência, de um escape dos controles habituais da conduta. Esses controles ainda são débeis e inorganizados na criança, podem ser desorganizados no adulto devido a vicissitudes íntimas ou fisiológicas. O vendaval passa sem deixar mais motivos para a atividade subsequente do que os que a atividade anterior lhe fornecia.

A criança percebe que a reprodução é possível por meio da motivação, que o impulsiona à imitação que normalmente vem do adulto, a partir da qual a criança vai reproduzir da sua forma, porque “o conjunto afetividade oferece as funções responsáveis pelas emoções, pelos sentimentos e pela paixão. Afetividade refere-se à capacidade de o ser humano ser afetado pelo mundo interno e externo, por sensações ligadas a tonalidades agradáveis e desagradáveis” (Almeida; Mahoney, 2011, p. 111). Assim, há constantemente jogos de tensões no processo de desenvolvimento, em uma linha contínua que nem sempre é reta, mas com várias curvas.

A Teoria Social-Cognitiva de Bandura aborda o comportamento humano, mencionando que existe um conjunto de fatores que o explicam.

O comportamento humano é explicado pela interação entre os fatores pessoais do indivíduo (como crenças, expectativas, atitudes, conhecimentos), o comportamento (como atos, escolhas, declarações verbais) e o ambiente (físico e social). Nota-se, portanto, que o funcionamento humano está enraizado no sistema social de forma que a agência pessoal opera dentro de uma complexa rede de influências socioestruturais (Bandura, 2008, apud Azzi; Polydoro, 2011, p. 181).

O comportamento agressivo sempre foi objeto de estudo e até os dias atuais nos leva à curiosidade de saber como e por que tais formas de comportamento agressivo se dão. Além disso, qual a causa de alguns demonstrarem mais controle, enquanto outros vivem tendo surtos e não conseguem conviver em sociedade? São questionamentos que nos fazem refletir de melhor forma sobre o comportamento violento para que ele seja controlado e, desse modo, não cause tantos danos à sociedade. Bandura (1973), um dos mais importantes teóricos do comportamento agressivo na Psicologia atual, considera que uma das maiores limitações dessa definição é pressupor que a agressão serve apenas à finalidade de infligir dano (Biaggio, 2011, p. 179). A partir dessa perspectiva, entende-se que o comportamento agressivo é definido pelos julgamentos sociais, responsáveis por dizer se tal conduta se expressa de forma não aceitável ou se o comportamento é preciso e socialmente aprovado.

A agressividade não é concebida como algo ruim, uma vez que constitui força necessária aos processos adaptativos do ser humano. Para Winnicott (1982; 2005), a agressividade faz parte da essência humana e é elemento fundamental no decorrer do processo evolutivo. É importante no desenvolvimento quando convertida em fonte de energia para realizar trabalhos como arte, brincadeira, estudo etc., resultando em habilidades e características indispensáveis ao desenvolvimento emocional, ao bem-estar psíquico e às relações interpessoais. A agressividade é prejudicial apenas quando não bem é administrada pelo indivíduo ao longo de seu desenvolvimento emocional, podendo gerar dificuldades em suas relações interpessoais.

Agressividade infantil no contexto familiar e escolar

Vivemos em uma época em que a agressão passa a ser mais vista no nosso cotidiano nas redes de comunicação, como televisão e internet, e as crianças, como nativas das tecnologias, ao verem cenas de violência, tendem a vê-las como algo normal. Da mesma forma, por serem crianças pequenas, muitas vezes imitam as cenas agressivas, já que a imitação faz parte do desenvolvimento da criança.

Entre vários fatores que podem levar a criança a atitudes agressivas estão os problemas sociais e familiares. Ângela Biaggio diz que “é de importância crucial para a própria sobrevivência da espécie humana que se compreendam os mecanismos pelos quais a agressão é adquirida e mantida, para que possa controlá-la” (Biaggio, 2011, p. 179). Nesse sentido, o professor precisa ter uma visão ampla ao lidar com a criança agressiva, procurando analisar o porquê de tal comportamento, sempre observando o contexto em torno do qual se dá o comportamento agressivo. Bee (2003, p. 374) afirma:

As crianças, na realidade, compartilham situações ou segredos com os amigos, apoiam-nos e apresentam comportamentos afetuosos e prestativos umas com as outras, mas também ridicularizam, brigam, gritam, criticam e discutem a respeito de objetos e territórios. Os pesquisadores que estudam o lado mais negativo das interações infantis observaram principalmente a agressão, a qual podemos definir como um comportamento com a intenção aparente de atacar alguma outra pessoa ou algum outro objeto.

Visto que a agressividade é muito comum nas crianças, até porque elas estão aprendendo a lidar com as suas emoções, “essas crianças, ao sentirem a ausência e a necessidade de suas bases estruturais, apresentarão comportamentos em desacordo com os aceitáveis socialmente para, de algum modo, conseguirem à sua maneira a satisfação às suas necessidades” (Santos, 2008, p. 8). Aliás, “práticas parentais inadequadas, caracterizadas por disciplina ineficiente, negligência, ausência de atenção e afeto, disciplina relaxada, punição inconsistente [são tidas] como prejudiciais ao desenvolvimento infantil, podendo desencadear comportamentos agressivos” (Pesce, 2009, p. 516).

A criança tem a família como seu primeiro modelo de comportamento e contexto de aprendizagem. Quando começa a ir à escola, essa criança já leva suas experiências vividas, que podem se refletir na forma como ela adquire os conhecimentos e se relaciona com os outros. É muito significativo que a família, junto com a escola, procure a melhor forma de trabalhar o desenvolvimento da criança. Ressaltamos, portanto, a importância de um trabalho em conjunto entre pais e escola, pois os acontecimentos do ambiente familiar se refletem no escolar e vice-versa. Segundo Doná e Wiezzel (2019, p. 159),

a agressividade pode se tornar um reflexo de conflitos que ocorrem no lar das crianças e são angustiantes ou insuportáveis demais para elas superarem sozinhas. Assim, a família precisa auxiliar a criança a gerenciar seus impulsos agressivos, seja oferecendo um apoio, orientações, limites claros e/ou afeto. A escola reforça, em parceria, o trabalho iniciado pela família.

Quando a criança tem o apoio da família em conjunto com a escola, pode ter melhor desenvolvimento, já que “a quantidade e/ou qualidade de eventos de vida negativos provenientes da família vêm sendo apontadas como particularmente prejudiciais ao desenvolvimento da criança e fator condicionante para problemas de comportamento na infância” (Pesce, 2009, p. 508). Esses eventos negativos vividos pelas crianças também podem trazer, como consequência, agravamento ao seu convívio social.

A criança, como todo ser humano, é um sujeito social e histórico e faz parte de uma organização familiar que está inserida em uma sociedade, com determinada cultura, em determinado momento histórico. É profundamente marcada pelo meio social em que se desenvolve, mas também o marca. A criança tem na família, biológica ou não, um ponto de referência fundamental, apesar da multiplicidade de interações sociais que estabelece com outras instituições sócias (Brasil, 1998, p. 21).

Assim como foi expresso no documento elaborado pelo Ministério da Educação em 1998, ratificamos a importância da criança diante da sociedade e da família como sua referência fundamental, criança que, com suas pluralidades, em um mundo pouco conhecido, interage com ele e faz progredir o seu desenvolvimento. Portanto, a família e a escola fazem parte do seu crescimento e da convivência social.

A criança vê a família como o seu primeiro modelo, exercendo importante influência no seu comportamento. Se o ambiente familiar for violento, é muito provável que a criança aprenda com esses tipos de ações. Consequentemente, tal comportamento poderá refletir-se na escola ou em qualquer outro ambiente de interação, o que pode prejudicar a sua convivência social. Desse modo, “o acolhimento parece um bom caminho para se chegar às crianças agressivas, a fim de entender o que elas demandam à família ou à escola, mas que lhe é particular e tem relação com todos que a cercam” (Pietro; Jaeger, 2008, p. 1).

Para isso, tanto a família quanto os professores, ao dialogar, precisam ter clareza e coerência em sua postura na educação, assim como limites. Une-se a isso o entendimento de que a criança está em processo de desenvolvimento e aprendizagem e que a agressividade faz parte dessa maturação. Mas a intervenção é necessária quando a agressividade é excessiva e prejudicial à criança ou a outrem.

Compreender a singularidade da criança e o fato de que ela vive em sociedade, absorvendo e expressando múltiplas coisas, é um caminho para que consigamos ver com mais sensibilidade cada criança no seu contexto familiar, que é refletido diretamente na escola.

Agressividade infantil e formação docente: como o professor sofre

Há necessidade de contato afetivo entre as pessoas, assim como empatia com o outro. O educador pode ter a veracidade dos fatos que estão provocando a agressividade na criança a partir do entendimento da diferença entre todos, dando significância para cada um que está no ambiente escolar e conhecendo de fato o contexto histórico social daquela criança.

Para entender a agressividade infantil é preciso entender a subjetividade do indivíduo inserido na sua problemática. Isso significa considerar o contexto histórico-social de forma individual, única. É preciso que sejam avaliados aspectos da criança e da família, tais como idade, sexo, estrutura familiar, condição socioeconômica, ano escolar, os aspectos do comportamento agressivo e outros (Santos, 2008, p. 5).

Quando o professor compreende a real situação que originou o problema, fica mais fácil lidar com as situações do cotidiano e entender que na sala de aula existem crianças das mais diversas realidades. Crianças que, muitas vezes, ao entrar em uma escola, não entendem sobre regras, sobre ter uma rotina e que podem ter uma reação mais agressiva quando tais princípios são colocados em prática na sala de aula, ainda mais se essas crianças estiverem inseridas em ambientes familiares que sejam instáveis ou não tenham muitos limites.

De acordo com Fernandes (2014, p. 8), “muitas crianças reagem bem a essas mudanças, outras não, inclusive apresentando comportamentos agressivos”. Quanto mais tarde são propostos limites, regras e rotina, mais resistência e dificuldade a criança apresentará.

Ao oferecer um ambiente relativamente estável, com regras claras, a escola configura um espaço de confiabilidade, constância e segurança, muitas vezes ausente da história de vida de algumas crianças. Assim, elas depositam suas necessidades de atenção, afeto e firmeza nos educadores, esperançosas de contar com parâmetros e limites que, geralmente, não foram estabelecidos pela família (Souza, 2008, p. 844).

Muitas vezes a criança encontra refúgio na escola, que pode até mesmo se apresentar como o único ambiente que vai educá-la para viver melhor socialmente, inclusive preenchendo a lacuna que foi deixada pela família, trazendo mais segurança e confiança. Nessa mesma linha, também pode surgir a negatividade da agressividade; se a estabilidade para viver socialmente não for alcançada, talvez a razão seja porque “a questão da agressividade se revela tema de complexa compreensão em sala de aula e traz muitos desafios aos docentes, diante dos prejuízos humanos e materiais que pode causar” (Doná; Wiezzel, 2019, p. 159). Esses prejuízos estão ligados diretamente à aprendizagem da criança, assim como ao desgaste dos professores na sala de aula.

Como a quantidade de crianças que demonstram comportamento agressivo excessivo tem se tornado cada vez mais expressivo na escola, é possível constatar vários mitos a respeito do fenômeno agressividade por parte dos professores, que, ao tentar compreender a situação, acabam criando distorções conceituais e preconceitos, por falta de preparo. Não obstante, os mesmos professores manifestam preocupação e angústia diante das crianças tidas como agressivas, em parte porque eles se desestabilizam emocionalmente frente a elas e porque se sentem incomodados por não conseguir auxiliá-las, reconhecendo que as técnicas que utilizam não surtem o efeito que gostariam. Surgem o cansaço, o esgotamento físico e mental, as dores de cabeça, o abatimento, o que pode levá-los à desistência das crianças (Ferreira; Wiezzel, 2015, p. 2).

O trabalho com essas crianças se configura como um grande desafio aos professores, já que eles, muitas vezes, não possuem conhecimento suficiente sobre a problemática em seus cursos de formação, de modo que não compreendem e não sabem lidar com as situações de agressividade. Esse não saber lidar com situações pode lhes causar sofrimento físico e mental. Assim, esses profissionais ficam desestabilizados emocionalmente frente às crianças consideradas agressivas e podem sofrer angústia por não conseguir ou se sentir incapazes de ajudar essas crianças quando a forma como agem não surte o efeito que gostariam. Todo esse desgaste pode levá-los a desistir da criança.

Em alguns estudos, “são notadas queixas dos colegas da sala de aula acerca da agressividade recorrente, resultando, muitas vezes, na exclusão social de crianças que assim se comportam, o que só agrava a sua condição emocional” (Doná; Wiezzel, 2019, p. 150). Além disso, essa exclusão afeta também o desenvolvimento da aprendizagem da criança e a sua sociabilidade. Como enfatizam Joly, Dias e Marini (2009, p. 84),

o comportamento agressivo exerce influência direta sobre o desenvolvimento pessoal e a vida em grupo. Os anos iniciais da vida de uma criança são de fundamental importância para o desenvolvimento de sua personalidade, relações sociais e adaptação social e psicológica durante o ciclo vital.

A seriedade dedicada ao processo de desenvolvimento de uma criança em sala de aula, com todas as complexidades inerentes ao início da vida e à integração social, é imprescindível. A compreensão pode fazer toda a diferença no processo de ensino-aprendizagem e na relação entre aluno e professor, podendo entusiasmar ambas as partes. Quando a aprendizagem não flui como a das demais crianças, podem surgir problemas emocionais.

Durante o processo de construção de conhecimento em um sistema formal de ensino, a criança pode vivenciar o peso social do fracasso escolar. Em consequência, crianças com dificuldades para aprender podem desenvolver problemas emocionais, tornar-se frustradas, desistir de aprender ou desenvolver estratégias para evitar essa situação (Sisto; Fernandes, 2004, p. 75).

Esse fracasso escolar causa grandes problemas à aprendizagem e desinteresse crescente em aprender. Também pode acontecer o isolamento ou perturbação na sala de aula. É preocupante a angústia do professor que, durante a sua formação, não teve as devidas orientações para passar por toda essa complexidade que constitui a agressividade infantil, pois, como vimos em nossas reflexões, a agressividade não é um fato isolado, ela faz parte do processo de desenvolvimento social da criança. Saber lidar com esse comportamento violento e conhecer o assunto é a melhor forma de compreender e poder atuar na sala de aula sem receio e sem prejudicar a saúde mental e física. O desgaste emocional e físico do professor é minimizado pelo conhecimento, que se mostra uma ferramenta fundamental para a adequada atuação docente.

Saber trabalhar com as crianças que também sofrem com a consequência emocional que atinge a aprendizagem é a melhor forma para a relação professor-aluno e o mundo, ensinando as crianças a ter mais respeito e empatia em grupo.

O conhecimento e a metodologia fazem toda a diferença em uma sala de aula, uma vez que propiciam o bom rendimento da criança, assim como desenvolvimento agradável da aula para o professor. Em tal contexto, se tornam nulas as chances de que aconteça a desistência de qualquer uma das partes, pois daí procede uma educação mais humanitária, que leva ao desenvolvimento de uma sociedade em que todos cuidem uns dos outros.

Considerações finais

É muito importante que o professor possua todo o suporte para lidar com a agressividade, tendo, desde a sua formação, a compreensão da agressividade em crianças, o que pode evitar problemas futuros tanto para o aluno quanto para o docente.

Portanto, é urgente a necessidade da implantação de políticas públicas que garantam um espaço escolar seguro e que possibilite aos docentes uma preparação adequada para atuar de modo a minimizar o comportamento agressivo em salas de aula, para que a agressividade na escola não chegue a se consolidar com a violência, tornando-se um problema insolúvel (Marques, 2015, p. 7).

Dessa maneira, a prevenção sempre vai ser a melhor forma de controle emocional e deve ser iniciada na Educação Infantil. Em seu Art. 29, a LDBEN de 1996 conceitua a Educação Infantil como a primeira etapa da Educação Básica e explica que ela tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até os cinco anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico e social, complementando a ação da família e da comunidade. Para que a criança tenha desenvolvimento integral, é importante aprender a conviver com o outro, e o apoio da família é muito significativo nessa fase da vida.

Lidar com a agressividade “não é uma tarefa fácil para os educadores, principalmente pelas nuances que ela apresenta; por exemplo, há crianças que explicitamente manifestam agressividade; outras, de forma retraída e silenciosa, porém com as mesmas consequências” (Fernandes, 2014, p. 13). Saber identificar a agressividade é muito difícil pela complexidade com que ela se apresenta, sobretudo quando o professor não tem conhecimento para lidar com ela. Por isso, fica bem clara a necessidade de intervenções para o professor, assim como de rodas de conversa, palestras e até mesmo formação continuada para que o docente possa aprofundar o seu conhecimento sobre o tema, evitando problemas emocionais e físicos. Frisamos também a importância de uma formação humanizada na escola, para que os alunos possam se envolver e entender melhor a comunidade em que vivem, tornando-se mais reflexivos diante das realidades de outras pessoas, uma formação que produza sensibilidade acerca dos problemas humanos e que esteja pautada na resolução dos conflitos de forma positiva, para que tenhamos um crescimento mais afetivo.

A educação e o afeto são uma coluna primordial para o bom relacionamento entre professor e aluno. Essa aproximação ajuda a melhorar o desenvolvimento da criança, respeitando a sua vivência e a sua maneira de ser e de aprender. Ambicionando isso, o professor deve propor mais ludicidade em suas aulas, com projetos de intervenção, objetivando o trabalho em grupo. Trazer o afeto para a sala de aula é sinônimo de acolhimento àquelas crianças que já estão sofrendo por não saberem lidar com as próprias emoções.

Diante disso, propostas para lidar com a agressividade infantil teriam que estar presentes desde a formação docente, de modo a ajudar o professor a lidar com esse tipo de comportamento e amenizar situações desconfortáveis na sala de aula. Dessa forma, poderia proporcionar o desenvolvimento integral dos alunos e investir em suas potencialidades, para que crescessem mais críticos e flexíveis, tornando-se humanos no sentido mais positivo do termo, respeitando uns aos outros para a construção de uma sociedade mais equilibrada e com mais empatia.

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Publicado em 07 de junho de 2022

Como citar este artigo (ABNT)

OLIVEIRA, Maria Saúde da Silva; COSTA, Adriana Deodato. A formação docente e a agressividade infantil. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 22, nº 21, 7 de junho de 2022. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/22/21/a-formacao-docente-e-a-agressividade-infantil

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